salazar

 
Um texto de Jorge Martins (*)
 
Ele costumava dizer que sabia bem o que queria. Em público era firme e determinado Em privado era afável e humilde. Dava o exemplo, calçando as suas botas remendadas até que os buracos não tivessem conserto. Preferia a tranquilidade do campo ao buliço da cidade. Privava com a serventia, desde a governanta ao caseiro. Cuidava das suas galinhas como se pusessem ovos de ouro. Não trocava a sua sopinha de agriões por nenhuma iguaria mundana. Era com enorme sacrifício que assumia em público aquele ar grave, solitário e de resignada clausura. Claro que teve as suas aventuras, mas bem discretas e escondidas da comunicação social, ávida de escândalos e mexericos. Ele não era homem para exibicionismos das suas conquistas. Casou com a Pátria Sua Amada. Portugal foi verdadeiramente o único amor da sua vida. Inventaram algumas histórias mais inconvenientes sobre a sua vida amorosa, mas nunca deixou que os jornais, a rádio e a televisão as revelassem, só para que a atenção do Seu Povo não se desviasse um milímetro do caminho que tão laboriosamente lhe havia traçado. O País precisava d’Ele assim: um Missionário da Pátria, sem vida própria, exclusivamente dedicada à Nação. As mulheres procuravam-no insistentemente. Ele satisfazia-lhes a libido por espírito de missão – uma vez mais e sempre! – e abandonava-as, recatadamente, à beira da estrada. Até chegavam a vir do estrangeiro, na tentativa inglória de lhes conquistarem o coração. Mas, Ele fazia tudo pela Nação. O seu incomensurável amor à Pátria não lhe deixava uma réstia de afecto para conceder aos amores que se lhe atravessaram persistentemente no caminho durante quarenta anos de dedicação exclusiva aos outros. Nunca quis ser pai. Bastava-lhe ser Pai do Seu Povo. Reconhecidamente cumpridor das suas obrigações para com o Senhor, arriscava a própria vida pela Sua Igreja, a que não faltava todo o Santo Domingo, dispensando a protecção a que tinha direito, como Estadista. Enquanto Ele dirigiu os destinos da Nação nunca ninguém pôde apontar-lhe um defeito, uma fraqueza, uma inconveniência. Ele não permitia o falatório, protegendo assim o Seu Povo. Tudo o que se publicava na comunicação social tinha que ser expurgado das maledicências dos seus inimigos, das invejas dos que o queriam apear do Poder, das mentiras dos seus opositores. Enquanto governou o País, com a mão pesada de um Pai que protege os seus Filhos dos perigos internos e externos, não autorizou as notícias desmoralizadoras, as críticas destrutivas, a propaganda de ideias erráticas. Ele soube construir um estado fundado nos inquestionáveis valores de Deus, da Pátria e da Família. Não permitiu que se discutissem esses valores, agindo com determinação contra quem os pretendesse subverter. Por vezes foi forçado a exercer alguma compreensível violência contra os seus opositores, mas só assim poderia separar o trigo do joio, arrancar as ervas daninhas, extrair os cancros sociais que ameaçavam corromper a trilogia do Regime, que com tanto sacrifício pessoal havia oferecido ao País. Do Mundo, só sabíamos o que interessava à Nação. Ele proibia o contacto com as desgraças dos outros, só para preservar o orgulho de Ser Português. As guerras dos outros países eram evidenciadas para mostrar ao Seu Povo quão diferente era este Cantinho Português, este Povo de Brandos Costumes, que vivia pacificamente por obra e graça da Sua Neutralidade. Às invectivas das organizações internacionais – obviamente manipuladas por inconfessáveis interesses destinados a destruírem o edifício cristão, paulatinamente edificado pelo Seu esforço -, contrapunha um heróico Orgulhosamente Sós. Nem sequer vacilou perante uma qualquer guerra que nos fizessem, mesmo que por interpostos protagonistas. As grandes potências mundiais que se cuidassem, pois responderíamos rapidamente e em força a qualquer agressão belicista, ou a qualquer tentativa de dividir o nosso Sagrado Território Uno e Indivisível do Minho a Timor. Ele nunca pactuou com os subversores da Ordem Estabelecida. Prontificou-se sempre a ajudar os Seus Amigos em dificuldades, contra as ideias e as acções ameaçadoras da Raça. Tal como a nossa Pátria, a pátria dos seus amigos tinha que ser defendida do Anti-Cristo. Aqueles que se opunham a este Desiderato Nacionalista, eram justa e liminarmente silenciados, manietados, aniquilados. Um abanão a tempo resolvia os casos mais renitentes, sobretudo os que estavam a soldo das Forças Ocultas do Mal. Nada nem ninguém o desviaria da sua linha. Reprimia à esquerda e à direita qualquer veleidade subversora do Pensamento Único. Sabia bem para onde ia, para onde foi e onde permaneceu quase meio século, legando ao País uma herança perene, que ainda hoje perdura no coração dos Portugueses agradecidos. Este moralizador atavismo fez de nós um Povo feliz, pobrete mas alegrete. Não éramos ricos, éramos remediados, mas orgulhosos de sermos Portugueses. Herdámos uma dívida Patriótica, que ainda hoje estamos a pagar.

Obrigado, Salazar!

 
(*) Biografia de Jorge Martins

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