Cooperativismo

 
Um texo de José Hipólito dos Santos (*)
 
Pré-publicação de excertos da Introdução de Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir – Contributo para a História do Cooperativismo, Edições Universitárias Lusófonas.   
 
Mas foi efectivamente no movimento cooperativo que me envolvi empenhadamente e isso ao longo da vida. (…) Cheguei à sede na Rua dos Anjos, à hora indicada por António Sérgio. Entrei a medo, ainda impressionado pelo ambiente desconfiado do Boletim. (…)
Rapidamente me vi no meio duma dezena de homens, no mínimo, com o dobro da minha idade, cujos nomes e profissões eu desconhecia. A primeira coisa que me chamou a atenção foi ver, em cima duma grande mesa, vários exemplares da revista L’Exprès e do jornal Le Monde que os presentes trocavam entre si, mostrando e comentando algumas notícias. Tinham conseguido fazer uma assinatura colectiva do jornal e na margem da 1ª página havia o nome dos inscritos – muitos – riscando-se o daqueles que já tinham lido aquele número. (…) Antes do começo da reunião propriamente dita, comentavam as notícias mais importantes que tinham lido, os artigos de opinião publicados. O governo muito decidido e progressista de Mendès-France era acompanhado com muita atenção e apoiado, assim como a guerra do Vietnan (ainda na fase francesa) e a guerra da Argélia. Mas o tema mais discutido era o das notícias que começavam a aparecer no Ocidente sobre as transformações na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a revelação do que por lá se passara a seguir à morte de Estaline e da execução de Béria [1]; depois vieram os acontecimentos da Polónia e Hungria, em 1956, e as perturbações que tudo isso provocava em França e na Itália, nos respectivos partidos comunistas e na intelectualidade.
E mais tarde passámos algum tempo a estudar e discutir o Relatório Secreto [2] de Krutchev, publicado no Le Monde, bastante antes de ser divulgado em Portugal.
José de Sousa falava também da sua experiência na União Soviética que o deixara marcado, segundo dizia, com alguns aspectos negativos (por exemplo, o medo dos trabalhadores em falar do seu trabalho e da forma como viviam, ou do que pensavam sobre a situação do país) o que ele não aceitava que se pudesse reproduzir numa futura revolução socialista em Portugal.
Nessa altura eu era o único jovem, e ouvia tudo em silêncio, de olhos e ouvidos escancarados para nada perder. Não sabia absolutamente nada sobre tudo o que discutiam e aquilo ficava-me a trabalhar na cabeça. A pouco e pouco, comecei a pedir esclarecimentos que não deixava de ter, sempre acompanhados com uma grande explicação de contextualização socio-histórica. Acabei por dispor duma informação e compreensão da política internacional e das problemáticas sobre as orientações e funcionamento dos partidos comunistas que me tornaram bastante céptico em relação ao que então os colegas universitários pró-comunistas diziam e explicavam sobre questões políticas nacionais e internacionais. (…)

 
Grupo de «cadastrados»

Aquele grupo em que «caíra», cujos nomes comecei a conhecer e, a pouco e pouco, a saber o seu historial pessoal, era um grupo de «cadastrados» que perfaziam cerca de um século de tempo acumulado de prisão!
Grupo muito divertido, contando histórias de «polícias e ladrões» em que os polícias perdiam sempre – não tenho recordação de ouvir grandes conversas sobre torturas ou espancamentos, quando muito referências; às vezes um ou outro recordava ter encontrado um deles, ali presente, nos corredores da PVDE [3] ou duma esquadra, e do mau estado em que se encontrava em resultado de espancamentos («aqueles filhos da puta» entravam em concorrência a ver quem «dava» mais…).
Era como se isso fosse inerente à luta em que se tinham envolvido, que portanto já era esperado e que fazia parte do passado. Mesmo quando falavam, por exemplo, da «frigideira» [4] no Tarrafal, era mais para contar como se conseguia encontrar pequenas soluções para tornar o quotidiano menos opressivo, enganar os guardas, comunicar com o exterior, esconder alguma coisa, como mantinham o moral elevado e a irreverência sempre activa.
Foi no meio dessas histórias que ouvi o nome do Faustino Campos que respondera com uma chapada ao director do Campo do Tarrafal, quando este o insultara. Eu tinha vivido em sua casa em Lisboa, como sublocatário, com a família quando chegámos do Porto, sem saber quem ele era. Registei também na minha memória a história contada por outro dos membros do grupo, o Acácio Tomás de Aquino. Um dia fora chamado ao director do Tarrafal que lhe comunicou ter terminado a sua condenação de 12 anos. Contudo, acrescentou, tinha de ficar mais 2 anos e 9 meses para pagar a multa de 20 mil escudos decretada pelo Tribunal. O Aquino, sem pestanejar, respondeu: Sr. Director, sou uma pessoa honesta que nunca ficou a dever nada a ninguém. Se sair daqui com vida, sairei com as minhas contas saldadas e de consciência tranquila…
Riam-se muito com as suas histórias e, às vezes, metiam-se comigo dizendo que o meu curso universitário só durava 5 anos, enquanto eles tinham frequentado universidades com cursos ao longo de 10 ou mais anos – a universidade de Coimbra ou a do Tarrafal… Lembrava-me bem de ter visto em casa do Faustino Campos, fragateiro de profissão, os seus cadernos de apontamentos feitos em papel de sacos de cimento. Tinha aprendido o suficiente para me dar explicações de matemática do 6º ano do liceu da época!
E a certa altura, começaram eles a dar-me aulas, através da explicação das suas propostas e reflexões sobre o movimento cooperativo e da sua relação com as classes populares, o que faziam nas reuniões e conversas dentro do Ateneu. Mas também fora, um pouco mais abaixo da sede ficava o Café Ribatejano, onde passei a ter «aulas» de marxismo crítico a partir da leitura do Anti-Dühring de Engels, por parte do França Borges, e de anarquismo pelo Moisés ou pelo Emídio Santana, que me deram a ler o Kropotkin e o Proudhon que depois discutíamos.
Uma boa parte deles eram ex-dirigentes do Partido Comunista e anarquistas, que tinham passado uma parte da sua vida na prisão ou na clandestinidade – casos de José de Sousa, Vasco de Carvalho, ex-comunistas, e de Emídio Santana, Acácio Tomás de Aquino, Custódio Costa, Correia Pires, Carlos Ferreira, Germinal de Sousa, anarquistas. Havia outros «cadastrados», com menos tempo de «internamento», mas sempre significativo: Carlos Cruz, José de Brito (que até fora condenado à morte e salvo uns momentos antes do fuzilamento, na Argentina), Moisés Silva Ramos, dentre os anarquistas, ou José Augusto Machado, militante do velho Partido Socialista Português (PSP). Outros activistas das lutas sociais e antifascistas, como Eduardo França Borges, Manuel Bastos, Roque Laia, ex-comunistas, José Moreira de Assunção, Tibério Gonçalves do PSP.
José de Sousa, Acácio T. Aquino, Carlos Custódio Costa, Carlos Ferreira tinham ido «inaugurar» o campo de concentração do Tarrafal, em 1936, e o Emídio Santana saíra há pouco tempo da Penitenciária de Coimbra condenado pela sua participação no atentado a Salazar, em 1937.
Tudo isto me fazia viver como se tivesse entrado numa nova vida, abandonando a pacatez duma vida tranquila («burguesa»), tendo como referências próximas o meu pai, um democrata, um republicano, que só falava contra o regime dentro de casa, depois de um conjunto de verificações por trás de janelas e portas, e a minha mãe que fora, na sua juventude, uma operária têxtil sindicalista.
Naquele pequeno universo, falava-se abertamente contra o regime e não havia medo, pois todos tinham enfrentado o que havia de pior no regime ditatorial. Na minha juventude e irreverência, entusiasmado, não deixava de ter consciência de que estava a entrar em caminhos que não sabia onde me podiam levar.

 
[1] Homem de confiança de Estaline, membro da direcção do PCUS, responsável pela polícia política, NKVD (que depois viria a chamar-se KGB), e pelas grandes repressões dos anos 30 e 40 do regime soviético.

[2] Relatório apresentado em sessão secreta do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, onde Krutchev relatava os crimes cometidos na URSS nos 30 anos sob a direcção de Estaline, com milhões de trabalhadores internados em campos de trabalho forçado, centenas de milhares de pessoas fuziladas sem julgamento ou com julgamento sem direito a advogado, a eliminação sistemática de dirigentes comunistas históricos, o clima de repressão e tortura generalizada e de censura em todos os campos da arte, da cultura, da ciência.

[3] PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, nome anterior da PIDE, até 1945.

[4] A «frigideira» era uma caixa de cimento, isolada no meio do Campo, exposta ao sol de manhã à noite, que se tornava num forno de dia e num congelador, de noite; só com direito a um pão para todo o dia, uma bilha de água e um balde para as «necessidades» que ficavam naquele forno todo o dia. Sem direito a banho. De noite era a praga dos mosquitos, o cimento como cama e o frio.

 
(*) Biografia de José Hipólito dos Santos

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