Prisão de Caxias

«Puta de merda! Respondes ou não ao que te perguntei?» – berrou um agente da Pide.

«Deixem lá a rapariga, coitada. A menina queria mesmo era dormir, era ou não era? – Não exagerem! Ó pá, chama o inspector e mandem-na seguir para Caxias. Vocês são umas bestas quadradas… – Vá, quer despachar isto, assinar o auto e ir para a caminha? – Assim ninguém vai a lado nenhum, nem você com esta teima em não falar, nem tu, espécie de animal!» – disse um segundo agente, acabado de entrar, dirigindo-se alternadamente a mim, em tom calmo, e com modos boçais ao «pide» que me interrogava. O costume.

Veio um médico. Bordado a «ponto pé de flor» com linha azul celeste, na algibeira da bata branca: Dr. Magalhães.

Minutos depois, numa enorme e negra carrinha celular, seguimos cinco para o Forte de Caxias. Sentados à frente, o motorista e dois agentes. Nas costas deles, a toda a largura, uma rede em ferro com espaços por onde caberia um dedo. Imediatamente atrás, eu e, ao meu lado, uma agente. Conversavam todos muito alto – não me lembro de ter entendido ou sabido ao certo o que diziam. Tive uma vaga percepção de que, no regresso, iam trazer outros companheiros para interrogatório.

A Calçada Ferragial, perto da sede da PIDE na António Maria Cardoso, passava-nos por baixo a pique (para mim, inclinada a uns 45 graus), aos abanões e a grande velocidade. Do meu lado, a carrinha parecia muito descaída. Um pneu vai furado, pela certa…  

«Isto vai inclinado. Levam uma roda em baixo!» – alertei eu, receosa, tocando o motorista com o dedo indicador direito que fiz passar por um dos espaços da rede. Risota geral.

«- Esteja calma, ó freguesa, vai com medo de cair? Você é que vai de rodas em baixo…» – Mais risada. Eu não devia ter falado com eles…

Com os solavancos, sentia agora a minha coluna vertebral como se tivesse uns espetos que me picavam. Incomodavam-me. Ouvi o médico falar em Hospital…

À chegada à minha cela vazia (Lar, doce lar!), meti num plástico uma pêra, um maço de cigarros e umas cuecas, e sentei-me na bordinha da cama à espera que me fossem buscar para ir ao Hospital prisional São João de Deus, ali ao lado. Era engano, não ia nada – disse a guarda Rosa, olhando embasbacada o meu saquito. Voltou, daí a instantes, com um comprimido e uma caneca de água. Que o tomasse, que eram ordens, e que me deitasse, que estava dispensada de me levantar para jantar. A estranha combinação daquelas três coisas como bagagem, e o ar «esparvoado», para não dizer alucinado, com que insisti na certeza de que estariam à minha espera no Hospital, talvez os tivessem deixado inquietos: o dia seguinte era quinta feira e, à quinta feira, havia a visita semanal da família. Tinha de estar minimamente apresentável.

Mal ela fechou a porta, fui às grades – a um metro da barreira de terra, nas traseiras do Forte – e cantarolei a canção do Adriano: «Quem canta por conta sua / canta sempre com razão / Mais vale ser pardal da rua / que rouxinol na prisão…»

Era a senha para o início de uma conversa que, diariamente, se estendia por cerca de um minuto, à hora em que na outra ponta do corredor começavam a entregar o jantar.

«- Um forte abraço, companheira! Como estás?» – sussurravam-me a Rita e a Fernanda, pelas grades da cela ao lado.

Uma força gigantesca vinha naquele abraço.

«- Olá amigas! Estou bem, tudo bem.

– Agora deita-te, procura dormir. Hoje não te vai ser fácil, mas tenta descansar…»
     
 
Acordei na manhã seguinte num banho de sangue. Nada de especial. Era normal naquela situação: a Natureza reagira.

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