Sud-Expresso
 
O Sud Express levava mais de trinta horas para chegar de Lisboa a Paris. Partia pelas duas e tal da tarde e, em geral, ia cheio de emigrantes. Vinham à terra passar as suas «vacanças» (assim diziam, já que, não tendo o conceito, desconheciam a designação em português), ou saíam por este meio para trabalhar na Europa. Documentados, eram esses os poucos que não iam a salto. Partiam de Santa Apolónia carregados de mantimentos para meses: vinho, chouriços, bacalhau – tudo o que lhes permitisse amealhar, por lá, mais uns francos e ter sabores e cheiros da sua terra, no dia a dia da duríssima vida dos bidonvilles

Quando, de bilhete na mão, tentei entrar no compartimento, não havia lugar nem para me sentar, nem para colocar a bagagem (pouca) com que eu e o A. iríamos iniciar, em Paris, a nossa nova vida. Os meus companheiros de viagem tinham ocupado todo o espaço. É certo que foi com alguma bonomia que deixaram a descoberto o meu lugar assim que o solicitei, limpando-o de cestos e garrafões. Talvez tenham achado natural (aceitável…) que eu pretendesse fazer a viagem sentada. Difícil foi conseguir que libertassem o espaço por cima do meu assento, para que eu pudesse arrumar aí as duas malas.
Procurei, com esforço, «emergir» do estado de abatimento emocional em que acabava de me despedir da família e de dois amigos, e, cordialmente, sugeri-lhes um modo de solucionarmos a situação. Impossível. A minha bagagem permanecia junto de mim no corredor e, do interior do compartimento, chegavam-me sucessivos ditos, brejeiros uns, grosseiros outros, aparentemente destinados a fazerem-me desistir da minha pretensão. Chamei o «revisor» que, sem contemplações, lhes impôs obediência ao regulamento naquela matéria e me ajudou a subir as malas. Saí dali nervosa, furiosa, chorosa.

 

 
Íamos por perto de Vila Franca de Xira e eu mantinha-me no corredor, à janela, a fumar um cigarro, disfarçando uma ou outra lágrima – para evitar que «aqueles selvagens» me vissem chorar. Atrás de mim, ouvia-os, em voz intencionalmente audível, no que parecia uma atitude de vingança: «Olha prá flausina! Vai às compras pra Paris e ainda vem roubar o espaço a quem é pobre, a quem vai trabalhar… a quem precisa de levar umas coisinhas pra poupar por essas terras…» Foi sobretudo aquela da flausina que me irritou. Flausina, eu?
Os comentários ressabiados prosseguiam e, às tantas, começaram a incidir sobre o casaco em tweed com gola de astrakan que eu levava vestido – e que me dava, realmente, um aspecto de menina da burguesia lisboeta. Referiam-se-lhe como se ele fosse um casaco de peles, tornando-o um obsessivo motivo de implicância (Saudoso casaco que veio a ser o único durante os Invernos de exílio em Paris…). Aos poucos, fui passando da irritação à condição subjectiva de vítima, enredando-me numa furiosa teia de pensamentos contra aqueles emigrantes. Que falta de respeito por mim, desde que entrei aqui! Pareço-lhes uma burguesa imoral, não é? Uma mulher a fumar, mulher bem vestida, viajando sozinha…Mas, em boa verdade, sou uma jovem que vai tentar passar a fronteira, arriscando ser presa, para me ir juntar ao meu companheiro no exílio…Tudo porque ambos estamos ao lado do proletariado, profundamente envolvidos num combate pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores…Deles. Sim, deles, os que, afinal, na primeira oportunidade, me põem no papel de inimiga… Com este raciocínio sentia-me, claro, enormemente injustiçada. A falta que ele, o A. me fazia para, com a serenidade que o caracterizava, contrariar a visão simplista que me deixara de rastos. Tinha sido um dia de emoções e eu não conseguia parar de chorar, logo, não estava em condições de me ir sentar no compartimento.
O comboio estava quase a chegar a Santarém quando me pareceu que já teria uma cara apresentável e a mente algo limpa de pensamentos anti-revolucionários, pelo que decidi tomar o meu lugar. A merenda, carinhosamente preparada pelas mães e mulheres dos meus vizinhos, estendia-se abundante, em piquenique, por todo o sítio. Sobre o meu assento, no chão e ao colo deles, havia marmitas de alumínio, barros, tachos e um garrafão de vinho alentejano com um copo enfiado no gargalo. Assim que entrei, tive a sensação de que ainda era «eu» o tema da conversa. Todos me olharam, apressando-se a libertar o meu espaço. Após um curto silêncio, um deles disse em tom amistoso:
– Vamos a uma merendazinha, menina? As senhoras têm a primazia… Sirva-se, tire lá uma perna de frango e pare com essas lágrimas. Desculpe se há bocado a ofendemos! Olhe que não foi por mal, estávamos na brincadeira consigo. Ao fim e ao cabo, passada a fronteira, somos todos iguais, tudo portugas. Ricos e pobres vamos para uma terra que não é a nossa… À noite quando entrarmos em Espanha, a nós já nos começam a dar as saudades. Alegre-se, que vai aí toda prosa, vai passear, tem mais sorte do que nós… – Até desmancharem a expressão esfíngica com que eu lhes respondia «Obrigada, não quero nada», foram insistindo, numa catadupa de frases tolas, a tentarem provocar-me o riso. Naquele estilo desajeitado, infantil, a que os homens frágeis recorrem quando desejam fazer as pazes com as mulheres. Vencida (no meu lado feminino), acabei por esboçar um sorriso e, segundos depois, estava a comer umas rodelas de chouriço e a provar o vinho para «não lhes fazer a desfeita». Procurei saber de onde eram. De mim não lhes adiantei nada – convinha-me que mantivessem a versão «Passeio a Paris» – mas confesso que, quando uns minutos depois, lhes agradeci a partilha do lanche, já estava novamente reconciliada com os fundamentos ideológicos do combate que nos tinha atirado para o estrangeiro. Abri então um livro e fiz por esquecer que, daí a poucas horas, a polícia iria pedir-me o passaporte. Logo que começou a anoitecer, os meus companheiros de viagem propuseram-me delicadamente fechar as luzes para dormirmos. Aceitei. Passado pouco tempo, porém, com a certeza de que não iria pregar olho, fui para o corredor.
Cerca de uma hora antes da fronteira portuguesa, um deles saiu da escuridão do compartimento, com aspecto perturbado: era o mais velho e mais sisudo. Podia ser que ainda não tivesse sessenta anos, mas as rugas e a expressão cansada do olhar deixaram-me com a impressão de que seria um emigrante já idoso. Quando abriu a porta, ouvi o ressonar dos restantes, lá dentro, a dormirem despreocupadamente. O homem juntou-se a mim e puxámos, cada um, de um cigarro. Íamos calados, lado a lado, junto à janela, quando notei, pela primeira vez, a sua ansiedade. Para fazer conversa, referi-me ao Alentejo – de onde, à tarde, me havia dito que trouxera o vinho – e ele desatou a falar. Da qualidade do vinho do ano, de uma doença recente nos porcos, coisas que realmente me interessavam pouco. Quase não me ouvia, mas eu estava-lhe agradecida por me fazer companhia ali no corredor, distraindo-me da aproximação da fronteira. De repente, reparei que as mãos lhe tremiam e que pigarreava de forma que denotava nervosismo. Percebeu que eu o observava. «Algum problema?» – perguntei, já sem esperar uma resposta franca. «Não é nada. Deixe passar a fronteira e vai ver que fico bem.» E, não fosse eu desconfiar, logo acrescentou: «Sabe, menina, vou pela primeira vez para o estrangeiro. Isto é nervoso por sair da nossa terra…»
Qualquer coisa na sua fala confirmou a minha suspeita de que o homem iria tentar sair com um passaporte falso. Apertei-lhe discretamente o braço e disse-lhe baixinho: «Tenha calma e na fronteira, quando a polícia entrar, veja se põe uma cara mais descontraída. Logo que você lhes der o passaporte, enfie as mãos nos bolsos, disfarce, homem…olhe que está a tremer muito!» Nada me disse. Encheu o peito de ar e foi andando até ao fundo do corredor, com aquele pigarro incontrolável.
Não tardou muito, connosco já sentados, chegaram os «guardas» da fronteira portuguesa. Abriram as luzes, pediram os passaportes e verificaram com especial atenção os documentos de um dos rapazes (por ter idade de ir à tropa) e a autorização do meu marido para que eu me ausentasse para o estrangeiro sem ele (Autorização que ele me deixara antes da fuga para Paris!). Levaram tudo. Enquanto aguardávamos, eu só desejava que a PIDE não tivesse ainda agido e avisado a polícia de fronteira da fuga do A., que não tivesse havido coordenação entre as polícias fascistas. O alentejano estava lívido. Até a polícia espanhola vir devolver-nos os passaportes, nem ele, nem eu abandonámos o compartimento. Os outros, meio estremunhados, levantaram-se e saíram. Depois, quando já todos tínhamos os papéis connosco, a luz voltou a apagar-se, mas nenhum de nós os dois conseguia adormecer. Voltámos ao corredor, passeámos, fumámos um cigarro e outro e mais outro, gastando o tempo num silêncio a que só pusemos fim na altura em que o comboio rolava rápido sobre os carris estreitinhos, em França. Cá para mim aquele homem ia entalado. Fugia?
Eu tinha notado a satisfação dele logo que, em Espanha, recebera o seu passaporte. No entanto, tal como eu, aguardou que a língua francesa se fizesse ouvir nos altifalantes da gare de Biarritz para começar a desabafar. Devagar, começámos então a cruzar as nossas histórias. Agora, estávamos em liberdade e tínhamos muitas horas de viagem pela frente. Conversando, a sós, num compartimento do comboio francês, o segredo de ambos, tudo o que, hora após hora, havíamos escondido, surgia em espiral: finalmente a razão pela qual cada um de nós ia para Paris. Ele, abismado com o que me ouvira, falava atabalhoadamente e não parava de dizer: «A amiga não vai acreditar! Não vai acreditar…Diga-me quando foi que o seu marido fugiu. Ele não esteve preso nas eleições?»
Seria possível?
O alentejano explicou como conhecera o A., anos antes de nos casarmos, e insistia em querer saber se ele ia estar na estação à minha espera. Nervosamente (ainda nervosamente), falava sem interrupções e, de minuto a minuto, comentava a surpresa e a satisfação por o terem deixado passar na fronteira: «O mal que aqueles sacanas – a amiga desculpe – me fizeram! Agora, por fim, acabaram-me com a “vendazinha” que era o meu ganha-pão. Diziam que, à noite, com as portas fechadas, se ouvia lá a Rádio Moscovo e mandaram-me o recado: que me preparasse que, um destes dias, ia preso outra vez. Tive de fugir para casa de um compadre meu, para Aviz. Era sempre isto. De cada vez que havia eleições, vinham um mês antes, com camionetas buscar-nos às dezenas e punham-nos em Caxias a pão, água e porrada. Malandros! Estou farto, vou tentar a minha vida na França, que eu sei trabalhar em qualquer coisa.»
A viagem de várias horas em França já ia longa, já me tinha contado a história da sua vida, mas não se cansava de voltar às recordações da última prisão, durante a campanha eleitoral do Humberto Delgado: «Fechados os dois, eu e o Alfredo, o seu companheiro, amiga, naquela cela sem luz, sempre às escuras…com um balde para fazermos as nossas necessidades – chamam-lhe o segredo. O magano como era jornalista sabia de tudo e muita coisa me ensinou. Sempre a dar-me coragem! Saiu primeiro, mas ficámos amigos. O pior veio depois, quando me puseram sozinho. Até uma unha me arrancaram. Toda a gente soube disso, veio no “Avante”, a amiga não ouviu falar?»
De facto, muito do que me estava a dizer já me tinha sido contado, mas eu nunca o tinha visto. Era «o amigo de Santiago do Cacém».
Horas a fio de conversa, com ele mais calmo, numa alegria de miúdo por estar em liberdade e ir ver o A. Só lhe vieram as lágrimas aos olhos ao lembrar-se das saudades que iria sentir da terra, da família e dos amigos, mas abriu um sorriso quando me perguntou se a Rádio Moscovo chegava a Paris e eu lhe disse que sim.
A chegada à Gare de Orléans-Austerlitz foi o fim de um pesadelo. Por instantes, tive a percepção de que estava a sair do campo do onírico para a vida real e dura do exílio. O meu A. estava à minha espera numa gare que me pareceu completamente vazia. Nunca se me apagou da memória esse momento.
Minutos depois – já eu lhe tinha contado quem vinha comigo no Sud Express – surgiu, de entre a multidão que enchia a Estação, o P., o amigo alentejano. Abraçámo-nos os três.

 
(Adaptação de um texto publicado in Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006)

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