« Au bord du grand lac paisible/ Je viens entendre souvent… » Cheguei ao Liceu Filipa de Lencastre por volta das duas da tarde, ouvindo ao longe estes versos mágicos, mas com a premonição de que as coisas não iriam correr bem. Era a festa do fim de ano – estavam famílias, as professoras e alguns convidados – e no meu coração havia três razões para um pesado nervosismo. Quase não conseguia controlá-lo. Sabia que o Mário Ivo tinha sido autorizado a assistir, eu ia cantar a solo o Le bonheur, e levava um vestido que me caíra do Céu, isto é, de Nova Yorque – herdado de uma prima minha que o usara na sua festa de fim do curso liceal. O cenário não podia ser mais romântico. «La voix d’un charme indicible…» O vestido!

O vestido, em organza, era muito rodado, com a saia armada, e ajustado na cintura por uma fita de seda azul que dava uma laçada. Tinha um ligeiro decote e não tinha mangas. Sobretudo isso: não tinha mangas. Entrei no átrio com a minha mãe, os meus irmãos pequenitos e duas amigas que iam assistir. O Mário Ivo estava lá, «…la voix d’un charme indicible / qui vient me parler doucement» exibia uma farda do exército e eu nunca o vira fardado, senão na fotografia que ele me tinha oferecido, na única vez em que conversáramos. (Uns meses antes, pelo Carnaval, dançámos e dançámos e dançámos numa festa, à tarde, em casa da Ilda. Depois, de tempos a tempos – já a fé dava indícios de começar a desaparecer-me – a Nossa Senhora ainda ouvia as minhas preces empenhadas, na Igreja S. João de Deus, e punha-mo no meu regresso a casa. A uns cem metros do liceu, que era a distância autorizada pela reitora para as esperas dos rapazes, ele atravessava a rua e vinha falar-me «L’écho de la voix amie / remplit à jamais mon coeur».)

Sentia-me bem naquele vestido: não tinha apenas dezasseis anos, estava mais mulher, mais bonita e moderna, como uma estrela de cinema. Reparei que ele me sorriu quando passei pela coxia do salão de festas, em direcção ao palco – eu a fazer de conta que não o procurava com o olhar, já a tremer, preparando-me para cantar. Recordava as palavras, entoando para dentro a canção que a minha estrela guia do Canto Coral, a querida Dona Sara, me tinha escolhido:

Au bord du grand lac paisible.
Je viens entendre souvent,
la voix, d’un charme indicible

Qui vient me parler doucement.
L’écho de la voix amie
Remplit à jamais mon coeur.

Foi então que acabou tudo. O pensamento parou-me de repente. Nem subi os degraus que levavam aos bastidores. «Como? Pode lá ser! Não! Por amor de Deus, não!» – atrás de uma porta, comecei por engolir as lágrimas, muda.
– A menina Pato segue i-me-di-a-ta-men-te para os balneários! Não canta! Não quero ouvir-lhe nem uma palavra! Para si, a festa acabou!
– O que é que eu fiz, senhora Dona Virgínia?
– Ainda se atreve a perguntar? Um vestido indecoroso, menina Pato! Decotado e sem mangas…Como foi capaz?
– Vou num instantinho a casa mudar…Queria tanto cantar!
– Rapidamente para os balneários, se não quer ser suspensa! Foi a segunda que fez, neste período, menina Pato! Lembra-se do que eu lhe disse quando a apanhei, no pátio, a correr mesmo em frente à imagem de Nossa Senhora? Avisei-a que da próxima seria suspensa! Duas graves faltas de respeito à Virgem Maria…
– Mas hoje não, por amor de Deus, senhora dona Virgínia!
– Não há mas, nem meio mas!
«Não posso acreditar que não canto! Eu matava esta mulher!» – dizia para mim própria, em soluços – agora em estado de raiva – a caminho do castigo.

Au bord du grand lac paisible.
Je viens entendre souvent…

A primeira vez que cantei o Le Bonheur em público acabou por ser na Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências, num «convívio», uns meses depois. Estava feliz: tinha acabado de entrar para o MUD Juvenil.