Planicie Alentejana  

Mais um ano para o início do cumprimento do serviço militar só servia para adiar o inevitável. Tinha que bater lá com os costados, mais tarde ou mais cedo. A guerra estava para lavar e durar e tinha-se atolado num impasse lodoso. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, dizia-se e diz-se. Quem tem vinte e três anos, a minha idade de então, tem é pressa de viver e vive ao momento. Além de não ser nada entusiasmante a ideia de vestir farda, marcar passo e ir para África alimentar teimosias de quem quer andar ao contrário dos ponteiros do relógio da História. O meu «compromisso académico» estava praticamente cumprido. Tinha uma única disciplina «pendurada» que tinha sobrado por causa de uma precedência. Dava três horas de aulas por semana, a sebenta explicava tudo o que havia para saber sobre «órgãos de máquinas» (assim se chamava a disciplina) que metia bielas, cambotas e pistons. No Porto, não me deixavam matricular por causa de um processo disciplinar que lá tinha suspenso por motivo das lutas estudantis, o regresso às aulas em Lisboa (de onde tinha sido despachado para o Porto pelas mesmas razões que agora não podia continuar na Invicta) estava condicionada à garantia de não pôr os pés nas aulas e só lá ir para fazer as frequências. Não me marcariam faltas e eu que arranjasse apontamentos para me entender com as cambotas e as bielas. Tudo bem, o que interessava era o direito a mais um ano de adiamento na hora de vestir a farda, estupidificar na Ordem Unida, cheirar pólvora na carreira de tiro e o pior que se adivinhava vir a seguir. E ir para o interregno militar (três anos da minha vida!) com o curso concluído permitia-me que terminada a tropa procurasse um emprego interessante. Mas não ia ficar um ano parado e sem aulas a preparar exames que não dava luta de estudo. E o meu casamento estava previsto para se dar antes de me fardar. Emprego como deve ser, nem pensar, sem serviço militar cumprido ninguém aceitava mancebos. Jornais lidos de fio a pavio à procura de uma coisita qualquer para me entreter e ganhar uns cobres, desato a responder a esmo aos anúncios em que vou encalhando.  

Às tantas, recebo carta de Ferreira do Alentejo propondo-me ir dar aulas durante um ano lectivo num colégio particular. Lá fui, procurando o director. Apareceu-me o Cura da terra que acumulava com as funções de professor, director e proprietário do Colégio. Ajustámos o preço que era sovinado, e bem sovinado, pelo clérigo. Eu daria aulas até Junho seguinte e ele pagaria, nesse último mês, os honorários das férias grandes. Para meu espanto, o meu Curso de Química pareceu-lhe apropriado a leccionar Geografia e Ciências Naturais, além de Matemática e de Físico-Química. Como a mão-de-obra era barata, ele aproveitava ao máximo. Acordo verbal feito, instalo-me em Ferreira, quarto alugado junto à Estação das camionetas da EVA e lugar contratado na mesa dos comensais do Regedor na companhia de meia dúzia de agrónomos que tratavam do regadio alentejano. O Cura, homem de grande corpanzil e enérgico, tinha vindo do Norte para evangelizar as terras pouco crentes do Alentejo. Tinha metido na cabeça que havia de energizar a modorra alentejana e levar os ímpios sulistas ao bom caminho. Era homem de mil ocupações – presidente do clube desportivo da terra e dinamizador da criação de corais alentejanos pelas redondezas. Além, é claro, das suas funções de docência, directoria e embolso dos lucros do Colégio que tinha, como clientela, os ricos e remediados do sítio que queriam os filhos com o Liceu feito mas sem irem e virem todos os dias de Beja. Era o que hoje se chamaria explorar um «nicho de mercado». 
 
A vida foi correndo sem sobressaltos que são coisas raras por aquelas bandas. A planície ditava o ritmo e o estar. Não tinha muito tempo livre e o que havia era consumido em lazeres de dominó num dos poucos cafés e uma ou outra escapadela, recta fora, até Beja, cuja diferença em vida relativamente a Ferreira é que era uma urbe maior. Ainda tentaram levar-me para o Clube fino e privado da terra, pus lá os pés uma vez e bastou pois aquilo era sítio bocejante, frequentado por agrários que falavam de negócios de cortiça e bebiam uns copos, mais as esposas dos mesmos que, à parte, punham a escrita em dia sobre mudanças sentimentais que metiam casamentos, divórcios e facadas nos matrimónios. Preferia pôr a leitura em dia no meu quarto que aturar as conversas previsíveis do tal Clube que as gentes da terra apelidavam, depreciativamente, de «Clube dos Ricos». Além, é claro, de preparar as aulas, afincando-me na recordação dos temas geográficos e de ciências naturais, de que apenas tinha conhecimentos básicos e perdidos no tempo. De quinze em quinze dias, dava um salto até Lisboa, recorrendo às camionetas dos Belos e que demoravam um tempo enorme a ir e a voltar. No fim de cada mês era preciso avivar várias vezes a memória do Cura para ele se descoser com os honorários, o que acabava por fazer, à terceira ou quarta espera à porta do gabinete directorial, sempre de mau humor e com olhar muito pouco santo quando era apertado para pagar o que devia. Mas eu não abrandava o meu aperto para receber o que me era devido, até porque, entretanto, me casara.

O meu contracto de trabalho foi cumprido até à véspera da minha convocação para entrar de militar no Convento de Mafra para fazerem de mim um garboso oficial do exército colonial. Contracto cumprido, é uma forma de dizer. O Cura acabou a dar-me uma «banhada». Invocou dificuldades financeiras momentâneas mas que me mandaria o cheque referente ao que me devia dentro em breve para minha casa em Lisboa. E achei, então, que um Cura não ia pecar como caloteiro. Até hoje estou à espera dos honorários em dívida. Porque o acordo tinha sido verbal e porque me vi metido em ocupações de militar bem longe de Ferreira, não encontrei forma de obter os meus créditos. Acabei por desistir considerar aquele dinheiro como perdido sob a forma de contributo para a caixa de esmolas da Igreja de Ferreira do Alentejo. Para desconto do meu pecado de, durante a minha estadia, nunca ter posto os pés lá dentro.

 
(Texto revisto de post publicado no Água Lisa.)

 
Biografia de João Tunes.

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