Alves Redol
 
 
Um texto de Daniel Lacerda (*)

 
O neo-realismo foi a principal corrente estética que se manifestou em Portugal ao longo das décadas de 40, 50 e 60 do século XX. Contudo este reconhecimento ainda hoje tem contestatários, pois esse movimento de ideias operou um volte-face no sentimento estético e das ideais que perturbou muitos poderes instituídos. Paralelamente a uma modernidade nefelibata representada por presencistas e surrealistas, o novo realismo desenvolveu-se abrindo a mentalidade nacional para os grandes debates sociais do nosso tempo, o marxismo, o socialismo o anticolonialismo e a democracia social. Mas, devido à oposição mouca do poder, no plano das ideias, vingou apenas subterraneamente, para triunfar politicamente apenas com a rebelião do 25 de Abril.
No plano estético, a sua supremacia afirmou-se muito cedo, sendo inoperantes as múltiplas armas que o poder totalitário salazarista pôs em marcha para o travar: censura, limitação da liberdade de expressão e de reunião e repressão policial. O neo-realismo introduzia uma nova visão do mundo, na expressão adoptada por um dos seus maiores teóricos, Georg Lukacs. Daí continuarem a surgir, ainda hoje, denegrimentos e mesmo denegações a seu propósito.
Não vamos enumerar, academicamente, todos os cambiantes dessa revolta estética introduzida nas letras, nas artes plásticas e no cinema por uma nova geração de criadores e que, no caso particular das letras, que mais especificamente nos ocupam nestas linhas, começou a delinear-se no ensaio e na poesia a meados dos anos 30, para ter na prosa de ficção o seu reconhecido início com o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol (1911-1969): «Um livro que nunca poderá ser esquecido na história da literatura portuguesa», escreveu Alexandre Pinheiro Torres [1]. O nosso propósito incide na ilustração de alguns aspectos reveladores das obstruções levantadas à progressão desse movimento, pois ele erguia-se em oposição ao conservadorismo que subjaz à mentalidade prevalecente nas camadas dirigentes do país.

 
 
A geração dos neo-realistas

Primeiramente, a surpresa residia em tratar-se duma revolução literária introduzida por jovens de apenas vinte anos e, na sua maioria, de reduzida formação literária, no género cursos comerciais (Redol e Manuel da Fonseca, Antunes da Silva), medicina (Fernando Namora e Carlos de Oliveira). Surpreende a precocidade desta geração marcada pela crise económica dos anos 30, que culminou na guerra civil de Espanha e na segunda Guerra Mundial. Mas, esteticamente, há outras influências internacionais, próximas e distantes, a que, finalmente, a nossa juventude estava muito atenta e aberta: os debates estéticos travados na URSS e na Itália (no cinema e na literatura), a experiência da Resistência do povo francês (através de Aragon, e Eluard, H. Lefèbvre), e o Brasil de Jorge Amado, Lins do Rego e Bandeira.
O escândalo rebenta: esses jovens «aprendizes de escritor» escrevem rudemente, interessam-se por personagens sem realce social, não possuem estilo aceitável pelos académicos e letrados conceituados. Um poeta e ensaísta, Mário Dionísio, que ficará toda a vida amarrado à ambição da exigência estilística, sai a terreiro exigindo dos seus correligionários um redobrado aperfeiçoamento formal. Nas célebres quanto distantes fichas da Seara Nova (a revista era severamente censurada e, nesse tempo, circulava mal), o autor de A Paleta e o Mundo, chegava a dar argumentos, na sua exigência, aos turiferários do passadismo, estribados na arte pela arte. Hoje, depois da investigação oportuna de João Madeira [2], conhece-se também a função que o Partido Comunista lhe incumbia em disciplinar os criadores e polemizar com os detractores, função acentuada de excessos autoritários que Mário Dionísio acabou por enjeitar, salvaguardando a sua liberdade criativa. Todavia, à distância dos anos, ganha todo o significado saber-se que a exigência de aprumo formal partia do próprio interior do movimento, e muita da aparente simplicidade derivava da mudança da objectiva maneada por esse grupo de escritores, que a apontava para as camadas inferiores da nossa sociedade, onde a injustiça social ia de par com o meio onde a riqueza social era criada. O voluntarismo posto na renúncia ao estilo (afectado) ficou logo patente na conhecida epígrafe de Gaibéus [3], que podia ser tomada por alguns como uma autêntica provocação dirigida aos guardiães do estilo romanesco dos salões. 

Noutro «escândalo» que feria a mesma gente, estes autores colocavam no centro das suas obras o homem comum, a ceifeira, o mineiro, o operário, o maltês alentejano, a juventude das ruas e becos. Os dramas da psicologia burguesa eram ultrapassados pela acção social, pelo conflito no mundo do trabalho, onde se observava a desigualdade do trato, a manipulação obsessiva dos deserdados e dependentes sem abrigo. Estes temas eram repudiados com recurso a argumentos falaciosos. Os presencistas faziam barreira, escudados no psicologismo da época, e privilegiando o personagem individual, recusando o personagem tipo e as situações colectivas. José Régio e Gaspar Simões, à frente das suas tribunas de crítica literária, enjeitaram cedo qualidades aos escritos de autores neo-realistas. A reabilitação destes ficava a cargo de cronistas de O Diabo, até ser interdito e, depois, sobretudo, a Óscar Lopes (no suplemento do Comércio do Porto) que arranjou uma linguagem adequada à censura para poder comentar e inserir num contexto literário e social as obras dos criadores do novo realismo. Numa segunda fase, com a chegada duma nova geração de escritores: José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Baptista-Bastos, o romance evolui na perspectiva social que adopta e com a incorporação de novas técnicas da escrita praticadas nomeadamente pelos realistas americanos (Hemingway, Dos Passos, Caldwel, Steinbeck, Sherood Anderson) e italianos (Pavese, Vittorini). Esta nova fase impõe-se já por um grande apuro estilístico e de construção narrativa mais complexa, e arrasta os autores consagrados, Redol, Namora, Fonseca, Gomes Ferreira para o ácume da expressão literária, que se impõe por si através de autênticas obras-primas: O Delfim (1968), Barranco de Cegos (1962), Os Clandestinos (1972), Seara de Vento (1958), Poesia III (1961). Não haverá exagero em dizer que José Saramago começou a construir realmente a sua obra na sua esteira, onde se deve perfilar, muito particularmente, Levantados do Chão (1980).
Comentadores e críticos são também em maior número a bater-se contra a censura para conseguir imprimir os seus textos: Álvaro Salema (Diário de Lisboa), A. Pinheiro Torres, em diversos jornais e revistas (D. de Lisboa, Seara Nova, Jornal de Letras), Eduardo Prado Coelho (Seara Nova), João José Cochofel (Gazeta Musical e de todas as Artes).

 
(continua)

 
[1] Alexandre Pinheiro Torres, Romance: o Mundo em Equação, Lisboa, Portugália, col. Problemas 19, 1967, p. 226. Ver também, para o início do neo-realismo, A. Pinheiro Torres e Alfredo Margarido, As Grandes Correntes da Literatura Contemporânea, vol. II, Lisboa, Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico, 1964, p. 29-31.

[2] Cf. João Madeira, Os Engenheiros de Almas, o Partido Comunista e os Intelectuais (dos anos trinta a inícios de sessenta), Lisboa, Editorial Estampa, 1996, 409 p.

[3] Dizia ela: «Este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso será o que os outros entenderem». No prefácio datado de 1965, que acompanha a edição de bolso das Publicações Europa América, Alves Redol descreve com grande pormenor o contexto pessoal e societal em que escreveu os seus primeiros livros. Tendo-se inspirado frequentemente na população imigrante do interior, Redol colocou também na portada a indicação: «Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam.» Utilizámos a 7ª edição de bolso, de 1982, que corresponde à 14ª da obra.

 
(Publicado em Latitudes – Cahiers Lusophones, nº 26, Avril 2006.)

 
(*) Biografia de Daniel Lacerda

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