Mário Dionísio

 
 
Um texto de Daniel Lacerda (*)

 
Terceira e última parte do texto. Primeira aqui e segunda aqui.
 
 
A contestação da outra crítica 

Sempre sob o controlo da censura e observação da polícia salazarista, que anotava cada nome que surgia em defesa do neo-realismo, os debates foram-se sucedendo. No início dos anos 60, é Vergílio Ferreira que se insurge com a apreciação que Pinheiro Torres fez a Rumor Branco de Almeida Faria, ex-aluno do autor de Aparição, romance que por sua vez, assinalou o voltar de costas de V. Ferreira ao neo-realismo e ao existencialismo abrindo uma via metafísica em que permaneceu. A sociedade portuguesa continuava bloqueada. O ruralismo preferido do plano de Salazar, impedira é certo uma verdadeira industrialização e a formação dum operariado massivo, mas nos campos e nas vilas definhava-se, as contradições sociais eram escaldantes. Os literatos sensíveis tinham nesse contraste uma fonte de inspiração insuperável. O refúgio em elucubrações psicológicas próprias da população urbana era uma opção flagrante, que não parecia corresponder à dinâmica da época. O realismo ocupava o vértice das preocupações e discussões porque seria ultrajante desviar os olhos do abismo que se acentuava. A escapada existencialista, formalista e metafísica correspondia, quando honesta, a uma atitude individual, no fundo, face ao embate com o poder, aparentemente, cómoda.
Os críticos e ensaístas neo-realistas possuíam essa plataforma social em que se apoiavam mas a estruturação da sua técnica de análise, a fundamentação dos conceitos estéticos que lhe davam corpo, era outro campo que os adversários sucessivamente exploravam. Apesar de tudo, a luta de ideias foi muito acesa, revelando que estava em jogo todo um conjunto de forças e de poderes. Se falássemos em luta de classe, era evidente que a dominante temia ser desalojada por outra que ganhava terreno.
Um comentador avisado como Fernando Guimarães (também poeta, com diversos prémios ganhos) pode-nos servir de exemplo do repúdio que mereceu a vários outros a opção neo-realista. F. Guimarães, com apreciada preocupação documental, procura uma explicação genética e temática às obras que assiduamente comenta, apreendendo-as numa reflexão filogenética que ultrapassa o comentário. Na obra Linguagem e Ideologia [12] publicada na fase caetanista, em 1972, inclui dois estudos onde debate a perspectiva da crítica neo-realista, mostrando-se conhecedor de textos fundadores, desde Marx e Engels a Mao Tsé-Tung, Lukacs e Lucien Goldman, nomes inaceitáveis pelos censores salazaristas. No entanto, F. Guimarães não se deixa seduzir pelos pressupostos dos clássicos marxistas que exprimiram pontos de vista gerais em matéria literária, nem pelos dois últimos que deixaram toda uma obra de teoria literária. Em Mao, na obra que cita e praticamente única que dedicou ao assunto (Discussões sobre Literatura e Arte), a sua intervenção enquanto líder político era simples, limitando-se fundamentalmente a recomendar aos homens de letras que a perspectiva mudara e que focassem o povo nas suas obras e esquecessem os mandarins.
F. Guimarães não se sente tocado pela proposta, embora ela possua um paralelismo evidente no caso português, que só por si ilustra a tese do grande timoneiro, mas que, evidentemente, não satisfaz a intelectualidade que banha nos mitos, legendas e símbolos de que a arte por tradição se apossou, e que preocupam prioritariamente este ensaísta. O preconceito seria tanto mais prevalecente quanto essa visão «aristocrática» impedia a compreensão duma concepção de cultura mais ampla, abrangendo a cultura popular e do pobre. A sua outra sensibilidade é apontada por Óscar Lopes, seu amigo e patrício da cidade invicta, no «Breve Contratexto» publicado na badana desse livro, dizendo aí o co-autor da História da Literatura Portuguesa [13]. «Acontece que para Fernando Guimarães, o realismo, como critério de valor literário, é uma redundância, desde que aceite definir-se a partir de e não absolutamente antes das obras; e que para mim a plenitude poética supõe a convicção de um real entre realizado e realizável (“canto porque és real”, diria Eugénio de Andrade). A partir deste ponto principiam a divergir a minha prática teorética e crítica realista e a prática teorética e crítica de Fernando Guimarães.»
Os excessos das directivas de Jdanov, do período totalitário estalinista, foram arremessados contra esses bravos lusitanos, tal como as vicissitudes das intensas pesquisas de Lukacs[14] – um intelectual à mercê do mesmo quadro político ditatorial – que irromperam cedo em Portugal, mau grado as grades censoras, inspirando diversos comentadores da vanguarda realista. Esses espúrios argumentos eram outras tantas armas de denegrimento, em que a fúria da polémica não permitia espaço para se aquilatar com bom censo do que verdadeiramente estava posto em causa. A exemplo da condenação anatemizadora da religião, bastava a indicação de adversário para o opróbrio dos nacionalistas começar a larvar.
Outra faceta consistia em propulsar outras obras e correntes literárias reduzindo os realistas à insignificância dum autor ou dois com alguma aceitação. Esta atitude ganhava outro lustro se viesse de alguma voz conceituada e universitária, meio que repeliu sempre a estética neo-realista, depois de apeada pelo poder político. A professora Maria de Lourdes Belchior, em certo momento, deixou os monges e bucólicos do século XVII, à volta dos quais elaborou os seus diplomas universitários, para se aproximar da contemporaneidade, numa série de palestras que posteriormente editou [15]. A sua simpatia recai nos presencistas, mas sobreleva acima de tudo autores aparecidos em torno de revistas de cariz católico, como Távola Redonda, Árvore, Cadernos do Meio Dia. Este era o cadinho privilegiado, protegido, mas, definitivamente, pouco expressivo, à parte alguns casos, como o do poeta Ruy Belo (1933-1978), cuja incomodidade acarretou trágico fim. Esta professora da Faculdade de Letras de Lisboa traçando um painel literário, enquanto matéria profissional, sem paixão estética mas de cálculo ideológico, diz no texto citado: «Tem-se, apaixonadamente, julgado o neo-realismo, quer para o exaltar, quer para o minimizar ou menosprezar. Penso que, honestamente, quando venha a fazer-se com desapaixonada isenção o balanço da poesia do Novo Cancioneiro e do romance de intenções sociais, o saldo talvez seja positivo, de um ponto de vista estritamente estético. O que não quer dizer que se considere perfeitos e paradigmaticamente realizados todos os neo-realistas» (op. cit. p. 158). Passada a coacção do regime ditatorial, as precauções que exprimem estas conclusões da insuspeitada professora de Letras possuem um eco remoto, nostálgico, mas que continuou a manifestar-se, até como tentativa de prevenção a novos desencaminhamentos [16]. Esta senhora religiosa, hoje desaparecida, vindo a terminar a sua carreira em Paris, na direcção do Centro Cultural Gulbenkian, coloca-se em contradição com os seus restritos princípios, pois, no panorama geral que traça, comenta diversos autores do novo realismo a quem esquivamente não pode denegar importância no tratamento da sensibilidade poética ou narrativa que cultivam. Mas o vício universitário de julgar e aferir, colado ao do controlo católico-romano, do nihil obstat, da sabedoria latinória, empurram-na para um impasse, renegando mais uma vez as origens populares, concluindo a muito favor: «o saldo talvez seja positivo», expressão cuja afirmação finalmente se anula com o dubitativo talvez! Ao fim e ao cabo, a professora acaba por se descreditar neste ser e não-ser. A obra literária de Redol, Namora, M. da Fonseca, Soeiro P. Gomes, Mário Dionísio, Cardoso Pires, Armindo Rodrigues, Cochofel, Antunes da Silva, Abelaira, Mário Braga, Baptista-Bastos, A. Gedeão e de muitos mais, irmanados em idêntica orientação estética, não necessitam do satisfecit dela nem de outros negacionistas, essa obra, soberba, afirma-se por si, porque nenhuma barreira foi susceptível obstar a que se realizasse. Sendo a obra literária fruto da liberdade individual do escritor e havendo o movimento de ideias da época criado as condições de edição e de enquadramento, uma vez que era também fenómeno social, colectivo.
Não obstante, essa subtil dialéctica da aceitação/exclusão é um suporte de referência para os fundamentos de legitimação, porque a imagem imediata prevalecente, a da propaganda, funcionou com uma só face, a da recusa, e a da perseguição policial e política. Deixamos aqui este exemplo das montanhas que tiveram de ultrapassar os artistas e escritores da nova sensibilidade estética. Todavia, apoiados numa prolífica imprensa sob a censura, encontraram o seu caminho, porque esse era o que, contra ventos e marés, a sociedade portuguesa tomava para sair do cadinho restrito e miserável onde o(s) seu(s) mentor(es) ambicionou(aram) fixá-la.

 
12. Editorial Inova, Porto, 195 p.

13. Compêndio tornado clássico, se bem que apenas consentido no ensino liceal, conheceu inúmeras edições reactualizadas desde o seu lançamento em 1955. Redigido em colaboração com António-José Saraiva, o histórico dessa eficaz colaboração foi recentemente trazido a lume com a publicação da correspondência travada entre ambos.

14. Muito particularmente o ensaio La signification présente du réalisme critique (Paris, Editions Gallimard, 1960), que teve uma edição portuguesa logo apreendida, e mais alguns estudos sobre a literatura e o pensamento ocidental publicados em França.

15. Maria de Lourdes Belchior, Os Homens e os Livros II, Séculos XIX e XX, Lisboa, Editorial Verbo, 1980, 221p.

16. Os mesmos guardiões devem regozijar que prevaleça no gosto actual a chamada literatura light ou pimba e se desenvolva o policial e outras saladas de consumo.

 
(Publicado em Latitudes – Cahiers Lusophones, nº 26, Avril 2006.)

 
(*) Biografia de Daniel Lacerda

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