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Uma guerra faz-se com armas. Quando das guerras coloniais, Portugal usou de várias estratégias para contornar a proibição formal da NATO em utilizar-se material seu num teatro de guerra fora dos objectivos militares da Aliança e teve nessas artimanhas a arte suficiente para obter armamento fornecido por várias das potências militares ocidentais (EUA, Alemanha, Itália, França, Israel). Entretanto, as guerrilhas anticoloniais abasteceram-se na URSS e restantes países do Pacto de Varsóvia. Esta diferença de aprovisionamento (e treino militar), acompanhando a divisão da «guerra fria», foi uma das marcas mais expostas dos alinhamentos políticos e ideológicos dos dois campos em conflito. Por um lado, a ditadura portuguesa procurava integrar a defesa do seu império na disputa global entre o Ocidente e o Comunismo. As guerrilhas independentistas recorriam aos únicos que estavam disponíveis a alimentar belicamente os destacamentos africanos que lutavam contra o Colonialismo e o Imperialismo. Se no caso português o uso de material militar de países capitalistas constituía um reforço da estratégia integradora de defesa nacional, portanto um avivar de convergência em que o desconforto da natureza ditatorial e colonialista do regime era atenuado pelo empenho na luta contra o Comunismo, no caso da guerrilha africana tratou-se, mais que uma questão de proximidade política (que também existia), do resultado de uma fatalidade. Ilustrando este contexto, ficou famoso o encontro de Amílcar Cabral com congressistas norte-americanos, numa das suas visitas aos EUA, em que estes acusaram o PAIGC de ser um instrumento da URSS e usando como prova disso o facto de a origem de todo o armamento dos guerrilheiros ser de países comunistas. Cabral reagiu de imediato entregando aos congressistas uma lista do armamento que necessitava e apelando a uma satisfação da «encomenda» pelas fábricas de armas norte-americanas, acrescentando que, na luta, o PAIGC não olhava para o «made in». Claro que a reunião terminou ali e Cabral voou a seguir para Moscovo com a mesma lista a ser entregue a um adjunto de Brejnev, merecendo rápido despacho favorável. E obviamente não havia armas grátis. 

Muito se tem discutido sobre a quantidade, a qualidade e a eficácia, na guerra colonial enquanto confronto de guerra de guerrilha versus guerra de contra-guerrilha, dos armamentos dos dois lados. Se parece indiscutível que o armamento dos guerrilheiros se adaptava melhor às condições dos combates que lhe eram próprios (anulação de percursos, emboscadas, flagelações de quartéis, fogo anti-aéreo), excelente e eficaz que muitas vezes excedia o nível de competência dos utilizadores, os militares portugueses nunca se puderam queixar de que fosse o défice no seu armamento (em quantidade e em qualidade) que desequilibrava os conflitos em seu desfavor. Para mais, os portugueses eram senhores exclusivos do domínio dos céus e dos cursos de água (aqui, com algumas importantes excepções na Guiné). Até à chegada à Guiné dos mísseis soviéticos terra-ar SAM-7 [conhecidos como Strela (стрела, flecha, em russo)]. 

Claro que se sem armas não há guerras, não são as armas que decidem as guerras. Se o PAIGC não tivesse previamente conquistado as posições que detinha no terreno em 1973, não eram os Strela que lhe iam dar a vitória pois nem sequer tinha condições para utilizar estes mísseis (nem sequer os soviéticos lhos forneciam antes de terem uma sólida posição no teatro de guerra e terem entrado na fase resolutiva do conflito). Sabe-se que era antiga a pressão de Cabral sobre os soviéticos para aceder aos Strela a fim de neutralizar a grande desvantagem do PAIGC relativamente ao exército colonial português sem que os soviéticos acedessem ao seu pedido (tratava-se de um fornecimento de armamento sofisticado que não deixaria de ter efeito no relacionamento entre a URSS e os EUA). E acaba por ser a morte (o assassinato) de Cabral no início de 1973, temendo pelos reflexos negativos deste facto no moral e na capacidade de combate do PAIGC, que leva os soviéticos a fornecer os Strela, desviando para o treino no seu manuseamento um grupo de guerrilheiros caboverdianos (comandados por Manuel dos Santos, Manecas) que estava na URSS para ser treinado para o início da guerrilha em Cabo Verde e que regressa às matas da Guiné preparados para a sua utilização com pleno efeito na fase final da guerra de libertação neste território.

O efeito dos disparos dos Strela foi de importância maior na fase final da guerra na Guiné, fragilizando o grande ponto de jt3supremacia portuguesa que permanecia e permitia alimentar o impasse (o domínio dos céus). Para se ter uma ideia deste impacto, é de leitura oportuníssima este post que contem um texto do hoje Tenente-Coronel José Manuel Pinto Ferreira que viveu a batalha dos céus na Guiné e registou minuciosamente os encontros dos aviões portugueses com os Strela.

 
Imagens: Míssil Strela e restos de um avião de combate português (Fiat G-91) depois de abatido por um destes mísseis na Guiné e a serem inspeccionados por guerrilheiros do PAIGC. A terceira (da colecção da F. M. Soares) mostra o Comandante Manecas (nascido em 1942 em Cabo Verde, lendário operacional do PAIGC e ministro no governo da Guiné após a independência) no centro de uma confraternização entre militares portugueses e guerrilheiros do PAIGC, após o cessar-fogo conseguido a seguir ao 25 de Abril e que poucos dias antes se combatiam.

(Originalmente publicado no blogue Água Lisa.)

Biografia de João Tunes.

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