Crise Académica69 – Coimbra 28-maio

 
1. A participação das mulheres nos movimentos estudantis da década de sessenta, pontuados pelas crises de 61-62, 64-65 e 68-69, tem, como vem sendo assinalado, uma crescente expressão quer quantitativa, quer qualitativa. O que significa que a entrada em massa das mulheres no movimento associativo alterou profundamente as suas características. E, para tal, basta comparar os registos fotográficos das assembleias de estudantes de 62 com as de 69. O universo predominantemente masculino dos primeiros, contrasta com a esmagadora presença das mulheres nos segundos. Com uma naturalidade e espontaneidade surpreendentes, elas ocupam o seu lugar lado a lado com eles, numa cumplicidade impossível de imaginar poucos anos atrás. Caíram barreiras ancestrais, feitas de preconceito e hipocrisia e o espaço da luta era também o do amor e da amizade. 

Foram avanços gigantescos em poucos anos. E os mais optimistas garantem que nessa ilha de liberdade que foi a Coimbra de 69, se viveu por antecipação a verdadeira emancipação feminina.

É uma extrapolação frequente mas muito enganadora porque ignora as específicas condições da vida universitária da época, bem como os parâmetros que balizavam as metas políticas da nossa luta comum contra a ditadura. O combate, então, em plena ditadura, era por causas essenciais – liberdade de expressão e associação, autonomia da universidade, reforma e democratização do ensino – e neste combate estavam homens e mulheres que, na idêntica qualidade de estudantes, sentiam rigorosamente os mesmos problemas, e nesse campo cívico e político reivindicavam plena igualdade.

Com efeito, nas crises anteriores – de 62 e 64 – as mulheres lutavam por uma participação de baixa densidade, em tarefas auxiliares ou secundárias, contando-se pelos dedos das mãos as que integravam estruturas de responsabilidade (e pelos de uma só as que foram presas), aceitando o estatuto algo ambíguo de «companheira». Ou seja: parceira secundária numa secular tradição coimbrã fortemente marcada por comportamentos machistas.

Mas em 1969 elas estão por todo o lado. Foram um factor decisivo na transformação das tradicionais «vanguardas associativas» num enorme movimento de massas. Audaciosas, criativas, determinadas e práticas nas acções concretas: na luta pedagógica nas faculdades (no início do movimento), em todas as acções de rua, e noutras mais arriscadas e totalmente clandestinas (como tudo o que se relacionava com a informação), na organização de piquetes de greve, na confrontação com os «agentes da ordem» (GNR, PJ, PIDE), com os professores e com os furadores, na criação de uma gigantesca rede de solidariedade com os colegas em dificuldades económicas (por corte de mesadas familiares ou de bolsas) e, sobretudo, com os presos através da Secção Social da AAC. Consequência indesejável de tanta actividade foi a transferência de muitos colegas da PJ de Coimbra para Lisboa, segundo um dos agentes «porque estas gajas não nos deixam trabalhar»…

Foi um percurso imaginativo, criativo, surpreendente até, mas sempre marcado pelo paradigmático equilíbrio entre a consciência subjectiva de cada um (todos mais ou menos activistas) e o máximo de consciência possível de um colectivo com fortes reservas a questões fracturantes, como os temas da emancipação feminina ou da discriminação positiva da mulher.

O fantasma do amor livre, arma de verdadeiro terrorismo ideológico que os sectores ultra-conservadores do regime habilmente esgrimiam, acabava por atingir franjas que nos estavam muito próximas, e que eram imprescindíveis para a unidade e coesão do movimento. Não era ainda o tempo de lutar pela verdadeira emancipação da mulher, assumindo as clássicas questões do feminismo, como o direito às relações amorosas livres, à livre disposição do seu corpo, ao prazer, à contracepção, à informação sexual.

 
2. Para as mulheres progressistas dos anos 60, discriminação era sempre negativa. O nosso caminho estava a meio. Se a montante temos a recusa das tradicionais especificidades femininas como marca de uma sociedade castradora e repressiva (discriminação negativa), a jusante temos a assunção das diferenças que, em vez de anuladas, devem ser potenciadas num quadro de complementaridade individual e colectiva (discriminação positiva).

Mas naqueles anos, a luta era mais pela igualdade, uma vez que as diferenças apontavam inevitavelmente para a subalternidade. Éramos todos estudantes, com os mesmos direitos e deveres. Integrados numa sociedade profundamente conservadora, retrógrada e injusta, com uma população pobre e inculta, sentíamos a tremenda responsabilidade da nossa condição e a urgência do combate comum, em nome dos mais desfavorecidos.

Por isso, as crises dos anos 60, incluindo a de 69, não trouxeram a revolução sexual, pese embora alguns exemplos individuais pioneiros (agora matéria apetecida de algum jornalismo sensacionalista que chega a designar Coimbra como o Woodstock português!)

O tão cantado ou difamado amor livre não foi para nós anátema nem bandeira. Encarámo-lo com a normalidade e respeito que nos mereciam as opções de cada um, num clima de liberdade individual, causa e consequência dessa outra que, em colectivo, exigíamos. É que um dos traços mais fortes dessa liberdade passou necessariamente também pelo seu lado individual. Todos tivemos que escolher, justificar a nossa escolha e arcar com as responsabilidades. A começar pelo círculo mais restrito (e quase sempre o mais difícil) da família. Levantar o braço numa assembleia de 5 ou 6 mil, não é difícil. Justificar aos pais a razão por que se não vai fazer exame é outra coisa, bem diferente. E para a maioria de nós foi a entrada na idade adulta das opções que marcam uma vida.

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