Vaticano

Nota prévia – Este texto foi publicado na revista O Tempo e o Modo, nº 58, Janeiro de 1968. Foi escrito para «passar» na Censura, razão pela qual omiti então alguns episódios e arredondei umas tantas arestas. Mas foram muito importantes as repercussões deste acontecimento que fugiu ao controlo dos próprios organizadores e que teve um eco muito grande na Igreja em geral e na portuguesa de um modo muito especial. Há dois anos, resumi essas repercussões num outro texto que, de certo modo, completa este e que está agora também online. Podem também ser consultadas as «Resoluções aprovadas no Congresso», que mostram bem a ousadia que então representaram.

 
III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos
  
Roma, 11 de Outubro de 1967 – 5º aniversário da abertura do Concílio. Decorrem os trabalhos do Sínodo Episcopal. Começa um Congresso, anunciado desde há muito e que reúne no Palazzo Pio a alguns metros de S. Pedro, cerca de três mil pessoas vindas de 108 países. São na maioria leigos católicos; são também padres, religiosos, bispos e cem cristãos não católicos. 

Irão trabalhar – e trabalhar intensamente – durante uma semana. Aqueles que, por hipóteses, tivessem olhado mais ou menos cepticamente para o programa-horário e feito os tradicionais planos de «participação» em grandes Congressos – assistência aos actos principais, aproveitamento substancial do tempo para turismo – depressa perceberiam que não poderia, nem quereriam, cumprir esses planos. 

O Congresso excedeu para muitos, para a grande maioria, aquilo que dele esperavam. A imprensa internacional, sobretudo a mais interessada e especializada, referiu amplamente este facto. 

Temia-se, mais ou menos inconscientemente e por razões muito diversas, que se fosse assistir a mais uma grande actividade de massa com tudo antecipadamente estabelecido: um tema geral demasiado vago («O Povo de Deus no itinerário dos homens»), dois subtemas («O homem de hoje» e «Os leigos na renovação da Igreja»), «carrefours» com os assuntos de discussão indicados e esquemas de preparação enviados anteriormente a todos os participantes, duas ou três conferências e pouco mais. 

Podia pensar-se, até pela própria situação histórica do Congresso cuja data foi propositadamente adiada para que só se realizasse depois do fim do Concílio, que a preocupação principal e constante seria a aplicação dos ensinamentos conciliares, por citação sistemática dos respectivos textos, às diferentes questões que iriam ser abordadas, nomeadamente nos «carrefours» (que ocupavam quase metade do tempo total dos trabalhos). Na parte do Congresso subordinada ao título «O homem de hoje», cada tema de «carrefour» tinha sido expressamente escolhido em correspondência com os diferentes capítulos da segunda parte da Constituição pastoral sobre a Igreja «Gaudium et spes». Os temas desses «carrefours» eram: Atitudes espirituais dos homens de hoje; a família na evolução actual da sociedade; a cooperação entre homens e mulheres nos diferentes domínios da vida social; Tensões entre gerações; a comunicação social – uma revolução cultural; o desenvolvimento – responsabilidades sociais numa sociedade planetária; a paz e a comunidade mundial; migrações. 

Falou-se realmente de todos estes problemas previstos para a primeira série de «carrefours». Falou-se de problemas específicos da vida da Igreja (segunda série de «carrefours»: a apresentação da mensagem cristã em formas adaptadas à sensibilidade do homem de hoje; o diálogo no interior da Igreja: etc.). Apareceram, através dos trabalhos dos «carrefours» ou por desejo convergente de cinco ou mais delegações nacionais ou delegações de organizações internacionais católicas, textos que, depois de apreciados e votados pela Assembleia dos Chefes de Delegação, vieram a ser as Resoluções do Congresso. Estes textos falam das preocupações maiores da humanidade nesta hora: o racismo, a paz e a comunidade mundial, a luta contra a opressão, o desenvolvimento, a imprensa, etc.

Tudo isto, o conteúdo do Congresso, estava «previsto» (embora não totalmente). Ele foi sem dúvida muito importante, mas não trouxe na realidade descobertas propriamente ditas. Era aliás difícil ou mesmo impossível que trouxesse: o Congresso não tinha poder para resolver nenhum dos muitos problemas que abordou.

Por esta razão, poderia ter sido profundamente frustrante. E, no entanto, não o foi. Foi, pelo contrário, fecundo e decisivo em muitos planos para os que nele participaram e provavelmente, através deles, para muitos outros.

Ousaríamos dizer que, neste Congresso, tão ou mais importante que o conteúdo foi a forma. Para além daquilo que foi dito, o que era inesperado – embora em princípio talvez não devesse sê-lo – era que aquelas três mil pessoas funcionassem como funcionavam: partindo essencialmente da realidade e não de teorias, textos ou grandes declarações; de maneira responsável, sem medos, num desejo de colaboração dialogante com todos os homens da Igreja e do mundo; ouvindo-se umas às outras, discutindo e votando democraticamente sempre que era preciso tomar qualquer decisão colectiva, em pequenos ou grandes grupos; sentindo-se e manifestando-se igualmente empenhados nos diferentes aspectos do funcionamento e da promoção de todas as comunidades – familiares, eclesiais, nacionais, mundiais – de maneira global e unitária.

Citemos, a título de exemplo, um sector da vida do Congresso que pode ilustrar esta importância que a forma teve, em todos os planos: o tipo de presença dos «observadores» protestantes e ortodoxos. Eles participaram em todos os trabalhos como qualquer congressista e assumiam mesmo funções de responsabilidade na direcção de «carrefours» ou de sessões plenárias. O título oficial de «observadores» foi, de facto, totalmente inadequado. E foi realmente isto que os impressionou mais profundamente, como impressionou os católicos; o que se passou concretamente nos «carrefours» foi que todos trabalharam em conjunto, sem a mínima distinção de planos, sem saberem por vezes que pertenciam a Igrejas diferentes, sobre problemas comuns. Esse trabalho foi uma forma de ecumenismo prático extremamente significativa e fecunda. Poucos fixarão o que no Congresso foi dito sobre ecumenismo (apenas aqueles que escolheram expressamente o «carrefour» que tratou desse tema). Nenhum esquecerá a forma de participação dos cristãos não católicos e a aproximação real que ela operou.

Se o mesmo não deve ser afirmado do conjunto do Congresso – o seu conteúdo teve por si uma importância fundamental, como têm uma grande importância os textos das oito Resoluções proclamadas e tornadas públicas na sessão de encerramento – importará estar atentos aos aspectos do funcionamento que foram atrás referidos e que não correspondem a simples acasos de organização; e importará também reparar não só naquilo que as Resoluções dizem, mas nas diferentes formas que as suas afirmações revestem.

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