Correspondência Portugal-Inglaterra

O final da 2.ª guerra mundial trouxe alguns engulhos ao governo português. Na verdade, e para além da propagada «neutralidade», vários sectores da sociedade portuguesa ostentaram posturas germanófilas e o próprio governo foi mantendo relações com a Alemanha. O modo como O Século noticiou a morte de Hitler é exemplar a esse respeito. Com o título «Morrendo no seu porto o Führer deixa a garantia da eternidade ao povo alemão», o jornal acrescenta ainda que, ao escolher o suicídio, «Hitler entra na História não apenas como herói, mas como mártir» (ver texto de António Melo no Público, aqui.)

Mas a derrota nazi chegou mesmo a provocar os primeiros fogachos de um conflito diplomático entre Portugal e Inglaterra. Em Maio de 1945, o Foreign Office questiona os seus serviços diplomáticos em Lisboa acerca de uma notícia publicada no Times: o governo português tinha dado ordem para se colocar as bandeiras a meia-hoste como sinal de luto pela morte de Hitler. Acrescenta-se ainda que isso ocorreu também na Terceira, «sob os olhos das forças americanas e britânicas», o que provocou a irritação dos ingleses, que chegam mesmo a referir que «se algum incidente acontecer a responsabilidade será do governo português». As autoridades portuguesas invocaram as relações existentes com a Alemanha para a colocação das bandeiras a meia-haste e os dois dias de luto nacional. «Como é possível que ajudemos os portugueses, como continuadamente somos pressionados a fazer, diante desta gratuita desconsideração à causa pela qual nos temos batido?», perguntam os ingleses. A tensão seria amenizada com a garantia portuguesa de que não se acolheriam responsáveis nazis no país.

Vem tudo isto a propósito de um importante conjunto de documentos que se encontram em The National Archives e que Tiago Neves nos enviou.

Podem ser visualizados aqui.

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