muguet
 
«Paço do Duque» – designação do empreendimento de luxo erguido sobre os escombros da sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa (Ler post de Joana Lopes neste blogue.) 

Era Dia Primeiro de Maio, em França o dia de oferecer «muguet» aos amigos. Eu regressava do Hospital Universitário, onde deixara o A. internado. Os exames médicos tinham sido conclusivos: uns meses de vida.
Percorria a estação de metro sem conseguir abafar os meus próprios soluços, cruzando-me com centenas de parisienses, quase todos de «muguet» na mão ou preso no peito. Muitos deles parados, beijando-se. Cenário de filmagem: cenas de amizade e de amor. Eu própria pareceria figurante. Quando, na gare, me sentei a aguardar que o barulho dos carris me trouxesse depressa uma carruagem sabia bem que aquele momento configurava o primeiro acto da tragédia que iríamos viver nos meses seguintes.
Ainda acreditámos que a PIDE o deixasse regressar a Portugal, se lhes fosse apresentado um relatório médico comprovando que tinha um cancro e sem hipótese de cura. Fez-se o pedido em carta dirigida ao director Silva Pais. Que não, que apenas seria autorizado a vir morrer a Portugal, isto era, teria de dar entrada pelo Aeroporto da Portela, munido de uma carta do seu médico em Paris, na qual se afirmasse, com clareza, que não lhe restaria mais do que um mês de vida. Assim foi. A Miriam e o Carlos, amigos de sempre, também exilados em Paris, levaram-nos de carro a Orly – nunca serei capaz de descrever aquela despedida. Não sei se era maior a emoção sentida ou a raiva que me atravessou, mas alguma coisa naquela cena me marcou até aos dias de hoje. Ele perdera vinte e tal quilos, mal se mantinha de pé e, quando parou para limpar o suor que lhe escorria pela face, acenou-lhes de longe.
Numa manhã enevoada de Novembro, aterrámos em Lisboa. Fomos os últimos a descer do avião que o havia trazido de volta à sua terra.
Em baixo, junto das escadas, uma hospedeira aguardava-o com uma cadeira de rodas que não chegou a ser usada. Na pista, surgiu a toda a velocidade um carro preto com três homens de gabardina. Saíram os três: «A senhora siga para casa, o senhor Noales vai connosco à António Maria Cardoso para umas formalidades…».
Morreu em casa, 29 dias depois.

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