Saída dos presos de Caxias - Abril 1974

Um texto de Helena Pato (*)

Vi o telejornal do dia 25 em casa de um amigo que eu conhecia da Seara Nova e das CDE. Hoje, passados todos estes anos, não me lembro de coisas que eu então previ que iriam ficar até ao meu fim. Vividos em estados emocionais exacerbadíssimos e numa explosão de afectos, aqueles acontecimentos pareciam estar a ser inscritos de forma indelével na minha memória.

É surpreendente que não tenha a menor ideia do que vi nessa noite na RTP, nem de grande parte do que fiz durante o dia. Ficaram-me retalhos: uma reunião dos familiares dos presos em Benfica, uma ida à rádio, a convite do Comando do MFA para falar em representação das famílias, e o meu Pai, ao meio-dia, no passeio em frente da nossa casa de família, vestido de uma maneira a que nunca se atrevera, nem na noite do forte sismo de 69. Fui lá deixar os meus filhos e ele, em pijama e com um ar calmo, cansado de décadas sem liberdade – referindo-se à PIDE, ao governo e aos fascistas – clamava para os vizinhos e a quem passava: «Eles têm que ser julgados num tribunal plenário. Não pode haver perdão para o que fizeram!» Talvez seja esta a imagem do dia 25 de Abril que retenho com maior precisão. O resto aparece-me formatado em sequências de «quadradinhos» dispersos, como uma banda desenhada desconstruída. Às vezes, colo às recordações que guardo as imagens audiovisuais, reproduzidas na comunicação social ao logo destes trinta e tal anos, e deixo de ter o meu 25 de Abril, para passar a ter um outro, o que a História me vem ajudando a desenhar. Acontece-me dar comigo a responder a questões colocadas por jovens, por amigos ou por alunos, acerca de acontecimentos que eu própria vivi no dia da Revolução, usando informação colhida em documentários transmitidos actualmente pelas televisões, e não, como seria natural, recorrendo ao testemunho pessoal.

Diferente do que me sucede com a memória da noite de 25 para 26: essa é infinitamente precisa. Tenho a sensação de que nada se perdeu e nada foi acrescentado. Nada do que vivi me foi adulterado. A História deixou em branco este pedaço da Revolução?

O estertor do regime revelou-se particularmente difícil para os presos políticos antifascistas. Todos o sabem. Foram muitos os que, de imediato, contaram, falaram, deram entrevistas. Porém, pouco terá ficado registado, gravado, filmado, impresso, acerca do desfiar das horas dessa longa noite, para os familiares que aguardavam, cá fora. Sobretudo em Caxias. Na memória desse pequeno grupo – nessa altura, ainda pequeno grupo – estarão, de certeza, esculpidos pedaços tenebrosos das últimas horas do Dia da Revolução.

Pelas duas da manhã do dia 26, deixei o Forte de Caxias e fui a casa com a Luísa Amorim. Uns minutos depois, saímos com café, cobertores e comidas para distribuirmos por um grupo de soldados que, ao princípio da noite, tínhamos visto acocorados pelas escadinhas abaixo, ao lado do meu prédio, na Penha de França. Encontravam-se ali desde a madrugada anterior, estavam semi-adormecidos e com um aspecto que dava dó. «Um dia, terão a gratidão que merecem…» – dissemos, a sonharmos já com uma estátua, na Baixa lisboeta, ao soldado desconhecido da Revolução de Abril.

Quando regressámos a Caxias fui contactada por um jornalista que nos fez um ponto da situação, dando-nos conta da preocupação com que o Comando do MFA encarava as últimas informações que tinham origem na própria PIDE/DGS. Receava-se que os agentes que permaneciam no Forte de Caxias (e em outras prisões políticas do país), acompanhados por guardas, decidissem exercer represálias e responder aos acontecimentos fuzilando alguns ou mesmo todos os presos. Dizia-se que a forma como viesse a decorrer a ocupação da sede, na Rua António Maria Cardoso, seria um factor decisivo na libertação dos presos políticos e, por isso, o MFA estava a usar do maior cuidado na preparação da entrada dos militares naquela Cadeia. Daí o prolongado aguardar da saída dos nossos familiares.

Nesta linha de preocupações, às tantas, foi-nos solicitado por um mensageiro do Movimento que nos afastássemos do Forte, para que a nossa presença ali não fosse vista como uma forma de pressão. Todavia – garantiam-nos – a libertação constituía uma prioridade da Revolução e continuava a ser negociada, com o objectivo de se evitar um derramamento de sangue. Com mais ou menos acordo, todos acatámos o pedido. Minutos depois, tínhamos decidido que um pequeno grupo se manteria perto dos acessos ao portão da Cadeia e que as restantes pessoas se mudariam para trás, ficando em frente do Hospital Prisão São João.

Seriam umas 4 ou 5 horas da madrugada. O dia 25 já passara à História no calendário da Revolução e éramos poucos os que ainda ali permanecíamos. Alguns familiares, esgotados, tinham ido a Lisboa buscar agasalhos e comidas para quem tinha vindo de mais longe; ou tinham, simplesmente, partido por umas horas para se distraírem com qualquer coisa que os mantivesse de pé e que os acalmasse. Em grupos, parados ou caminhando, aqueles que ali continuavam corriam a saber notícias, de cada vez que alguém chegava. Com o passar das horas e na ausência de informações precisas, a ansiedade deixara já de se expressar: como se tivesse dado lugar a um medo calado, a uma espécie de pré-pânico.

O silêncio da noite multiplicava os barulhos, os ruídos e todos os sons que se ouviam ao longe. Sem notícias, a tensão aumentava minuto a minuto. Nós quase emudecêramos. Quem aí se encontrava recordará o som breve e abafado, o estalido que a dada altura nos pareceu ser de um tiro. Todos pensámos o mesmo e, em silêncio, apenas aguardávamos a repetição que viesse confirmar o que já tínhamos dado como certo. «Começaram. Já está!» – pensámos. Alguns segundos depois, ecoou o segundo tiro e, de novo, o silêncio. Foi então que, em voz alta, um de entre nós exclamou: «Começaram. Já está!»

A Luísa Amorim e o Alberto Villaverde Cabral, meus compadres, companheiros dessas dramáticas horas abraçaram-me num imenso soluço. Ao nosso lado vivia-se a mesma emoção. Não esqueci nunca o som abafado desse choro a três. Depois voltámos todos a ficar mudos, e nós os três, de mãos dadas, acelerámos o passo na caminhada de ida e volta em frente ao Hospital. Aguardávamos uma informação segura.

Não tardou a aparecer o mensageiro que nos sossegou. É uma imagem negra, ou melhor, a preto e branco, da Revolução. Nesses instantes da madrugada de Abril, por perto de nós, não houve fotografias, nem gravadores das rádios, nem câmaras de televisão.

Um pouco antes do nascer do sol, fomos todos para cima e quedámo-nos ao lado do Forte. Mais tarde, já com a luz do alvorecer, vimos os pides saírem da Cadeia em carrinhas – a fugirem, ali na nossa frente, a uns dois metros. (E nós, como miúdos da Intifada, atirando-lhes todas as pedras que nos foi possível, roucos de lhes gritar que seriam julgados pelos crimes que haviam cometido). É por esta altura que são gravadas pela RTP as primeiras imagens de Caxias. Assistimos à chegada dos fuzileiros que, em poucos minutos, tomaram conta da prisão e apareceram alinhados como estátuas por cima do grande muro que a cerca. Foi então que apareceu o Ruivo com uma carrinha aberta, cheia de cravos que distribuiu pelos fuzileiros e por todos nós. Estou a vê-lo: chegou contente, como se aquela festa fosse a sua, ou, pelo menos, também sua. E era. Não houve baioneta que ficasse sem cravo encarnado. Os nossos continuavam lá dentro, mas cá fora respirámos fundo.

Só à noite, nesse dia 26, foram libertados os presos políticos. Assisti à saída de longe. Tentei aproximar-me do Zé Tengarrinha mas não consegui. Nem sequer acenar-lhe. Percebi que nesse momento não me pertencia: havia uma multidão que o envolvia e um mundo de jornalistas que o entrevistavam. Vi-o entrar para um carro e avançar a custo por entre milhares de pessoas que o saudavam com a alegria própria das horas de libertação. Entretanto, ali parada, junto aos meus, com os nossos corações a bater a compasso, aclamávamos os companheiros que iam saindo. Houve um jornalista que me deu o recado: «Ele disse que vai ter a casa após as reuniões com o MFA e com a CDE».

Para mim, estavam a começar os belos e difíceis dias da Revolução.

Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006
(*) Biografia de Helena Pato

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