Os filhos de EstalineSó pelo título e pela capa (*) poucos deduzirão que se trata de um livro que é essencialmente uma história de amor. Uma história admiravelmente escrita (com a mestria de um grande repórter) e sobre um amor especial. Tão especial que, por a narrativa se basear em factos e não em fantasia criativa, quase apetece, ao ler-se o livro, desejar-se inutilmente que não tivesse acontecido assim, com a «guerra fria» de permeio. Só que sobre isso não há volta a dar. 

Mas sendo uma história de amor, o livro de Owen Matthews (um consagrado jornalista anglo-soviético) é, porque esse é o contexto da génese de vida do autor ao ter nascido de um casamento entre uma cidadã soviética e um súbdito britânico, um livro que diz mais sobre a URSS, os dois lados da «guerra fria» e a Rússia pós-comunista que muitos volumes de sovietologia e de pós-sovietologia. E daí o título. Que, se calhar, até nem está mal. Com o aliciante de se ler com a velocidade e o fascínio de um fôlego. Para depois se parar para respirar e aceitar-se com resignação indignada que Estaline existiu mesmo e deixou sementes que não o deixam esquecer. Não só as sementes políticas, sobretudo as que infernizaram pessoas e sentimentos. E é por isso que acho que o título devia ser outro. Um outro. Que assinalasse melhor uma das magníficas surpresas editorais dos últimos tempos através deste livro sobre um amor.
 
(*) – “Filhos de Estaline”, Owen Mattews, Edições Dom Quixote

 
(Originalmente publicado em Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

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