Baía de Argel

 
Um texto de Helena Pato (*)

 
A mensagem tinha-nos chegado, à direcção da CDE, mais ou menos nestes termos: era preciso enviar alguém a Argel para reunir com os amigos da FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional), fazer um ponto da situação no País e informar sobre os mais recentes desenvolvimentos na evolução daquele Movimento, saído da campanha eleitoral de 69. Não me lembro porquê, mas dos membros da Comissão Política fui eu a escolhida. Iria legalmente até Paris e depois seguia com papéis falsos. (Nessa altura, recorde-se, Portugal não tinha relações diplomáticas com a Argélia). Já em Paris soube que um alto dirigente do PCP, na clandestinidade, queria estar comigo antes da minha viagem. Era o A.C. e propunha-me que aceitasse levar a cabo uma outra tarefa: trazer de Argel alguns dólares (não eram coisa pouca…) que haviam sido oferecidos pelo Governo de Boumedienne e se destinavam a apoiar as famílias de presos políticos. No regresso, deixá-los-ia em Paris, para que chegassem a Portugal por outros meios, evitando desse modo o risco de ser presa no Aeroporto de Lisboa por tráfico de divisas. Na saída de Argel não haveria, seguramente, problema; e, depois, na entrada no Aeroporto de Orly, a possibilidade de ser interceptada seria praticamente nula. Contudo, foi-me recomendado que tivesse o máximo cuidado, pois se fosse apanhada teria que assumir a responsabilidade em termos pessoais, ou seja, aqueles dólares eram meus, que inventasse uma explicação que não comprometesse as organizações envolvidas, blá, blá, blá…a conversa do costume para esse tipo de tarefas com risco. Mesmo assim, claro, aceitei.

Lembro-me bem da chegada a Argel. Era um dia de Verão muito bonito, eu estava grávida de cinco meses do meu primeiro filho e feliz, muito feliz, por ir reencontrar-me com o M. e rever outros amigos que se encontravam aí exilados. No Aeroporto esperavam-me os quatro com quem iria reunir. (Ele com um ramo de flores). A estada era de poucos dias, mas apenas cumpridos os objectivos políticos de que fora incumbida, troquei a casa dos queridos amigos Luísa e Pedro Soares, onde me tinham instalado – e que me tratavam como uma filha – pela do M., para podermos conversar horas a fio. Falávamos continuamente, incessantemente do mesmo: do socialismo e da luta contra o fascismo. 

Nas idas de fim de tarde até à baía – belíssima, branca e luminosa Argel! – regressávamos sempre à discussão política, às conversas sobre os amigos comuns e sobre o Partido. A Portugal, em suma. Das voltas turísticas na Medina – ainda guardo o alfinete, o anel e o prato que ele aí me ofereceu… – dos passeios pela cidade e nos subúrbios, ficou-me a memória da paixão com que me mostrava os seus lugares de referência, ligados à história da luta anti-colonial e à Revolução. Na véspera do meu regresso a Paris, ele ainda veio deitar-se atravessado sobre a minha cama, para mais uma conversa, como se dela e de nós dependesse o futuro do País.

Adormecemos vestidos, exaustos com a conversada, e eu acordei preocupada com a operação a que tinha de deitar mãos com urgência: acondicionar meticulosamente os dólares já em meu poder. Eram dezenas de notas, prontas a serem espalhadas por diferentes partes do meu corpo, debaixo da roupa que levaria vestida. Na mala de viagem e na carteira, é que nem uma: esperavam-me duas barreiras alfandegárias. Decidi concentrar a maior quantidade à volta da barriga, uma vez que a minha avançada gravidez me dava já, de si, um volume considerável. Recordo que me sentia pessimamente assim forrada de dólares mas, pronto, partimos alegremente para o Aeroporto: eu, o Manel Alegre e a I.

Juntou-se a nós um casal de amigos residentes em Paris que tinham ido passar uns dias de férias a Argel. Ela, a M. era portuguesa e ele francês, um prestigiado advogado apoiante da luta antifascista. Por coincidência, viajaríamos no mesmo voo. Na gare, já me esperavam os restantes elementos da Junta em Argel (o Piteira, o Sertório e o Pedro Soares) e outros amigos, para um breve adeus. Breve, que eu quase fugi: unida a todos eles por antigos e grandes laços de amizade, percebia que a despedida seria bastante custosa para todos nós. Nessas circunstâncias, nunca se sabia quando (ou se) nos tornaríamos a ver.

Na passagem da alfândega, em Argel, tal como me havia sido garantido, não houve, de facto, qualquer problema. Entrei no avião triste com aquele adeus, incomodada com o calor que as notas me faziam, mas tranquila. A meio da viagem, fui invadida por um súbito medo que ultrapassei distraindo-me na conversa com o tal casal de amigos. Mesmo assim, foi com alguma ansiedade que aterrei em Paris e me precipitei sozinha para a fila de passagem alfandegária. Os meus amigos ficaram meia dúzia de pessoas atrás de mim.

Logo que entreguei o passaporte, o funcionário da polícia francesa perguntou-me qual era o meu destino e pediu-me o certificado das vacinas.
«Vacinas? Quais vacinas?» – perguntei.
«Quais vacinas? Então a senhora vem de um país africano e está a dizer-me que vai para Portugal…Ora para entrar na Europa, precisa de provar que foi vacinada contra a varíola e contra a febre-amarela» – afirmou em tom categórico.
Que horror! Ninguém me tinha informado disso…E agora, as notas? Vão-me despir para me observarem!
«Eu sei, mas como estou grávida …e o senhor bem vê… não podia ser vacinada» – foi o que me ocorreu.
«Talvez…Não sei se está ou não grávida, minha senhora. Isso terá de ser clinicamente verificado. Não é comigo…Passe ali àquele corredor, para ser de imediato observada por um médico. Ele confirmará se a senhora está grávida e dirá se tem de ser vacinada aqui mesmo, ou se vai ficar de quarentena, retida em Paris por um determinado período.»

Distraídos, à conversa, os meus amigos aperceberam-se, de repente, que eu estava a ter problemas e avançaram para junto de mim. Esclarecido sobre o que se estava a passar, Jacques Kotzky, o advogado amigo, apresentou, de imediato, os seus passaportes, ao mesmo tempo que colocava em cima do balcão, um a um, inúmeros cartões que tirava da carteira – todos os relacionados com a profissão e, ainda, uma série deles que certificavam a sua condição de membro e dirigente de várias comissões internacionais ligadas aos Direitos Humanos. («Arrasador» – pensei, orando para que colasse).

Seguidamente, num tom usado para desfazer alguma veleidade de contestação, atirou: «Esta senhora está comigo, passa uns dias em nossa casa e só depois segue para Portugal. Posso assegurar-lhe que apenas seguirá viagem após ter sido observada por um médico em Paris. Garanto-lhe que não porá em risco a saúde pública. Vai entrar e permanecer em França sob a minha inteira responsabilidade.»

O homem, devolvendo os cartões em molho, dizia com grande afabilidade: «Sim, doutor…com certeza, doutor….Se o senhor se responsabiliza, muito bem. Tudo em ordem, fazem o favor de passar. Muito boa tarde e continuação de uma boa viagem para a senhora!»
Uff!

(Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006)

(*) Biografia de Helena Pato

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