Abel Manta - Tertúlia
  João Abel Manta: Tertúlia do consultório do Prof. Pulido Valente 

 
Um texto de Daniel Lacerda (*)

A primeira deste texto pode ser lida aqui. 

 
Combate contra os poderes instituídos

Cedo os organismos repressivos da liberdade de criação se voltaram contra os escritores que ousavam elevar a personagens de romance a gente de trabalho ou simples empregados, e no novelo narrativo relatar como eram manipulados e ofendidos pelos cordelinhos da supremacia social. Manuel da Fonseca relatou que levava os seus primeiros romances à censura prévia, para acautelar a despesa insuportável que representaria a sua apreensão pela polícia.
Houve períodos em que se explorava alguma passividade dos governadores civis para promover encontros com os romancistas. Alves Redol, no início dos anos 60, veio ao Ateneu de Leiria fazer uma conferência porque indivíduos como Vasco da Gama Fernandes – o primeiro republicano da cidade de Leiria, depois presidente da Assembleia Nacional – se batiam todos os dias para dar à cidade alguma actividade cultural, sempre em confrontação com as autoridades, que fecharam rapidamente o modesto cineclube. Apenas a conta-gotas era autorizada, sob ameaça, alguma conferência ou concerto e ainda sob vigilância policial e dos«informadores» (os bufos), que estabeleciam listas dos neófitos interessados por esses suspeitos encontros.
Na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, nas Escadinhas do Duque, em Lisboa, Manuel da Fonseca veio relatar – com o seu dom inigualável de contador de histórias – como escreveu a Seara de Vento, desbastando o seu inicial relato dramático dum caso verídico divulgado pelo jornais, até o tornar nessa tensa obra-prima, que para lá do drama do homem só em revolta, germina a organização colectiva, em grande paralelismo com as alternativas sociais do filme Roco e seu Irmãos de Visconti, ou com o debate Sartre-Camus à volta da opção revolta versus revolução. Ninguém podia garantir que a conversa-debate pudesse chegar ao fim, já que os lisboetas reconheciam, dissimulados na assistência, a presença de agentes da polícia secreta. Eram ocasiões excepcionais, consentidas sob caução pelo poder despótico, que jogava com a mais ténue ambição de cidadãos curiosos das novidades da cultura e do mundo. Para ouvir José Tengarrinha expor as suas pesquisas acerca do liberalismo, ou Augusto da Costa Dias os resultados do seu inquérito ao neo-garretismo, era necessário vencer idênticos obstáculos e estar disposto à mesma singular aventura. Era-lhes necessário emudecer a voz de romancistas, poetas e ensaístas, excluindo-se já o comentário político autorizado apenas à pena de jornalistas com beneplácito oficial. Do mesmo modo se impedia os artistas plásticos de vanguarda ou de arte comprometida de expor e de criar assim um público necessário à expressão artística profissionalizada. O grupo coral da Academia de Amadores de Música de Lisboa, dirigido por Fernando Lopes-Graça – figura excepcional da nossa cultura lembrado noutro artigo deste número de Latitudes por Bruno Belthoise – estava sujeito à mesma eventualidade dos esbirros, não havendo jamais a certeza de poder actuar ou ser suprimida policialmente a sessão anunciada, como só muito raramente se atrevia a interpretação da canção fetiche Canta, camarada canta, do repertório das Heróicas criadas por Lopes-Graça por ocasião do MUD sobre versos de poetas neo-realista do Novo Cancioneiro. Nesses anos 50 e 60, exerciam impunemente essa missão as forças ao serviço do grupo político formado por beatos e incultos que se apropriaram do poder e, arrogando-se o destino dos demais, exerciam a mais cruel das violências contra as actividades do espírito.
Além da férula da censura, o quotidiano era assinalado por ameaças contra as tentativas de comunicação e de se estabelecer laços culturais e sociais. Raros foram os escritores, mesmo de outra inspiração, que não foram humilhados nas prisões do ditador e enxovalhados pelos seus esbirros. O poeta José Terra, que acabou por se exilar em França, conta-nos frequentemente episódios da perseguição que a PIDE movia à revista Árvore.
A maior glória das letras nacionais, Aquilino Ribeiro, com reconhecimento literário do próprio Salazar, foi submetido a um processo judicial de tipo inquisitorial, em 1959, aos 70 anos e ameaçado com as enxovias da PIDE, por abordar no romance Quando os Lobos Uivam, o assunto dos baldios, com a apreensão imediata do livro. Para evitar a prisão, exigiram-lhe uma caução que correspondia hoje a mais de 3 mil contos. Aquilino fundara com outras grandes figuras, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão, ao cabo dos maiores esforços, uma singela Sociedade Portuguesa de Escritores [4] que apelou para a intervenção dos intelectuais estrangeiros mais renomados e, passados muitos meses em aturada instrução, o processo acabou por ser arquivado, pois o julgamento ameaçava tornar-se numa desmistificação internacional dos fundamentos mesquinhos e retrógrados do regime. A defesa, assumida pelo próprio escritor, num assomo da coragem cívica que caracterizou a sua vida, foi logo depois publicada, desnudando a ignomínia em que ia caindo o ditador definhante [5]. Pouco depois, a polícia política foi enviada, num autêntico acto de terrorismo, destruir a sede daquela sociedade de homens de letras, quando o júri do mesmo prémio decide coroar uma obra-prima da novela portuguesa e angolana, Luuanda do escritor luso-angolano, Luandino Vieira, na altura, preso com outros intelectuais e militantes nacionalistas luso-africanos, numa ilha do Atlântico.
A incompatibilidade da ditadura com a criação literária e o universo das ideias abrangia outras correntes estéticas como os surrealistas e até núcleos católicos: os da revista Árvore, Cadernos do Meio Dia, etc. Decididamente, os salazaristas detestavam as letras, reservando simpatias aos jornalistas do patriarcado no Novidades e aos denunciadores do Diário da Manhã, órgão do partido do regime [6]. Secunda-os a formiga Brotéria dos alistados na Companhia de Jesus, género Manuel Antunes, recentemente insensado pelos de memória curta [7], que vibravam forte nos autores neo-realistas. As editoras de cariz católico e fascista protegiam alguns autores da área, mesclados com figuras indefinidas, uns e outros serviam de baluarte ao germinar da imaginação criadora. Em certos órgãos oficiais e com as iniciativas culturais do SNI, procuravam seduzir e corroer as mentalidades que repudiavam o conservadorismo salazarista, que banhava no racismo colonialista e no segregacionismo católico.

 
O papel da censura aos livros e aos temas

O método insidioso consistia em eliminar pela ausência as realidades actuantes, deixando a juventude sem marcos de contemporaneidade e abrindo campo à história mítica e à propaganda do regime. Não se conhecia a nossa história recente, as referências ao período republicano e até as lutas sociais do século XIX eram filtradas. Os raros historiadores autorizados a exercer cátedra (e a fazer história) escreviam sobre Aljubarrota, as Descobertas, a Restauração, mas nada sobre as condições concretas da instalação do «Estado Novo». Oliveira Marques começou a publicar estudos parcelares sobre o republicanismo e o jornalista Jacinto Baptista impôs-se com um estudo sobre o 5 de Outubro! Os portugueses eram defraudados da sua história real e mais criam ainda no milagreiro sebastianismo, que teve sequência em Fátima.
Em literatura reflectia-se a mesma norma da selecção salazarenta. Sartre e Brecht eram repudiados como o diabo [8]. Mesmo o realismo de Eça e seus congéneres da geração de 70 estava sob tutela; nos Liceus apenas algum professor mais afoito ousava descrever o combate de ideias das Conferências do Casino e o significado de O Crime do Padre Amaro do desencantado Eça. Foi preciso recorrer a muita imaginação para romper este cerco à inteligência e começámos a realizar o que representava a batalha do realismo, que nos chegava através de alguns filmes italianos que transpunham a censura de uns e outros. O Gorki e outros escritores russos apenas à sucapa se conseguiam ler esparsamente, tal como inicialmente os brasileiros Jorge Amado e Lins do Rego, que mais tarde romperam o cerco com maior desenvoltura que ganhou a editora Livros do Brasil e a Europa-América do militante Lyon de Castro, que travou dura batalha com os censores. Os Capitães da Areia de Amado, tão interditos quanto O Capital de Marx, foram lidos na edição brasileira por empréstimo sorrateiro dum amigo de amigo.
Em plena crise académica, que se arrastou vários anos no início da década de 60, a curiosidade juvenil dava lugar a debates e edição de pequenos textos nos cineclubes e no que restava das associações académicas de estudantes de Lisboa. Os jovens à sua cabeça promoveram em diversos estabelecimentos escolares conferências e colóquios sobre os assuntos mais candentes. O lugar da mulher na sociedade (Faculdade de Direito de Lisboa), Problemas sócio-culturais contemporâneos (A. Académica de Coimbra), O romance português contemporâneo (Instituto Superior Técnico, Lisboa). Alexandre Pinheiro Torres (1926-1999), que se vinha a destacar na crítica e ensaística literária no «Suplemento Literário» do Diário de Lisboa no semanário Jornal de Artes e Letras e, depois, na revista Seara Nova apresentou nesse quadro a primeira síntese histórica do neo-realismo literário português [9], assunto que mais tarde viria a desenvolver em diversos livros [10]. Este estudioso e grande admirador dos autores neo-realistas, foi o primeiro a elaborar uma visão de conjunto, nesse quadro restrito – pois a censura coarctava as ambições de enaltecimento de autores seus proscritos, sobre os quais a polícia secreta saltava frequentemente na apreensão de edições – descrevendo o contexto literário da época, como apareceram os primeiros ensaios em revistas, as primeiras edições de poesia e em prosa e como se foi alargando a novos autores. Essa conferência foi editada numa pequena brochura pelos meios próprios da A. A. de Estudantes e de diminuta difusão. Foi preciso esperar pela chamada «abertura caetanista», após a queda de cadeira que vitimou Salazar, para o seu autor lhe dar a forma de livro, editado pela Moraes, editora católica. Esta havia recebido uma rejuvenescência de «católicos progressistas», que, depois de 1963, editavam a revista mensal O Tempo e o Modo, equivalente português da revista francesa Esprit [11]. Nessa brochura A. Pinheiro Torres inventariava as primeiras obras aparecidas na colecção Novo cancioneiro. Diversos jornais efémeros, Sol Nascente, Liberdade, tinham lançado a semente através de comentários e da poesia. O Diabo, que chegou a ser dirigido por Ferreira de Castro, e utilizava muitos pseudónimos para proteger os autores e enganar os censores, foi o mais persistente, se abstrairmos a revista coimbrã Vértice – que ainda hoje se publica – e foi dirigida pelo poeta Joaquim Namorado até ao desaparecimento deste, há poucos anos. Esta revista, como O Diabo, eram francamente influenciadas pelo ideário e o controle ideológico do Partido Comunista Português, que procurou orientá-las na defesa da literatura comprometida, como se tornou mais evidente após o citado estudo de João Madeira. Do primeiro, ficou célebre a polémica José Régio-Álvaro Cunhal, só recentemente evocada e reproduzida. Cunhal acusava severamente o escritor vilacondense de permanecer limitado à «literatura do umbigo» aconselhando-o a seguir o exemplo de autores que tomavam inspiração nas questões de sociedade.

(continua)

 
4. O seu vigoroso texto foi de imediato publicado no Brasil mas só recentemente conheceu edição em Portugal, que inclui todos os textos do processo: Em Defesa de Aquilino Ribeiro, organização e notas de Alfredo Caldeira e Diana Andringa, prefácio de Mário Soares, Lisboa, Terramar, 1994, 285 p. Lembremos que Aquilino viveu muitos anos exilado em França, onde se exilou desde 1908 tendo casado em 1912 com a senhora alemã Grete Tiedemann.
Foi narrado que Salazar interrogado por um jornalista estrangeiro acerca do escritor português, entre os melhores, lhe indicava para entrevistar, lhe respondeu: veja o Aquilino Ribeiro, ele dirá mal de mim, mas é o maior.

5. Estes actos desesperados pressagiavam outros mais graves como o horroroso assassinato do general Humberto Delgado, atraído pela polícia secreta à fronteira portuguesa e morto em Espanha, juntamente com a sua secretária e companheira, Arajaryr de Campos, pelos carrascos fiéis ao ditador: Barbieri Cardoso, Rosa Casaco e Casimiro Monteiro, ainda hoje fugidos do país. Na Metrópole, estes crimes correspondiam às atrocidades cometidas nas frentes de luta nas colónias pela reserva militarizada do regime em defesa dos mitos do solitário de Santa Comba.

6. Os comentários de certos jornalistas deste órgão oficial da ditadura serviam de indicadores para a acção repressiva: apreensões, prisões, represálias, maus-tratos.

7. Ver o artigo de Eugénio Lisboa, “Fragilidades no Edifício da Cultura, Manuel Antunes e Régio” in Jornal de Letras , Artes e Ideias n° 922 de 1 a 14 de Fev., rubrica Pro Memoria, que desmistifica a figura do seráfico jesuíta, que operou um cerco a José Régio. Podemos acrescentar que a sua apregoada sabedoria não penetrava em Freud e menos ainda no marxismo, de que transmitia na cátedra, nas lições de História da Cultura Clássica, a mais vil caricatura, que pode ser comprovada pela sebenta supervisada pelo padre e dirigida a milhares de alunos que se inscreviam nessa disciplina comum a todos os cursos de Letras nos anos 60. A fatuidade do seu exibicionismo pode avaliar-se no facto de passar uma aula a expor uma bibliografia tão numerosa quanto inacessível, já que em línguas estrangeiras, e, sobretudo, mal orientada para alunos do primeiro ano que necessitavam de indicações precisas e ao seu alcance. A ênfase de suposto eruditismo do jesuíta teria de agradar a uma boa camada de filhos-família que então ocupavam aquela Faculdade destroçada de professores excluídos.

8. Vejam-se os livros proibidos pelo salazarista, de que existe publicação (Comissão do Livro Negro sobre o Regime Fascista, Livros Proibidos no Regime Fascista, Lisboa, Presidência do Conselho de Ministros, 1981, 117 p.) Estes não invejam as condenações do Index do Vaticano, que excluiu as principais obras da humanidade.

9. Cf. As Grandes Correntes da Literatura Contemporânea, vol. II, “Neo-realismo” por A. Pinheiro Torres; “Novo-romance” por Alfredo Margarido, Lisboa, Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, 1964, 57 p.

10. Cf. deste autor, O Neo-Realismo Literário Português, Moras Editora, 1977; O Movimento Neo-Realista em Portugal na sua Primeira Fase, Lisboa, ICALP, Biblioteca breve, 106 p.; Os romances de Alves Redol, Lisboa, Moraes editores, 1979, 371 p.; Vida e Obra de José Gomes Ferreira, Lisboa, Bertrand, 1975. Posteriormente Carlos Reis editou os Textos Teóricos do Neo-Realismo Português, Lisboa, Seara Nova, 1981, 230 p. Actualmente a literatura portuguesa sobre este assunto é mais vasta.

11. A Esprit foi criada durante a última grande guerra por Emmanuel Mounier, fundador do personalismo, e outros intelectuais protestantes franceses (P. Ricœur, P. Fraisse) e influenciou a criação de congéneres em diversos países. O Tempo e o Modo começou a publicar-se em Janeiro de 1963, sob a direcção de António Alçada Baptista, sendo editor Pedro Tamen e propriedade da Livraria Moraes, Lisboa. No primeiro número a crítica literária era assinada por Manuel Poppe e pelo poeta e ensaísta António Ramos Rosa.

 
(Publicado em Latitudes – Cahiers Lusophones, nº 26, Avril 2006.)

 
(*) Biografia de Daniel Lacerda

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