Salazar (João Abel Manta) 

Graças à mini-série da SIC, A Vida Privada de Salazar, ficámos a saber que ele era, afinal, um verdadeiro macho latino: na juventude engatava as miúdas todas, beijocava-as à sorrelfa, recebia as pretendentes à porta do seu quarto no seminário, chegou mesmo a acariciar o peito de uma delas, por cima da blusa evidentemente, mas não as deixava entrar porque era proíbido. E até se pirava à noite para ir ao encontro duma namorada que, por sua vez, tinha uma irmã que também se atirava a ele. Isto em 1905, entre o Vimieiro e Vizeu (assim se escrevia na época), em plena Beira Alta, região que, como todos sabemos, sempre foi muito vanguardista no que se refere a comportamentos sociais. Já Presidente do Conselho, não deixou os seus créditos por mãos alheias e atirava-se a elas em cima dos sofás, apalpava as marquesas e quando se fartava de alguma largava-a em pleno Monsanto. Comportamento que, desde já, verberamos. E era tão bacano, tão querido do povo, que nem precisava de segurança: fosse a caminho do Vimieiro, fosse nas passeatas de carro com as amásias, fosse quando lhe batiam à porta da casa de S. Bento, sempre aberta a todos e só com a fiel Dona Maria como guardiã, não se via um único agente de segurança, nem mesmo um simples polícia de giro. E toda a gente lhe podia telefonar lá para casa. Mas este retrato não seria completo se não falássemos do seu amor pelas crianças, como na ternurenta cena de aconhegar o cobertor da cama da sua afilhada. Enfim, era um ternurento engatatão. 

Ora, esta imagem nada tem a ver com a que nos andaram a impingir durante anos a fio, uma imagem seguramente empoeirada, e é graças à SIC e ao senhor Jorge Queiroga que podemos ter hoje esta visão «desempoeirada», como o próprio afirmou, de António de Oliveira Salazar. Uma obra a todos os títulos notável e que vem preencher uma lacuna há muito sentida no tratamento desse período da nossa história. A tal ponto que me atrevo, como simples cidadão, a propor ao Ministério da Educação que solicite ao senhor Queiroga (pagando, naturalmente) uma versão mais curta, mas sem perda de qualidade, para passar obrigatoriamente em todos as escolas. Desta forma, o próprio ministério preencheria uma outra lacuna, esta do nosso ensino, e daria uma contribuição decisiva para que as nossas crianças minorassem, finalmente e de forma segura, a sua ignorância no que respeita ao século vinte português.

Estas linhas não vêm por acaso: é que eu próprio me vi confrontado com a experiência vivida durante este período e, sobretudo, com a minha própria consciência. Cheguei a pôr tudo em causa e, até, a pensar que tinha vivido um sonho ou que tinha vivido mais de metade da minha vida num outro país. E, por mais que medite no que o senhor Queiroga, e a SIC, acharam que era o mais importante de se conhecer, não consigo esquecer.

Será que, como tantos outros, terei mesmo passado pelas celas de isolamento do Aljube, os chamados «curros» ou «gavetas», pelos interrogatórios na sede da PIDE, de pé, sem dormir, por Caxias e pelo Tribunal Plenário? Será que a repressão da luta dos camponeses alentejanos pelas 8 horas de trabalho foi uma invenção? Terão de facto existido e terei participado na luta académica de 62 e nas grandes manisfestações populares dos 1 e 8 de Maio desse mesmo ano? O Tarrafal não terá sido uma invenção dos comunistas? E as revoltas da Sé e de Beja? E o assassinato do General Delgado não terá sido um ajuste de contas entre os seus partidários? Dias Coelho foi mesmo assassinado em plena rua, ou ter-se-à suicidado? Terá mesmo havido Guerra Colonial? Será que tudo isto foi um sonho mau? Então, porquê o 25 de Abril?

Concluí que não pode ter sido um sonho porque houve centenas e centenas de outros que passaram pelo mesmo que eu passei, muitos por ainda muito pior, e que há milhares que viram o que eu vi e participaram no que eu participei. E não pode haver tantos sonhos iguais. Tudo isto sucedeu aqui, em Portugal, sob o consulado do mulherengo Salazar. Então, pensei que, provavelmente, nada disto sucedia por acaso.

E concluí que os que pensam que dar a conhecer os amores e a vida privada de um ditador (numa realização totalmente insana) é mais importante do que dar a conhecer a sua real faceta de político e a do seu regime, estão mentalmente conluiados com os que querem transformar o tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, Peniche numa pousada, e que permitiram que a sede da PIDE fosse transformada num condomínio de luxo sem que minimamente acautelassem a sua memória como local de tortura. Conluiados porque da acção de todos eles, mesmo que não concertada, resulta, mais do que o branqueamento do fascismo, o apagar intencional da memória do país. E não me admiraria se, um dia destes, um qualquer bispo português afirmasse que o fascismo nunca existiu e que a PIDE era uma prestimosa organização que zelava pela nossa segurança e se, no mesmo dia, acordássemos com o Aljube transformado num lar da 3ª idade para os agentes da PIDE que, entretanto, vivem calmamente a sua reforma, alguns exibindo orgulhosamente as medalhas atribuídas pelo regime democrático pelos bons serviços prestados à pátria. Serão eles, provavelmente, os únicos que se riem a bom rir com tudo isto.

Porque nós, os que sofremos às suas mãos e passámos pelos calabouços da PIDE, alguns durante longos anos, os que foram forçados ao exílio e todos os outros que, à sua maneira, lutaram pela restauração da liberdade e pela implantação dum regime democrático, nós sentimo-nos, mais do que esquecidos, humilhados, porque querem acabar com a nossa memória que é uma parte indissolúvel da memória do povo português.

Somos, de facto, um povo sem memória. Já em 1821, o deputado liberal Francisco Simões Margiochi denunciava de forma notável esta atitude a propósito da extinção do Tribunal da Inquisição.

«(…) Por consequência, parece que os Portugueses deviam pegar em fachos e queimar os Tribunais da Inquisição: mas não; é preciso conservar abertos os seus cárceres, para podermos ir lá muitas vezes meditar sobre as desgraças da humanidade. É preciso conservar abertos os seus cárceres para ver os seus fogos e compará-los com o nosso estado actual. É preciso ir a esses cárceres ouvir os gemidos dos desgraçados que sofreram tantas angústias; gemidos que ainda duram e que durarão enquanto a nossa Constituição não fizer mudar todos os nossos costumes; enquanto a mesma Constituição não fizer mudar o entendimento e o coração daqueles que ainda não tenham mudado.» (Transcrito por Jorge Martins no blogue «Caminhos da Memória».)

Que atentem nestas palavras os responsáveis por estas decisões e que sejam capazes de as reconsiderar e que os partidos de esquerda honrem a sua memória e tenham coragem para assumir as suas responsabilidades com atitudes efectivas para que sejam preservados os locais da repressão da ditadura, em celebração da resistência e da liberdade.

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