lisboa 

62 tinha sido um «ano em grande». O refluxo era inevitável e 63 fora fraquíssimo, quase tudo encolhido. Era preciso que a maré voltasse a subir. Na última semana de Abril, o «nosso orientador» montou o estado-maior em casa de uma colega nossa e minha namorada da altura, convocando a malta de confiança. Tudo escolhido a dedo. Tínhamos trabalhinho para toda a noite, fora o aviso. Distribuem-se os tempos de chegada, com cinco minutos de intervalo. Não convinha ir tudo à molhada e recomendava-se que cada um partisse de um sítio diferente e aparecesse com ar de ir passar uma noite de farra estudantil.

Quanto estávamos todos reunidos, oito no total, o «orientador» destapa um monte debaixo de uns jornais velhos e mostra uma série de sacos de lona que na altura se usavam para levar toalha e outros apetrechos para os banhos na praia. Os grupos já estavam seleccionados, aos pares de um rapaz e uma rapariga. Cada grupo de «casais» recebe a indicação da zona para onde vai actuar, um saco a tiracolo de cada um, fingindo tratar-se de um par de namorados e toca de, a partir da meia noite, enfiar convocatórias para o Primeiro de Maio impressas em papel bíblia por tudo que fosse porta, vão de escada e pátio. Era preciso que, na manhã seguinte, quando Lisboa acordasse, o povo estivesse convocado para o Primeiro de Maio de 1964 na Baixa. Para efeitos políticos imediatos e temporários, o chefe das operações de agitação decidiu que «trocava de namorada» comigo, ele ficava ali na improvisada «casa de apoio» com a respectiva inquilina a aguardar o regresso das brigadas e eu avançava com a namorada dele como companheira de distribuição nocturna de propaganda. Não me pareceu mal aquela troca de namoradas por uma noite e por imposição de trabalho político e lá fomos espalhar a papelada a começar no Largo da Graça e a acabar na Mouraria. Tínhamos aqueles dois bairros por nossa conta e risco.

Os sacos, atafulhados de papéis até à boca, pareciam pesar toneladas. Desde a Estrela, fomos a pé até ao Largo da Graça. Sempre de mãos dadas, tentávamos disfarçar o nervoso miudinho que teimava em fazer baixar tremeliques até às pernas, com risadas discretas e pseudo olhares românticos para encenar estado de enamoramento. Volta e meia, parávamos a olhar para uma montra e confiar que não tínhamos seguidores. No Largo da Graça foi tempo de descansar uma meia hora e esperar pela meia noite. Sentámo-nos num banco de jardim, tentando sossegar o coração porque o mais difícil estava para vir. Eu sempre com o braço por cima do ombro da minha camarada agitadora e ela encostando-me a cabeça com ademanes românticos.

A noite foi passada a calcorrear pátios, ruelas e becos com a fraca iluminação da altura a ajudar ao trabalho. Um ia dentro de um pátio ou vão de escada meter a papelada enquanto o outro ficava de vigilância. Os papéis eram tão finos que os sacos pareciam não ter meio de se esgotarem. E naquela noite política, a ansiedade por esvaziar os sacos ia suplantando, cada vez mais, o objectivo da agitação. Quando se escutavam passos atrás de nós, os corações saltavam e era altura de pararmos para dar um abraço com uma força danada que servia para representar paixão embora para nós fosse apenas nervoso, medo e cansaço o que nos impelia. Quando, finalmente, os sacos ficaram vazios, a madrugada já espreitava Lisboa. Voltámos para o estado-maior, cada um a arrastar os pés doridos e sem as mãos dadas pois a papelada comprometedora já tinha tido os seus destinos e não era preciso continuar a representar aquela forte paixão nocturna com que inundáramos as ruas e ruelas da Graça até à Mouraria.

Feito o ponto de situação no estado-maior, tudo tinha corrido bem. O camarada-em-chefe felicitou toda a equipa pelo excelente trabalho. E não foi necessária qualquer cerimónia para se recomporem os casais de namorados de facto. O medo cansado não é bom incentivador de paixões desviadas, mesmo quando as circunstâncias de disfarce levam a uma noite passada a andar de mãos dadas e aos abraços. Rimos só como se ri a malta com vinte anos. Ordem de sairmos em intervalos de cinco minutos. Lisboa vivia já na azáfama das manhãs. Abril estava a chegar ao fim. Mais uns dias e chegaria o Primeiro de Maio, o de dez anos antes daquele que seria o de toda a gente mas que tanto demoraria a aqui chegar e tão pouco duraria a aqui estar.

 
(Texto revisto de um post publicado em Água Lisa)

 
Biografia de João Tunes

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