Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido à livralhada acumulada sem grande nexo aqui em casa, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo algumas das fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de dois pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinha um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, fala de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos nós a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono colectivo e prolongado do qual só na década de 1960 terá sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos.
Mas sendo aquele Portugal dos anos 50, aqui fotografado, uma parte visível do Portugal essencial que muitos de nós ainda consideram seu, ele pouco tem a ver com aquele que tantas vezes procuram hoje vender-nos. A historiografia que aborda a segunda metade do nosso século XX tende ainda a colocar esse Portugal numa espécie de limbo silencioso, algures entre a fase de engenharia política e cultural desenhada por Salazar e por Ferro na primeira década do Estado Novo, fechada com a Segunda Grande Guerra, e um tempo de irreversível mudança, trazido nos anos 60 pelas contradições do regime, pela Guerra Colonial, pela emigração em avalanche, pelo turismo de massas, e principalmente por um universo marcado pela nova cultura urbana, juvenil e de protesto, que então emergia. Longe de uma realidade afinal bem mais vibrante, parece ter acontecido quase o mesmo à observação histórica da Europa daquele tempo. Aqueles catorze ou quinze anos de pós-guerra são-nos ainda erradamente mostrados, passada a grande festa da Libertação e da chegada de uma paz que já não parecia possível, como um tempo triste, por vezes sórdido, quase imóvel, onde as pessoas comuns pensavam apenas em sobreviver à pobreza, à depressão, aos traumas da guerra, aos ritmos do trabalho, sem o espaço de esperança, de liberdade e de vontade de bem-estar que acompanhando a afirmação da classe média pareceram triunfar na década seguinte. Enquanto para uma América saída da guerra com o poderio militar e económico reforçado e uma aparência de prosperidade, tudo nos é revelado já com o rosto de um amanhã – como nos conta A Vida e as Aventuras do Rapaz Relâmpago, o livro de memórias de infância de Bill Bryson, ou o monumental The Fifties, de David Halberstam -, a descrição da Europa permanece ensombrada pelas paisagens soturnas de uma vida marcada pela desigualdade que o cinema neo-realista italiano repetidamente invocou.
Em Portugal, esses anos 50 de chumbo foram até há pouco tempo principalmente mostrados sob uma ausência de luz, com um profundo cunho de sonambulismo acentuado pelo peso do regime e pela realidade de um sociedade de contrastes sociais que este administrou com «paternal» punho de ferro. O nosso pós-guerra, transcorridos rapidamente os meses de esperança causados pela vitória dos Aliados e pela expectativa de uma viragem política que jamais chegou, pareceu assistir a um país que se fechava de novo sobre si próprio, vergado sob o reacender da repressão da PIDE e a transformação da dimensão reformadora do salazarismo inicial num mero conservadorismo bloqueado e beato. E, todavia, alguns olhares projectados sobre a vida literária e cultural da época, sobre a história dos movimentos associativos e o dinamismo estudantil, sobre a experiência individual e colectiva do quotidiano nos domínios do lazer e do desporto, sobre a visível mudança na geografia das cidades, têm vindo a mostram-nos que ao lado desse país congelado, branco tal como Salazar gostava, se erguia já um universo outro, que até no plano da vida pessoal desenhava um território de resistência e oposição. Basta regressar ao que aconteceu nas presidenciais de 1958 com a campanha do General Delgado para se perceber que, afinal, por debaixo da capa de unanimismo e de placidez, algo de forte e de movediço se estava a preparar durante aqueles anos 50 só mesmo na aparência estagnados.
A recente recuperação da figura de Salazar e do seu habitat pseudo-natural, tende agora também a diluir aquela imagem baça, mas por troca com uma outra igualmente equívoca, plena de glamour e contendo sugestões de um universo de bem-estar que tem tão pouco de verdadeiro como de especificamente português. As séries de televisão, os «romances de época», as capas das revistas que vemos nos quiosques, mostram-nos agora um país a fingir, com carros americanos e personagens perfumados, reproduzido à imagem e semelhança dos anúncios que na época eram fornecidos pela publicidade dessas Selecções do Reader’s Digest que muitos portugueses olhavam como expressões de uma improvável utopia. Na Sábado desta semana, Salazar parece um híbrido de Howard Hughes e Douglas Fairbanks. Até a autobiografia de um antigo oposicionista nos fala de um Portugal feliz e glamoroso, onde quase toda a gente parecia dedicar-se ao ténis e aos desportos náuticos. Nada daquele outro Portugal, bem mais verdadeiro, onde permanecia um viver comum que de modo algum correspondia a essa imagem de esplendor. Mas que também se não cingia às descrições simplificadas e lúgubres, a preto e branco, produzidas por uma oposição para a qual, talvez compreensivelmente, para efeitos de trabalho político era justamente o ângulo mais negro e penoso que importava. Na realidade, a existir uma escassez dessa «memória trágica das representações colectivas do passado» da qual falava António Guerreiro numa crónica do Expresso, mais notórios se revelam ainda alguns limites colocados a uma rememoração historicamente situada da vida «tal qual ela foi» no quotidiano do salazarismo.
Fotografias como estas de Gérard Castello Lopes que hoje me caíram da estante, todas elas muito fortes e belas, redimem-nos um pouco desse Portugal de papelão que jamais existiu. E revelam-nos um pouco mais daquela época e daquele povo feito de gente que «vivia habitualmente», é certo, mas sem por isso desistir de procurar os seus pequenos espaços de independência e de satisfação, onde havia sempre um lugar para o jogo, a brincadeira, o pequeno prazer, a vida tal qual merecia ser vivida. Um Portugal anos-50 que não se revelava apenas triste e à imagem da imagem pública de Salazar, onde havia vida para além do silêncio imposto, da exploração e de ausência de horizontes. Um Portugal português que, se olharmos em volta com cuidado, percebemos não ter morrido inteiramente. Talvez seja ele ainda que nos faz sermos nós.

Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 05:02:32
Rui Bebiano tem uma escrita profundamente feminina. Que o é, até na sua capacidade de descoberta e resgate do valor dos “pormenores”. Que só o são, apenas enquanto roubados desse valor.
Penso que de facto o cinzentismo português era a cor predominante do tempo observado. Mas também penso que existe aí um erro de generalização que importa corrigir, através da reflexão a que o autor convida, descobrindo e devolvendo o valor ao que existia à margem do estereótipo.
nelson anjos
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 08:02:06
Aconselho-o a não dizer tal coisa – aquilo que escreveu no primeiro parágrafo relativo ao interesse feminino pelo pormenor – à frente de uma feminista, pois ela pode tornar-se violenta… Ou à frente de qualquer pessoa que descreva, literariamente ou não, paisagens com pormenores excessivos, não lineares e generalizantes. Não é que me sinta ofendido (embora confesse que em quase 40 anos de escrita pública seja a primeira vez que me dizem tal coisa). Está é a ofender muitas mulheres, mesmo que não o faça (eventualmente, digo eu) com a perfeita consciência disso.
Quanto ao tal «cinzentismo»: claro que existiu, nos anos 50 como nos 40 ou nos 60. O que acontece é que existiu também um universo complexo, esse ainda mal estudado na minha opinião, no qual a vida transcorreu «às cores». Acredite que se o afirmo não é por uma vaga impressão ou mania da originalidade, mas sim porque tenho acompanhado profissionalmente alguns trabalhos que se desenvolvem nessa direcção. A história da literatura foi a primeira a percebê-lo, mas estão outros campos (que menciono no texto) em vias de exploração.
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 09:02:00
Rui Bebiano
Julgo ter perfeita consciência do que disse. Apenas o que disse não tem para mim significado de ofensa – nem pouco mais ou menos – relativamente às mulheres. Talvez alguma feminista primária sinta o contrário. Paciência !
Acontece apenas que verifico nas mulheres traços específicos de um mndo interior – e exterior também :) – que as distinguem dos homens. Penso que há de facto manifestações tipicamente femininas – nas escrita assim como em muitos outros aspectos. E verifico essas diferenças entre a mulher e o homem com a mesma naturalidade com verifico a diferença entre um pénis e uma vagina, ou entre uns seios femininos e a ausência deles no homem.
A haver ofensa, por mim vejo-a antes na forma intempestiva como repudia a semelhança que lhe atribuí.
nelson anjos
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 03:02:05
Calma. E eu atesto, pelo privilégio de o ter conhecido pessoalmente, que o Rui Bebiano não usa soutien.
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 04:02:04
Mas, Rui Bebiano, não foi mesmo, então, um país pintado a duas paletas? Uma, que não passava do cinzento, para o país rural dominante que abrangia as pequenas e médias urbes (as quais, incluindo o Porto, pouco mais iam além de aldeias grandes) e outro pintalgado à volta das (então pequenas) bolsas de turismos e dos campus universitários? E onde o cosmopolitismo não ia além do eixo Lisboa-Cascais ou de “banhos” no estrangeiro?
O estudo da componente lúdica nas zonas populares encontram-na onde? Além da taberna, do futebol, do associativismo da sociedade de recreio e da romaria (em Lisboa, reproduzidas nos “santos populares”)? E a permanente e pesada migração campos-cidade (anterior à grande emigração para a Europa e que se mantem até hoje) não assegurava uma permanente recomposição do rural sobre o urbano? Se mesmo a cultura operária, desenvolvida pela industrialização, nunca se autonomizou além de um frouxo autodidactismo, porque estiveram sempre frescas as origens camponesas nos “novos operários”.
Obviamente que Portugal não esteve fechado aos ventos do mundo, importando estares, transgressões, mudanças e modas. Mas onde e por quem? Nas universidades, quase sempre nas universidades (que, com o tempo, “contaminaram” os liceus). E entre os intelectuais que liam o que se publicava onde se publicava.
A descoberta desse mundo popular dominante, paredes meias mas com muros que a descoberta política, cultural e de costumes que o movimento estudantil proporcionou, foi bem expressa quando em 1967 (nas grandes cheias em Lisboa e arredores) os estudantes em campanha solidária descobriram a miséria popular. Com o espanto de encontrarem um mundo desconhecido.
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 07:02:16
Caro João Tunes (regresso ao caro com a maior vontade), vou ver se sou capaz de, no pequeníssimo espaço de um comentário escrito nesta caixa minúscula, ir ao essencial das perplexidades que sugere. Não podendo agora escrever outro post, no qual talvez conseguisse esclarecer melhor alguns aspectos, procurarei ser mais claro limitando-me, sem qualquer ordem lógica de importância, a referir uma ou outra ideia.
– Este post, como se terá percebido, não é o esboço de um artigo académico sobre a história portuguesa da década de 1950, mas tão-só um texto vagamente poético inspirado pelo reencontro casual com as belas fotografias a preto e branco de Gérard Castello Lopes.
– Nele pretendi destacar, por um lado, a presença de uma vida social, construída à margem do regime, que se refugia precisamente nas pequenas cumplicidades do divertimento e da pequena transgressão que a ética salazarista de facto abominava e procurava combater. Mudanças várias ocorriam a esse nível, tanto no campo como nas cidades, embora principalmente nestas, para onde afluíam muitos trabalhadores rurais antes da explosão da emigração «francesa».
– A vida literária e intelectual mostra-se então crescentemente rica e multímoda, centrada nas cidades mas não apenas. A experiência dos cineclubes, por exemplo, é importante nesse processo. As associações de estudantes iam construindo novos espaços de debate e de troca de ideias (ainda há pouco tempo fui arguente de uma tese sobre o associativismo no IST que para mim foi uma autêntica revelação). Jornais (muitos deles regionais) e algumas revistas abriam também novos espaços. A edição livreira alargava regularmente a sua presença.
– A classe média urbana crescia e impunha novos hábitos no dia-a-dia. A música de consumo recebia o impacto de novos modelos (vindos da América Latina e de Itália, sobretudo, ainda antes da entrada em força da canção francesa). Os anos 50 são também, aliás, uma época de ressurgimento das chamadas sociedades recreativas e de impulsionamento de diversos desportos, criando novos hábitos de sociabilidade e novos consumos.
– Ainda que moderadamente, as mulheres começam a ser mais vistas nos espaços públicos e em áreas onde intervinham de forma menos secundarizada do que ocorria no período pré-guerra, como se pode constatar pelo simples folhear dos álbuns de retratos familiares.
Noutro espaço, poderia continuar com os exemplos desta natureza. Repare-se no entanto que não estou a falar da construção de uma cultura necessariamente antiregime, mas si de um universo apenas não tão cinzento, «desgraçado», e de totais contrastes sociais, quanto por vezes nos é pintado.
Agora, o argumento central do meu post procurou situar-se mais longe: na tentativa de ajudar a diluir a imagem de uma sociedade glamorosa que anda por aí a ser vendida. Será mais eficaz este processo de desmontagem se não tentarmos inventar um mundo apenas de miséria e sofrimento, de fado plangente, que, dizem os primeiros estudos sociológicos portugueses construídos sensivelmente por aquela época, estava até em vias de deixar de ser maioritário.
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 09:02:31
Mas a que estudos sociológicos remete, estimado Rui Bebiano? Os de Sedas Nunes? E, se sim, o que diziam eles? Que o país estava em mutação, com um dinamismo económico assente numa industrialização/desruralização, com aumento de letrados e da classe média. Que, no plano cultural, modernizava faixas do catolicismo e não continha a influência cultural americana, nem continha as mulheres (sobretudo as jovens universitárias) que espreitavam pelos bastidores e teimavam sentar-se na boca de cena (o que não impediu o escândalo coimbrão da “Carta às Jovens Portuguesas”). E a elevadíssima proletarização industrial constituíu uma massa operária maioritariamente constituída por operários-camponeses (em termos reais no Norte, onde o operário repartia as tarefas na fábricas com a continuação do amanho das suas courelas; em termos culturais no Sul – Cintura Industrial de Lisboa e Barreiro, sobretudo – pois a afluência de alentejanos às fábricas procedia a uma continuidade de transição de assalariado agrícola para assalariado industrial). E tirando uma nascente camada média (que, em poder económico, estava mais próximo do grupo dos empregados e muito distante do status burguês na plenitude do seu ser e estar), acompanhando o desenvolvimento do comércio que respondia a novas necessidades de consumo da subida no poder aquisitivo, sobrava o quê? A maioria, a esmagadora maioria. Essa maioria que oscilava entre a miséria indigente e uma sobrevivência com um padrão de vida ínfimo. Por tudo isto, as grandes mudanças (culturais, políticas, nos costumes), a partir sobretudo da primeira crise estudantil de 62, deram-se nas Universidades e irradiadas a partir das Universidades (e não será de significado pequeno, a hierarquia das dimensões das lutas estudantis em Lisboa, Coimbra e Porto). Mas nunca passaram de saquinhos de chá na água de infusão. Sobre o que seria interessante conhecer quais os inputs familiares dominantes que as famílias exerciam sobre os estudantes em luta e em mudança cultural e de costumes (as pressões maioritárias eram de solidariedade e incentivo ou… tira o teu curso e deixa-te disso?).
Não vejo que houvesse só uma sociedade glamour nem só uma sociedade indigente. Havia as duas, mas dominava (como salazar queria) a segunda. Numa desproporção brutal. Digo eu e se calhar estou a ser parcial. Talvez porque o meu primeiro par de sapatos calçei-o quando tinha quatro anos e o primeiro que vi calçado nos pés da minha mãe foi quando do seu funeral.
Segunda-feira, 16.Fev.2009 at 10:02:03
Desculpem a observação, mas não me parece que a conclusão de João Tunes no último parágrafo contrarie muito o que Rui Bebiano escreveu.
A propósito da vida associativa fora do meio universitário, tive uma pequena experiência já no final da década de sessenta que, não sendo paradigmática, dá uma ideia do que se passava numa das maiores freguesias de Lisboa, a Freguesia de Santa Maria dos Olivais:
No âmbito da candidatura da CDE às elições da CDE de 1969 participei num levantamento e contactros com todas as organizações desportivas, culturais, recreativas e cooperativas que existissem na Freguesia, a qual incluía, como se sabe, as zonas da Encarnação e dos Olivais Norte, Sul e a chamada de Olivais Velho (hoje parcialmente absorvida pela Expo e por novas urbanizações).
Tanto quanto me lembro, detectàmos e contactàmos com as direcções de uma associação cultural e recreativa, a SFUCO (Sociedade Filarmónica União Capricho Olivense), duas associações desportivas (a ADCEO, na Encarnação e o clube desportivo dos Olivais, nos Olivais Velho) e uma cooperativa de consumo nos Olivais Sul. Julgo que não existiam mais associações, numa freguesia que, apesar de serem recentes os Bairros dos Olivais Norte e Sul, já eram bastante populosos nessa data. De salientar que a SFUCO, embora mantivesse ainda em exposição instrumentos musicais, já não tinha praticamente nenhuma actividade musical, servindo sobretudo como um pequeno clube para alguns jogarem a sueca. Dizia-me o elemento da direcção de então que para substirem financeiramente promoviam uma vez por outra uns bailes (geralmente só no Carnaval e passagem do ano). E eram então as únicas actividades visíveis dessa associação. Ainda lhes propusemos, para recriar o dinamismo que em tempos tivera, que efectuassem uns concertos públicos ao ar livre, nas ruas ou zonas ajardinadas do Bairro. A resposta foi a de que não gostavam de dar “barraca” (contrariando um pouco o Chico Buarque).
Pelo menos ali, com um misto de bairros antigos, novos e médios, no final da década de sessenta o ambiente continuava cinzento.
Terça-feira, 17.Fev.2009 at 01:02:19
E o Jorge Conceição falou de casos do fechar da década de 60. Ande para trás e diga de sua justiça. Aliás, os que andavam na luta estudantil mas tinham actividade cívica além dela, em outras camadas sociais e culturais, sabiam (e isso era ponto de grande incomodidade) que tinham de “viver” (culturalmente, mas sobretudo quanto a costumes) “duas vidas” (uma no meio estudantil, outra nos meios “populares”) pois se dessem continuidade a uma única forma de estar decerto iam criar anti-corpos que bloqueavam os contactos. Do género do processo adaptativo que faziam os que passavam férias numa aldeia ou cidade e vila do interior. Outra experiência interessante desta dualidade era o contacto dos jovens oficiais milicianos na recruta de soldados com as mesmas idades mas provenientes do mundo rural ou dos bairros populares citadinos e na própria experiência na guerra colonial. Era um espanto (e eu tive essa experiência em 68-71, portanto já na fase última do fascismo) verificar a dualidade dos dois mundos em todos os seus aspectos. E a própria guerra, enquanto experiência social, cultural e até de condições de vida, era sentida de modos diferentes – enquanto para os oficiais milicianos tudo era “menos” (as condições de aquartelamento, a alimentação, os limites conviviais, a fruição cultural, a remuneração) para a esmagadora maioria dos soldados a realidade da guerra (excepto quanto aos riscos físicos) era “mais” (uma socialização, um convívio, uma fruição cultural, a alimentação e os proventos do “pré”) e de tal modo que os antigos combatentes, na sua maioria, que estiveram na guerra como soldados ou como furriéis referem a comissão militar como “dos melhores anos da sua vida” (na guerra!).
Terça-feira, 17.Fev.2009 at 04:02:16
Infelizmente, João Tunes, a minha experiência com organizações anterior à minha vinda do Porto para Lisboa (em 67/68) resume-se quase somente com as organizações estudantis ou intelectuais, isto é, com características muito específicas e orientadas.
Vivi no Porto, no entanto, até àquela data (e depois hibridamente entre Lisboa e o Porto, o que deu muito jeito para algumas coisas que se fizeram) e, como saberá, o povo do Porto tem (tinha?) características muito especiais de frontalidade e rudeza, mas de convívio e entreajuda fáceis. (O desenvolvimento verificado terá trazido os maus hábitos lisboetas de individualismo?). Por isso apesar de, associativamente, só ter tido convívio com pessoas fora do meio estudantil no Clube de Campismo do Porto (e que excelentes bate-papos!) tive a oportunidade de disfrutar intensamente essa instituição que lá então existia, que era o CAFÉ!! O café no Porto era o local onde cada um se ia sentando na mesa deste ou daquele, depois de duas ou três vezes se cruzarem no local. E onde se faziam (ou não) amigos, se criavam relações de vizinhança. Claro que tal não era o caminho para o encontro com grupos sociais muito diferenciados, como por exemplo com rurais ou mesmo com operários (o que dependeria da zona geográfica do café que se frequentasse). E nasciam solidariedades e companheirismos. Evidentemente que não posso transpor esse clima para as zonas das classes altas, como as da Foz, do Bairro Costa Cabral ou do Bairro Gomes da Costa. Mas esse era um ambiente vivido de modo semelhante pelo resto da cidade. E esse modo de ser sentía-se – para o bem e para o mal – nas reacções e manifestações públicas espontâneas. Para o bem, por exemplo, com a recepção efectuada (e que tive a oportunidade de testemunhar e de participar) ao candidato Humberto Delgado. Para o mal, por exemplo, as rixas decorrentes de determinados encontros desportivos futebolísticos (de que não sou adepto).
Mas, na verdade e como o João Tunes, foi no serviço militar (de 70/73) que tive a grande oportunidade de convívio com pessoas provenientes dos meios mais diversos. E aprender muito com as diversas maneiras de abordar, entender, enfrentar e dar resposta às situações (não necessariamente militares, ou melhor, sobretudo não militares). E as diferenças não eram somente entre quem tinha proveniência rural ou urbana, ou quem tinha formação escolar mais ou menos desenvolvida. Era entre camponeses e operários (geralmente urbanos) e, muito, decorrente dos anterires habitats regionais: a maneira de ser e estar entre os do Norte e do interior-centro contrastava imenso com a dos que vinham da grande Lisboa ou margen Sul do Tejo. O que não impediu que laços fossem criados entre as várias proveniências. O encontro de convívio anual que existe a nível do pessoal da Companhia e familiares nada tem de saudosismo militar e muito menos de saudosismos políticos (claro que aparecem sempre algumas vozes com críticas reaccionárias, mas são “fait-divers” pontuais). É mesmo apenas a alegria do convívio e de rever companheiros que criaram alguma amizade durante o forçado convívio a que foram conduzidos. E as patentes hoje são apenas referência, como o são as alcunhas.
“Dos melhores anos da sua vida” para os soldados e furriéis, como diz, foram-no (além dos benefícios colaterais que refere) sobretudo por serem jovens, quase todos ainda sem responsabilidades familiares e quando conseguiram, de certo modo e de várias maneiras, “fintar a guerra”. Muitos não o conseguiram ou não lhes permitiram opções.
Terça-feira, 17.Fev.2009 at 05:02:13
Pois, Jorge Conceição, eu fiz o trajecto inverso: em 66/67 de Lisboa para o Porto. E tenho a mesma opinião que a que exprimiu sobre o então papel dos Cafés no Porto (em Lisboa também tiveram, mas não tanto, todos moravam longe uns dos outros) na conviviabilidade e na socialização. Eu “amarrei-me” ao Diu e ao Ceuta e neles consumi muitas e boas horas de cavaqueira e aprendizagem (e de namoro, pois claro). Mas, de qualquer forma, funcionavam, apesar de abertos a “mais um”, como meios fechados e onde se tinha de ter mil cuidados com a expressividade por causa dos ouvidos indiscretos. Fora os cafés, havia o TEP, o Cineclube e a Cooperativa estudantil, duas livrarias, quase nada mais, e indo-se de um lado a outro as caras eram praticamente as mesmas. O mundo da cultura e do activismo cívico (que, no meio estudantil, foi mais restrito que em Lisboa e em Coimbra), profundamente misturados, era um mundo curto e fechado, difícil de irradiar, entalado entre a burguesia insuportavelmente parola da Boavista-até-à-Foz e um mundo popular que se notabilizava pela cultura do palavrão. E, talvez por isso, sobrava tanto tempo para os convívios de café.
Terça-feira, 17.Fev.2009 at 08:02:49
Já aqui tem sido dito que os “post” não são locais para troca de correspondência. Mas, João Tunes, vou prevaricar uma vez mais. No ano que refere eu era frequentador também do Diu, sobretudo após o jantar ou aos fins de semana. Ao Ceuta ia, com menor frequência, à tarde. No Diu o meu grupo de relações alargou-se imenso.
Uns anos antes os cafés frequentados como salas de estudo por muitos estudantes, nas cercanias do Largo dos Leões, funcionavam quase como instituções de cooperação estudantil e de referência grupal. Após os testes ou os exames era frequente ouvirem-se conversas entre estudantes do estilo: “No Aviz chumbaram dois colegas a matemática “, ou “no Estrela ninguém chumbou mas só fulano teve uma nota razoável”. Isto é, as referências grupais de estudo davam-se pelos cafés habitualmente frequentados.
Mas tem razão: era preciso muito cuidado com os vizinhos das mesas mais próximas. Por sorte muitos de nós ouviam a “Voz da Liberdade” ou a “Rádio Portugal Livre” que, de vez em quando indicava este ou aquele empregado que era bufo. Lembro-me que, numa altura em que estudava no Aviz, tivemos conhecimento que dois ou três emprgados seriam bufos, tendo numa das rádios sido identificados pelos números das chapas que traziam ao peito.
Conheci os ambientes universitários de Lisboa, Porto e Coimbra. (Enfim, fui um estudante de “desenvolvimento lento”, não tanto pela boémia, mas mais pelas descobertas circum-escolares que ia fazendo e em que ia participando com mais ou menos intensidade e pelo gosto pelo convívio; um curso de 6 anos levou-me 10 anos a fazer e mais parte de um, já na tropa, onde o acabei…). E eram três meios muito diferentes. O agradável ambiente de convívio, de socialização e de cultura coimbrãos tinha contudo e quanto a mim, um lado bastante negativo: vivia voltado integralmente sobre si mesmo, sobre a chamada academia e de costas voltadas para o resto do Mundo, do País e, em muitos casos, da própria cidade. Só o que se passava no meio académico lhes interessava. Só lá estudei um ano, prática habitual dos estudantes das Ciências e da Engenharia do Porto cuja larga maioria nem tentava aí fazer Mecânica Racional. Durante esse ano tive a sorte de “herdar” o lugar que um amigo meu do Porto e que me precedera deixara “vago”. Era um grupo de reflexão política e social, mas também com alguns aspectos lúdicos. (Dele saíram alguns futuros militantes políticos, o mais conhecido dos quais foi, talvez, o Zé Barros Moura, já falecido). Mas deparei com uma coisa curiosa: eu estava habituado, no Porto, a dialogar livremente com quem era ou não estudante, mesmo que o interlocutor fosse já licenciado. Pois no grupo pontuava um então Assistente e, pouco de pois, Professor Agregado de Direito (o futuro Prof. Orlando de Carvalho) de quem ninguém ousava discordar e que debitava as suas ideias ex-cátreda. Soube-o mal o contrariei numa análise qualquer que estava a fazer. Todos se calaram e ficaram a olhar para mim e ele com um ar furibundo de indignação. Este ambiente nunca o encontrei no Porto ou em Lisboa. Neste último local o que encontrei foi o individualismo, que não era detectado nas outras cidades. E no meio estudantil (IST) o individualismo passou a chamar-se competição, rivalidade e, caso extremo, traições escolares. Mas também cá fiz inúmeros e excelentes amigos.
Mas na verdade e como referiu, o ambiente no Porto limitava muito o nosso crescimento intelectual e político e a partir de certa altura, para poder acabar o curso e para poder crescer mais na formação da minha cidadania eu tive de vir para Lisboa, onde os meus pais já se encontravam há cerca de três anos.
Terça-feira, 17.Fev.2009 at 11:02:50
É isso, Jorge, isto tudo não passa de uma aldeia num mundo que é redondo. Cohabitámos nos mesmos cafés do Porto há mais de 40 anos atrás, tertuliamos por aqui.
Abraço.
Domingo, 22.Fev.2009 at 06:02:14
esse senhor acho que faleceu
Segunda-feira, 23.Fev.2009 at 09:02:29
Nada é preto e branco. Aí estão as fotografias de Gerardo Castelo Lopes. Há os diversos graus de cinzento e o olhar do fotografo. Por vezes e fora deste ambiente normal, que o era para a maioria das pessoas, com risos, alegria convívio, havia a polícia , os que ousavam pensar diferente e agir em concordância E a Igreja católica castradora , culpabilisadora com um cinismo terrível em ligação de rectaguarda com o regime; que media a atitude moral ao centímetro e se imiscuia na vida mais privada de cada um. O Porto onde vivi nos anos 40 e 50 era de certeza mais restrito que Lisboa. Na mesma época outros fotógras mostram o nosso lado arcaico, rude : as peregrinações a Fátima de joelhos, os camponezes, os pobres etc, etc. Castello Lopes é um fotógrafo genial e ele agarra a vitalidade do um povo de Lisboa , porque esse é o seu propósito. Em todas as épocas há energia e alegria. Nada é só preto e branco.
Segunda-feira, 23.Fev.2009 at 04:02:56
Muito obrigado pelo testemunho. É isso mesmo que me parece importante e julgo ser redutor carregar demasiado nos cinzentos quando a realidade é complexa e de várias cores.