Abril 2009


MES - 1 de Maio de 1974
  As quatro fotografias de Rosário Belmar da Costa
   (Clicar para ver melhor) 
 

Como escrever uma posta acerca de uma memória antiga que não surja aos olhos de quem a lê como o rumorejar de um passado morto? Não sei! Apesar do risco sinto que, no terreno movediço das memórias, há exercícios que valem a pena. É o caso deste que partilho convosco. Um dia, nos idos de 2007, através de uma cadeia de amigos chegaram-me às mãos quatro fotografias que testemunham o surgimento público do MES (Movimento de Esquerda Socialista). 

Aconteceu na celebrada manifestação do 1º de Maio de 1974, em Lisboa, a tal inultrapassável em tudo – desde a aritmética à emoção – que autenticou a vitória do golpe militar com a marca de água de uma massiva, genuína e entusiástica adesão popular. Tendo-me chegado às mãos as ditas quatro fotografias, depois de tanto ter cismado acerca da sua eventual inexistência, havia de promover a sua divulgação. 

Escrevi então, se não erro, três postas no absorto que podem ser lidas aqui, aqui e aqui, mas a colecção nunca antes havia sido publicada. O interesse em voltar ao tema, no presente, é, pois, somente o de deixar disponíveis, e arquivadas, nos Caminhos, as fotografias (únicas) da Rosário Belmar da Costa e, em jeito de remate transcrever dois comentários de quem testemunhou, ao vivo, a manifestação (no caso a fotógrafa de ocasião) dando conta da anárquica discussão acerca da sigla do nascente MES que havia de ser, até ao fim, «de esquerda» e não «da esquerda» como surgiu anunciado no artesanal pano inaugural. 

Quem quiser, 35 anos passados, que se entretenha a identificar os manifestantes! 

(mais…)

Um texto de Luísa Tiago de Oliveira (*)
 
Com o 25 de Abril em Portugal, inicia-se uma nova vaga de revoluções democráticas na Europa e no mundo, como têm sublinhado inúmeros historiadores e cientistas sociais.
Nos países a braços com ditaduras, o desejo de mudança e a inspiração «portuguesa» são reclamadas por movimentos de oposição, havendo manifestações onde se pedem «portugaladas» como na Grécia, envolta na ditadura dos coronéis, ou situações em que os militares democráticos são chamados os «portugueses» como na América Latina.
A esperança, avivada pela revolução portuguesa, foi também um dos sentimentos que o 25 de Abril desencadeou em sectores da sociedade espanhola.
É neste contexto que, no país vizinho, alguns militares anti-franquistas constituem a Unión Militar Democrática no Verão de 1974, procurando e conseguindo contactos com militares do MFA.
Num país em que existia a pena de morte, aliás posta em prática meses mais tarde, quando militantes nacionalistas bascos são executados pelo garrote, os militares da Unión Militar Democrática arriscaram. Presos vários dos seus principais dirigentes em Julho de 1975 e morrendo Francisco Franco em Novembro desse ano, a Unión Militar Democrática viu a seu percurso muito perturbado. Julgados em Conselho de Guerra em 1976, os militares presos foram condenados e afastados das Forças Armadas espanholas por largos anos, dissolvendo-se a organização a que pertenciam em 1977.
A própria existência da Unión Militar Democratica, que terá agrupado cerca de duas centenas de militares, independentemente da sua força, desconhecida para o regime, quebrou a imagem de apoio unânime das forças armadas ao regime franquista e, assim, contribuiu, para a disseminação e a legitimização da ideia de mudança.
Tal como aconteceu com a Guerra Civil de Espanha, que hoje representa um espaço de combates pela memória essencial na sociedade espanhola após décadas de silêncio, também sobre as lutas e os movimentos antifranquistas apenas há poucos anos se levantou o manto da denegação, do esquecimento ou da desvalorização. Entre estes movimentos, está o desta organização política de militares, largamente ignorados na transição para a Democracia, sobre cuja acção se começa agora a falar.
Foi assim que, a convite da Associação 25 de Abril, estiveram em Portugal, para participar mas comemorações, alguns dos militares da Unión Militar Democrática como o Major Luis Otero Fernandez, o Capitão José Fortes Bouzan, o Capitão Fernando Reilein, presos a 29/7/75, e o Capitão José Ignacio Dominguez Martin-Sanchez, nesssa data ausente de Espanha e que depois se exilou em Portugal por alguns meses.
No dia 24, visitaram os principais locais dos eventos revolucionários em Lisboa (como o Posto de Comando do MFA da Pontinha, o Terreiro do Paço, o Quartel do Carmo, os vestígios da sede da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso), seguindo-se um jantar comemorativo na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, agora desactivada e, no dia seguinte, a participação nas comemorações do 25 de Abril.
Durante a sua estadia em Portugal, foi também assinado um protocolo de colaboração entre o Foro Milicia y Democracia, cujo objectivo consiste em recuperar e difundir a memória histórica da Unión Militar Democrática no âmbito da luta pela democratização em Espanha, com a Associação 25 de Abril, estreitando-se, assim, laços bastante esquecidos mas que se estabeleceram há 35 anos e que testemunham as diferentes vias de transição para a democracia nos dois Estados ibéricos.
 
 (*) Biografia de Luísa Tiago de Oliveira

Censuricidio1Diário de Lisboa - 1926
  Diário de Lisboa de 24 de Junho de 1926:pela primeira vez, na 1.ª página
   a fatídica frase “Este número foi visado pela Comissão de Censura”
  (Clicar para ler.)
 

Um texto de Daniel Ricardo (*)

Este é o primeiro post de uma série intitulada «Censuricídio», onde será divulgada a versão integral, por vezes mais completa, de textos publicados na VISÃO História, n.º 2 e na VISÃO de 23/4/2008.

 
Contas feitas, José Cardoso Pires chegou a um resultado tão surpreendente como inquietante. No seu livro E Agora José, publicado em 1999, o escritor contabiliza 420 anos de censura, nos cinco séculos de existência da Imprensa em Portugal. E não é necessário recuar muito, no tempo, para identificarmos um dos períodos mais odiosos e obscurantistas da História portuguesa, caracterizado pela «colonização cerebral, domesticação das vontades, apartheid do conhecimento, privação do saber, mentira premeditada, terrorismo intelectual», conforme observa o jornalista César Príncipe, no seu livro Os Segredos da Censura (Ed. Caminho, 1.ª edição, 1979).
Durante os 48 anos em que, no nosso país, se sucederam três ditaduras, a militar, a de Oliveira Salazar e a de Marcelo Caetano, os «coronéis do lápis azul» – assim foram alcunhados os censores por, no início, terem sido chefiados por um coronel e destruírem os escritos dos jornalistas com riscos daquela cor, antes de optarem pela caneta Bic – interpuseram-se entre os emissores das mensagens informativas e os respectivos destinatários, para alterarem, manipularem ou tornarem vazias de sentido as notícias que pusessem em causa o discurso oficial. Simultaneamente, devido à sua invisibilidade, remetiam para os autores a responsabilidade dos textos por eles recriados, como nota Orlando César no artigo O Censor como Enunciador do Discurso do Regime (Notícias da Amadora, 2001).
 Nestas circunstâncias, quem conhecesse Portugal apenas através da leitura dos jornais acreditaria que vivíamos no país das maravilhas. É que não havia aqui prisões políticas, nem contestação do regime, não havia greves nem manifestações de protesto, não se traficava droga, ninguém se suicidava, nenhuma mulher se prostituía, não havia mendigos, nem bairros da lata, nem epidemias, nem delinquentes menores, nem violações, nem pedófilos, nem infanticidas, não estávamos na cauda da Europa nos indicadores culturais, sociais e económicos, nem existia corrupção. Além disso, não caíam aviões. César Príncipe (op. cit.) dá um exemplo: «Em 19 de Novembro de 1977 (pelas 21 e 46), ocorreu um desastre com um aparelho da TAP, no Funchal. A Imprensa, a Rádio e a Televisão frisaram ter sido o primeiro acidente da transportadora aérea civil portuguesa. Ora, a Censura ‘proibira’ um acidente de avião da TAP, em Moçambique, há cinco anos, em 15 de Maio de 1973.» E comenta: «Assim se escreve a História: a grande como a pequena. Não espanta que, só depois do 25 de Abril, certas camadas populares e pequeno-burguesas teçam pessimismos em relação à liberdade. Antes (…) não se assistia a esta ‘pouca vergonha’ de se conhecer o que sucede.»

(mais…)

Abel Manta - Tertúlia
  João Abel Manta: Tertúlia do consultório do Prof. Pulido Valente 

 
Um texto de Daniel Lacerda (*)

A primeira deste texto pode ser lida aqui. 

 
Combate contra os poderes instituídos

Cedo os organismos repressivos da liberdade de criação se voltaram contra os escritores que ousavam elevar a personagens de romance a gente de trabalho ou simples empregados, e no novelo narrativo relatar como eram manipulados e ofendidos pelos cordelinhos da supremacia social. Manuel da Fonseca relatou que levava os seus primeiros romances à censura prévia, para acautelar a despesa insuportável que representaria a sua apreensão pela polícia.
Houve períodos em que se explorava alguma passividade dos governadores civis para promover encontros com os romancistas. Alves Redol, no início dos anos 60, veio ao Ateneu de Leiria fazer uma conferência porque indivíduos como Vasco da Gama Fernandes – o primeiro republicano da cidade de Leiria, depois presidente da Assembleia Nacional – se batiam todos os dias para dar à cidade alguma actividade cultural, sempre em confrontação com as autoridades, que fecharam rapidamente o modesto cineclube. Apenas a conta-gotas era autorizada, sob ameaça, alguma conferência ou concerto e ainda sob vigilância policial e dos«informadores» (os bufos), que estabeleciam listas dos neófitos interessados por esses suspeitos encontros.
Na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, nas Escadinhas do Duque, em Lisboa, Manuel da Fonseca veio relatar – com o seu dom inigualável de contador de histórias – como escreveu a Seara de Vento, desbastando o seu inicial relato dramático dum caso verídico divulgado pelo jornais, até o tornar nessa tensa obra-prima, que para lá do drama do homem só em revolta, germina a organização colectiva, em grande paralelismo com as alternativas sociais do filme Roco e seu Irmãos de Visconti, ou com o debate Sartre-Camus à volta da opção revolta versus revolução. Ninguém podia garantir que a conversa-debate pudesse chegar ao fim, já que os lisboetas reconheciam, dissimulados na assistência, a presença de agentes da polícia secreta. Eram ocasiões excepcionais, consentidas sob caução pelo poder despótico, que jogava com a mais ténue ambição de cidadãos curiosos das novidades da cultura e do mundo. Para ouvir José Tengarrinha expor as suas pesquisas acerca do liberalismo, ou Augusto da Costa Dias os resultados do seu inquérito ao neo-garretismo, era necessário vencer idênticos obstáculos e estar disposto à mesma singular aventura. Era-lhes necessário emudecer a voz de romancistas, poetas e ensaístas, excluindo-se já o comentário político autorizado apenas à pena de jornalistas com beneplácito oficial. Do mesmo modo se impedia os artistas plásticos de vanguarda ou de arte comprometida de expor e de criar assim um público necessário à expressão artística profissionalizada. O grupo coral da Academia de Amadores de Música de Lisboa, dirigido por Fernando Lopes-Graça – figura excepcional da nossa cultura lembrado noutro artigo deste número de Latitudes por Bruno Belthoise – estava sujeito à mesma eventualidade dos esbirros, não havendo jamais a certeza de poder actuar ou ser suprimida policialmente a sessão anunciada, como só muito raramente se atrevia a interpretação da canção fetiche Canta, camarada canta, do repertório das Heróicas criadas por Lopes-Graça por ocasião do MUD sobre versos de poetas neo-realista do Novo Cancioneiro. Nesses anos 50 e 60, exerciam impunemente essa missão as forças ao serviço do grupo político formado por beatos e incultos que se apropriaram do poder e, arrogando-se o destino dos demais, exerciam a mais cruel das violências contra as actividades do espírito.
(mais…)

Aljube

No passado dia 25 de Abril, foi celebrado um Protocolo entre os Ministérios das Finanças e da Justiça, pelo qual a Câmara Municipal de Lisboa assumiu a posse da antiga cadeia do Aljube, onde virá a ser sediado o futuro Museu Municipal dedicado à República, Resistência e Liberdade.

No mesmo dia, foi assinado um segundo Protocolo, desta vez entre o Município de Lisboa e o Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória (NAM), cujo texto se divulga na íntegra e do qual se destaca:

«- Em concordância com esse empenho na salvaguarda da memória, nomeadamente através da dignificação daqueles locais cujos nomes foram sinónimos de opressão, de brutalidade e também de heróica resistência, a Câmara Municipal de Lisboa assumiu o compromisso de colaborar na produção de um Memorial às vítimas da ex – PIDE/DGS;

– Simultaneamente, o NAM, em parceria com o Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e do Arquivo e Biblioteca da Fundação Mário Soares, propõe a realização no espaço do Aljube, entre 25 de Abril de 2010 e 25 de Abril de 2011, da exposição “A Voz das Vítimas”, integrada nas Comemorações do Centenário da República;

– Competindo à Câmara Municipal de Lisboa fomentar e apoiar, pelos meios adequados, as actividades desenvolvidas no domínio social e cultural, a realização da exposição “A Voz das Vítimas” reveste-se de manifesto interesse municipal porquanto contribui de forma significativa para a reflexão e a divulgação dos valores da República, da memória da resistência à ditadura e da liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974;»

Protocolo CML - NAM sobre Aljube

Há 72 anos, em 26 de Abril de 1937, foi destruída a cidade de Guernica.
Neste endereço, um site dedicado a Guernica.

(Contributo de Maria João M. Pires)

25 de Abril

 
José Carlos Ary dos Santos, 1975

 

«O tempo e o modo de uma revolução na visão de dois fotojornalistas» – Alfredo Cunha e Eduardo Gageiro
Ver aqui.

(Via Jonasnut no Twitter)

Salgueiro Maia

A propósito de uma homenagem a Salgueiro Maia, em Santarém, no âmbito das Comemorações de mais um aniversário da Revolução.

Aparentemente uma homenagem igual a tantas outras que depois da sua morte se têm multiplicado, em tão gritante contraste com o silêncio distraído ou cúmplice com que em vida se assistiu à marginalização sistemática, à verdadeira perseguição de que foi vítima. Foi preciso morrer para então lhe serem prestadas todas as honras, num coro de inquietante unanimismo que, acredito, o incomodaria tanto ou mais do que as injustiças e humilhações que lhe doiam a título pessoal, mas mais ainda porque sabia visarem um colectivo a que se honrava de pertencer e que dignificou como ninguém: os «implicados no 25 de Abril»… Como lembrou Matos Gomes, aquando da entrega da mais alta condecoração nacional (Ordem Militar da Torre e Espada), à viúva, Natércia Maia, «se é legítimo pensar que em vida nunca lhe outorgariam esta condecoração, a verdade é que até a sua morte foi um acto revelador das suas excepcionais qualidades, pois de novo congregou companheiros e amigos e neutralizou os que, ao arrepio das suas consciências, mais uma vez, como no Terreiro do Paço, como no Carmo, como no dia do seu funeral, tiveram de se vergar perante ele». (Referencial, nº27).

Mas não foi disso que se falou nessa homenagem que eu dizia ser só aparentemente mais uma. Não se falou do passado, e dos seus fantasmas, apesar de evocarmos alguém já desaparecido. Não evocámos a memória de Salgueiro Maia em litanias de soturna melancolia, tão ao nosso jeito, mas tão ao contrário do recado que nos deixou: que no seu enterro entoássemos Grândola e a Marcha do MFA.

Traçámos-lhe um perfil a partir do muito que generosa e espontaneamente ele foi distribuindo por quem teve o privilégio de o conhecer. E o que é a vida, senão este caminhar para a memória que os outros guardarão de nós? Maia pode orgulhar-se de ter deixado marcas muito fortes que o passar do tempo, ao invés de apagar, mais aviva e ilumina. Dos camaradas de armas, aos companheiros de farra, aos amigos de todas as horas, os testemunhos multiplicaram-se, tocantes de sinceridade, não raro atravessados pela emoção, mas incisivos no retrato a corpo inteiro de uma personalidade e percurso incomuns.

(mais…)

Em Espanha, o júri dos prémios Ortega Y Gasset distinguiu um conjunto de jornalistas que contribuíram para o resgate da memória e a compreensão do passado. El País

25 de Abril

 
Um texto de Helena Pato (*) 

 
Às vezes apetece-me deixar de lado as histórias, os acontecimentos, os factos – tudo o que fez de nós resistentes e lutadores no fascismo, nesse tempo de medo, de violência e de ódio (e também de mediocridade) – e dirigir-me aos jovens falando-lhes de nós, de emoções fortes, irrepetíveis, afectos únicos, paixões, amores, de amigos, gente com alma, vidas com brilho, com ideais, de festas com vozes, com canto, com poesia, todos unidos, de muitos companheiros em todos os lugares do mundo, irmãos de norte a sul do país, e contar-lhes do futebol renhido nos pinhais, da chegada do Godard na espera de Godot, dos piqueniques, dos desejos contidos, do suor do hot rock, das mãos dadas numa alegria inesperada ou numa raiva bradada, dos abraços apertados, cúmplices, verdadeiras promessas de fidelidade para a vida. Um segredo ao ouvido no canto da sala, um papel dobradinho a passar discretamente de mão para mão e o indescritível bem-estar de um alvorecer sem se ser preso.
Veio o 25 de Abril e, num salto de corça, aqui estamos nós. De uma maneira ou de outra, aqui estamos nós com essa memória. Fomos tão felizes!

 
(*) Biografia de Helena Pato

«A RTP Memória vai ter uma programação especial a partir das 22.00 do dia 24 até às 03.00 do dia 26 de Abril, exclusivamente dedicada aos acontecimentos ocorridos naquele dia.
“Fomos buscar uma série de programas e outros conteúdos que existiam em arquivo: documentários, programas musicais (com o Fausto e Zeca Afonso), magazines, para emitir ao longo destas horas. Realizámos pequenos noticiários de dois, três minutos, a que chamámos de Última Hora, sobre o que de mais importante foi acontecendo naquela altura”, explicou Hugo Andrade, director de programas da RTP Memória, ao DN.
Este trabalho foi elaborado em parceria com a Associação 25 de Abril, que ajudou a seleccionar algumas das pessoas entrevistadas, antigos militares. Alguns destes trabalhos irão estar disponíveis no site do canal.»

(Contributo de Maria João M. Pires)

Guiné 1974 - PAIGC em Pelundo

Passaram ontem trinta e nove anos sobre um dos episódios mais traumáticos da guerra colonial. Às 16 horas do dia 20 de Abril de 1970, no norte da Guiné (na estrada entre Pelundo e Jolmete, na região de Teixeira Pinto/Canchungo de etnia manjaca), três oficiais superiores e um alferes miliciano do exército colonial português mais três guineenses colaboracionistas (*) foram mortos por forças do PAIGC. O episódio teve um efeito psicológico assinalável entre os militares envolvidos na guerra colonial não pelo número de baixas mas pela natureza do acontecimento e pelas pessoas envolvidas. Desde logo, porque perderam simultaneamente a vida três oficiais superiores portugueses considerados como pertencendo à nata do corpo de oficias profissionais nos teatros de operações. Depois, porque o alvo da missão dos quatro militares e dos três colaboracionistas guineenses era exactamente o oposto do que aconteceu – concretizar a rendição e passagem para o lado colonial das forças do PAIGC que operavam na região, após aparentemente bem sucedidas negociações de aliciamento realizadas antes. Finalmente, com enorme carga simbólica, pelas circunstâncias em que as liquidações se concretizaram (assassinatos a sangue frio e com requintes de crueldade de pessoas que se encontravam desarmadas). O certo é que o que se previa ser um momento alto da contra-guerrilha, a desarticulação operacional da intervenção do PAIGC no norte da Guiné e com efeitos devastadores na moral e na operacionalidade dos guerrilheiros anticoloniais, transformou-se num dos mais desmoralizadores insucessos do exército colonial português, com enorme impacto psicológico negativo na convicção de combate do exército colonial.

Por razões diversas mas confluentes, este episódio marcante da guerra colonial e as suas sequelas, do ponto de vista psicológico e simbólico, nunca teve tratamento adequado quer da parte da literatura portuguesa sobre a guerra colonial (nomeadamente na componente historiográfica) como da bibliografia do PAIGC ou a ele afecta. Do lado português, entende-se que uma derrota com aquela dimensão e aqueles contornos seja difícil de digerir, embora as vitórias e as derrotas devessem ter o mesmo peso analítico e factual no tratamento histórico do passado colonial feito guerra de conservação do império. O silêncio e pudor do PAIGC perante os acontecimentos é mais difícil de entender, a não ser pela dificuldade de admissão das divisões internas que o precederam e pela forma bárbara como as execuções dos militares portugueses e dos seus colaboradores guineenses, para mais desarmados, tiveram lugar.

(mais…)

Alves Redol
 
 
Um texto de Daniel Lacerda (*)

 
O neo-realismo foi a principal corrente estética que se manifestou em Portugal ao longo das décadas de 40, 50 e 60 do século XX. Contudo este reconhecimento ainda hoje tem contestatários, pois esse movimento de ideias operou um volte-face no sentimento estético e das ideais que perturbou muitos poderes instituídos. Paralelamente a uma modernidade nefelibata representada por presencistas e surrealistas, o novo realismo desenvolveu-se abrindo a mentalidade nacional para os grandes debates sociais do nosso tempo, o marxismo, o socialismo o anticolonialismo e a democracia social. Mas, devido à oposição mouca do poder, no plano das ideias, vingou apenas subterraneamente, para triunfar politicamente apenas com a rebelião do 25 de Abril.
No plano estético, a sua supremacia afirmou-se muito cedo, sendo inoperantes as múltiplas armas que o poder totalitário salazarista pôs em marcha para o travar: censura, limitação da liberdade de expressão e de reunião e repressão policial. O neo-realismo introduzia uma nova visão do mundo, na expressão adoptada por um dos seus maiores teóricos, Georg Lukacs. Daí continuarem a surgir, ainda hoje, denegrimentos e mesmo denegações a seu propósito.
Não vamos enumerar, academicamente, todos os cambiantes dessa revolta estética introduzida nas letras, nas artes plásticas e no cinema por uma nova geração de criadores e que, no caso particular das letras, que mais especificamente nos ocupam nestas linhas, começou a delinear-se no ensaio e na poesia a meados dos anos 30, para ter na prosa de ficção o seu reconhecido início com o romance Gaibéus (1939) de Alves Redol (1911-1969): «Um livro que nunca poderá ser esquecido na história da literatura portuguesa», escreveu Alexandre Pinheiro Torres [1]. O nosso propósito incide na ilustração de alguns aspectos reveladores das obstruções levantadas à progressão desse movimento, pois ele erguia-se em oposição ao conservadorismo que subjaz à mentalidade prevalecente nas camadas dirigentes do país.

 
 
A geração dos neo-realistas

Primeiramente, a surpresa residia em tratar-se duma revolução literária introduzida por jovens de apenas vinte anos e, na sua maioria, de reduzida formação literária, no género cursos comerciais (Redol e Manuel da Fonseca, Antunes da Silva), medicina (Fernando Namora e Carlos de Oliveira). Surpreende a precocidade desta geração marcada pela crise económica dos anos 30, que culminou na guerra civil de Espanha e na segunda Guerra Mundial. Mas, esteticamente, há outras influências internacionais, próximas e distantes, a que, finalmente, a nossa juventude estava muito atenta e aberta: os debates estéticos travados na URSS e na Itália (no cinema e na literatura), a experiência da Resistência do povo francês (através de Aragon, e Eluard, H. Lefèbvre), e o Brasil de Jorge Amado, Lins do Rego e Bandeira.
O escândalo rebenta: esses jovens «aprendizes de escritor» escrevem rudemente, interessam-se por personagens sem realce social, não possuem estilo aceitável pelos académicos e letrados conceituados. Um poeta e ensaísta, Mário Dionísio, que ficará toda a vida amarrado à ambição da exigência estilística, sai a terreiro exigindo dos seus correligionários um redobrado aperfeiçoamento formal. Nas célebres quanto distantes fichas da Seara Nova (a revista era severamente censurada e, nesse tempo, circulava mal), o autor de A Paleta e o Mundo, chegava a dar argumentos, na sua exigência, aos turiferários do passadismo, estribados na arte pela arte. Hoje, depois da investigação oportuna de João Madeira [2], conhece-se também a função que o Partido Comunista lhe incumbia em disciplinar os criadores e polemizar com os detractores, função acentuada de excessos autoritários que Mário Dionísio acabou por enjeitar, salvaguardando a sua liberdade criativa. Todavia, à distância dos anos, ganha todo o significado saber-se que a exigência de aprumo formal partia do próprio interior do movimento, e muita da aparente simplicidade derivava da mudança da objectiva maneada por esse grupo de escritores, que a apontava para as camadas inferiores da nossa sociedade, onde a injustiça social ia de par com o meio onde a riqueza social era criada. O voluntarismo posto na renúncia ao estilo (afectado) ficou logo patente na conhecida epígrafe de Gaibéus [3], que podia ser tomada por alguns como uma autêntica provocação dirigida aos guardiães do estilo romanesco dos salões. 

(mais…)

Liberdade 

Todos os anos, pela Primavera, se surpreende a olhá-los, a esses presos sobre quem – sem que sobre eles os anos passem, fixados para sempre, jovens, surpresos de liberdade e alegria, nesse ano mágico de 74 – ano após ano se abrem as mesmas portas da mesma prisão, com um olhar onde se misturam a emoção e a inveja.

A inveja, sim.

Levou muito tempo a pensar a palavra certa. Que sentimento era aquele que se somava ao outro, colectivo, obrigatório, a emoção perante as grades finalmente abertas? Demorou-lhe admitir que era a inveja. (Ainda não se tornara moda recordar que é com essa palavra que fecham os «Lusíadas».) Mas que outra coisa poderia ser, afinal, se só eles, eles, frente a quem se abriu essa última porta, esse gradão entre o interior e o pátio do Forte de Caxias, puderam sentir inteiramente o significado desse dia, a liberdade reencontrada, a liberdade política, certamente, mas também (mas sobretudo?) a física, nenhuma porta mais, nenhuma grade, entre eles e os que os esperam, entre eles e os mil gestos quotidianos cuja ausência se descobre custar tanto a suportar, tirar da estante um livro ao acaso, abrir uma cerveja, pôr um disco a tocar fora da curta hora autorizada, estiraçar-se no velho divã, discar no telefone o número de um amigo. Luxos irreconhecidos como tal até então, tomar banho em banheira, dormir sem horário, acender um fogão, comer em prato de louça, pedir uma bica escaldada, sorrir a alguém que não se conhece, apagar uma luz, rodar a chave numa porta – coisas de todos os dias, importantizadas pela ausência.

Então, o abrir da porta, essa porta que todos os anos se abre de novo sobre eles, jovens como então eram, sem que nada nos seus traços revele o cansaço ou a desilusão dos anos que se seguiram, traz-lhe a inveja do momento único e irrepetível, daquele instante fugaz em que tudo foi possível, mesmo aquilo que nunca chegaria a sê-lo.

Inveja-lhes esse momento que não teve, essa possibilidade de juntar, no mesmo abraço, no mesmo riso, a liberdade de todos e a sua própria, a festa individual e a festa colectiva.
Teria sido bom, pensa, ter saído da cadeia nesse exacto momento, sem o sentimento de culpa dos ficados para trás, porque todos estariam saindo ao mesmo tempo.

(mais…)

O jornal Público noticia hoje a descoberta num armazém do Estado, em Queluz, de perto de uma centena de caixas com documentos oriundos da Presidência do Conselho de Ministros, referentes ao período entre 1938 e 1957. As pastas já foram transferidas para a Torre do Tombo e poderão ser consultadas em breve. Segundo Silvestre Lacerda, director do Instituto de Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, a diversidade dos documentos agora encontrados poderá levar a que se venha «a confirmar ou a desmentir algumas coisas já publicadas».

Primavera 

 
Rosto sossego em que os perfis se amassam
ou de gaiola fingem, pipilando…
Ó cavalões do medo,
a chuva passa,
a gente passa, sem ninguém que saiba do enredo
e da desgraça.

(O suco da corola é que porém
avisa para sempre que na praça
passa alguém.)

Mas neste riso coxo e saltitado,
mas nesta melopeia menopausa,
mas no senhor por grosso e atacado,
aí resiste e louca existe a causa

pela qual virá uma andorinha
até à vossa orelha, onde se aninha.

 
Pedro Tamen, in Poemas a isto, 1970

Paulo Jacob e José Felício tiveram a feliz ideia de usar o twitter para contar a queda do Estado Novo e as movimentações do MFA entre 24 e 25 de Abril. A conta já pode ser seguida. Resta esperar pelo avanço das tropas.

foto-11Há precisamente 40 anos, Alberto Martins, então presidente da Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), levantou-se para pedir a palavra em nome dos estudantes na cerimónia de inauguração do Departamento de Matemática. O gesto havia sido previamente combinado nas cúpulas dirigentes, mas o impacto que causou foi imprevisto. Na mesa, Américo Tomás dá a palavra, balbuciante, a Rui Sanches, ministro das Obras Públicas, acabando por encerrar a sessão sem a conceder aos estudantes. À saída, a comitiva é vaiada pela multidão de estudantes que decide fazer a sua própria inauguração após a retirada das autoridades. Havia começado a «crise».

Nessa mesma noite, a PIDE prende Alberto Martins. Durante a madrugada registam-se confrontos com a polícia de choque. Na manhã seguinte, o presidente da DG/AAC é libertado e à tarde realiza-se uma Assembleia Magna na qual se exige a participação dos estudantes no Senado Universitário e o reconhecimento de estruturas representativas estudantis como a Junta de Delegados. A 22 de Abril, quando a situação parecia tender para a normalidade, alguns dos principais dirigentes académicos são informados da sua suspensão da Universidade enquanto durasse o inquérito aos acontecimentos ocorridos a 17 de Abril. Logo nesse dia, uma Assembleia Magna decreta luto académico, exortando-se os estudantes a transformar as aulas, sempre que possível, em debates sobre a actual situação. No dia 30 de Abril, o ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva, vai à televisão apontar o dedo à «onde de anarquia que tornou impossível o funcionamento das aulas» (dando a conhecer, inadvertidamente, a agitação que os jornais, a rádio e a televisão não mostravam).

(mais…)

Nos próximos dias 20 e 21 de Abril (segunda e terça-feira), decorre no Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, o Seminário Luso-Brasileiro sobre Repressão e Memória Política. Mais informações aqui.

Saída dos presos de Caxias - Abril 1974

Um texto de Helena Pato (*)

Vi o telejornal do dia 25 em casa de um amigo que eu conhecia da Seara Nova e das CDE. Hoje, passados todos estes anos, não me lembro de coisas que eu então previ que iriam ficar até ao meu fim. Vividos em estados emocionais exacerbadíssimos e numa explosão de afectos, aqueles acontecimentos pareciam estar a ser inscritos de forma indelével na minha memória.

É surpreendente que não tenha a menor ideia do que vi nessa noite na RTP, nem de grande parte do que fiz durante o dia. Ficaram-me retalhos: uma reunião dos familiares dos presos em Benfica, uma ida à rádio, a convite do Comando do MFA para falar em representação das famílias, e o meu Pai, ao meio-dia, no passeio em frente da nossa casa de família, vestido de uma maneira a que nunca se atrevera, nem na noite do forte sismo de 69. Fui lá deixar os meus filhos e ele, em pijama e com um ar calmo, cansado de décadas sem liberdade – referindo-se à PIDE, ao governo e aos fascistas – clamava para os vizinhos e a quem passava: «Eles têm que ser julgados num tribunal plenário. Não pode haver perdão para o que fizeram!» Talvez seja esta a imagem do dia 25 de Abril que retenho com maior precisão. O resto aparece-me formatado em sequências de «quadradinhos» dispersos, como uma banda desenhada desconstruída. Às vezes, colo às recordações que guardo as imagens audiovisuais, reproduzidas na comunicação social ao logo destes trinta e tal anos, e deixo de ter o meu 25 de Abril, para passar a ter um outro, o que a História me vem ajudando a desenhar. Acontece-me dar comigo a responder a questões colocadas por jovens, por amigos ou por alunos, acerca de acontecimentos que eu própria vivi no dia da Revolução, usando informação colhida em documentários transmitidos actualmente pelas televisões, e não, como seria natural, recorrendo ao testemunho pessoal.

Diferente do que me sucede com a memória da noite de 25 para 26: essa é infinitamente precisa. Tenho a sensação de que nada se perdeu e nada foi acrescentado. Nada do que vivi me foi adulterado. A História deixou em branco este pedaço da Revolução?

O estertor do regime revelou-se particularmente difícil para os presos políticos antifascistas. Todos o sabem. Foram muitos os que, de imediato, contaram, falaram, deram entrevistas. Porém, pouco terá ficado registado, gravado, filmado, impresso, acerca do desfiar das horas dessa longa noite, para os familiares que aguardavam, cá fora. Sobretudo em Caxias. Na memória desse pequeno grupo – nessa altura, ainda pequeno grupo – estarão, de certeza, esculpidos pedaços tenebrosos das últimas horas do Dia da Revolução.

Pelas duas da manhã do dia 26, deixei o Forte de Caxias e fui a casa com a Luísa Amorim. Uns minutos depois, saímos com café, cobertores e comidas para distribuirmos por um grupo de soldados que, ao princípio da noite, tínhamos visto acocorados pelas escadinhas abaixo, ao lado do meu prédio, na Penha de França. Encontravam-se ali desde a madrugada anterior, estavam semi-adormecidos e com um aspecto que dava dó. «Um dia, terão a gratidão que merecem…» – dissemos, a sonharmos já com uma estátua, na Baixa lisboeta, ao soldado desconhecido da Revolução de Abril.

Quando regressámos a Caxias fui contactada por um jornalista que nos fez um ponto da situação, dando-nos conta da preocupação com que o Comando do MFA encarava as últimas informações que tinham origem na própria PIDE/DGS. Receava-se que os agentes que permaneciam no Forte de Caxias (e em outras prisões políticas do país), acompanhados por guardas, decidissem exercer represálias e responder aos acontecimentos fuzilando alguns ou mesmo todos os presos. Dizia-se que a forma como viesse a decorrer a ocupação da sede, na Rua António Maria Cardoso, seria um factor decisivo na libertação dos presos políticos e, por isso, o MFA estava a usar do maior cuidado na preparação da entrada dos militares naquela Cadeia. Daí o prolongado aguardar da saída dos nossos familiares.

Nesta linha de preocupações, às tantas, foi-nos solicitado por um mensageiro do Movimento que nos afastássemos do Forte, para que a nossa presença ali não fosse vista como uma forma de pressão. Todavia – garantiam-nos – a libertação constituía uma prioridade da Revolução e continuava a ser negociada, com o objectivo de se evitar um derramamento de sangue. Com mais ou menos acordo, todos acatámos o pedido. Minutos depois, tínhamos decidido que um pequeno grupo se manteria perto dos acessos ao portão da Cadeia e que as restantes pessoas se mudariam para trás, ficando em frente do Hospital Prisão São João.

(mais…)

Fita do TempoEntre a madrugada do dia 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974 vivi enclausurado no Quartel do Campo Grande, em Lisboa, onde hoje funciona uma universidade privada e naquela época estava sediado o 2º Grupo de Companhias de Administração Militar. Lá entrei já a madrugada ia alta, tal conjurado, com o António Dias, após termos perseguido, de carro, a coluna do Salgueiro Maia desde a sua entrada no Campo Grande até ao Terreiro do Paço. 

Já contei essa história. De todas as imagens que guardo na memória, a mais impressiva é a da fragilidade da coluna revoltosa. Não sabia quem a comandava mas o impensável viria a tornar-se realidade. E a vitória dos mais fracos deveu-se, tão-somente, à justeza das suas razões e à coragem do seu líder. Aos leitores mais ortodoxos do colectivismo assinalo que falo num símbolo. Também sei que, desde sempre, reinou a desconfiança, entre os «donos» da mudança, a respeito de Salgueiro Maia, como hoje reina a desconfiança a respeito de tantos que ousam tomar toda e qualquer iniciativa de mudança (o que é a mudança, hoje?). 

Para os «donos» da revolução nem todos devem desfilar na Avenida da Liberdade mas quis o destino – ou a ordem de operações – que quem primeiro nela desfilou fosse Salgueiro Maia que, oferecendo o peito às balas, fez estalar o clic que mudou o rumo da história. Olhem com atenção para as imagens que, por vezes, passam na TV. Esse comandante, Salgueiro Maia, era um entre muitos e quem dirigia as operações era um comando com a seguinte constituição: Amadeu Garcia dos Santos, Hugo dos Santos, José Eduardo Sanches Osório, Nuno Fisher Lopes Pires, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Crespo. O coordenador era Otelo por decisão do Movimento das Forças Armadas. [Ver a Fita do Tempo da Revolução – A noite que mudou Portugal.] 

O tempo faz esquecer. O tempo é malicioso. O tempo mata a memória. Salgueiro Maia não era um oficial crente nos amanhãs que cantam, dizem até que era conservador mas, perdoem-me o plebeísmo, «tinha-os no sítio», estão a compreender! Para dar lume a uma revolução mais vale um conservador com «eles no sítio» do que um revolucionário desertor da coragem no momento da verdade. 

(mais…)

Povo-MFA - J.A.Manta

Sexto post da série ABRIL, mais actual do que nunca e não só por razões óbvias de calendário…mas pela exigência de honrar os verdadeiros heróis de Abril, a começar pelo mais puro e genuino: MFA, o rosto do herói colectivo [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior].

 
1. Toda a experiência revolucionária se constrói em torno de grandes ideais de mudança, transformação e renovação social. São as grandes narrativas simbólicas e mitológicas colectivas que surgem e se renovam com grau de intensidade e visibilidade muito diferentes, mas que têm como objectivo primeiro construir uma interpretação da sociedade através do tempo, não só fornecendo sentido ao passado, como iluminando os caminhos do futuro.
Também o 25 de Abril à sua (à nossa) maneira cumpriu as funções típicas de qualquer ciclo revolucionário: exorcizar fantasmas dos passado (Estado Novo, Salazarismo, Marcelismo, Colonialismo), referendar a comunidade política recentemente criada, enfim, recuar ao princípio, anular o erro, dotar a existência de um sentido em nome de tudo aquilo que se pensa e vive como verdadeiro e justo.
Este complexo de funções cumpriu-se entre nós através de um conjunto desigual de mitos políticos, entre os quais predomina o mito politico do Salvador. Núcleo mitológico de maior ressonância e vitalidade na nossa história, ele surge no imaginário abrilista  corporizado e actualizado no grande colectivo do MFA.
Foi um dos aspectos mais originais inéditos e surpreendentes da revolução portuguesa, um exército que, em vez de um golpe de força para cercear a liberdade, a dá de presente a todo um povo.
O MFA constitui-se assim, como imaginário social de libertação, centro do universo simbólico de luta contra a miséria e a injustiça, Até porque a verdadeira frente revolucionária se estabelece entre as classes populares chamadas a participar colectivamente na melhoria das suas condições de vida e as forças político-militares genuinamente ao lado delas contra as classes anteriormente dominantes.

(mais…)

Ilha da Boavista - Cabo Verde

(fragmento)

Neste ano de 1962
não como Hazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exatamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a mão sei quantos graus de latitude
e de enjôo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exatamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria
Daniel Filipe, 1963

5-ist-assembleia1


Comunicação ao Congresso Feminista 2008, Lisboa, 26 a 28 de Junho de 2008.

Publicado na Revista Latitudes, n.º34, 2009.

1. Num dos seus últimos textos, publicado recentemente no livro póstumo Que força é essa, Madalena Barbosa (2008: 94) constatou a inexistência de grupos feministas actuantes em Portugal antes de Abril de 1974. Não se referia, como é óbvio, à acção mais ou menos isolada de algumas mulheres – menciona, aliás, Elina Guimarães – ou à actividade de estruturas como o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1914-1947) ou a Associação Feminina Portuguesa para a Paz (1936-1952), dissolvidas na sequência da repressão levada a cabo pelo regime na conjuntura política do pós-guerra (Pimentel, 2007). Aludia, isso sim, à ausência de colectivos centrados na imbricação entre o público e o privado, na linha daquilo que ficou conhecido, a partir da década de 1960, como “feminismo de segunda vaga”.

Na verdade, são conhecidas as razões que fizeram com que o Portugal do Estado Novo fosse um terreno árido para a emergência das temáticas feministas. Desde logo, é preciso ter em conta o profundo investimento ideológico do regime na criação de organizações apostadas em identificar a mulher com as funções de “mãe”, “esposa” e “fada-do-lar” (Cova e Pinto, 1997; Pimentel, 2000). A isto deve acrescentar-se, também, um edifício jurídico que entendia a mulher como ser tutelado, o cerco cultural produzido pela censura e a extensão aos mais variados domínios do quotidiano de uma moral católica conservadora.

Por outro lado, e apesar de serem observáveis, no troço final do regime, fenómenos de acolhimento de uma “cultura-mundo” juvenil em expansão (Bebiano, 2003), bem como episódios de crítica contundente aos costumes dominantes – de que a publicação, em 1972, das Novas Cartas Portuguesas [1], foi talvez o exemplo maior – o certo é que o protagonismo feminino na oposição ao Estado Novo se condensou essencialmente em posturas de timbre “antifascista”, em detrimento da problematização das relações sociais entre sexos (Gorjão, 2002). Isso mesmo é ilustrado, já durante o marcelismo, na acção e no discurso do Movimento Democrático de Mulheres (MDM), criado em 1969 na orla do PCP, e das Comissões Eleitorais Femininas, estruturadas em torno da CDE.

Tal não significa, porém, que o 25 de Abril tenha aberto caminho largo aos feminismos (Magalhães, 1998; Tavares, 2000). Demonstra-o, aliás, a vida difícil e precária de um grupo como o MLM (Movimento de Libertação das Mulheres), do qual Madalena Barbosa fez parte. Seguir por aqui, no entanto, seria embarcar numa outra história, uma história de incompreensões datadas que tem o seu exemplo maior na evocação de uma não comprovada queima pública de soutiens na manifestação realizada em Janeiro de 1975 no Parque Eduardo VII (Ferreira, 2000: 206; Barbosa, 2008: 94-96). Por agora o objectivo deste texto é um pouco mais simples: mostrar de que modo a “questão da mulher” adquiriu um protagonismo crescente na intervenção estudantil durante o Estado Novo sem que, no entanto, se desbloqueassem em efectivo os limites à irrupção de um discurso explicitamente feminista.

(mais…)

Planicie Alentejana  

Mais um ano para o início do cumprimento do serviço militar só servia para adiar o inevitável. Tinha que bater lá com os costados, mais tarde ou mais cedo. A guerra estava para lavar e durar e tinha-se atolado num impasse lodoso. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, dizia-se e diz-se. Quem tem vinte e três anos, a minha idade de então, tem é pressa de viver e vive ao momento. Além de não ser nada entusiasmante a ideia de vestir farda, marcar passo e ir para África alimentar teimosias de quem quer andar ao contrário dos ponteiros do relógio da História. O meu «compromisso académico» estava praticamente cumprido. Tinha uma única disciplina «pendurada» que tinha sobrado por causa de uma precedência. Dava três horas de aulas por semana, a sebenta explicava tudo o que havia para saber sobre «órgãos de máquinas» (assim se chamava a disciplina) que metia bielas, cambotas e pistons. No Porto, não me deixavam matricular por causa de um processo disciplinar que lá tinha suspenso por motivo das lutas estudantis, o regresso às aulas em Lisboa (de onde tinha sido despachado para o Porto pelas mesmas razões que agora não podia continuar na Invicta) estava condicionada à garantia de não pôr os pés nas aulas e só lá ir para fazer as frequências. Não me marcariam faltas e eu que arranjasse apontamentos para me entender com as cambotas e as bielas. Tudo bem, o que interessava era o direito a mais um ano de adiamento na hora de vestir a farda, estupidificar na Ordem Unida, cheirar pólvora na carreira de tiro e o pior que se adivinhava vir a seguir. E ir para o interregno militar (três anos da minha vida!) com o curso concluído permitia-me que terminada a tropa procurasse um emprego interessante. Mas não ia ficar um ano parado e sem aulas a preparar exames que não dava luta de estudo. E o meu casamento estava previsto para se dar antes de me fardar. Emprego como deve ser, nem pensar, sem serviço militar cumprido ninguém aceitava mancebos. Jornais lidos de fio a pavio à procura de uma coisita qualquer para me entreter e ganhar uns cobres, desato a responder a esmo aos anúncios em que vou encalhando.  

Às tantas, recebo carta de Ferreira do Alentejo propondo-me ir dar aulas durante um ano lectivo num colégio particular. Lá fui, procurando o director. Apareceu-me o Cura da terra que acumulava com as funções de professor, director e proprietário do Colégio. Ajustámos o preço que era sovinado, e bem sovinado, pelo clérigo. Eu daria aulas até Junho seguinte e ele pagaria, nesse último mês, os honorários das férias grandes. Para meu espanto, o meu Curso de Química pareceu-lhe apropriado a leccionar Geografia e Ciências Naturais, além de Matemática e de Físico-Química. Como a mão-de-obra era barata, ele aproveitava ao máximo. Acordo verbal feito, instalo-me em Ferreira, quarto alugado junto à Estação das camionetas da EVA e lugar contratado na mesa dos comensais do Regedor na companhia de meia dúzia de agrónomos que tratavam do regadio alentejano. O Cura, homem de grande corpanzil e enérgico, tinha vindo do Norte para evangelizar as terras pouco crentes do Alentejo. Tinha metido na cabeça que havia de energizar a modorra alentejana e levar os ímpios sulistas ao bom caminho. Era homem de mil ocupações – presidente do clube desportivo da terra e dinamizador da criação de corais alentejanos pelas redondezas. Além, é claro, das suas funções de docência, directoria e embolso dos lucros do Colégio que tinha, como clientela, os ricos e remediados do sítio que queriam os filhos com o Liceu feito mas sem irem e virem todos os dias de Beja. Era o que hoje se chamaria explorar um «nicho de mercado». 
 
(mais…)

tribunais1

Publicado originalmente no blogue Água Lisa

Numa altura em que a Justiça anda, na consideração pública, pelas ruas da amargura (muito por culpa própria, quando procurou ou deixou mediatizar-se), é oportuno que se pare para pensar no percurso que fez para aqui chegar. E, para isso, interessa, desde logo, saber-se de onde veio. Ou seja, em que árvore foi enxertada. Nesse mister, é oportuníssima a edição do volume volumoso sobre como, décadas atrás, se julgavam os “crimes sociais e políticos” ou os “crimes contra a segurança do Estado” numa obra de académicos que documentam até à exaustão e à perplexidade a ignomínia vestida de toga que perseguia e punia a diferença, desde a grossa à comezinha (*).

Desde então, dessa Justiça sumária comandada a partir da polícia, muito foi o caminho percorrido quando as dobradiças do portão da ditadura se partiram. As mulheres, antes disso sujeitas ao ónus do sexo, irromperam pela magistratura dentro. A legislação floresceu e sofisticou-se com nós. A frequência de Direito passou a ser expediente de licenciatura para meio mundo incapaz de escolher vocação. O segredo de Justiça serve para ser violado por acosso de jornalistas desejosos de partilharem incontinências, vendendo-as em papel ou no écran. Hoje, é um cumprimento formal dizer-se que a Justiça é autónoma e um dos pilares da democracia. Resta o caminho urgente de uma reforma e da redignificação da Justiça que a desaproxime da balbúrdia pública e do seu enxovalho, reversos das suas contradições e vaidades. Para isso, primeiro que tudo, tem que converter-se à humildade do respeito.

Excepto para os apostados na morte do Estado, para que o Estado Totalitário se reerga, no modelo Salazar-Caetano ou seu simétrico, a esperança na recuperação da Justiça, enquanto Justiça democrática, tem direito a existir. E esse voto de confiança pode e deve colher-se no percurso feito que este livro oportuníssimo ilumina. Lê-lo é uma lição sobre a escala de entorses, comparando a prova do tempo dos crimes justiceiros com o dos entorses de crescimento. Mas, for favor, não demorem tanto no caminho a caminhar.

(*) – “Tribunais Políticos – Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo”; Irene Flunser Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola, com coordenação de Fernando Rosas. Edição Temas e Debates/Círculo de Leitores.

A Nova EsquerdaPublicado originalmente na revista LER de Março

Celso Cruzeiro é reconhecido principalmente pela sua actividade como advogado e por ter sido um dos rostos principais da «crise estudantil» coimbrã de 1969. Conhece-se-lhe o activismo constante em alguns dos combates da esquerda geralmente não-alinhada, bem como o interesse por uma leitura interpretativa dos episódios de militância pelos quais passou, mas era-lhe até agora ignorado o gosto persistente e actualizado por uma reflexão teórica aprofundada sobre as circunstâncias, as coisas e as causas da esquerda. Este A Nova Esquerda retoma no título a designação utilizada para definir politicamente alguns dos movimentos radicais das décadas de 1960-1970, mas nem por isso se ocupa em excesso com uma busca retrospectiva das referências que naquele tempo moldaram o percurso do autor. Ao invés, a actualização das leituras e dos debates aos quais este se reporta conferem ao livro uma dimensão exemplar, rara entre nós, de adequação do reconhecimento da mudança do mundo ao pulsar mais contemporâneo do pensamento crítico e da intervenção política.

Esta é, no entanto, uma daquelas obras das quais é habitual dizer-se que valem pelo todo. Não é possível lê-la de forma fragmentada, pois resultaria quase indecifrável um discurso erudito que não se compraz com sublinhados ocasionais. Trata-se de facto de um texto denso, consistente, resultante de um trabalho aturado de cerca de treze anos, através do qual Celso Cruzeiro conduz o leitor por quatro inquietações com correspondência noutros tantos capítulos. A primeira delas diz respeito à busca de um sentido, no domínio da epistemologia das ciências e da reflexão filosófica, para um mundo que hoje, mais que nunca, se revela instável e desconforme os grandes sistemas explicativos da modernidade colapsados a partir do segundo pós-guerra. A segunda ensaia um trabalho de compreensão da realidade actual do capitalismo, da renovação das suas vias e métodos, das consequências da ordem injusta que materializa para a vida das pessoas comuns. A terceira inquietação prende-se com a busca de indícios que permitam entrever a construção de uma teoria revolucionária capaz de fazer frente às novas realidades, à desesperança e às carências impostas pelo actual processo de mudança histórica. E, por fim, o quarto problema conduz o autor ao vasculhar das consequências mais nefastas da presente ordem económica mundial e do aparecimento de algumas das vozes e das tendências capazes de lhe fazerem frente no terreno.

Quando, a dado momento, recorre à voz do economista e filósofo neoliberal Friedrich von Hayek onde este declara não existir actualmente «critério algum através do qual nós possamos descobrir o que é socialmente injusto», Cruzeiro aponta justamente para o inverso: para a necessidade de perceber as causas da injustiça de modo a que se torne possível combatê-la e aniquilá-la. Uma obra marcada, por isso, mais pela esperança que pelo desencanto.

Celso Cruzeiro (2008). A Nova Esquerda. Raízes teóricas e horizonte político. Porto: Campo das Letras – Âncora Editora. 250 págs.

Telefonistas

Oito de Setembro de 1969. Dez e vinte da manhã. Um conhecido oposicionista pega no telefone e marca um número.
A alguns quilómetros dali, na sede da PIDE, um zeloso funcionário escreve:
«Ligou para o 769594 e falou com um indivíduo que tratou por Doutor.»
Mais tarde, ao passar a informação à máquina, em papel encabeçado pelos dizeres PIDE/Serviços de Segurança – Secção Central (C.I.3), com a menção «Secreto» bem visível, acrescentará um novo dado: «769594 – Fundação Calouste Gulbenkian – Av. Berna – Museu – Lisboa.»
Sem o saber, o autor do telefonema lançara a polícia política numa nova pista.
A facilidade de reconhecimento imediato do número para que o telefone sob escuta ligava, aliada à naturalidade com que muitos opositores usavam o telefone, revelava-se um verdadeiro maná para os agentes policiais: não apenas identificavam, de imediato, os telefones com que directamente contactavam, como aqueles que pediam ou davam nas suas chamadas. Um exemplo:
«Do escritório de X, o Y entrou em contacto com Z, a quem pediu o número de W», lê-se num relatório de escuta. Em baixo, o telefone, identificação e morada de W.
Numa entrevista para a série da RTP «Geração de 60», o ex-inspector Álvaro Pereira de Carvalho deu um exemplo da importância da conjugação da escuta com a violação de correspondência, também praticada pela PIDE: numa carta para a família, um jovem oposicionista, radicado em França, anunciava aos pais o seu regresso a Portugal. Suspeitando das suas razões, a PIDE pôs-lhe o telefone sob escuta. Os contactos feitos, as conversas tidas, permitiram à polícia desarticular o grupo a que pertencia.
Depois de tentativas artesanais de escuta, fora Barbieri Cardoso que, usando as suas boas relações com os serviços secretos franceses, conseguira o fornecimento de 45 unidades de escuta que permitiam à polícia  uma nova eficiência: assim que o telefone escutado ligava para outro, o sistema – montado no 4º andar do edifício da sede da PIDE, na R. António Maria Cardoso –  registava o número marcado, começando um gravador a rodar no momento em que era levantado o auscultador. Evitava-se, assim,  a baixa de tensão sentida nas escutas artesanais, alertando para a entrada de outro aparelho no circuito.
A escuta era previamente comunicada ao Correio-Mor dos CTT (Correios e Telecomunicações) e, segundo Pereira de Carvalho [1], «só com a autorização deste é que a central telefónica podia fazer a ligação do telefone posto em escuta na central com a polícia».
Algumas centenas de metros, apenas, separavam a sede da PIDE e a estação dos TLP na Trindade. Em Lisboa, as ligações foram desfeitas em 26/27 de Abril de 1974, pelo corte do cabo co-axial.  Mas, segundo o relatório da Comissão de Inquérito às Escutas Telefónicas, «os cabos que serviam para escuta telefónica não foram retirados», permitindo que, mais de dois anos passados sobre o 25 de Abril, alguém recebesse um telefonema de um trabalhador dessa estação, avisando da escuta aplicada no seu telefone.
Segundo o mesmo relatório, a 25 de Abril de 1974, a PIDE/DGS «dispunha de uma capacidade máxima de escuta simultânea de 56 telefones, em Lisboa, e de 8, no Porto» [2].
(mais…)

Pedro Tamen

 
Quando a lua de joão penha se põe por sobre as casas
A deitar branco e azul por superabundância,
O fofo descritivo deste começar
Faz-se caroço e tapa a voz que há-de chegar.
E são então os pássaros sem asas
Cheios de bicos, brumas, e de infância,
Na capoeira atada e toda rede
Onde a visão de perto é falta de ar,
onde a memória é sede.

 
Pedro Tamen, in Daniel na Cova dos Leões, 1970

Baía de Argel

 
Um texto de Helena Pato (*)

 
A mensagem tinha-nos chegado, à direcção da CDE, mais ou menos nestes termos: era preciso enviar alguém a Argel para reunir com os amigos da FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional), fazer um ponto da situação no País e informar sobre os mais recentes desenvolvimentos na evolução daquele Movimento, saído da campanha eleitoral de 69. Não me lembro porquê, mas dos membros da Comissão Política fui eu a escolhida. Iria legalmente até Paris e depois seguia com papéis falsos. (Nessa altura, recorde-se, Portugal não tinha relações diplomáticas com a Argélia). Já em Paris soube que um alto dirigente do PCP, na clandestinidade, queria estar comigo antes da minha viagem. Era o A.C. e propunha-me que aceitasse levar a cabo uma outra tarefa: trazer de Argel alguns dólares (não eram coisa pouca…) que haviam sido oferecidos pelo Governo de Boumedienne e se destinavam a apoiar as famílias de presos políticos. No regresso, deixá-los-ia em Paris, para que chegassem a Portugal por outros meios, evitando desse modo o risco de ser presa no Aeroporto de Lisboa por tráfico de divisas. Na saída de Argel não haveria, seguramente, problema; e, depois, na entrada no Aeroporto de Orly, a possibilidade de ser interceptada seria praticamente nula. Contudo, foi-me recomendado que tivesse o máximo cuidado, pois se fosse apanhada teria que assumir a responsabilidade em termos pessoais, ou seja, aqueles dólares eram meus, que inventasse uma explicação que não comprometesse as organizações envolvidas, blá, blá, blá…a conversa do costume para esse tipo de tarefas com risco. Mesmo assim, claro, aceitei.

Lembro-me bem da chegada a Argel. Era um dia de Verão muito bonito, eu estava grávida de cinco meses do meu primeiro filho e feliz, muito feliz, por ir reencontrar-me com o M. e rever outros amigos que se encontravam aí exilados. No Aeroporto esperavam-me os quatro com quem iria reunir. (Ele com um ramo de flores). A estada era de poucos dias, mas apenas cumpridos os objectivos políticos de que fora incumbida, troquei a casa dos queridos amigos Luísa e Pedro Soares, onde me tinham instalado – e que me tratavam como uma filha – pela do M., para podermos conversar horas a fio. Falávamos continuamente, incessantemente do mesmo: do socialismo e da luta contra o fascismo. 

(mais…)

Joaquim Souza Teixeira
Em Outubro de 2008, no Colóquio
sobre o Tarrafal organizado pelo NAM!

Joaquim Souza Teixeira nasceu em Vila Real a 2 de Janeiro de 1916.Ficha José Souza Teixeira
Aos 20 anos, em 8 de Setembro de 1936, sendo grumete no aviso de 1ª classe Bartolomeu Dias, foi acusado de insubordinação e entregue pelas autoridades da Marinha à PSP. A 18  do mês seguinte, julgado sob acusação de ligação à Organização Revolucionária da Armada, ORA, foi condenado a 5 anos de prisão celular, seguidos de 10 anos de degredo – ou, em alternativa,  na pena de dezassete anos e meio de degredo «em possessão de 2ª classe».
Deportado para o Tarrafal, ali ingressou a 29 de Outubro do mesmo ano. Em 1942, sofrera já três permanências na «frigideira».
Em Agosto de 1944, foi transferido para o Aljube e, em 25 de Abril de 1945, baixou ao Hospital de S. José, de onde veio a evadir-se, permanecendo a partir daí na clandestinidade.
Morreu ontem, em Lisboa.

Página seguinte »