Salazar 

A revolução do 25 de Abril foi de uma generosidade sem limites. E não me refiro somente à assumida economia da força que a cunhou como uma das revoluções mais pacíficas da história. Refiro-me também à excessiva condescendência para com os seus adversários, de que o tratamento dos pides (brindados com as suas reformas pagas com zelo e a horas), o exílio dourado dos principais responsáveis pelo Estado Novo, o regresso para morrer na cama do «Supremo Magistrado da Nação», Almirante Américo Tomás, os repetidos regressos do «inspector Rosa Casaco» ao local do crime, são apenas alguns, de uma longa lista de episódios de profundo significado político e simbólico.
Dir-me-ão que são águas passadas, que a superioridade moral dos vencedores e, sobretudo, a incontestável legitimidade da democracia são armas invencíveis contra minorias ressabiadas e derrotadas pela história.
Nessa convicção (de boa ou má fé) se conviveu pacificamente com Salazar e com o salazarismo. A sua sombra (ou o seu cadáver insepulto) circulou por aí, aos ombros dos seus devotos saudosistas, enquanto que muito sensatamente se comentava que a democracia não tinha tabus, que a melhor cura do trauma é a sua verbalização, etc., etc…
Falar cura, portanto há que falar. E falou-se muito de Salazar nestes quase 35 anos de democracia. Falaram cientistas, sociólogos e historiadores em colóquios, debates, encontros, seminários, trabalhos escritos de inegável qualidade, num real esforço de explicação do que era este pais sob Salazar, bem como os reais contornos da sua figura e da sua acção. Falaram escritores e jornalistas denunciando o lado mais negro e silenciado da ditadura e do seu chefe supremo.
Podemos hoje dizer que se conhece quase tudo sobre as circunstâncias históricas (materiais, técnicas, jurídicas, burocráticas) que possibilitaram 48 anos de fascismo já passado, mas tudo isto parece estranhamente confinado a um público restrito, de académicos e estudiosos, porque subsiste ainda uma paradoxal incompreensão sobre a significação ética e política dessa experiência totalitária, bem como da dimensão humana dos acontecimentos. Isto é, da sua actualidade.
Por mais que nos lembrasse Eduardo Lourenço que o fascismo não era uma conta mal feita que se apaga e se corrige, mas uma verdadeira tragédia nacional que, além de um juízo histórico, exigia um implacável juízo ético de toda uma comunidade, ninguém levou verdadeiramente a sério esse imperativo cívico. A maneira como o poder político saído da revolução tem tratado a memória desse período, de que temos exemplos gritantes na destruição sistemática dos locais da repressão (António Maria Cardoso, Forte de Peniche, Tribunal da Boa Hora, para só citar os casos mais actuais) são a melhor prova dessa menoridade cívica e cultural.
Cultural também, obviamente. Porque herdeira e devedora de Abril, esta democracia foi incapaz de construir de si mesma uma contra-imagem suficientemente forte e consistente, que se opusesse à imagem laboriosamente construída pelo salazarismo, ao longo de 48 anos. A ideia tantas vezes repetida de que, com o 25 de Abril, encerrámos um ciclo histórico, o «ciclo do império», serviu quase exclusivamente aos políticos, mas foi incapaz de mobilizar toda uma sociedade em verdadeiros projectos colectivos de mudança e transformação. 

A ditadura do modelo empresarial em todos os domínios do social e do politico a que assistimos, não só deu a Salazar um novo fôlego, como lhe recriou a imagem. Para trás fica já, na vertigem devoradora do marketing, a sua vitória no concurso Grandes Portugueses, através de uma eleição «tão livre e democrática como na democrática Inglaterra»…
E pela mão não já de sábios estudiosos, ainda demasiado sérios, mas de talentosos criativos vemo-lo metamorfoseado em verdadeira estrela pop. Uma das inumeráveis publicações a que o público tem direito, publicitava-se em gigantescos outdoors: «Nem bom nem mau, incontornável!» e ainda: «Será a história como a pintam?» E desafiando todas as convenções, a figura de Salazar trocava a sobriedade do preto e branco (afinal só assim o conhecíamos, pois naquele tempo distante não havia fotos a cores) por um banho de cor que não deixaria de convidar a uma revisão da antiquada imagem do fato escuro, chapéu enterrado na cabeça, e botas de elástico…Afinal isso podia ser tão só a defesa ou o disfarce de uma personalidade a descobrir e (quem sabe?) a admirar…
E não foi preciso esperar muito para que essa personalidade se revelasse em toda a sua humana riqueza e complexidade: Afinal o ditador responsável pela guerra colonial e seus massacres, pela censura, pela repressão, pela prisão tortura e morte dos opositores, pela farsa que eram os seus julgamentos, pelos saneamentos e expulsão da função pública, pelos campos de concentração como o Tarrafal, pelo medo como fonte da ordem e da autoridade, era afinal, além de um brilhante estadista, um homem sensível e cheio de charme, indefeso perante os encantos femininos (ou irresistível sedutor!), um D. Juan em versão erudita, um quebra-corações em versão mais popular… Afinal uma imagem bem mais simpática e actual do que o misógino celibatário, casado com a Pátria, o camponês desenraizado na grande metrópole, que não trocava por nada os seus serões caseiros, as suas mantas, as suas botas, as suas galinhas…
A sombra de Salazar (ou o seu cadáver insepulto) circula por aí já não como herói ou carrasco, mas como imagem de marca que vende. «Nem bom nem mau, incontornável!» A contra-imagem custa a sair.

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