Censuricidio1Edifício da Censura em Lisboa
 
Um texto de Daniel Ricardo (*) 
 
Este é o quarto post de uma série intitulada «Censuricídio», onde será divulgada a versão integral, por vezes mais completa, de textos publicados na VISÃO História, n.º 2 e na VISÃO de 23/4/2008. Se clicar no ícone «Censuricídio», acederá ao texto anterior.
  
Basta passar uma vista de olhos pelas provas de granel dos textos dos jornalistas submetidos à Censura, para logo se concluir que havia termos, expressões e temas que atraíam, sistematicamente, os lápis azuis dos coronéis, embora, em alguns poucos casos, o corte dependesse do contexto em que eram usados. Foi assim, com base nessa rápida consulta e, também, na nossa própria experiência e nos livros Os Segredos da Censura, de César Príncipe, A Censura de Salazar e Marcelo Caetano, de Cândido de Figueiredo, A Censura e as Leis de Imprensa, de Alberto Arons de Carvalho, e O Livro Negro da Fascismo, que elaborámos a lista que se segue, uma espécie de Índex linguístico e temático, muito incompleto mas – esperamos nós – esclarecedor:
Guerra colonial, colónias, colonialismo, imperialismo, racismo, presos políticos, partido político (sobretudo, Partido Comunista Português), marxismo leninismo, revolução, progressista, amnistia, 1.º de Maio, luta de classes, clandestino, Intersindical, proletariado, estudantes e operários, contradições, democracia, liberdade, greve, manifestação, reivindicações, assembleia sindical, plenário estudantil, luto académico, associação de estudantes, emigrantes, cooperativas, crise, aumento de preços, fraude, corrupção, PIDE e DGS, poluição, suicídio, mendigo, bairro da lata, barracas, fome, miséria, aborto, homossexual, pederasta, nudismo, violação, pedófilo, infanticida, delinquente menor, tráfico de droga, estupefaciente, morte por overdose, prostituta, hippies, epidemia, cólera, febre amarela, tifo, tinha, relações sexuais e extra-conjugais e palavras «grosseiras» como «sacanice»…
Também não «passavam» na Censura, ou seja, eram cortadas as peças jornalísticas que fossem entendidas como veiculando críticas às políticas governamentais, contivessem o nome de algum artista «maldito» ou de um dirigente de qualquer partido ou movimento da oposição ou se referissem a actos de desrespeito por uma autoridade, fosse qual fosse, incluindo árbitros de futebol, a protestos contra regimes ocidentais autoritários, acções feministas, mortes na guerra colonial, apelos à reposição das liberdades, actuação dos Serviços de Censura, estatísticas sobre o custo de vida, despesas com armamento e movimentos de contestação no âmbito da Igreja.
Sabendo o que podiam e não podiam publicar, muitos jornalistas autocensuravam-se ou eram censurados pelos seus directores, chefes de redacção ou chefes de secção, para que a necessidade de substituir, nas páginas, os textos «autorizados com cortes» ou «cortados» (mais tarde «autorizados parcialmente» ou «proibidos») não atrasasse a chegada dos jornais aos pontos de venda. Ainda assim, alguns tentavam fazer passar mensagens informativas proibidas, recorrendo a um método que se tornou conhecido por «escrever nas entrelinhas». Tratava-se de sugerir em vez de afirmar, de metaforizar e até de encostar dois títulos, de modo a que as suas linhas, lidas em sequência, assumissem o significado que se pretendia.transmitir. Numa crónica aparentemente dedicada ao jogo Sporting-Porto (2-0), de 17 de Março de 1974, intitulada Quem travará os leões e publicada na edição do República do dia seguinte, o jornalista Eugénio Alves comentava, na verdade, o fracassado golpe militar protagonizado pelo Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha, à revelia do Movimento dos Capitães, na madrugada de 16 de Março daquele ano: «Os muitos nortenhos que no fim-de-semana avançaram até Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por retirar, desiludidos pela derrota. O adversário da capital, mais bem organizado e apetrechado (sobretudo bem informado da sua estratégia), contando ainda com uma assistência fiel, fez abortar os interesses dos homens do Norte. Mas, parafraseando o que em tempos disse um astuto comandante, perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra (…)» Este caso e o da aposição de grandes bolas pretas no canto superior esquerdo da 1.ª página do Expresso, onde deviam ter saído os editoriais proibidos pelo Exame Prévio, são exemplos dessa busca pelos jornalistas de uma cumplicidade com os leitores que os levasse a «ler» o não escrito. O problema é que se os censores não percebiam as mensagens «camufladas» – e, na dúvida, em geral, cortavam-nas – os leitores também não…
«Escrever assim é uma tortura», denunciou Ferreira de Castro, em 1945. «Porque o mal não está apenas no que a Censura proíbe mas também no receio do que ela pode proibir. Cada um de nós coloca, ao escrever, um censor imaginário sobre a mesa de trabalho – e essa invisível e incorpórea presença tira-nos toda a espontaneidade, corta-nos todo o élan, obriga-nos a mascarar o nosso pensamento, quando não a abandoná-lo, sempre com aquela obsessão: “Eles deixarão passar isto?”»
O escritor, que era redactor de O Século, terá abandonado o jornalismo por não suportar mais a situação que tão lapidarmente descreve.

A seguir: Os lápis azuis

(*) Biografia de Daniel Ricardo

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