interrogatório

 
Um texto de Alexandre Santos Castanheira (*)

 
Fui detido pela PIDE no quartel de Mafra no último dia do meu curso de oficial miliciano sem qualquer explicação. Metido nos «curros» do Aljube, fui sendo submetido a interrogatórios na António Maria Cardoso sem que conseguisse perceber a causa dessa detenção. De seguida fui enviado para Caxias, para a minha velha conhecida sala 1, onde já estivera em duas anteriores detenções, mas, como estava sem outros presos, continuei a não saber o motivo da minha estadia.

Dias depois da minha entrada no Forte, quando descia do parlatório do 1º andar, onde recebera a visita de minha mãe, para ir, no rés-do-chão para a «minha» sala, assisti a uma agressão dos guardas sobre José Maria do Rosário. Enquanto esta decorria e eu protestava contra o que via, fui empurrado e obrigado a entrar na sala. Aí redigi imediatamente uma carta de protesto ao director da prisão e outra ao director da PIDE. No dia seguinte, vieram buscar-me e levaram-me ao átrio de entrada no Forte, onde encontrei, debaixo de forma, outros presos a quem leram uma declaração do director a tratar-me de mentiroso e provocador, pois «inventara» uma agressão, o que mostrava a minha falta de honestidade. De regresso à sala, retiraram-me livros, papéis, canetas, etc., condenado que fora ao castigo de isolamento. Como deixei igualmente de receber visitas, continuei ignorante das «razões» da minha detenção. E durante o primeiro mês de isolamento nem sequer a interrogatórios fui levado.

Até que um dia: «prepare-se para ir a interrogatório!» Não fiquei muito tempo na «sala da paciência» à espera da minha vez (quantas vezes a ver outros companheiros a saírem para interrogatório e a regressarem depois com sinais de terem sido brutalmente agredidos). Tratado com um certo respeito, fui recebido numa sala onde apenas estava o inspector que me interrogara das vezes anteriores. «Oh, sr. dr., queria desde já dizer-lhe que não se trata de um interrogatório mas sim de um pedido que lhe quero fazer e nada tem a ver com o seu processo. E é o seguinte: o sr. dr. é amigo pessoal do sr. Braizinha?» Muito surpreendido com a atitude e com a pergunta, respondi, como sempre fizera, que não respondia. Aí foi o indivíduo a «ficar espantado». «O quê? Então eu expliquei-lhe que isto não tem a ver com política, que é apenas uma informação muito pessoal que eu lhe peço e o sr. dr. responde-me dessa maneira? Vá, dispa-se lá dessa consigna que recebem no Partido e diga-me: o Braizinha é seu amigo?» Tornei a responder que não respondia e então foi assustador. De sr. dr. passei a estúpido, a vil exemplar de hipocrisia, sem qualquer respeito pelos amigos. E lá veio finalmente a revelação: o Braizinha, que era de facto meu amigo, fundador comigo e mais alguns jovens de um clube de campismo e também da primeira comissão em Almada do MUD Juvenil, estava preso por ter sido apanhado a recolher assinaturas para a minha libertação! E vá de afirmar em altos gritos. «Assim se trai uma amizade! Ele é seu amigo, sacrificou-se por si, mas você nem sabe o que amizade quer dizer!» Abre a porta e grita: «Oh fulano! vem sentar-te à máquina porque desta vez vai ter interrogatório a sério!» Repetem-se as cenas do interrogatório anterior, pois sempre de interrogatório se tratou. «Perguntado se conhece um tal Braizinha, respondeu que não responde». De repente assiste-se a um intervalo, verdadeira cena de comédia teatral. «Não pode ser. O sr. dr. é inteligente e não vai deixar as coisas assim. Eu vou-lhe dizer do que tudo isto trata. O Braizinha está de facto preso e de repente põe-se a escarrar sangue. Está tuberculoso! E nós não queremos matar o homem! Basta que nos diga que ele é seu amigo e ele sai em liberdade imediatamente!» Volta-se para o agente dactilógrafo: «Ó fulano, sai lá outra vez.» Volta a pergunta, quase feita amigavelmente, e recebe a resposta de sempre.

Chama o outro, repete a pergunta, enfurece-se com a resposta e passeia as suas mãos pela minha cara e pelo pescoço sem no entanto me agredir fisicamente.

Acabo por ser levado para Caxias depois de ouvir os mais grosseiros palavrões. Continuo isolado mais um mês e quase não consigo dormir a pensar: «Será verdade que o meu amigo está gravemente doente?» Mas eu não podia ceder. Responder seria iniciar o começo da minha derrota diante daquele malandro. Sofri imenso psicologicamente mas tinha a certeza de que naquele embate o vencedor fora eu. Quando finalmente saí da prisão, fiquei a saber que o meu amigo fora preso ao recolher assinaturas e não tinha passado pelo sangrento ataque da doença que o inspector me descrevera dramaticamente.

 
Biografia de Alexandre Santos Castanheira

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