Nos últimos dias têm vindo a lume diversas notícias anunciando a mudança dos tribunais a funcionar na Boa-Hora para o Parque das Nações e a cedência do edifício para «hôtel de charme».
Assim, depois da passagem a espaço burocrático da antiga prisão política do Aljube, da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da proposta de fazer uma pousada no forte de Peniche, chegou a vez do Tribunal Plenário de Lisboa. Apesar das boas palavras e resoluções da Assembleia da República, parece não poder haver dúvidas de que a memória da luta antifascista é algo que, para lá de não se querer preservar, se pretende destruir.
Dizem-nos que não é por fazer da PIDE um condomínio, de Peniche uma pousada, da Boa Hora um hotel que a memória da resistência antifascista desaparecerá.
Ora não é o temor de que a alteração física dos edifícios leve ao esquecimento que nos leva a protestar pela sucessiva entrega desses lugares de memória da resistência a projectos imobiliários. O que nos preocupa é o sinal que isso envia às novas gerações, que não viveram a luta antifascista. O que nos preocupa é que a facilidade com que se destroem símbolos lhes comunique uma ideia de desinteresse por uma luta que está na base da democracia em que vivemos, ou, mesmo, de complacência para com a ditadura.
O que nos preocupa é só conseguirmos compreender esse desinteresse pela memória da resistência como um sinal de vitória póstuma da ditadura. Ou seja: como um desinvestimento na democracia. O que nos confunde tanto mais quanto ao mesmo tempo se preparam, com pompa e circunstância, as comemorações do Centenário da República.
Insistimos, por isso, na necessidade de recordar, na António Maria Cardoso, que ali sofreram e morreram diversos antifascistas; de recusar a transformação de Peniche e da Boa-Hora em unidades hoteleiras; de preservar o Aljube e criar, ali, o Museu da República e Resistência.
A Direcção do NAM
Quinta-feira, 19.Fev.2009 at 01:02:48
sugiro que lancem uma petição online.
Quinta-feira, 19.Fev.2009 at 08:02:43
Aos que argumentam que os edifícios não”enquadram” a memória, perguntemos-lhes se sabem que os Pides eram formados, ensinados, treinados ou se apareciam todos por uma geração expontânea de voluntariedade. E se responderem que presumem que tinham formação específica, perguntem-lhes onde a adquiririam eles e com que materiais, etc..
Suponho que muitos ignorarão, então, que havia uma escola da PIDE, que essa escola estava instalada num edifício e que esse edifício, revestido a azulejos, estava em Sete Rios. Mas foi demolido. E praticamente em silêncio, isto é, sem grande contestação.
Nunca lá entrei, mas presumo que um local com “tecnologia” tão específica terá sido único em Portugal. (A menos que existissem outros “polos”).
Quinta-feira, 19.Fev.2009 at 10:02:39
Alex,
Aguardemos para ver como se articulam as diferentes organizações que estão a trabalhar neste sentido.
Sexta-feira, 20.Fev.2009 at 01:02:11
Jorge Conceição, permita que comente o seu comentário. É verdade o que diz: a Escola Técnica da PIDE em Sete-Rios (desde 1968 até cair, passava-lhe diariamente à porta) caíu aos bocados por abandono e acabou por ser demolida ainda numa época em que a causa da preservação museológica não estava na ordem das preocupações (o fascismo ainda não estava longe nem em risco de se apagar a memória, o presente e o futuro exigiam todas as energias). Hoje é assunto arrumado pelo próprio reordenamento do espaço. Mas não coloco o interesse da preservação da Escola Técnica da PIDE ao lado de idêntica exigência quanto à Sede da PIDE, ao Aljube, a Peniche e ao Tribunal da Boa-Hora. Por uma razão: enquanto os locais que o comunicado refere foram espaços partilhados onde a PIDE brutalizou e onde os presos políticos foram brutalizados (os dois lados marcaram presença e têm aí parte das suas memórias de sofrimento), a Escola da PIDE era um reduto exclusivo dos pides, onde os resistentes não entraram (só lá puseram uma bomba, não recordo agora se por acção da ARA ou das Brigadas), portanto, como espaço de memória, tem um âmbito mais reduzido. Outro aspecto é o interesse no funcionamento da Escola para os dedicados ao estudo da história da PIDE, dado a formação de todos os pides ser ali feita (a dos que entravam na polícia e as associadas às promoções). Desconheço, mas decerto a Irene Pimentel nos pode esclarecer sobre isso, se a documentação e materiais existentes na Escola foram preservadas e estão disponíveis para consulta dos estudiosos da polícia política. Se sim, julgo que o essencial se salvaguardou.
Sexta-feira, 20.Fev.2009 at 03:02:01
Estou muito de acordo com o João Tunes.
Contudo, desviando-me um tanto desse acordo, eu minimizo o Tribunal da Boa-Hora como elemento evocativo da repressão. Edifício digno, daria mais para um Museu da Justiça, com a respectiva sala do Plenário devidamente conservada. Mas um museu que não fosse mumificado ou “museificado”, como muito bem diz Nelson Anjos.
Os Museus têm hoje uma forma mais viva de existirem e destinam-se mais ao futuro, e a quanto nele de novo surgir ou se fez surgir, do que à mera circunstância do presente. Os “contras e as reservas” que aparecem nesse presente deverão ser vistos com um olhar mais para diante.
Lugares que façam lembrar esses sofridos 50 anos de salazarismo, com os aspectos mais repugnantes da repressão que o apoiava e ajudava a manter, não tenho dúvidas de que são o Aljube, Peniche, a sede da PIDE e mesmo o Forte de Caxias, Reduto Sul, onde a PIDE “trabalhava” também nos últimos tempos.
A operação contra a Escola da PIDE foi da ARA. Infelizmente, pelo que me lembro, morreu uma pessoa, sendo presumivelmente alguém que ia a passar.
Para documentação, incluo o comunicado da ARA, encontrado na net.
O Comando Central da
ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA”.
– Tripla acção: contra a Escola da PIDE/DGS, o navio Niassa e o Centro Cultural dos EUA
“No prosseguimento da sua acção revolucionária, comandos da A.R.A, numa acção conjugada, levaram a efeito com pleno êxito, na madrugada do dia 20 de Novembro, três operações distintas:- destruição parcial da Escola Técnica da odiosa PIDE-DGS, principal instrumento de repressão fascista do governo de M. Caetano; destruição de importantes quantidades de equipamento e material de guerra armazenados no cais privativo da C.N.N., prontos para embarque no navio NIASSA para alimentar a guerra colonial; destruição do “Centro Cultural” da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, centro de propaganda ideológica do imperialismo americano no nosso país.
O Comando Central da A.R.A salienta que, dados os processos técnicos utilizados, quaisquer destas acções revolucionárias poderiam ter tido lugar a qualquer hora do dia. Sacrificando, contudo, um maior efeito espectacular de tais acções, houve a preocupação de, na medida do possível, evitar perdas de vida inúteis. A despeito desta preocupação, e não podendo garantir em absoluto que em futuras acções revolucionárias não se venham a verificar acidentes mais graves que os verificados até agora. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA responsabiliza desde já por tal eventualidade o governo de M. Caetano devido ao prosseguimento da sua política antinacional de terrorismo político, de guerra colonial e de sujeição ao imperialismo estrangeiro.
Não podendo já silenciar por mais tempo a existência e a acção da A.R.A, o governo, pela boca dos seus porta-vozes da PIDE-DGS, procurou deturpar o significado e importância política da sua acção, classificando os membros da A.R.A de “terroristas”, de “maoístas”, etc. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA fiel aos propósitos definidos no seu Comunicado de 26 de Outubro último, prosseguirá ao lado do povo e demais forças antifascistas na luta pelo derrubamento da ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o domínio imperialista no nosso país.
VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!
21 de Novembro de 1970
Sexta-feira, 20.Fev.2009 at 03:02:26
Nada de hotéis, charmosos ou não, no edifício do Tribunal da Boa Hora!
Sexta-feira, 20.Fev.2009 at 11:02:17
Eu não estava a pôr no mesmo plano de referência a escola da Pide e os edifícios onde acção directa sobre os anti-fascistas e acho que não se infere isso do meu comentário. Mas, enfim, não tenho a presunção de redigir com clareza. O meu comentário pretendia apenas reforçar a ideia de manter “vivos” os citados edifícios, particularmente aquele que está em causa que é o Tribumal da Boa-Hora, realçando com o (talvez mau) exemplo de um edifício que havia desaparecido e cuja ausência não permitirá às actuais gerações “que não leiam” saber alguma coisa do que era a Pide e que meios utilizaria.
Na verdade quase ninguém “que não leia” saberá o que era o Palácio de Estaus (primeira prisão da Inquisição) e onde era o 2º edifício da prisão da Inquisição. (Talvez nem lhes interesse saber e nem isso fará mal desde que saibam o que ela era e o que representou).
Quanto à utilização do Tribunal da Boa-Hora estou totalmente de acordo com o Nelson Anjos. Tenho muito receio que espaços museológicos deste género se tornem locais desertos, tendo em atenção o que tenho por cá e pelo estrngeiro tenho observado. Dou um exemplo: há poucos anos visitei Praga durante 10 dias e reparei numa coisa paradigmática. Uma igreja , hoje cedida pela Igreja Católica à Igreja Ortodoxa, onde se esconderam durante semanas 7 paraquedistas checos treinados na Inglaterra para efectuarem sabotagens em instalações do ocupante nazi e onde foram aniquilados por estes, é um memorial importantíssimo de referência à resistênia nacionalista checa contra o ocupante alemão. Pois eu visitei detalhadamente o local, vi vídeos, vi a exposição de cartazes, enfim, permaneci ali mais de três horas mergulhado nesses acontecimento que eu não conhecia e do qual vim bastante documentado. Pois durante todo o tempo que ali permaneci não entros mais ninguém! E Praga estava cheio de turistas estrangeiros. Quem tomava conta do local informou-me que era um local muito pouco visitado, apesar de constar dos guias turísticos (por um dos quais, aliás, cheguei ao conhecimento do local). Em contrapartida, no entanto, o local onde um jovem da primavera de Praga, enfrentando um tanque soviético, foi morto tinha sempre muita gente a ver… nada, para além do sítio, da placa e das flores.
Acho importantíssima a conservação (e recuperação) dos espaços referência desde que se tornem locais vivos. Não basta tê-los. Terá de ser assegurada a sua vivência. E isso é coisa que poucos sabem fazer. Como li em comentários a outros “posts” neste blogue, aqueles bonecos estáticos nas celas de Peniche são coisa muito pouca e insuficientes para animar os espíritos mais jovens. E julgo que os destinatários destes memoriais serão sempre as gerações que não viveram o fascismo. Os que os viveram visità-los-ão numa atitude mais próxima do saudosismo do que da reposição de lapsos de memória.
Sábado, 21.Fev.2009 at 12:02:26
A questão da museologia aqui colocada é o problema de qualquer museu sobre qualquer tema e em qualquer parte do mundo. Há museus “parados”, meros depósitos de peças, e há museus com capacidade dinâmica e interactiva. E conhecemos as duas modalidades para um mesmo tipo de invocação. Depende da equipa orientadora, depende das verbas, depende das condições. Já assisti a museus que foram “mortos” durante muitos anos e que uma nova direcção, dinâmica e pró-activa, a tornou num local animado, eficaz e atractivo.
São, a meu ver, perfeitamente pertinentes os alertas aqui colocados quanto ao tipo de evocação que um espaço museológico, ou vários, sobre a repressão política no fascismo será susceptível de gerar. E, em tempos de vacas magras de verbas para cultura, julgo que diversificar muito os alvos de preservação da memória, pode (por impossibilidade material) representar a morte do próprio projecto. Peniche e/ou Aljube parecem-me as melhores escolhas (Peniche, pelas condições próprias e pelo espaço; Aljube, por se encontrar dentro de Lisboa e permitir um acesso mais numeroso). Quanto à Boa-Hora, concordo com uma sugestão anterior que devia ser preservado enquanto Museu da Justiça a incluir um espaço de evocação específica para o Tribunal Plenário.
Além da questão da preservação de espaços de sofrimento da resistência, não como local de romagem e saudade mas como demonstração dos “custos da democracia em Portugal”, há a questão do decoro. Instalar condomínios de luxo, pousadas de luxo ou hotéis de charme em locais onde se prendeu, torturou e condenou os que se bateram contra a ditadura é, antes do mais, uma alarvidade de falta de respeito.
Segunda-feira, 23.Fev.2009 at 02:02:19
Os lugares da nossa memória colectiva devem ser preservados como tal. Se hoje, as novas gerações pouco ou nada sabem de quantos sofreram e morreram pela Liberdade, apagados os lugares, o que restará dessa época?O debate deve extravar do circuito fechado, o debate deve ser público pois será uma oportunidade de revelar a nossa história recente aos Portugueses.