António Maria Cardoso 

 
Um texto de Jorge Martins (*)

 
Primeiro, transformou-se a sede da PIDE/DGS em condomínio de luxo, em pleno coração do Chiado, obliterando a história do edifício quanto ao negro passado da polícia política da ditadura Salazar-Marcelista. Agora, tudo se prepara para que a placa evocativa das últimas vítimas da PIDE, assassinadas no dia 25 de Abril de 1974, desapareça para sempre da fachada do edifício. Em Outubro do ano passado ainda se podia ver a marca deixada pela placa, como a foto comprova. Hoje já se pode antever que destino espera a placa: o caixote do lixo da história. Se é que já não está no caixote do lixo de um qualquer empreendedor de condomínios de luxo. Quem lá passar agora não encontrará rasto da placa naquelas paredes imaculadas. 

Com a fachada limpa dos sinais dos tempos, designadamente dos crimes da PIDE e do regime que sustentou, podem muito bem dormir tranquilos os novos inquilinos da rua António Maria Cardoso. Os outros, os milhares que por lá passaram e sofreram os horrores da tortura, sentir-se-ão de novo seviciados, com a conivência dos novos dirigentes do regime democrático, edificado pelo sacrifício e abnegação de muitos antifascistas, que estão incrédulos e ofendidos com o que se está a passar. Não foi para isto, seguramente, que lutaram muitos democratas. É este o sinal que deixamos às novas gerações? Não basta dedicar umas miseráveis 11 linhas à PIDE nos programas de História? Vamos todos discutir as mulheres de Salazar e esquecer os seus crimes? Vamos apagar as parcas memórias que nos restam? 

Sem dúvida que o Estado não demonstra a mínima vontade política para preservar a memória dos crimes da ditadura e da resistência antifascista. Depois da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da projectada construção de uma pousada na fortaleza de Peniche e, mais recentemente, da anunciada construção de um hotel de charme no Tribunal Boa Hora, não restam dúvidas de que, para além das palmadinhas nas costas, dos sorrisos de circunstância, das palavras inconsequentes e de resoluções vazias de vontade política de dar passos no sentido do seu cumprimento, não há o mínimo sinal de que o farão. Bem pelo contrário, os sinais são preocupantes. Como se sabe, a Câmara Municipal de Lisboa sancionou o projecto do condomínio na António Maria Cardoso e agora o actual presidente confirmou o pior em relação à Boa Hora, ao afirmar que «não se vive de memórias, vive-se de presente e de futuro». Os sinais do ministério da Cultura não são mais optimistas, face às notícias que alegam a possibilidade da entrega aos privados a exploração do nosso património histórico. Ficámos a saber com quem podemos contar: com a determinação dos que não desistem de denunciar este estado das coisas do Estado. 

É imperioso exigir que o promotor imobiliário do Paço do Duque respeite a memória daqueles que lhe permitem hoje enriquecer sobre os escombros da sede da PIDE. Para além de ter apagado, no site oficial, da história do edifício esse facto incontornável, prepara-se agora para deixar cair no esquecimento a placa evocativa das últimas vítimas da PIDE, que dizia:

placa António Mª Cardoso

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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