Nino Vieira com Amílcar Cabral 

Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção («general avant la lettre» como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), Nino sempre denotou insuficiências culturais, políticas e éticas que fizeram dele um desacerto na envergadura das responsabilidades assumidas enquanto companheiro de luta chegado de Amílcar Cabral. Aos méritos militares de Nino, que o levaram até à nuvem do mito que o fez pairar – muito exageradamente – nas mesmas alturas do génio militar do vietnamita Giap, muito deve o sucesso da luta guineense contra o domínio colonial português. Aos defeitos pessoais e políticos de Nino, a Guiné deve grande parte do caos e miséria em que descambou e que impediu que a independência da Guiné-Bissau fosse, para o seu povo (melhor, para os seus povos), uma emancipação de facto relativamente ao passado colonial. Na fase de juventude da independência da Guiné, quando tudo estava em aberto para a realização dos anseios que alimentaram a valente luta anticolonial dos guineenses (e caboverdianos que se lhes juntaram), Nino puxou tudo para o fundo – o Estado, os ideais, a generosidade de construir um pais novo, impondo antes a corrupção, o nepotismo, o gangsterismo, o golpismo, o fraticídio étnico e a cleptocracia. Nino queimou praticamente tudo o que ajudara a construir mas de que não foi, nem de perto nem de longe, o único, ou sequer o principal, obreiro. E tornou a Guiné-Bissau ingovernável. Agora, quando o assassinaram no seu reduto a que havia regressado como Presidente, Nino já era melhor que a Guiné que ele ajudou a destruir e que se enterrara entretanto na bolanha imunda do descontrole absoluto e do narcotráfico. E é nesta medida que é uma injustiça histórica que a Guiné, a quem Nino tanto deu e a quem tanto tirou, tenha devorado agora este filho da sua terra, cumprindo à distância de quarenta anos, aquele que foi o sonho falhado de tantos militares portugueses de elite e «torre e espada» ao peito (incluindo o mais famoso «cabo de guerra português» após Mouzinho): caçar o Nino

Durante vários meses (quase um ano), no serviço militar que cumpri na guerra colonial na Guiné, estive colocado no Sul e em pleno coração daquilo que se chamava então «o reino de Nino» (ele era comandante da «Frente Sul» do PAIGC, responsável pelo controlo do Cantanhez onde os militares portugueses se acantonavam em aquartelamentos que eram ilhas militares em «território libertado» e fora das quais a tropa colonial só se atrevia pela aviação e pelas operações especiais, muitas delas destinadas a tentar capturar Nino). Nunca lhe vi a cara, mas experimentei e bem (mal, muito mal) os efeitos do seu talento guerrilheiro e da sua ousadia militar. Durante esses difíceis meses que me pareceram não ter fim, aprendi a respeitar Nino Vieira enquanto chefe militar colocado no lugar certo da História. Mais, muito mais, que os generais e coronéis que me comandavam e os que para aquela guerra estúpida, essa Aljubarrota virada do avesso para imitar Alcácer Kibir, me enviaram metido no rebanho fardado da juventude da minha geração para soprar um moinho colocado no contra-vento das aspirações naturais dos povos à dignidade e autonomia. O Nino que emergiu na Guiné independente há muito que me desiludira e para com ele já só me restava o sentimento da repugnância. Nesta sua queda à bala, lembrando-me não do Presidente Nino mas do Comandante Nino, ladeando a contradição no juízo, só me sobra o respeito devido numa última homenagem, esta.

Imagem: Nino, nos tempos da guerrilha, junto a Amílcar Cabral.

(Originalmente publicado em Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

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