Guiné
 
É um dado normalmente adquirido que no «virar» do corpo de oficiais profissionais do exército colonial contra a continuação das guerras e que desembocou no 25 de Abril, teve influência importante o «contágio político» devido à incorporação, como oficiais milicianos, de muitos dos dirigentes e activistas (os que não optaram pela deserção e exílio) vindos dos movimentos estudantis em que se contestou a ditadura. Ao proceder à mobilização militar massiva de activistas estudantis politicamente formados e radicalizados, muitas vezes «por castigo» e interrompendo cursos, dando-lhes comando de tropas nos cenários de guerra, colocando-os até em maioria relativa quanto aos oficiais de carreira dentro das unidades militares coloniais, a ditadura cometeu um erro sem alternativa. Uma influência política e ideológica é sempre difícil de medir. Neste caso, há uma evidente penúria de meios para medir o fenómeno desta «contaminação» e o seu grau de importância na queda da ditadura e no fim da guerra colonial. Por um lado, os militares de carreira «abrilistas», por auto-estima, dificilmente valorizam o efeito político neles havido vindo dos seus convívios com os oficiais milicianos (seria admitir que «importaram» a consciência cívica e política adquirida e afirmada). Entretanto, os oficiais milicianos que fizeram a guerra, na sua maioria, prefere não falar dela. Finalmente, há uma evidente carência de estudos por parte de especialistas em tratamento de assuntos da memória que abordem esta componente da problemática da guerra colonial, particularmente no seu ocaso. 

O fenómeno aqui referido não se verificou de um modo homogéneo, longe disso. Nas três unidades em que estive colocado na Guiné (1969/1971) durante dois anos, vivi três experiências distintas, desde conhecer impenetrabilidades políticas de corpos de oficiais profissionais até ao desinteresse por política de muitos milicianos, passando por efeitos evidentes do desgaste da guerra e da descrença quanto ao seu desfecho em que se conjugava a erosão de sucessivas comissões cumpridas nos vários teatros de guerra e a doutrinação política e ideológica de milicianos politizados pelas lutas estudantis, politização esta que muitas vezes era suportada nos mesmos textos que orientavam a guerrilha inimiga (Mao, Che, Giap, Ho Chi Minh, Cabral). Retenho desta experiência inolvidável, o ano de 1970 em que estive colocado num batalhão de artilharia sedeado em Catió (sul da Guiné) e em que tive a percepção clara que a guerra colonial não ia durar muito mais tempo.

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As noites em Catió seguiam a rotina própria de quem não tem outra escolha que dar cabo do tempo. Esperando que a comissão chegasse ao fim. Esperando. Não havia trincheiras nem valas e os edifícios eram todos cobertos (apenas) de chapas de zinco. Spínola não permitiu a abertura de valas de abrigo para que a tropa não se degradasse em espírito defensivo. Isto dizia ele. Não havia condições para se sair do quartel e, mesmo que houvesse, não havia para onde ir. Na época, Catió já estava isolada dentro da zona libertada pelo PAIGC. O abastecimento era feito apenas de lancha marítima ou por avião. E assim era nas ligações da sede do batalhão com as companhias subordinadas localizadas mais a sul, em Cacine, Gadamael, Guileje. Na época das chuvas, cada um destes quartéis passava semanas em completo isolamento. A comida era má e a falta de «frescos» (legumes, tubérculos, fruta, carne, peixe) muito frequente. Passavam-se semanas a fio em que, ao almoço e ao jantar, se repetia a ementa de enlatados (salsichas, chispe com feijão em conserva). Quando a repugnância não permitia ingerir tanto enlatado seguido, o recurso era consumir quilos e quilos de ostras e camarões, em que o rio próximo era rico, comprados à população a preços insignificantes. Até se enjoar a ostra e o camarão e se desejar voltar a atacar a chispalhada enlatada.

Era usual o Nino Vieira mandar morteiradas para flagelar o quartel durante a noite. Com a continuação, a direcção de tiro era eficiente e praticamente todas as granadas acertavam dentro do quartel. Havia que retaliar de imediato com artilharia pesada e tratar das baixas quando as havia. Depois, avisar Bissau e esperar pela madrugada seguinte para que os caças Fiat fizessem estragos nas posições do PAIGC e os helicópteros evacuassem os mais azarados na roleta da guerra. Naquelas condições, terminado o jantar, não apetecia ir para a cama. Porque o que custava mais era estar-se deitado tentando dormir a olhar para o tecto zincado e constatar que aquilo era o mesmo que uma mera folha de papel como obstáculo à entrada de uma granada de morteiro. Assim, depois de jantar, todos os oficiais se juntavam no bar e bebia-se, bebia-se, até deixar de se ter medo por não se ter lucidez para se sentir demais onde se estava e nas condições em que se estava. Os serões iam decorrendo tristes porque se estava numa letargia de espera, sempre à espera. As conversas de entreter a espera iam variando num círculo temático repetido, cada um falava de si e da sua terra, da família que se tinha e se estava para ter, dos livros e revistas que se trocavam, liam e reliam, pouco da guerra, muito de política em que o tema era animado pelos oficiais milicianos, quase todos vindos directamente das lutas estudantis para o serviço militar. Por volta das onze da noite, era habitual o Major Rodrigues, Segundo Comandante e com uma licenciatura em Farmácia, ir ao seu quarto buscar um calhamaço de Química Orgânica e organizar comigo (único parceiro com formação em Química) uma interminável sabatina de acerto de equações de reacções químicas. Esticavam-se os artifícios de convívio até as cabeças doerem e haver a coragem da inconsciência sonâmbula de se rumar para a deita transportando cansaço e um teor etílico suficiente para se enfiar a cabeça na almofada e não se olhar a fragilidade do teto zincado.

Uma certa noite, o Major Pessoa, o Oficial de Operações, lembrou-se de fazer um inquérito, género referendo, e perguntar aos presentes quem era a favor da continuação da guerra contra o PAIGC. Só um alferes miliciano (que, entretanto, metera os papéis para seguir carreira na GNR) disse que sim, concordava com a presença portuguesa na Guiné. Todos os restantes, oficiais, milicianos e de carreira, entendiam que era um estupidez teimar numa guerra perdida, evidenciando-se o absurdo de o corpo de oficiais de um quartel constantemente atacado estar, em termos dos partidos na guerra, do lado dos atacantes.

O Comandante, o Tenente-Coronel Melo, quando não se aguentava com os copos procedia a uma liturgia que se repetiu várias vezes. Levantava-se a custo e dizia-nos autoritário: senhores oficiais, façam favor de embarcar imediatamente no meu jipe. E lá ia toda aquela dezena de oficiais que havia no quartel, à molhada numa viatura de quatro lugares. O Comandante compunha a boina em jeito marcial e conduzia o jipe para a pista de aviação em terra batida. Durante uma dúzia de vezes, o Tenente-Coronel acelerava o jipe pela pista fora simulando o descolar de um avião. Aquelas gincanas eram acompanhadas pelos gritos desafinados do oficialato etilizado de Catió, em que dominavam TIREM-ME DAQUI!, A GUINÉ É UMA MERDA!, QUERO IR PRA CASA!, MORTE AO CABRÃO DO CACO!, para só citar as passíveis de transcrição. O jipe do Comandante nunca levantou voo. Quando convencido desta evidência, ele parava o jipe e dizia: como esta merda não levanta voo, vamos fazer uma manifestação contra a PIDE. E embalava o jipe até parar frente às instalações da delegação da PIDE em Catió (era fora do quartel e chefiada por um agente europeu que vivia lá com a mulher). Então, normalmente por volta das duas da manhã, o oficialato da Guiné deitava cá para fora toda a força que restava e gritava, em uníssono, MORTE À PIDE! Depois de o protesto se repetir meia dúzia de vezes, era o tempo de regresso, com voltas pelo escuro até tudo ir para a cama e esperar, esperar sempre, confiando que a noite não trouxesse trovoada. E assim se foi fazendo a espera em Catió. Até chegar a hora de regresso para os que regressaram. Nem um voltou no jipe do Tenente-Coronel Melo, esse nunca saiu de Catió.

Biografia de João Tunes.

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