Sibéria

Ir à terra é rever os amigos, saber quem nasceu ou morreu, visitar o único moinho de vento a moer trigo, sobrevivente dos muitos que alvejavam no cimo dos montes que se erguem em redor da aldeia e são a antecâmara da Serra de Montejunto.
E constatamos o envelhecimento da população, o declínio da agricultura e também como surgem iniciativas culturais. A terra tem um ginásio, classe de ginástica, futebol de salão, sala de exposições, escola de música, rancho folclórico ainda que com futuro incerto devido ao fraco crescimento demográfico e à fuga para a cidade. Na minha infância só havia o salão paroquial, que ainda existe, onde passavam de longe em longe uns filmes, em 12 partes, em que o padre da terra, que vigiava a projecção, ocultava com a mão em frente do projector cenas com mulheres decotadas ou saias curtas e os homens menos respeitadores protestavam com longas assobiadelas contra o zelo, a seu ver excessivo, do prior com a saúde moral do seu rebanho.

É do Vilar do Cadaval que estou a falar. Aldeia que na primeira metade do século passado tinha transformado em belos vinhedos todo o campo em redor e vivia o apogeu das vindimas com o mesmo fulgor e excitação com que celebrava a procissão do Senhor dos Passos e os festejos à Senhora do Ó. Onde antes se ia à taberna ou à missa e também, mas só alguns, à pequena tertúlia da farmácia e agora os mais novos vão à internet, disponível em dois dos cafés da terra e na sede da Junta de Freguesia. 

Falar da terra é quase sempre um pretexto para evocar a juventude, no entanto do que eu vos queria falar é de como aproveitei o tempo a revolver arcas esquecidas no sótão, cheias de trastes velhos.

Entre os papéis encontrei molhos de cartas atados com fitas de cores debotadas e, num deles, uma carta de um tal F. Lourenço dirigida ao meu pai, então em Nova York, com a data de 29 de Julho de 1933. Lembro-me das histórias que ele contava do maravilhoso mundo novo e também sobre a grande depressão de 29 que atormentadamente viveu, dos «banqueiros falidos que se atiravam dos arranha-céus», do movimento radical e dos protestos contra a condenação à morte dos inocentes Sacco e Vanzeti, no ano de 1927. 

A carta tem um interesse particular porque é dirigida da… Sibéria.

Infelizmente, a missiva não tem o nome da cidade de onde foi remetida, talvez não se tratasse de nenhuma cidade, talvez uma vila ou mais provavelmente um povoado perdido na imensidão da Sibéria. Em todo o caso muito perto da linha do Transiberiano, linha-férrea que atravessa dois continentes.
O meu pai falava-nos de colegas de trabalho, amigos e namoradas, quando evocava com saudade a sua aventurosa vida no Novo Mundo, os EUA. E falava de um desses colegas, que talvez fosse este F. Lourenço que tinha ido como «voluntário com outros operários e técnicos especializados para a União Soviética, para a Sibéria para ajudar a construir o socialismo, o país dos trabalhadores». Sociedade que não teve um fim feliz como ardentemente desejavam.

A carta, com uma pequena mancha ferrosa, está muito bem conservada. Escrita à mão, com tinta que se percebe ter sido azul, letra bonita, legível, inclinada para a direita, em papel de carta com linhas, enchendo frente e verso de uma única folha.
A última mensagem já não coube nas linhas e vai na margem, em cima à esquerda, no verso.

Ei-la:
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«Cruz

Estimo a sua saúde, igualmente de todos os seus, eu bem felizmente.
Já há bastante tempo que era para lhe escrever, mas como só agora nos foi dada a nossa localidade permanente, pois queria-lhe dar as minhas impressões da nossa situação aqui. Começo por lhe dizer que quando cá chegámos e que começámos a trabalhar, os nossos directores de cá nem só nos fizeram uma grande recepção in «Moscow» como apenas viram que nós produzíamos melhor serviço do que eles esperavam, trataram de nos transferir para uma localidade maior e melhor, aonde já tinha electricidade, e uma grande oficina com todas as máquinas já montadas; temos casas com aquecimento temos um grande restaurante aonde vamos comer, temos uma grande casa de banho construída a tijolo, assim como a nossa oficina e também tijolo. Mas as casas de viver e o restaurante e fábrica de serração, e fabrica de “shingles” para construção de telhados, são construídas a madeira uma construção muito sólida – então.
Estão agora construindo uma grande casa moderna estilo americano para nós americanos. Eles têm cá boas casas, mas o grupo parece que não gosta muito de elas, e então eles para lhes fazer a vontade estão construindo esta casa. Temos rádio na casa de jantar, temos cinema lá uma vez por outra, em fim não estou desanimado com isto. As comidas não são más, quase todos os dias temos carne duas vezes, não é com muita abundância mas é fresca e é mais do que eu comia em Portugal, pão temos 800 gramas é suficiente para uma peça.
Já me esquecia de lhe dizer que também temos estação de caminho de ferro neste sitio que ultimamente nos foi dado. Esta é a linha que vai de Moscow a “Vladisvostok” Sibéria. Então como vão as coisas por aí? Então tem visto “a minha Vaccarela”? Eu escrevi-lhe há dias. Mande-me dizer se ela tem frequentado o movimento radical. Eu queria ver se ela aqui vinha ter comigo. Por hoje nada mais, Sou quem sabe

F. Lourenço.»
Agradeço que me escreva e me dê as novidades de aí.
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Este singelo e emocionante testemunho evoca ao vivo a inabalável esperança de muitos trabalhadores e intelectuais num mundo novo a construir na antiga Rússia dos czares desde a Grande Revolução de Outubro de 1917. E dá notícia das condições de vida na imensa taiga siberiana e também do estado de espírito do português-americano que trocou os fulgores resplandecentes da 5ª Avenida pela Sibéria, bravia mas promissora de um grande desígnio, dezasseis anos após a revolução bolchevique.
Lourenço pensa na sua Vaccarela, provavelmente uma italiana, quSibériae não sei se terá ido ou não ter com ele, como ansiosamente desejava. Lourenço está preocupado com o comportamento político da namorada e quer saber de fonte segura do seu companheiro do movimento radical – leia-se socialista ou comunista – se ela continua a frequentar o Movimento. Isso seria também uma garantia maior para a eventual decisão, decisão muito arrojada, de se juntar ao companheiro, naquela perdida Sibéria, que apesar da inigualável beleza da infinita floresta, era uma Sibéria sem conforto e sem a proximidade de uma visita à Broadway, à 5ª Avenida, ao Central Park ou lá acima junto às nuvens, ao terraço do Empire State Building (As Twin Towers ainda não tinham sido construídas. Nem dramaticamente destruídas).

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