Maria Lamas 
 
Conheci-a em 1962, logo que cheguei a Paris. Fiquei a viver durante três anos na Rue Victor Cousin, ali mesmo ao lado do Hotel Cujas, um hotel de ilustres exilados políticos, de que era proprietária uma intempestiva francesa, Mme Savage, a quem ironicamente chamávamos Madame Sauvage.
Aí residia Maria Lamas. Falava-se dela como de uma aristocrata no exílio. Quem conviveu com Maria Lamas naqueles tempos, compreendia a justeza da designação, mas a verdade é que, a ela, nunca lhe agradou.

Interessava-se profundamente pela evolução da situação política em Portugal, mostrava-se sempre disponível para apoiar iniciativas de solidariedade com os combates contra o fascismo, e vivia com particular intensidade – e não raras vezes, com sofrimento – os momentos pouco pacíficos da vida política da comunidade portuguesa no exílio. Raramente tomava posição perante confrontos – sobretudo os que, mais tarde, vieram a surgir entre grupos com diferentes orientações ideológicas – mas não deixava de desabafar a sua mágoa junto de alguns amigos mais próximos. «Para não sufocar», como nos deixou escrito num bilhete – que ainda guardo – posto, um dia, por debaixo da nossa porta. Pé ante pé no pequeno patamar, em silêncio, sem bater, que «não queria incomodar». Encantadora mulher.

Conversava diariamente com vários amigos que a visitavam, lhe faziam companhia e davam apoio. Alguns eram companheiros mais assíduos, como os já desaparecidos Jorge Reis e António José Saraiva.
Eu, como diversos outros amigos, exilados ou de passagem em Paris, ia buscá-la, às vezes, para almoçarmos ou passearmos um pouco.
Acabávamos, quase sempre, sentadas junto ao laguinho do Jardim do Luxemburgo, a apanhar sol e a falar de várias coisas.
Com trinta e tal anos de diferença de idades, tanto discorríamos sobre o passado, como sobre o presente ou sobre o futuro.
Maria Lamas aparecia, aos meus olhos de jovem, como um exemplo de independência ideológica e de combatividade.
Presa para sempre às «Mulheres do seu País» e sabendo do meu interesse pelas questões da condição feminina e pela sua situação, procurava convencer-me da importância de organizar em Portugal um Movimento que as unisse nos seus anseios.
Eu concordava com essa preocupação e tinha muito em conta as suas opiniões, por saber que traduziam o conhecimento que ela tinha da dura vida das mulheres portuguesas. Mas, também, porque eram fruto de debates, ao longo dos anos, com muitos outros, homens e mulheres que reflectiam amiúde sobre essa problemática. Maria Lamas insistia sempre em que um tal movimento deveria nascer no interior do país, como uma iniciativa de mulheres, e ser lançado com a participação, desde logo, de uma grande diversidade, quer do ponto de vista social e profissional, quer das suas opções políticas e religiosas.
Esta estratégia tinha em mim um enorme eco. Eu não me revia em algumas perspectivas feministas em moda na época, mas discordava frontalmente da forma como era organizada a participação portuguesa naquelas iniciativas mundiais destinadas a um debate de natureza diferente, sobre a situação feminina e sobre a luta das mulheres no mundo. As mulheres portuguesas estavam quase sempre representadas pelas mesmas delegações partidárias, ou por delegações com orientações «enfeudadas» partidariamente.
Por isso, a ideia «Movimento democrático das mulheres» cedo integrou os meus projectos, no campo da actividade política, quando voltei a Lisboa. E «mandava recados». Haveria alguns obstáculos a vencer mas, à partida, não se me afiguravam intransponíveis. E não foram. Mais tarde, vim a ter um grande apoio para aquela ideia, por parte de responsáveis do meu Partido.

Quando em 1965 regressei com o Alfredo, bruscamente, a Lisboa, Maria Lamas despediu-se de nós com enorme mágoa e muita ternura.
No princípio de 1966, pouco mais de um mês após a morte dele, voltei a Paris por uns dias e fui visitá-la. Disse-me então uma frase que, depois, em 69, vim a repetir em grandes reuniões de mulheres: «Não te esqueças do nosso Movimento de Mulheres. Agora que voltaste ao nosso país, podes empenhar-te na sua criação».

Assim que houve condições para isso cumpri o prometido, o que me valeu algumas noites sem dormir, em 1967, na Rua António Maria Cardoso. Deixei passar pouco tempo e retomei a iniciativa: os mais velhos lembrar-se-ão, com certeza, de ouvir falar da «Comissão Democrática Eleitoral das Mulheres» (1969, CDE). Foi aí que nasceu o «nosso» Movimento. O MDM começou, de facto, por ter expressão muito ampla e diversificada, com milhares de mulheres a debaterem, no país, de norte a sul, as suas preocupações. Anos mais tarde, Maria Lamas chegou ainda a ser sua Presidente. Mas eu «já lá não estava». A minha prioridade era então outra: ajudar a construir as bases de um sindicato para os professores.

(In Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006)

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