A PIDE começou a chamar a atenção da Central Intelligence Agency (CIA), em1949, quando Portugal ingressou na Aliança Atlântica (NATO). Analistas dessa agência de Intelligence norte-americana consideraram que aquela polícia política tinha adquirido, em Portugal, um extraordinário poder, efectuava prisões arbitrárias, utilizava a brutalidade física e detinha presos na cadeia por prazo indefinido [1]. Depois, nos anos cinquenta, em plena Guerra-Fria, a CIA instalou um retransmissor da Radio Free Europe (Rádio Europa Livre, criada em 1947), em Glória do Ribatejo, criando, para o gerir, em Portugal, a Sociedade Anónima de Rádio-retransmissão (RARET).No entanto, a ligação “oficial” entre a PIDE e a CIA só foi formalizada em 1956, quando o coronel Benjamin H. Vandervoort [2], adido da embaixada dos EUA em Lisboa, convidou o director da polícia política portuguesa, capitão Agostinho Lourenço, comunicando-lhe para uma deslocação aos EUA, com o objectivo de «discutir matérias de mútua preocupação».
Como Agostinho Lourenço se desligou da direcção da PIDE, por limite de idade, em 5 de Setembro de 1956, o convite foi transmitido ao capitão António Neves Graça, chefe interino da polícia política portuguesa, que o aceitou, com «muito agrado». A CIA propôs-se então prestar auxílio à PIDE na organização de um sistema mecanizado de ficheiros e arquivos e, na sequência de impressões trocadas entre os dois respectivos directores, em Washington, por seu lado, Neves Graça elaborou uma proposta de colaboração entre os dois serviços. Segundo este, as duas polícias propunham-se trocar informações sobre a organização comunista e efectuar diligências e operações conjuntas, entre as quais se contavam a infiltração no seio dos Partidos Comunistas [3].
Os «homens das Américas»
Em 1957, uma delegação de elementos da PIDE frequentou um curso, ministrado pela agência americana, nos EUA [4] onde, entre outras matérias, se contavam técnicas de vigilância, aprendizagem de rádio, de filmagens e fotografia, escuta telefónica, intercepção postal, elaboração de relatórios, métodos informativos e de interrogatório processual, conhecimento de tintas simpáticas, criptografia, microfilmes, utilização de tele-impressores, bem como técnicas de informação e contra-informação [5]. Fizeram parte da delegação portuguesa o sub-inspector Jaime Gomes da Silva, o chefe de brigada Manuel Vilão de Figueiredo, os agentes Sílvio Mortágua, Amândio Gomes Naia, Álvaro dos Santos Dias Melo, Abílio Augusto Pires, Felisbino Marques Gomes, Ernesto Lopes (Ramos), José Mesquita Portugal e João Nobre e ainda os escriturários, Alfredo Fernando Robalo e Eduardo de Sousa Miguel da Silva [6].
Alguns dos quadros da PIDE que estagiaram na América – Abílio Pires, Ernesto Lopes Ramos e Miguel da Silva – terão sido contratados pela CIA como agentes de ligação em Portugal. Este último chegou a ser considerado, em 1969, pelos próprios dirigentes dessa polícia, de ser um «homem das Américas», razão pela qual ficou limitado a assuntos respeitantes à autoridade nacional de segurança [7]. Quanto a Abílio Pires, negaria ter trabalhado para a CIA, embora afirmando que esta agência o tinha de facto tentado subornar, através de Walter Andrade, elemento da estação americana em Lisboa [8].
Numa entrevista dada em 1974, em Londres, Philip Agee, oficial de operações secretas da CIA, afirmou, por seu turno, que Rudolfo (sic) Gómez, organizador da rede dessa agência em Portugal, em 1968 e 1969, tentara aliciar o inspector Rosa Casaco, com o qual terá reunido periodicamente no Porto e em La Toga (Galiza) [9]. António Rosa Casaco negou, porém, ter trabalhado para a CIA, esclarecendo que apenas teve uma «amizade desinteressada com Edward Gómez, chefe da base» dessa agência norte-americana, em Portugal na década de 60 [10].
Num post anterior, publicado em 16 de Março, aniversário do «Golpe da Caldas» descrevi, de forma mais sucinta possível, a minha insólita participação na coluna de Salgueiro Maia na madrugada do 25 de Abril.
Nessa madrugada já após termos ultrapassado a coluna de Salgueiro Maia não sei já se na Rua do Arsenal, ou na Av. Ribeira das Naus, entrámos, ia alta a noite, no Quartel do Campo Grande e desde essa madrugada, até depois do dia 1º de Maio de 1974, não saí do quartel senão uma única vez.
Não vivi na rua a verdadeira festa do 25 de Abril após a consumação da vitória da revolução. Não assisti à enxurrada de manifestações populares nem participei, com muita pena minha, na manifestação do 1º de Maio de 1974. Os soldados ficaram, horas a fio, alinhados nas casernas, por detrás das janelas de armas apontadas para a rua, preparados para o que desse e viesse. Alguém tinha que cuidar desses detalhes da «cozinha» da revolução.
Num desses dias, estava de oficial de dia o António Dias, quando foi procurado por alguém que da rua pretendia falar. Era um agente da PIDE que se queria entregar. Foi recebido com deferência. Identificou-se e fez a entrega da arma. Uma bela pistola que, devo confessar, me suscitou cobiça e nunca mais esqueci.
De seguida coube-me a tarefa de o escoltar a caminho da Ajuda onde o entreguei em «Cavalaria 7» ou «Lanceiros 2». Foi a minha única saída do quartel em todos aqueles dias de brasa.
No percurso, realizado em jipe, nem uma palavra se trocou. Lembro-me de ter cumprido a missão, com rapidez, respeitando e defendendo, do primeiro ao último momento, a dignidade de um homem aterrorizado que tinha passado, de um dia para o outro, de agente do poder a prisioneiro do poder.
Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em Poema Pouco Original do Medo
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Durante as dezenas de anos do Estado Novo, muitos portugueses olharam cuidadosamente em redor, na rua, no café ou na tasca, antes de exprimir a sua opinião sobre qualquer assunto tido por «político». Temiam os «bufos», que informavam a polícia política do que ouviam, e os resultados da denúncia: perseguição, desemprego, prisão.
O medo insinuava-se nas conversas e nos comportamentos, nessa forma especial de olhar para trás, sobre o ombro, ou de evitar sentar-se num café de costas para a entrada, que ainda hoje encontramos em muitos desse tempo. No Poema pouco original do medo, Alexandre O’Neill escreveu: «O medo vai ter tudo/ (…) / Vai ter olhos onde ninguém o veja/ mãozinhas cautelosas/ enredos quase inocentes/ ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/ no tecto/ no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos / (…) /Ah o medo vai ter tudo/ tudo /(Penso no que o medo vai ter/ e tenho medo/ que é justamente / o que o medo quer). / O medo vai ter tudo/ quase tudo/ e cada um por seu caminho/ havemos todos de chegar/ quase todos/ a ratos».
Esses ouvidos nas paredes, no chão, no tecto, até nos próprios ouvidos, tinham nome: PVDE, Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, de 1933 a 1945; PIDE, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, de 1945 a 1969; DGS, Direcção-Geral de Segurança, de 1969 a 1974.
Pouca coisa mudou de uma para outra das designações: todas juntavam à vertente interna, «de prevenção e repressão contra os crimes de natureza política e social»[1] uma outra, internacional, de vigilância das fronteiras e dos estrangeiros.
Esta segunda vertente, particularmente activa durante o período da Guerra Civil de Espanha e da Segunda Guerra Mundial, tinha entre as suas missões o combate à espionagem e a repressão do comunismo e defendeu uma severa restrição na entrada de estrangeiros, nomeadamente de judeus. Um ofício confidencial do director da PVDE, datado de 23/03/38 [2], explica que «um judeu estrangeiro é, por norma, politicamente indesejável».
Pré-publicação de excertos da Introdução de Maneiras Cooperativas de Pensar e Agir – Contributo para a História do Cooperativismo, Edições Universitárias Lusófonas.
Mas foi efectivamente no movimento cooperativo que me envolvi empenhadamente e isso ao longo da vida. (…) Cheguei à sede na Rua dos Anjos, à hora indicada por António Sérgio. Entrei a medo, ainda impressionado pelo ambiente desconfiado do Boletim. (…)
Rapidamente me vi no meio duma dezena de homens, no mínimo, com o dobro da minha idade, cujos nomes e profissões eu desconhecia. A primeira coisa que me chamou a atenção foi ver, em cima duma grande mesa, vários exemplares da revista L’Exprès e do jornal Le Monde que os presentes trocavam entre si, mostrando e comentando algumas notícias. Tinham conseguido fazer uma assinatura colectiva do jornal e na margem da 1ª página havia o nome dos inscritos – muitos – riscando-se o daqueles que já tinham lido aquele número. (…) Antes do começo da reunião propriamente dita, comentavam as notícias mais importantes que tinham lido, os artigos de opinião publicados. O governo muito decidido e progressista de Mendès-France era acompanhado com muita atenção e apoiado, assim como a guerra do Vietnan (ainda na fase francesa) e a guerra da Argélia. Mas o tema mais discutido era o das notícias que começavam a aparecer no Ocidente sobre as transformações na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a revelação do que por lá se passara a seguir à morte de Estaline e da execução de Béria [1]; depois vieram os acontecimentos da Polónia e Hungria, em 1956, e as perturbações que tudo isso provocava em França e na Itália, nos respectivos partidos comunistas e na intelectualidade.
E mais tarde passámos algum tempo a estudar e discutir o Relatório Secreto [2] de Krutchev, publicado no Le Monde, bastante antes de ser divulgado em Portugal.
José de Sousa falava também da sua experiência na União Soviética que o deixara marcado, segundo dizia, com alguns aspectos negativos (por exemplo, o medo dos trabalhadores em falar do seu trabalho e da forma como viviam, ou do que pensavam sobre a situação do país) o que ele não aceitava que se pudesse reproduzir numa futura revolução socialista em Portugal.
Nessa altura eu era o único jovem, e ouvia tudo em silêncio, de olhos e ouvidos escancarados para nada perder. Não sabia absolutamente nada sobre tudo o que discutiam e aquilo ficava-me a trabalhar na cabeça. A pouco e pouco, comecei a pedir esclarecimentos que não deixava de ter, sempre acompanhados com uma grande explicação de contextualização socio-histórica. Acabei por dispor duma informação e compreensão da política internacional e das problemáticas sobre as orientações e funcionamento dos partidos comunistas que me tornaram bastante céptico em relação ao que então os colegas universitários pró-comunistas diziam e explicavam sobre questões políticas nacionais e internacionais. (…) (mais…)
Há 60 anos, em 25 de Março de 1949, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira foram presos no Luso. Num vídeo hoje publicado no Jornal de Notícias, Sofia Ferreira resume o momento dessa detenção que tantas repercussões teve na vida do Partido Comunista Português e da resistência antifascista em Portugal.
(Ler, neste blogue, um texto de Irene Pimentel sobre Sofia Ferreira, que também refere o acontecimento que hoje se assinala.)
Posted by João Tunes under Livros Comentários Desativados em Amor na terra do monstro
Só pelo título e pela capa (*) poucos deduzirão que se trata de um livro que é essencialmente uma história de amor. Uma história admiravelmente escrita (com a mestria de um grande repórter) e sobre um amor especial. Tão especial que, por a narrativa se basear em factos e não em fantasia criativa, quase apetece, ao ler-se o livro, desejar-se inutilmente que não tivesse acontecido assim, com a «guerra fria» de permeio. Só que sobre isso não há volta a dar.
Mas sendo uma história de amor, o livro de Owen Matthews (um consagrado jornalista anglo-soviético) é, porque esse é o contexto da génese de vida do autor ao ter nascido de um casamento entre uma cidadã soviética e um súbdito britânico, um livro que diz mais sobre a URSS, os dois lados da «guerra fria» e a Rússia pós-comunista que muitos volumes de sovietologia e de pós-sovietologia. E daí o título. Que, se calhar, até nem está mal. Com o aliciante de se ler com a velocidade e o fascínio de um fôlego. Para depois se parar para respirar e aceitar-se com resignação indignada que Estaline existiu mesmo e deixou sementes que não o deixam esquecer. Não só as sementes políticas, sobretudo as que infernizaram pessoas e sentimentos. E é por isso que acho que o título devia ser outro. Um outro. Que assinalasse melhor uma das magníficas surpresas editorais dos últimos tempos através deste livro sobre um amor.
(*) – “Filhos de Estaline”, Owen Mattews, Edições Dom Quixote
O Sud Express levava mais de trinta horas para chegar de Lisboa a Paris. Partia pelas duas e tal da tarde e, em geral, ia cheio de emigrantes. Vinham à terra passar as suas «vacanças» (assim diziam, já que, não tendo o conceito, desconheciam a designação em português), ou saíam por este meio para trabalhar na Europa. Documentados, eram esses os poucos que não iam a salto. Partiam de Santa Apolónia carregados de mantimentos para meses: vinho, chouriços, bacalhau – tudo o que lhes permitisse amealhar, por lá, mais uns francos e ter sabores e cheiros da sua terra, no dia a dia da duríssima vida dos bidonvilles.
Quando, de bilhete na mão, tentei entrar no compartimento, não havia lugar nem para me sentar, nem para colocar a bagagem (pouca) com que eu e o A. iríamos iniciar, em Paris, a nossa nova vida. Os meus companheiros de viagem tinham ocupado todo o espaço. É certo que foi com alguma bonomia que deixaram a descoberto o meu lugar assim que o solicitei, limpando-o de cestos e garrafões. Talvez tenham achado natural (aceitável…) que eu pretendesse fazer a viagem sentada. Difícil foi conseguir que libertassem o espaço por cima do meu assento, para que eu pudesse arrumar aí as duas malas.
Procurei, com esforço, «emergir» do estado de abatimento emocional em que acabava de me despedir da família e de dois amigos, e, cordialmente, sugeri-lhes um modo de solucionarmos a situação. Impossível. A minha bagagem permanecia junto de mim no corredor e, do interior do compartimento, chegavam-me sucessivos ditos, brejeiros uns, grosseiros outros, aparentemente destinados a fazerem-me desistir da minha pretensão. Chamei o «revisor» que, sem contemplações, lhes impôs obediência ao regulamento naquela matéria e me ajudou a subir as malas. Saí dali nervosa, furiosa, chorosa.
Há 50 anos, na madrugada de 11 para 12 de Março de 1959, deveria ter eclodido o «golpe da Sé», assim chamado porque os conspiradores reuniram na Sé Patriarcal de Lisboa, de que era pároco o padre João Perestrelo de Vasconcelos (*) , um dos participantes. Ainda está por fazer a história dessa falhada intentona que se propunha derrubar o governo de Salazar, na sequência da burla eleitoral das eleições presidenciais de 1958, em que a candidatura do general Humberto Delgado tinha incendiado o país. Em particular, estiveram envolvidos muitos elementos que a PIDE nunca detectou, foram feitos previamente muitos contactos pelos participantes directos no golpe entre oposicionistas ao regime para um eventual futuro governo provisório, em caso de vitória. No entanto, apenas me vou limitar a dar algumas informações sobre essa falhada tentativa de golpe, recolhidas no Arquivo da PIDE/DGS, polícia que terá sabido da eclosão do golpe com antecedência e conseguiu matá-lo à nascença.
Militares e civis católicos
No seu livro Portugal Amordaçado, Mário Soares observou que o «golpe da Sé» nada teve a ver com os tradicionais movimentos putschistas militares anteriores, não só porque nela participaram diversos jovens civis, já sem qualquer relação com os republicanos e «reviralhistas», como devido a ter sido «um movimento de clara inspiração católica, embora com a participação importante de elementos não católicos, democratas de diferentes correntes oposicionistas». A «alma civil da conspiração foi o oficial da marinha mercante Manuel Serra, antigo dirigente da juventude católica e participante entusiástico da candidatura Delgado» do ano anterior. Entre os civis, destacaram-se Fernando Oneto, Asdrúbal Pereira, Horácio Queiroz, Raul Marques, Jaime Conde, Pedro Bogarim, Amândio da Conceição Silva, que participaria no desvio do avião da TAP em 1961, e António Vilar, morto anos depois na revolta de Beja, no final deste ano. Mário Soares referiu ainda a participação do seu amigo Eurico Ferreira, advogado de Santarém.
No «plano estritamente militar, se bem que a direcção suprema pertencesse ao então major Pastor Fernandes, (…), o principal organizador da conspiração parece ter sido o dinâmico capitão Almeida Santos, antigo dirigente da “Mocidade Portuguesa”, assassinado depois em condições dramáticas». Outras figuras de relevo do movimento foram os majores Clodomiro Sá Viana Viana d´Alvarenga e Luís Calafate, os capitães Fernando Costa Revez Romba e Amílcar Domingues, o 1.º tenente da Armada Vasco da Costa Santos e o oficial miliciano médico Jean Jacques Valente. Por seu lado, o capitão João Varela Gomes, que viria a ser o dirigente militar do «golpe de Beja», em 1962, disse também que o núcleo dinamizador dessa movimentação era constituído por católicos e monárquicos, citando, além de Manuel Serra e do capitão Almeida Santos, o advogado Francisco Sousa Tavares e o capitão Nuno Vaz Pinto. O próprio Varela Gomes chegou a participar numa das reuniões da conspiração, ao lado do então capitão de Engenharia Vasco Gonçalves e do capitão Baptista da Silva, que representava jovens oficiais de Infantaria, entre os quais se contavam ainda Firmino Miguel e Soares Carneiro.
Segundo o relatório do processo da PIDE, a autoria do golpe Movimento Militar Independente (MMI) propunha-se «libertar o país do regime de força e ditadura pessoal a que se encontra sujeito, obrigando o governo a abandonar o poder, pela efectuação de um golpe militar». O comando supremo do golpe ficava a cargo de uma Junta Militar Nacional do MMI e as forças revolucionárias eram compostas por militares – combatentes ou simpatizantes -, grupos técnicos, para ocupar, impedir ou assegurar o funcionamento das emissoras, transportes colectivos, correios, telefones, centrais eléctricas, bem como por grupos auxiliares de combate ou informação.
A PIDE apurou que estavam ainda envolvidos na «conjura» muitos civis, o principal dos quais era Manuel Serra, dirigente da JOC e director da revista Náutica, enquanto chefe de uma milícia civil e elemento ligação entre esta e a Junta do MMI, através do major Calafate. Observe-se a proximidade entre a sigla do MMI e a do Movimento Nacional Independente (MNI) de Humberto Delgado, que aliás aguardou a eclosão do golpe na embaixada do Brasil onde estava exilado, pronto a sair. Relativamente à acção dos civis, entre os quais havia um médico e um padre, a PIDE assinalou, no seu relatório, que, a partir de Janeiro de 1959, se haviam activado os preparativos, segundo um plano que previa a divisão da cidade em quatro sectores, nos quais actuariam vários grupos, cada um constituído por cinco homens, sob o comando de um oficial miliciano fardado.A principal tarefa desses grupos era a captura de membros do governo e de altas individualidades, os quais seriam depois entregues às autoridades militares, e depois do «golpe», manutenção da ordem nas ruas e nos edifícios públicos.
Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em «Aviso de mobilização»
David Mourão-Ferreira, 1964
Passaram pelo meu nome e eu era um número
– menos que a folha seca de um herbário.
Colheram-no com mãos de zelo e gelo;
escreveram-no, sem mágoa, num postal.
Convite a que morresse… mas por quê?
Convite a que matasse… mas por quem?
Ó vago amanuense, ó apressado
e súbito verdugo, que te ocultas
numa rubrica rápida, ilegível,
que dirás tu do meu e de outros nomes,
que dirás tu de mim e de outros mais,
no Dia do Juízo já tão próximo
– que dirás tu de nós, se nem tremeu,
na rápida rubrica, a tua mão?
Bem sei que a tua mão só executa;
mas para além do ombro a ti pertences.
Bem puderas chorar, ter hesitado…
-A mancha de uma lágrima bastara
para dar um sentido a esta morte
a que a tua indiferença nos convoca!
Uma crónica de Manuel António Pina, publicado no JN de hoje.
O autor disse-me que tinha tomado conhecimento do site do «Paço do Duque» através da leitura deste post. Agradeço a atenção e republico aqui o seu excelente texto. Joana Lopes
Os 38 apartamentos de luxo construídos no edifício que foi a sede da PIDE, em Lisboa («um edifício com história» que, diz a imobiliária, se mostra «novamente orgulhoso da sua herança») estão a ser vendidos convidando os compradores a «reviver tempos de esplendor» e um passado de «luzes a reflectirem-se nas pratas do aparador e nas vestes de gala de cavaleiros e damas».
A suja história de sangue e horror do edifício e os gritos de dor de milhares de portugueses que as «velhas e nobres paredes com um metro de espessura» abafavam, são agora, pelo turvo milagre da usura, uma memória doirada, transbordante de festas e de bodas, e de duques, príncipes e embaixadores. Num país onde o dinheiro compra tudo, até a memória colectiva, os antigos torturadores tornaram-se «copeiros e gentis homens» ao serviço de ricaços e recém-chegados ansiosos por reconhecimento. Bem pode o poeta clamar que «com usura homem algum terá casa de boa pedra» e que «com usura, pecado contra a natureza,/ sempre teu pão será rançosa côdea»; os usurários não têm pesadelos nem temem fantasmas. O esquecimento é o seu «estilo de vida».
Posted by Raimundo Narciso under Testemunhos Comentários Desativados em Carta da Sibéria para Nova York. Em… 1933
Ir à terra é rever os amigos, saber quem nasceu ou morreu, visitar o único moinho de vento a moer trigo, sobrevivente dos muitos que alvejavam no cimo dos montes que se erguem em redor da aldeia e são a antecâmara da Serra de Montejunto.
E constatamos o envelhecimento da população, o declínio da agricultura e também como surgem iniciativas culturais. A terra tem um ginásio, classe de ginástica, futebol de salão, sala de exposições, escola de música, rancho folclórico ainda que com futuro incerto devido ao fraco crescimento demográfico e à fuga para a cidade. Na minha infância só havia o salão paroquial, que ainda existe, onde passavam de longe em longe uns filmes, em 12 partes, em que o padre da terra, que vigiava a projecção, ocultava com a mão em frente do projector cenas com mulheres decotadas ou saias curtas e os homens menos respeitadores protestavam com longas assobiadelas contra o zelo, a seu ver excessivo, do prior com a saúde moral do seu rebanho.
É do Vilar do Cadaval que estou a falar. Aldeia que na primeira metade do século passado tinha transformado em belos vinhedos todo o campo em redor e vivia o apogeu das vindimas com o mesmo fulgor e excitação com que celebrava a procissão do Senhor dos Passos e os festejos à Senhora do Ó. Onde antes se ia à taberna ou à missa e também, mas só alguns, à pequena tertúlia da farmácia e agora os mais novos vão à internet, disponível em dois dos cafés da terra e na sede da Junta de Freguesia.
Falar da terra é quase sempre um pretexto para evocar a juventude, no entanto do que eu vos queria falar é de como aproveitei o tempo a revolver arcas esquecidas no sótão, cheias de trastes velhos.
Entre os papéis encontrei molhos de cartas atados com fitas de cores debotadas e, num deles, uma carta de um tal F. Lourenço dirigida ao meu pai, então em Nova York, com a data de 29 de Julho de 1933. Lembro-me das histórias que ele contava do maravilhoso mundo novo e também sobre a grande depressão de 29 que atormentadamente viveu, dos «banqueiros falidos que se atiravam dos arranha-céus», do movimento radical e dos protestos contra a condenação à morte dos inocentes Sacco e Vanzeti, no ano de 1927.
A carta tem um interesse particular porque é dirigida da… Sibéria. (mais…)
Clique na imagem e, por favor, leia o texto até ao fim antes de regressar a este post.
Acaba de ler a história do prédio situado na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, onde, durante décadas, funcionou a sede da PIDE. É assim que ela é contada no site do empreendimento de luxo «Paço do Duque», neste momento em fase de acabamentos.
Apetecia-me parar aqui – palavras para quê quando a indignação nelas não cabe.
Ninguém obrigava a imobiliária a escrever qualquer história do edifício, mas, ao decidir fazê-lo, correu um grande risco. Porque os novos inquilinos acabarão por saber o resto da história. Quando e como, interessa pouco – infelizmente, já não há grande pressa. Todos aqueles que não aceitaram que um lugar de tal modo ligado à memória histórica da ditadura tenha sido transformado em condomínio de luxo certamente que não se calarão.
Porque à noite, à hora da ceia, nada brilhava – ouviam-se gritos. As luzes não se reflectiam nos pratos do aparador – mantinham-se acesas para que os presos não adormecessem. E até provocavam alucinações. Ninguém envergava vestes de gala, mas sim roupa amarrotada e muitas vezes rasgada pelos actos de tortura.
P.S.– O link para este texto será enviado para o contacto indicado no site: pacododuque@temple.pt
É um dado normalmente adquirido que no «virar» do corpo de oficiais profissionais do exército colonial contra a continuação das guerras e que desembocou no 25 de Abril, teve influência importante o «contágio político» devido à incorporação, como oficiais milicianos, de muitos dos dirigentes e activistas (os que não optaram pela deserção e exílio) vindos dos movimentos estudantis em que se contestou a ditadura. Ao proceder à mobilização militar massiva de activistas estudantis politicamente formados e radicalizados, muitas vezes «por castigo» e interrompendo cursos, dando-lhes comando de tropas nos cenários de guerra, colocando-os até em maioria relativa quanto aos oficiais de carreira dentro das unidades militares coloniais, a ditadura cometeu um erro sem alternativa. Uma influência política e ideológica é sempre difícil de medir. Neste caso, há uma evidente penúria de meios para medir o fenómeno desta «contaminação» e o seu grau de importância na queda da ditadura e no fim da guerra colonial. Por um lado, os militares de carreira «abrilistas», por auto-estima, dificilmente valorizam o efeito político neles havido vindo dos seus convívios com os oficiais milicianos (seria admitir que «importaram» a consciência cívica e política adquirida e afirmada). Entretanto, os oficiais milicianos que fizeram a guerra, na sua maioria, prefere não falar dela. Finalmente, há uma evidente carência de estudos por parte de especialistas em tratamento de assuntos da memória que abordem esta componente da problemática da guerra colonial, particularmente no seu ocaso.
O fenómeno aqui referido não se verificou de um modo homogéneo, longe disso. Nas três unidades em que estive colocado na Guiné (1969/1971) durante dois anos, vivi três experiências distintas, desde conhecer impenetrabilidades políticas de corpos de oficiais profissionais até ao desinteresse por política de muitos milicianos, passando por efeitos evidentes do desgaste da guerra e da descrença quanto ao seu desfecho em que se conjugava a erosão de sucessivas comissões cumpridas nos vários teatros de guerra e a doutrinação política e ideológica de milicianos politizados pelas lutas estudantis, politização esta que muitas vezes era suportada nos mesmos textos que orientavam a guerrilha inimiga (Mao, Che, Giap, Ho Chi Minh, Cabral). Retenho desta experiência inolvidável, o ano de 1970 em que estive colocado num batalhão de artilharia sedeado em Catió (sul da Guiné) e em que tive a percepção clara que a guerra colonial não ia durar muito mais tempo.
Esta Associação enviou-nos um conjunto de documentos relacionados com iniciativas que têm como objectivo evitar a construção de um muro à volta do cemitério de San Juan em Badajoz, onde foram fuziladas centenas de pessoas pelas tropas franquistas, a partir de 14 de Agosto de 1936. Esse muro destinar-se-ia a ocultar aquele importante lugar de memória e transformaria totalmente a sua imagem exterior.
No passado mês de Dezembro, a Comissão de Urbanismo da região aprovou um estudo de viabilidade, apresentado por vários construtores que pretendem construir 1.058 habitações, em blocos de seis andares, à volta do cemitério.
(Dado o interesse dos documentos em questão, e porque os mesmos ainda não se encontram totalmente disponíveis no site da Associação da Memória Histórica da Extremadura, colocámo-los online.)
P.S.– Neste caso, o cemitério será apesar de tudo preservado, sem se tornar zona privilegiada do condomínio agora em projecto. Sei que devem ser respeitadas todas as proporções, que não houve fuzilamentos em massa na António Maria Cardoso, nem nada que se parecesse com a Guerra Civil, em Portugal. Mas, por cá, apaga-se pura e simplesmente a história e as histórias. Voltarei muito em breve a este tema.
Com o João Mário Mascarenhas na Porta de Armas
do 2º GCAM, no Campo Grande, em Lisboa.
Pelo 35º aniversário da revolução, em homenagem aos meus companheiros de armas
Capitão Teófilo Bento
Quando eclodiu o 25 de Abril, cumpria serviço militar, como oficial miliciano, desde finais de 1971, no quartel do Campo Grande, em Lisboa. Nunca soube a razão de não ter sido mobilizado para uma das frentes da guerra colonial. O destino reservou-me passar quase três anos a ministrar instrução militar a recrutas de toda a sorte, alguns deles, por sinal, bem ilustres.
Foi o Capitão Teófilo Bento que me contactou no início de 1974 e não sei já como chegou até mim. Talvez tenha sido após o «Golpe das Caldas», em 16 de Março, pois, nesse dia, foi-me dada ordem para permanecer no quarto. Na manhã do dia seguinte, se bem me lembro, lá me mandaram sair. O golpe tinha fracassado. Falei, por esses dias, com o Capitão Teófilo Bento num carro estacionado próximo do 2º GCAM, no Campo Grande. Ele queria saber se havia algum oficial miliciano de confiança no Quartel-general de Lisboa.
Tratava-se, pelo que percebi, de um ponto fraco na rede dos militares que preparavam o golpe. Mas não havia um único miliciano de confiança, que eu conhecesse, em serviço no Quartel-general. Após este encontro fiquei com a certeza da inevitabilidade de que algo de sério ia acontecer. Estava, de facto, em marcha uma acção de envergadura para derrubar o regime.
Mantive a maior descrição. Não falei a ninguém acerca desse encontro. Mas tomei as minhas providências. O ambiente era de medir forças dentro dos quartéis. Após o fracassado «Golpe das Caldas» todos os movimentos eram observados e o ar que se respirava estava povoado de ameaças.
Na expectativa do combate
Os dias que se seguiram ao 16 de Março foram de expectativa e tensão crescentes. Sabia que alguma coisa iria acontecer. Os contactos multiplicavam-se e os boatos inundavam as conversas.
Soube, em meados de Abril, após o contacto com o Capitão Teófilo Bento, mas não por ele, que o golpe seria para os finais de Abril. A informação havia chegado pela via política e não pela via militar.
Teriam que ser tomados os cuidados adequados a uma situação de confronto armado em que poderia correr sangue. Ninguém acreditava que o regime caísse sem oferecer feroz resistência. Seria mais que provável o confronto militar pelo que era prudente estarmos preparados para essa situação.
Os camaradas de armas
Os militares, oficiais do quadro, que preparavam a revolta tinham a consciência da inevitabilidade do confronto militar. E os milicianos também. Era um confronto que havia que preparar com todo o cuidado. Fiz contactos discretos com os amigos que colaboravam no que havia de vir a ser o MES.
Deixei mensagens e recados mais ou menos enigmáticos. Muitos dos avisados fizeram vigília no dia errado ou foram surpreendidos no dia certo. Nada disse à minha família.
Mas alguém tinha de ser avisado para que na minha unidade militar, o 2º GCAM, se pudesse apoiar, com eficácia, a tomada do poder. Avisei o João Mário Anjos e o António Dias, meus camaradas de armas. Devemos ter acertado, entre nós, os passos a dar naqueles dias. (mais…)
A revolução do 25 de Abril foi de uma generosidade sem limites. E não me refiro somente à assumida economia da força que a cunhou como uma das revoluções mais pacíficas da história. Refiro-me também à excessiva condescendência para com os seus adversários, de que o tratamento dos pides (brindados com as suas reformas pagas com zelo e a horas), o exílio dourado dos principais responsáveis pelo Estado Novo, o regresso para morrer na cama do «Supremo Magistrado da Nação», Almirante Américo Tomás, os repetidos regressos do «inspector Rosa Casaco» ao local do crime, são apenas alguns, de uma longa lista de episódios de profundo significado político e simbólico.
Dir-me-ão que são águas passadas, que a superioridade moral dos vencedores e, sobretudo, a incontestável legitimidade da democracia são armas invencíveis contra minorias ressabiadas e derrotadas pela história.
Nessa convicção (de boa ou má fé) se conviveu pacificamente com Salazar e com o salazarismo. A sua sombra (ou o seu cadáver insepulto) circulou por aí, aos ombros dos seus devotos saudosistas, enquanto que muito sensatamente se comentava que a democracia não tinha tabus, que a melhor cura do trauma é a sua verbalização, etc., etc…
Falar cura, portanto há que falar. E falou-se muito de Salazar nestes quase 35 anos de democracia. Falaram cientistas, sociólogos e historiadores em colóquios, debates, encontros, seminários, trabalhos escritos de inegável qualidade, num real esforço de explicação do que era este pais sob Salazar, bem como os reais contornos da sua figura e da sua acção. Falaram escritores e jornalistas denunciando o lado mais negro e silenciado da ditadura e do seu chefe supremo.
Podemos hoje dizer que se conhece quase tudo sobre as circunstâncias históricas (materiais, técnicas, jurídicas, burocráticas) que possibilitaram 48 anos de fascismo já passado, mas tudo isto parece estranhamente confinado a um público restrito, de académicos e estudiosos, porque subsiste ainda uma paradoxal incompreensão sobre a significação ética e política dessa experiência totalitária, bem como da dimensão humana dos acontecimentos. Isto é, da sua actualidade.
Por mais que nos lembrasse Eduardo Lourenço que o fascismo não era uma conta mal feita que se apaga e se corrige, mas uma verdadeira tragédia nacional que, além de um juízo histórico, exigia um implacável juízo ético de toda uma comunidade, ninguém levou verdadeiramente a sério esse imperativo cívico. A maneira como o poder político saído da revolução tem tratado a memória desse período, de que temos exemplos gritantes na destruição sistemática dos locais da repressão (António Maria Cardoso, Forte de Peniche, Tribunal da Boa Hora, para só citar os casos mais actuais) são a melhor prova dessa menoridade cívica e cultural.
Cultural também, obviamente. Porque herdeira e devedora de Abril, esta democracia foi incapaz de construir de si mesma uma contra-imagem suficientemente forte e consistente, que se opusesse à imagem laboriosamente construída pelo salazarismo, ao longo de 48 anos. A ideia tantas vezes repetida de que, com o 25 de Abril, encerrámos um ciclo histórico, o «ciclo do império», serviu quase exclusivamente aos políticos, mas foi incapaz de mobilizar toda uma sociedade em verdadeiros projectos colectivos de mudança e transformação.
Entre 1969 e 1980, Luís de Sttau Monteiro (1926-1993) publicou as suas célebres «Redacções da Guidinha», primeiro no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa, depois em O Jornal.
Com um estilo e um tipo de humor absolutamente originais, os seus textos eram tentativas permanentes de fintas à Censura, como é bem patente na «Redacção» abaixo transcrita, que foi publicada em A Mosca de 6 de Outubro de 1973. Recorde-se que, no fim desse mês, iriam realizar-se eleições para a Assembleia Nacional, com as habituais dificuldades para que as diferentes oposições pudessem fazer as suas campanhas.
Ena pai o que para aqui vai por causa das eleições! ena pai! quem não conhecesse o Rebenta Canelas cá da Graça e visse o que está a acontecer até era capaz de pensar que valia a pena tomar conta dele e que os vencedores iam ganhar muito com a vitória! é claro que as pessoas que sabem como as contas andam o que querem é estar de fora ai não! enfim o melhor é eu começar do princípio senão ninguém me entende pois os sócios do Rebenta Canelas da Graça Futebol Clube vão votar uma gerência nova e há os que são do pró e os que são do contra os que são do pró votam na gerência que está à frente do clube e os que são do contra votam contra ela está-se mesmo a ver que não podia deixar de ser assim os que são do pró findam a colar cartazes a dizer que está tudo bem e como têm muito pilim andam a colar cartazes nas paredes nas árvores em toda a parte só ainda não colaram cartazes nas costas da gente porque os distribuidores não têm comissão nisso senão já estávamos cartizados que era uma limpeza os que são do contra coitados não podem colar cartazes porque se os colarem vão parar à chana por andarem a fazer propaganda contra a moral da Graça que toda a gente sabe que é muito boa mas isto ainda não é tudo não senhor o grande problema que há cá no clube é o do bufete que custa os olhos da cara aos sócios de maneira que há uns que querem o bufete e há outros que querem largá-lo esse é que é o grande problema mas não se pode falar nele não senhor porque a direcção não deixa os do contra podem falar disto e daquilo mas quem falar do bufete já sabe o que lhe acontece de maneira que as eleições do nosso Rebenta Canelas Futebol Clube da Graça são assim como um jogo de futebol em que seja proibido tocar com os pés na bola não sei se me percebem se não perceberam venham até cá ver o que se está a passar que eu prometo gargalhadas a todos mas de qualquer forma a Graça está a ser um bom exemplo para todos nisso de correcção somos todos tão correctos que nem sequer falamos das coisas que nos interessa não vá alguém ficar magoado em matéria de correcção ninguém nos leva a palma não senhor e os outros clubes podem pôr os olhos no que se está a passar na Graça porque se seguirem o nosso exemplo ficam como nós e se todos ficarem como nós deixamos de ser subdesenvolvidos porque como os outros começam a subdesenvolver-se ficamos todos iguais e ninguém nota que a gente é diferente o que é preciso é que os outros sigam o nosso exemplo palavra que o mundo vai ser bestial quando os Rebenta Canelas Futebol Clube de Londres de Paris de Nova Iorque e de Moscovo ficarem como o da Graça o que não se percebe é que eles não nos imitem sim não se percebe como é que eles vendo como a gente é bestial e sabe tudo não nos imitem às vezes penso que eles são parvos mas o meu pai diz que há uma data de anos que lê nos jornais artigos escritos por senhores bestialmente importantes a dizer que o mundo vai acabar por nos dar razão diz ele que anda a ler artigos há mais de quarenta anos e que o mudo não há meio de nos seguir o exemplo o que eu digo é que ou anda malandrice no caso ou que os directores do Rebenta Canelas estrangeiros não lêem o nosso diário de notícias da Graça quem sabe se eles falarão a nossa língua eu cá se fosse importante traduzia os artigos cá do nosso diário de notícias e mandava-lhes as traduções para ver se eles conseguem entender-nos é que se eles não seguirem o nosso exemplo vão continuar a minguar a minguar enquanto a gente cresce com as nossas boas ideias e daqui a uns anos somos uma grande potência e eles coitaditos estão todos subdesenvolviditos e lá se vai o equilíbrio do mundo sim porque quem sabe tudo somos nós e basta olhar para o diário de notícias cá da Graça para se ficar espantado com o nosso saber e com a ignorância dos outros mas além disso há outra razão para os outros seguirem o nosso exemplo que tão bons resultados está a dar e esse motivo é que é uma pena que este nosso exemplo que é tão bom e tão útil fique desperdiçado sem ninguém o aproveitar quando penso nisto que se está a passar de termos tão bons exemplos já que não podemos exportar mais nada pronto sempre exportávamos qualquer coisa cá por mim estou convencida de que a direcção ganha as eleições e que mais tarde ou mais cedo o mundo vai seguir o seu exemplo para bem da humanidade sim porque a Graça é um modelo.
Em Bordéus, cresce a pressão dos refugiados: se, entre Novembro de 1939 e Abril de 1940, a média mensal de vistos concedidos é de 20, em Maio essa média é de 8 vistos por dia na primeira quinzena, subindo depois para 160. Junho começa, aparentemente, mais calmo, mas, a partir de 14, volta a subir.
Entretanto, o católico Sousa Mendes – que colocara, na sua casa de Cabanas de Viriato, um Cristo Crucificado como testemunho da sua fé – vai encontrar aquele que talvez mais o tenha influenciado na decisão de conceder vistos a todos os que deles precisassem: o Rabi Chaim Krugger. Encontra-o junto à Sinagoga, preparando-se para passar a noite ao relento com a família. Pai de 13 filhos, o Cônsul é sensível à situação dos Krugger e convida-os para ficarem em sua casa: «A um homem que não conhecia e, ainda por cima, judeu!», espanta-se Jacob Krugger, filho do Rabi.
Sousa Mendes pede a Lisboa autorização para conceder vistos à família Krugger. A resposta, como sempre, demora e o Rabi aproveita a ocasião para explicar ao diplomata português tudo o que sabe sobre a perseguição nazi aos judeus.
A 13 de Junho, chega a resposta do Ministério: este recusa, uma vez mais, a concessão de vários vistos, entre eles o do Rabi Chaim Krugger. Mas para o católico convicto que é Sousa Mendes, não faz sentido que um homem seja perseguido pela religião que professa: se Lisboa recusa o visto, tomará sobre si a responsabilidade de o conceder. Mas o Rabi recusa: são tantos os que, lá fora, esperam um visto, porque deverá ele ser privilegiado? O que é preciso é que todos obtenham vistos para a salvação.
E, de repente – contaria, mais tarde, o seu filho Pedro Nuno – o Cônsul parece mortalmente cansado. Dirige-se ao quarto e fecha-se nele. Ao fim de três noites, na manhã de 16 de Junho, levanta-se e anuncia que iria conceder vistos a todos os que os pedirem, sem distinção de nacionalidade, raça ou religião.
Chaim Krugger corre para a rua, incitando os que esperam a dar-lhe os passaportes, para que lhes consiga o visto. O filho Jacob recorda que foi essa a primeira vez que o viu na rua sem casaco e chapéu. No interior do Consulado, Aristides assina os passaportes e o secretário consular, contra vontade – manifestou reservas à acção de desobediência de Sousa Mendes – apõe o selo branco.
A notícia de que o Cônsul de Portugal está a conceder vistos espalha-se e, no dia seguinte, 17 de Junho, centenas de refugiados afluem ao Consulado. Entre eles, o secretário particular de Otto de Habsburgo, Degenfeld – a quem Sousa Mendes pede que volte rapidamente, com os passaportes da família imperial austríaca. Quando Degenfeld volta, às dez da noite, pede a Sousa Mendes que conceda também vistos a outros austríacos fugidos do nazismo. Otto de Habsburgo nunca esqueceu a acção do Cônsul que, assinando esses passaportes, salvou centenas de austríacos.
No dia 24 de Junho de 1940, os leitores do Diário de Notícias puderam ler, nas páginas do jornal, mais uma notícia sobre o movimento de refugiados do nazismo junto às fronteiras portuguesas. Sob o título «Cresce o número de refugiados que procuram a paz em Portugal», o jornal escrevia:
«Vilar Formoso, 23 – Há três dias que a Polícia Internacional, o pessoal da Alfândega dos Correios e Telégrafos não tem descanso. Os comboios da fronteira chegam repletos e com muitas horas de atraso, sofrendo também aqui demoras, por motivo de identificação dos passageiros. Alguns refugiados trazem, apenas, moeda francesa, o que lhes cria novas complicações, visto que nos estabelecimentos não a aceitam. Muitos refugiados estão recolhidos em vagões do caminho de ferro e outros e casas particulares. É muito difícil arranjar acomodação para tanta gente, pelo que alguns refugiados têm ficado na rua. Na fronteira estão cerca de 300 automóveis com ingleses, que vão entrando em Portugal, pouco a pouco, a fim de não embaraçar o serviço de fiscalização. Também há aqui elevado número de automóveis, muitos deles ocupados por norte-americanos.
Hoje chegou o sr. Capitão Lourenço, director da Polícia Internacional, que veio orientar os serviços de identificação.»
«Nada de mais natural», terá pensado quem lia: com a entrada das tropas hitlerianas em Paris, a 14 de Junho, e a assinatura do armistício franco-alemão, a 22, era de esperar que mais e mais fugitivos do nazismo tentassem a fuga para Portugal, de que Salazar – ao tempo não apenas presidente do Conselho de Ministros, mas também ministro dos Negócios Estrangeiros – acabara de reafirmar a «estrita neutralidade».
Era de esperar, também, que o fluxo continuasse. Pois não se dizia, no mesmo jornal, em notícia proveniente de Madrid, ser «enorme a afluência de refugiados à fronteira de Irun»? E, se Franco declarara igualmente a neutralidade espanhola (aliás, em declaração conjunta dos dois países ibéricos), Portugal oferecia as vantagens da maior distância do conflito e da facilidade de partida para outros continentes.
De facto, no dia seguinte, uma nova notícia vinda da fronteira franco-espanhola indicava o dia 23 de Junho como «um dos dias de maior trabalho» para os guardas da fronteira e acrescentando que nunca antes tinham passado, «num só dia», «tantos judeus polacos e checos». E acrescentava que, ainda assim, tinham ficado em França, a aguardar passagem, cerca de 4000 pessoas, «visto que, por ser domingo, o consulado de Portugal em Baiona fechou mais cedo».
Posted by Joana Lopes under História, Testemunhos Comentários Desativados em Há muito tempo, um Congresso
Nota prévia – Este texto foi publicado na revistaO Tempo e o Modo, nº 58, Janeiro de 1968. Foi escrito para «passar» na Censura, razão pela qual omiti então alguns episódios e arredondei umas tantas arestas. Mas foram muito importantes as repercussões deste acontecimento que fugiu ao controlo dos próprios organizadores e que teve um eco muito grande na Igreja em geral e na portuguesa de um modo muito especial. Há dois anos, resumi essas repercussões num outro texto que, de certo modo, completa este e que está agora também online. Podem também ser consultadas as «Resoluções aprovadas no Congresso», que mostram bem a ousadia que então representaram.
III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos
Roma, 11 de Outubro de 1967 – 5º aniversário da abertura do Concílio. Decorrem os trabalhos do Sínodo Episcopal. Começa um Congresso, anunciado desde há muito e que reúne no Palazzo Pio a alguns metros de S. Pedro, cerca de três mil pessoas vindas de 108 países. São na maioria leigos católicos; são também padres, religiosos, bispos e cem cristãos não católicos.
Irão trabalhar – e trabalhar intensamente – durante uma semana. Aqueles que, por hipóteses, tivessem olhado mais ou menos cepticamente para o programa-horário e feito os tradicionais planos de «participação» em grandes Congressos – assistência aos actos principais, aproveitamento substancial do tempo para turismo – depressa perceberiam que não poderia, nem quereriam, cumprir esses planos.
O Congresso excedeu para muitos, para a grande maioria, aquilo que dele esperavam. A imprensa internacional, sobretudo a mais interessada e especializada, referiu amplamente este facto.
Temia-se, mais ou menos inconscientemente e por razões muito diversas, que se fosse assistir a mais uma grande actividade de massa com tudo antecipadamente estabelecido: um tema geral demasiado vago («O Povo de Deus no itinerário dos homens»), dois subtemas («O homem de hoje» e «Os leigos na renovação da Igreja»), «carrefours» com os assuntos de discussão indicados e esquemas de preparação enviados anteriormente a todos os participantes, duas ou três conferências e pouco mais.
Podia pensar-se, até pela própria situação histórica do Congresso cuja data foi propositadamente adiada para que só se realizasse depois do fim do Concílio, que a preocupação principal e constante seria a aplicação dos ensinamentos conciliares, por citação sistemática dos respectivos textos, às diferentes questões que iriam ser abordadas, nomeadamente nos «carrefours» (que ocupavam quase metade do tempo total dos trabalhos). Na parte do Congresso subordinada ao título «O homem de hoje», cada tema de «carrefour» tinha sido expressamente escolhido em correspondência com os diferentes capítulos da segunda parte da Constituição pastoral sobre a Igreja «Gaudium et spes». Os temas desses «carrefours» eram: Atitudes espirituais dos homens de hoje; a família na evolução actual da sociedade; a cooperação entre homens e mulheres nos diferentes domínios da vida social; Tensões entre gerações; a comunicação social – uma revolução cultural; o desenvolvimento – responsabilidades sociais numa sociedade planetária; a paz e a comunidade mundial; migrações.
Posted by Caminhos da Memória under História Comentários Desativados em Quando Hitler morreu
O final da 2.ª guerra mundial trouxe alguns engulhos ao governo português. Na verdade, e para além da propagada «neutralidade», vários sectores da sociedade portuguesa ostentaram posturas germanófilas e o próprio governo foi mantendo relações com a Alemanha. O modo como O Século noticiou a morte de Hitler é exemplar a esse respeito. Com o título «Morrendo no seu porto o Führer deixa a garantia da eternidade ao povo alemão», o jornal acrescenta ainda que, ao escolher o suicídio, «Hitler entra na História não apenas como herói, mas como mártir» (ver texto de António Melo no Público, aqui.)
Mas a derrota nazi chegou mesmo a provocar os primeiros fogachos de um conflito diplomático entre Portugal e Inglaterra. Em Maio de 1945, o Foreign Office questiona os seus serviços diplomáticos em Lisboa acerca de uma notícia publicada no Times: o governo português tinha dado ordem para se colocar as bandeiras a meia-hoste como sinal de luto pela morte de Hitler. Acrescenta-se ainda que isso ocorreu também na Terceira, «sob os olhos das forças americanas e britânicas», o que provocou a irritação dos ingleses, que chegam mesmo a referir que «se algum incidente acontecer a responsabilidade será do governo português». As autoridades portuguesas invocaram as relações existentes com a Alemanha para a colocação das bandeiras a meia-haste e os dois dias de luto nacional. «Como é possível que ajudemos os portugueses, como continuadamente somos pressionados a fazer, diante desta gratuita desconsideração à causa pela qual nos temos batido?», perguntam os ingleses. A tensão seria amenizada com a garantia portuguesa de que não se acolheriam responsáveis nazis no país.
Vem tudo isto a propósito de um importante conjunto de documentos que se encontram em The National Archives e que Tiago Neves nos enviou.
Mesmo sendo pouco dada a saudosismos, tenho essa noite na memória, e não só eu, pois que quando nos encontramos – os da geração de sessenta – e falamos do antigamente na universidade, vem sempre à baila a prisão dos 1.500. Mil novecentos e sessenta e dois. 1962 foi um período marcante para todos nós da resistência, para o movimento associativo e para o regime.
Estávamos às centenas, sentados no chão por tudo o que era espaço ocupável na cantina da Cidade Universitária de Lisboa. Reclamávamos a possibilidade de comemoração do Dia do Estudante e havia até um grupo de jovens universitários em greve de fome. Era o culminar de uma luta que vinha de muito antes.
Pela noite dentro, foram chegando mais estudantes que vinham juntar-se a nós. Isto porque, ao cair da noite, começou a correr que a PIDE ia aparecer e fazer prisões logo que a maioria dos que, durante o dia, ali haviam permanecido fosse para casa. Perante este «diz-se que», quem ia embora não foi e desencadeou-se um movimento de telefonemas (de cabines) para colegas ausentes, a chamá-los ali. Com excepção das meninas dos lares universitários, quase não ficou colega por contactar. «Liga à Emília, eu falo aos jornalistas do República…» Acordados eles e as famílias pela noite dentro, os apoiantes do movimento associativo começaram a chegar. Viam-se entrar, como que estremunhados. Em alguns casos, tinham-se escapado de sapatos na mão, pelo corredor da casa fora, fugindo ao controlo paternal – elas, sobretudo, que a moral vigente não lhes dava cobertura em saídas nocturnas. Um pé-de-vento. Chegaram muitos. Não admitiam que, no dia seguinte, viessem dizer – como era costume do governo – que apenas uma minoria, sem significado, estava naquela luta. Não era verdade, a Universidade de Lisboa, na quase totalidade dos alunos e muitos, muitos docentes, apoiava os dirigentes do movimento associativo, o que era evidente nas reuniões plenárias em que apareciam aos milhares. Por isso, logo que começou a circular que naquela noite ia tudo dentro, até os habitualmente mais difíceis de convencer a agirem se levantaram da cama e foram para lá.
O previsto – e que durante a noite era já aguardado por todos – aconteceu mesmo. O regime não aguentou nem a pressão da contestação, em crescendo na universidade, nem a coesão dos dirigentes e do movimento estudantil.
A vida não lhes corria mesmo nada de feição com as inúmeras greves operárias desse ano, e agora eram até os meninos da burguesia a criar-lhes problemas? Só faltava essa… Decidiram cortar o mal pela raiz – que já era tarde – e antes de perderem totalmente o controlo da situação, prenderam de uma assentada 1.500 jovens – na esmagadora maioria, oriundos das classes sociais tradicionalmente afectas ao regime (era, não esqueçamos, a Universidade enormemente elitista do início da década de 60). Zás! Tudo «dentro». Intimidados por esta acção repressiva, talvez os pais tivessem mão nos seus filhos.
1. Os primeiros passos do feminismo foram dados no sentido de se reivindicar a igualdade formal entre homens e mulheres. Caminho aparentemente óbvio, sobretudo na época em que nasceu (o período da Revolução Francesa e das suas proclamações igualitárias), mas que a breve trecho se veio a revelar particularmente sinuoso. Três exemplos demonstram como este foi, historicamente, um percurso minado.
Olympe de Gouges é o primeiro caso. Glosando a Carta dos Direitos do Homem e do Cidadão, Olympe escreve, em 1791, uma Carta dos Direitos da Mulher e da Cidadã, na qual defende a igualdade entre homens e mulheres no domínio público e privado. A ousadia da francesa foi severamente punida: a 3 de Novembro de 1793, Olympe de Gouge é guilhotinada. A República proclamava a universalidade dos direitos mas não podia tolerar que as mulheres deles usufruíssem.
Durante o século XIX, a revolução industrial, com o consequente abandono dos campos e o crescimento do proletariado, empurrou as mulheres para o mercado de trabalho. É no contexto das duras condições de trabalho existentes nesta altura que vamos encontrar o segundo exemplo. A 8 de Março de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entram em greve, exigindo a redução do horário de 16 para 10 horas. Recebiam, pelo mesmo trabalho, um terço do ordenado dos homens. Fecham-se na fábrica, onde entretanto é declarado um incêndio. Cento e vinte e nove tecelãs morrem queimadas. A carga dramática do acontecimento fez com que, alguns anos depois, a data fosse escolhida para comemorar o Dia Internacional da Mulher.
Nos primeiros anos, a comemoração serviu, essencialmente, para se reclamar o direito de voto e de participação das mulheres nas instâncias públicas. Esta atitude política, que ficou na história com o nome de «sufragismo», foi dando lentamente os seus frutos. Muito lentamente, por vezes. Se em alguns países as mulheres acedem com razoável rapidez ao voto – Nova Zelândia (1893), Austrália (1901), Finlândia (1906), Noruega (1913), Dinamarca e Islândia (1915), Rússia e Holanda (1917) – noutros lugares a caminhada foi mais longa. Em Itália e França o voto feminino chega em 1945 e na Suiça em 1971.
Em Portugal, o sufragismo também fez o seu caminho. Chega-se assim ao terceiro exemplo, o exemplo caseiro de como o trajecto da paridade não foi (não é) fácil nem consentido. Em 1911, Carolina Beatriz Ângelo, escudando-se numa leitura alternativa da Constituição, que permitia o voto aos «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família», invoca a sua condição de «chefe de família» e obriga os tribunais a deixarem-na votar. A médica votou mas o gesto acabou por não se multiplicar. Em 1918, ainda durante a I República, a Constituição é alterada de modo a que apenas fossem eleitores os «cidadãos do sexo masculino». Apesar das sucessivas aberturas que a lei foi proporcionando, só na sequência da nova conjuntura proveniente do 25 de Abril de 1974, homens e mulheres adquiriram iguais direitos políticos.
Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em a náusea que me asfixia
vi o documentário na televisão
o rosto dos soldados que interrogaram homens
no Iraque no Afeganistão
o ar crispado de quem não era suposto ser julgado
viver o cárcere ou ser interrogado
olhei o Mal o cinismo a ignorância a ignomínia as botas cardadas
a pele exposta sem outro camuflado que não o do medo
as discussões abstractas infames dos generais dos secretários de estado
o gozo primário dos raciocínios do presidente os esgares
aprendi sobre a humanidade de dormir quatro horas ou apenas duas
preso pelos pulsos ser espancado até ao homicídio à exaustão
pergunto-me se dessa morte já terão padecido em número suficiente
olho por olho dente por dente mortos para saciar os profetas
as vozes do apocalise os senhores de todas as guerras
os que hesitaram na resposta à pergunta se seria legítimo
pontapear os testículos do filho de um homem
a quem se quer extorquir uma qualquer informação
será que já são tantos quantos os que arderam nas torres gémeas
tantos quantos os que morrem pelas ruas de Bagdad
tantos quantos os rockets sobre as praias de Israel e de Gaza
será que já chegam será que não
será que serei capaz de me levantar da náusea que me asfixia
lavar-me do nojo
será que serei capaz de descobrir a cara
de remover este véu de vergonha
será que não.
(Desenho publicado originalmente em Blue Moleskin)
Desenho e poema de Cláudia Santos Silva
A violência e abusos a que os presos políticos eram submetidos nas prisões políticas portuguesas durante a ditadura fascista do Estado Novo (1926-1974) é conhecida de muitos portugueses, particularmente a partir de 1974, restabelecidas que foram as liberdades democráticas. No entanto, o que se passava nas prisões políticas das colónias portuguesas de então é bem menos conhecido e por vezes mais terrível. Por isso parece-me oportuno colocar aqui algumas notas (ou gritos?) que encontrei nesta circular nº 19, da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, datada de 9 de Maio de 1973, a um ano do estertor da ditadura.
Não é do Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, o mais conhecido, que aqui se fala, nem do de S. Nicolau, no deserto de Moçâmedes em Angola. É do Campo de Concentração de Machava, em Moçambique, a sete quilómetros da então Lourenço Marques e actual Maputo.
Em Machava havia duas prisões: a dos presos de delito comum e a dos que não tinham cometido crime nenhum. Roubar, assassinar deve ser julgado e punido, de acordo com as regras que a civilização foi criando. Mas querer a Liberdade e o fim dos ignominiosos privilégios dos colonialistas, querer o fim da «escravatura» colonial isso exigia, na opinião dos colonialistas, um regime prisional e repressivo sem lei. Violência, tortura e morte, de preferência anónimas. A Machava dos presos políticos. Sim, essa tinha um estatuto próprio governado directamente pela PIDE-DGS.
Eis um extracto da circular nº 19 da COMISSÃO NACIONAL DE SOCORRO AOS PRESOS POLÍTICOS, de 9 de Maio de 1973.
«Compõem o campo de concentração 8 pavilhões – construções baixas, compridas e isoladas umas das outras por pátios de terra solta… Nos pavilhões as celas distribuem-se ao longo de um corredor central que vai de topo a topo. A dimensão das celas individuais é normalmente de 2X3X3,5 m, mas nelas são metidos em geral 6 a 8 “criminosos de consciência”. As celas maiores, têm cerca de 3X12X3,5 m e têm uma lotação de 20 prisioneiros mas nesse reduzidíssimo espaço estão em geral amontoados 50.
Estão neste momento [1973] internados no campo de concentração da Machava cerca de 2100 moçambicanos – muito para além da sua lotação máxima de 800 detidos.
O aspecto mais chocante na prisão da Machava é o confronto inevitável entre o tratamento que têm os presos de delito comum da Cadeia Central propriamente dita – tratamento muito próximo do de uma cadeia legalmente organizada – e o tratamento dos presos políticos.
Posted by Joana Lopes under Ecos Comentários Desativados em Ecos (35)
Durante a Guerra Civil, o regime franquista enviou milhares de telegramas ao embaixador espanhol em Londres, com o objectivo de justificar as suas actividades e evitar uma intervenção do governo inglês a favor da República. Reunidos em 25 volumes, esses documentos vieram agora para Madrid e foram incorporados no espólio do Centro de Documentación de la Memoria Histórica.
Posted by Eduardo Graça under História, Testemunhos Comentários Desativados em MES – Anti-autoritário e de esquerda toda a vida…
Vítor Wengorovius no jantar de Extinção do MES
Na sequência do IV Congresso do MES, realizado a 8 de Julho de 1979, marcado pela vitória da moção intitulada «Nova Prática, Novo Programa, Outro Caminho», foi aberto o caminho para a auto-crítica em relação a algumas orientações políticas anteriores e para uma demarcação, assumida e sem regresso, do MES face à chamada «Esquerda Revolucionária».
Foi Vítor Wengorovius quem assumiu as funções de porta-voz desta ruptura que haveria de anteceder a extinção do MES, formalizada em 7 de Novembro de 1981, no emblemático jantar/festa realizado no pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português (ironias da história!).
Na política nada acontece por acaso, apesar dos imponderáveis que o acaso dita, e das idiossincrasias, por vezes bizarras que, em cada época, os dirigentes políticos ostentam. Tudo isto para dizer que, no caso do MES, não fui o primeiro a assumir a autocrítica dos seus erros, mérito que Nuno Brederode Santos, simpaticamente, me atribuiu, mas Vítor Wengorovius em entrevista concedida, em 19 (?) de Novembro de 1979, ao extinto diário Portugal Hoje:
«(…) Entre os erros cometidos interessa hoje sublinhar, não tanto os derivados de discutíveis atitudes pessoais ou de relativa inexperiência devida à juventude da maioria dos seus dirigentes, mas os próprios estratégicos ou os mais importantes a nível táctico.
Contrariando as vantagens das suas origens (…) o MES veio a enredar-se rapidamente no confronto apressado em torno do marxismo-leninismo, a querer construir voluntaristicamente um partido desse tipo, a querer disputar a cintura industrial de Lisboa, dando muito pouca atenção quer ao operariado de outras zonas do país quer aos trabalhadores de serviços, quer à juventude (…) e a perder assim o seu papel original. Vogou depois ao sabor das oscilações do processo revolucionário (…).»
Nessa mesma entrevista VW, em nome do MES, explicou também, com detalhe, as razões da decisão tomada na reunião da sua Comissão Política, realizada em 18 de Novembro desse ano, que consagrava o rompimento definitivo, com a chamada «esquerda revolucionária».
Primeiro, transformou-se a sede da PIDE/DGS em condomínio de luxo, em pleno coração do Chiado, obliterando a história do edifício quanto ao negro passado da polícia política da ditadura Salazar-Marcelista. Agora, tudo se prepara para que a placa evocativa das últimas vítimas da PIDE, assassinadas no dia 25 de Abril de 1974, desapareça para sempre da fachada do edifício. Em Outubro do ano passado ainda se podia ver a marca deixada pela placa, como a foto comprova. Hoje já se pode antever que destino espera a placa: o caixote do lixo da história. Se é que já não está no caixote do lixo de um qualquer empreendedor de condomínios de luxo. Quem lá passar agora não encontrará rasto da placa naquelas paredes imaculadas.
Com a fachada limpa dos sinais dos tempos, designadamente dos crimes da PIDE e do regime que sustentou, podem muito bem dormir tranquilos os novos inquilinos da rua António Maria Cardoso. Os outros, os milhares que por lá passaram e sofreram os horrores da tortura, sentir-se-ão de novo seviciados, com a conivência dos novos dirigentes do regime democrático, edificado pelo sacrifício e abnegação de muitos antifascistas, que estão incrédulos e ofendidos com o que se está a passar. Não foi para isto, seguramente, que lutaram muitos democratas. É este o sinal que deixamos às novas gerações? Não basta dedicar umas miseráveis 11 linhas à PIDE nos programas de História? Vamos todos discutir as mulheres de Salazar e esquecer os seus crimes? Vamos apagar as parcas memórias que nos restam?
Sem dúvida que o Estado não demonstra a mínima vontade política para preservar a memória dos crimes da ditadura e da resistência antifascista. Depois da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da projectada construção de uma pousada na fortaleza de Peniche e, mais recentemente, da anunciada construção de um hotel de charme no Tribunal Boa Hora, não restam dúvidas de que, para além das palmadinhas nas costas, dos sorrisos de circunstância, das palavras inconsequentes e de resoluções vazias de vontade política de dar passos no sentido do seu cumprimento, não há o mínimo sinal de que o farão. Bem pelo contrário, os sinais são preocupantes. Como se sabe, a Câmara Municipal de Lisboa sancionou o projecto do condomínio na António Maria Cardoso e agora o actual presidente confirmou o pior em relação à Boa Hora, ao afirmar que «não se vive de memórias, vive-se de presente e de futuro». Os sinais do ministério da Cultura não são mais optimistas, face às notícias que alegam a possibilidade da entrega aos privados a exploração do nosso património histórico. Ficámos a saber com quem podemos contar: com a determinação dos que não desistem de denunciar este estado das coisas do Estado.
É imperioso exigir que o promotor imobiliário do Paço do Duque respeite a memória daqueles que lhe permitem hoje enriquecer sobre os escombros da sede da PIDE. Para além de ter apagado, no site oficial, da história do edifício esse facto incontornável, prepara-se agora para deixar cair no esquecimento a placa evocativa das últimas vítimas da PIDE, que dizia:
Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção («general avant la lettre» como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), Nino sempre denotou insuficiências culturais, políticas e éticas que fizeram dele um desacerto na envergadura das responsabilidades assumidas enquanto companheiro de luta chegado de Amílcar Cabral. Aos méritos militares de Nino, que o levaram até à nuvem do mito que o fez pairar – muito exageradamente – nas mesmas alturas do génio militar do vietnamita Giap, muito deve o sucesso da luta guineense contra o domínio colonial português. Aos defeitos pessoais e políticos de Nino, a Guiné deve grande parte do caos e miséria em que descambou e que impediu que a independência da Guiné-Bissau fosse, para o seu povo (melhor, para os seus povos), uma emancipação de facto relativamente ao passado colonial. Na fase de juventude da independência da Guiné, quando tudo estava em aberto para a realização dos anseios que alimentaram a valente luta anticolonial dos guineenses (e caboverdianos que se lhes juntaram), Nino puxou tudo para o fundo – o Estado, os ideais, a generosidade de construir um pais novo, impondo antes a corrupção, o nepotismo, o gangsterismo, o golpismo, o fraticídio étnico e a cleptocracia. Nino queimou praticamente tudo o que ajudara a construir mas de que não foi, nem de perto nem de longe, o único, ou sequer o principal, obreiro. E tornou a Guiné-Bissau ingovernável. Agora, quando o assassinaram no seu reduto a que havia regressado como Presidente, Nino já era melhor que a Guiné que ele ajudou a destruir e que se enterrara entretanto na bolanha imunda do descontrole absoluto e do narcotráfico. E é nesta medida que é uma injustiça histórica que a Guiné, a quem Nino tanto deu e a quem tanto tirou, tenha devorado agora este filho da sua terra, cumprindo à distância de quarenta anos, aquele que foi o sonho falhado de tantos militares portugueses de elite e «torre e espada» ao peito (incluindo o mais famoso «cabo de guerra português» após Mouzinho): caçar o Nino.
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Colóquio Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização 15 e 16 de Abril de 2010
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