Censuricidio1Lápis_censura

 
Um texto de Daniel Ricardo (*)

 
Este é o quinto e último post de uma série intitulada «Censuricídio», onde será divulgada a versão integral, por vezes mais completa, de textos publicados na VISÃO História, n.º 2 e na VISÃO de 23/4/2008. Se clicar no ícone «Censuricídio», acederá ao texto anterior.

Textos, fotos, anúncios, até o boletim meteorológico – com raras excepções, todo o conteúdo dos jornais tinha de ser submetido ao exame dos censores, antes da publicação. Os «paquetes» das empresas jornalísticas andavam todo o santo dia numa roda viva, a correr entre as redacções e a sede da Censura, que, em Lisboa, se situava num prédio de gaveto da Rua da Misericórdia, ironicamente defronte do oposicionista República, onde deixavam uma prova de granel de cada peça e recolhiam as já censuradas.Quanto às agências de notícias – a Reuter, a France Press e a portuguesa ANI – recebiam por telex a indicação das intervenções dos censores e por telex as remetiam para os periódicos seus clientes: «No telegrama n.º X, cortar o parágrafo tal…»Além da Direcção-Geral, a estrutura dos Serviços de Censura incluía três comissões, uma na capital e as outras no Porto e em Coimbra, bem como 18 delegações, instaladas nas capitais de distrito e em Guimarães. 

Em Lisboa e no Porto, os censores, quase todos militares reformados ou na reserva, estavam organizados em dois grupos, o diurno e o nocturno, que funcionavam, respectivamente, das 9 às 20 horas e das 21 e 30 até ao fecho das edições dos matutinos, sob a orientação de chefes e subchefes. Mas não se limitavam a riscar as provas de granel com os seus lápis azuis e canetas Bic. Frequentemente, contactavam por telefone com os directores ou com os chefes de Redacção dos jornais para lhes darem instruções as quais, no caso do Jornal de Notícias, eram sempre registadas, o que permitiu a César Príncipe publicá-las em Os Segredos da Censura. Escolhemos ao acaso, as seguintes, transmitidas em épocas diferentes:«13/3/67 Eleições em França. Eliminar qualquer relevo aos comunistas. Tenente Teixeira.»«17/4/67 Julgamento de abate de burros, no Tribunal de Géneros Alimentícios. Não pode ser publicada qualquer referência aos meios coercivos para obter confissões. Coronel Saraiva.»23/9/68 Declaração do Dr. Marcelo Caetano aos jornalistas – cortar. Coronel Roma Torres.»«24/1/69 Conferência sobre Máximo Gorki, na Associação de Alunos da Faculdade de Direito de Lisboa – cortar. Dr. Ornelas.»«4/2/69 Reuter. Fala na utilização da pílula [contraceptiva]. Não falar da pílula no título. Coronel Saraiva.»«21/6/69 Final da Taça de Portugal (Benfica- Académica). Não falar em ‘luto académico’. Tenente Teixeira.»«17/9/69 Desfalque no Banco Totta Aliança – cortar. Tenente Teixeira.»«12/1/70 Na posse do 2.º comandante da PSP de Lisboa, disse-se que ele já fez três comissões de serviço no Ultramar, a primeira ‘logo na eclosão da guerra’. Ora, não há guerra. Não se pode dizer isso. Deve ter sido confusão do repórter. Coronel Saraiva.»«15/2/70 Não dizer em título que um lorde inglês procurado pelas autoridades fora condecorado pelo general Franco. Coronel Saraiva.»«12/5/70 O ministro do Ultramar foi nomeado sócio honorário do grupo ‘Os Jaquins’ – cortar. Coronel Garcia da Silva.»«20/7/70 Uma funcionária da CP caiu à rua. Pode dizer-se que continua sem fala. Mas não se deve dizer que estava acompanhada por um senhor de Matosinhos. Desse ou de qualquer outro. Não interessa…» Tenente Teixeira.»«18/7/72 Os deputados da ‘ala liberal’ abstêm-se na eleição presidencial. Há um papel a dizer isso – cortar. Coronel Garcia da Silva.»«26/10/72 Foi proibida uma peça de teatro, adaptação de Correia Alves, do Arco de Sant’Ana, no TEP. Não dizer que foi proibida. Pode, no entanto, dizer-se que já não vai à cena. Capitão Correia de Barros.»«3/9/73 Comunicado do Episcopado de Moçambique sobre o alegado massacre – totalmente proibido. Coronel Roma Torres.»«29/3/74 Rede de traficantes de drogas desmantelada pela Judiciária – proibida. Dr..Ornelas.»24/4/74 (véspera da Revolução dos Cravos…) Telefonema anónimo avisa Banco Português do Atlântico da existência de fictícia bomba – proibido. Coronel Roma Torres.»

Era através de telefones de manivela que permitiam ligar directamente da sede da Censura para os gabinetes dos directores e chefes de Redacção dos jornais e destes para aquela que os censores transmitiam este tipo de indicações e que os jornalistas protestavam contra os cortes, quase sempre numa revoltada e indelicada linguagem;«Tem a certeza que sabe o que anda a fazer? Por que raio de motivo cortou o texto X?»A resposta, contudo, raramente variava: «Não tenho que lhe dar satisfações…»Mas, às vezes, davam: «Porque é que a notícia sobre o nevão na Bulgária foi cortada? Porque aos portugueses não interessa nada a temperatura que faz nesses países…»Outras vezes, punham condições para deixarem sair um texto acerca de um acontecimento cujo relato já passara, aliás, de boca em boca, porque se tratara de um facto público e notório: «A história do atentado contra o Quartel Mestre General tem de vir cá. Mas só poderá ser publicada se for acompanhada por uma nota de Redacção a condenar firmemente esse acto…» Ou então: «O título do texto sobre o atentado ao navio Cunene tem que ser reduzido para duas colunas e a notícia só pode sair numa página interior.»E também não era raro passarem recados, como este, dirigido pelo coronel Roma Torres ao Jornal de Notícias: «Pedido do secretário de Estado do Trabalho e Previdência: o pai do Dr. Silva Pinto faleceu hoje subitamente. Ele pede para não sair a notícia do falecimento; apenas sair a notícia da missa do 7.º dia.»Ou sugerirem a publicação de informações que julgavam importantes para o regime: «Então não mandam nada sobre a visita à Covilhã do almirante Américo Tomás?»

(*) Biografia de Daniel Ricardo

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