25 de Abril

 
Um texto de Helena Pato (*) 

 
Às vezes apetece-me deixar de lado as histórias, os acontecimentos, os factos – tudo o que fez de nós resistentes e lutadores no fascismo, nesse tempo de medo, de violência e de ódio (e também de mediocridade) – e dirigir-me aos jovens falando-lhes de nós, de emoções fortes, irrepetíveis, afectos únicos, paixões, amores, de amigos, gente com alma, vidas com brilho, com ideais, de festas com vozes, com canto, com poesia, todos unidos, de muitos companheiros em todos os lugares do mundo, irmãos de norte a sul do país, e contar-lhes do futebol renhido nos pinhais, da chegada do Godard na espera de Godot, dos piqueniques, dos desejos contidos, do suor do hot rock, das mãos dadas numa alegria inesperada ou numa raiva bradada, dos abraços apertados, cúmplices, verdadeiras promessas de fidelidade para a vida. Um segredo ao ouvido no canto da sala, um papel dobradinho a passar discretamente de mão para mão e o indescritível bem-estar de um alvorecer sem se ser preso.
Veio o 25 de Abril e, num salto de corça, aqui estamos nós. De uma maneira ou de outra, aqui estamos nós com essa memória. Fomos tão felizes!

 
(*) Biografia de Helena Pato

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