Judeus 

A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.

Em Bordéus, cresce a pressão dos refugiados: se, entre Novembro de 1939 e Abril de 1940, a média mensal de vistos concedidos é de 20, em Maio essa média é de 8 vistos por dia na primeira quinzena, subindo depois para 160. Junho começa, aparentemente, mais calmo, mas, a partir de 14, volta a subir. 

Entretanto, o católico Sousa Mendes – que colocara, na sua casa de Cabanas de Viriato, um Cristo Crucificado como testemunho da sua fé – vai encontrar aquele que talvez mais o tenha influenciado na decisão de conceder vistos a todos os que deles precisassem: o Rabi Chaim Krugger. Encontra-o junto à Sinagoga, preparando-se para passar a noite ao relento com a família. Pai de 13 filhos, o Cônsul é sensível à situação dos Krugger e convida-os para ficarem em sua casa: «A um homem que não conhecia e, ainda por cima, judeu!», espanta-se Jacob Krugger, filho do Rabi. 

Sousa Mendes pede a Lisboa autorização para conceder vistos à família Krugger. A resposta, como sempre, demora e o Rabi aproveita a ocasião para explicar ao diplomata português tudo o que sabe sobre a perseguição nazi aos judeus. 

A 13 de Junho, chega a resposta do Ministério: este recusa, uma vez mais, a concessão de vários vistos, entre eles o do Rabi Chaim Krugger. Mas para o católico convicto que é Sousa Mendes, não faz sentido que um homem seja perseguido pela religião que professa: se Lisboa recusa o visto, tomará sobre si a responsabilidade de o conceder. Mas o Rabi recusa: são tantos os que, lá fora, esperam um visto, porque deverá ele ser privilegiado? O que é preciso é que todos obtenham vistos para a salvação. 

E, de repente – contaria, mais tarde, o seu filho Pedro Nuno – o Cônsul parece mortalmente cansado. Dirige-se ao quarto e fecha-se nele. Ao fim de três noites, na manhã de 16 de Junho, levanta-se e anuncia que iria conceder vistos a todos os que os pedirem, sem distinção de nacionalidade, raça ou religião. 

Chaim Krugger corre para a rua, incitando os que esperam a dar-lhe os passaportes, para que lhes consiga o visto. O filho Jacob recorda que foi essa a primeira vez que o viu na rua sem casaco e chapéu. No interior do Consulado, Aristides assina os passaportes e o secretário consular, contra vontade – manifestou reservas à acção de desobediência de Sousa Mendes – apõe o selo branco. 

A notícia de que o Cônsul de Portugal está a conceder vistos espalha-se e, no dia seguinte, 17 de Junho, centenas de refugiados afluem ao Consulado. Entre eles, o secretário particular de Otto de Habsburgo, Degenfeld – a quem Sousa Mendes pede que volte rapidamente, com os passaportes da família imperial austríaca. Quando Degenfeld volta, às dez da noite, pede a Sousa Mendes que conceda também vistos a outros austríacos fugidos do nazismo. Otto de Habsburgo nunca esqueceu a acção do Cônsul que, assinando esses passaportes, salvou centenas de austríacos. 

Perante o afluxo de refugiados, com o consulado a trabalhar muito para além do horário habitual, perde-se, a certa altura, a capacidade de registar os vistos. Antes, o secretário consular tinha já desistido de cobrar a concessão de vistos.

É, no entanto, uma informação da Embaixada britânica em Lisboa, acusando o Cônsul de Portugal em Bordéus de estar a cobrar indevidamente dinheiro «para a caridade portuguesa» por vistos dados fora das horas de serviço que, a 20 de Junho, alerta o MNE para o que se passa em Bordéus. No dia seguinte, um telegrama do Consulado em Baiona comunica ao Ministério que Sousa Mendes deu ordens para que sejam concedidos vistos indiscriminadamente e de graça. O MNE envia a Baiona um funcionário consular em missão especial de saneamento: Lopo Simeão.

Quando chega a Baiona, a 22 de Junho, este encontra, em redor do Consulado – 8, Rue du Pilori – onde Sousa Mendes ajuda Faria Machado e Vieira Braga, Cônsul Honorário, a emitir vistos, o que descreve, em telegrama para o Ministério, como «circunstâncias tragicamente anormais» e «incalculável multidão em situação verdadeiramente desesperada enchendo as ruas na proximidade do Consulado».

Sylvain Bromberger, então com 15 anos, lembra-se de esperar, na praça contígua, que lhes fossem visados os passaportes entregues no Consulado pelo irmão mais velho, David: «De vez em quando, alguém chegava à Praça com um molho de passaportes e chamava alguns nomes. Quando, finalmente, ouvi “Bromberger”, soube que tínhamos uma possibilidade de salvar-nos.»

Horas mais tarde, chega por sua vez a Baiona o Embaixador de Portugal em Madrid, Pedro Teotónio Pereira. Homem da confiança de Salazar, aclara as instruções para a concessão de vistos:

«Vistos de passaportes ‘Nansen’ só com bilhetes de barco.» De resto, podem receber vistos «ingleses, americanos, americanos do Sul, Franceses – gente limpa! – e Belgas – personalidades! – atendendo também a outros recomendados pelas Embaixadas e Legações.» Tudo para – nos termos da informação ao Ministério de Lopo Simeão – «evitar a entrada em Portugal de uma massa ignóbil e em grande parte indesejável do ponto de vista social».

No dia seguinte, Teotónio Pereira, acompanhado de Faria Machado e Lopo Simeão, dirige-se a San Sebastian, para dali contactar o Ministério, em Lisboa. Em Hendaia, encontra Sousa Mendes, que ali acompanhara alguns refugiados – e continuava a conceder vistos.

Liesel Spett, que nesse dia atravessa a fronteira, lembra-se de o ver, de gabardina, encostado a um carro, a passar vistos em todos os papéis que lhe estendiam.

O avanço nazi continuava. Sylvain Bromberger não esquece que, ao chegar a Irún, olhou para trás, na direcção de Hendaia – e viu que tinham já chegado os primeiros soldados alemães.

Outros, como o compositor e pianista Norbert Gingold, judeu austríaco, tiveram menos sorte. Tinha recebido o visto português, mas não conseguiu visto de trânsito de Espanha. Teotónio Pereira comunicara entretanto às autoridades espanholas «a decisão de dar por nulos os vistos concedidos pelo Consulado em Bordéus a numerosíssimas pessoas que ainda se encontravam em França», acrescentando que «o referido cônsul havia perdido o uso da razão.» O adido militar alemão em Madrid – citado por Lopo Simeão – louva «a atitude correcta tomada pelo Governo português, filtrando essa precipitada corrente de imigração».

Aristides Sousa Mendes é chamado a Portugal. A 4 de Julho, o ministro dos Negócios Estrangeiros, António de Oliveira Salazar, determina a instauração de um processo ao Cônsul em Bordéus. E é com o processo a decorrer que, a 14 de Agosto, um editorial do Diário de Notícias louva a abertura do país aos refugiados, atribuindo-a aos mesmos que perseguem Sousa Mendes pela passagem de vistos:

«Os serviços do Ministério do Interior – honra lhes seja feita – funcionaram por uma forma perfeita. Os elogios à nossa acção, não apenas interna, mas nas fronteiras, onde ela era particularmente difícil, são gerais. Todas essas referências se endereçam (é justo dizê-lo) à organização da nossa política internacional e ao seu ilustre Director, o Capitão Agostinho Lourenço. Graças a essas directrizes, a essa superior orientação e a essa junção de actividades, o coração português pôde revelar-se mais uma vez perante o Mundo, tanto quanto as circunstâncias o permitiam, ma plenitude da sua grandeza ideal – que foi sempre a maior das suas grandezas.»

A 30 de Outubro de 1940, por despacho de Oliveira Salazar, Aristides de Sousa Mendes é condenado na pena de um ano de inactividade com direito a metade do vencimento da categoria, devendo em seguida ser aposentado.

O Cônsul que salvou milhares de vidas em Junho de 1940 morre, amargurado e pobre, a 3 de Abril de 1954, no Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco, em Lisboa, vítima de congestão cerebral.

Dois dias depois, o seu irmão gémeo, César de Sousa Mendes, recebe um cartão de pêsames de António Oliveira Salazar.

Treze anos depois, o Yad Vashem, entidade que, em Israel, vela pela Memória do Holocausto, declara Aristides de Sousa Mendes Gentio Virtuoso, plantando uma árvore em sua memória na Floresta dos Mártires e outorgando-lhe, a título póstumo, a Medalha de Ouro dos Justos. Dez anos depois da homenagem de Israel, o Presidente da República Portuguesa, Mário Soares, atribui-lhe o título de Oficial da Ordem da Liberdade. E é só em 1995 que Portugal lhe presta, enfim, uma Homenagem Nacional e o Presidente Soares lhe concede, a título póstumo, uma das mais altas condecorações nacionais: a Grã-Cruz da Ordem de Cristo.

Fontes:
Afonso, Rui, Injustiça, O caso Sousa Mendes, Nosso Mundo – Caminho, Lisboa, 1990.
Fralon, José-Alain, Aristides de Sousa Mendes, Le Juste de Bordeaux, Mollat, Limoges 1998.
Franco, Manuela, «Moral e Política», in «Vidas Poupadas: a acção de três diplomatas portugueses na II Guerra Mundial», Catálogo da Exposição Documental, Setembro 2000.
Olga, Teresa (realização) e Andringa, Diana (guião e entrevistas), Aristides de Sousa Mendes, o cônsul injustiçado, RTP, Janeiro1993

(Publicado no nº 5 da colecção Os anos de Salazar/ O que se contava e o que se ocultava durante o Estado Novo , coordenada por António Simões do Paço.)

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