cn2022
   Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)

 
Quinto post da série ABRIL [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior], em que proponho uma leitura da revolução como concentrado excepcional e único de acontecimentos de forte carga simbólica que a faz, no dizer de F. Furet «o imaginário de uma sociedade transformado no tecido da sua história».

Regresso a Luís Trindade e à sua tese tão lúcida quanto perturbante: «Trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril. A realidade da revolução está de tal forma coberta de sentidos históricos que a antecedem e ultrapassam, que podemos apenas lê-la como símbolo do sec. XX português. Só a partir do passado ditatorial e projectando-o no futuro democrático, é que parece ser possível falar do momento historicamente mais denso da nossa contemporaneidade. A revolução fica assim, condenada por excesso ou por defeito, a uma confrontação com realidades que não são exactamente a sua, ora como conjunto de conquistas à luz da privação salazarista, ora como momento de excessos perante uma democracia assente em instituições representativas estabilizadas.» [1]

Assim sendo, entre a privação e o excesso, ou entre o antes e o depois do tempo revolucionário, o autor propõe um regresso ao momento histórico e à sua imanência. Um regresso que retire o 25 de Abril de uma falsa e aparente normalidade: quer retrospectiva, ligando-o ao passado da ditadura, quer projectiva, ligando-o ao presente da democracia. Isto porque nada é normal em período revolucionário, antes ele é a todos os títulos excepcional.

Só nos aproximaremos dessa excepcionalidade desde que nela se incluam não só elementos provenientes da memória histórica propriamente dita, mas também de uma outra memória que a transcende e a funda: a memória simbólica. A revolução, como conjunto de coisas que aconteceram e foram ditas, ou seja, de acontecimentos políticos e discursos sobre esses mesmos acontecimentos, pressupõe muito mais do que uma narrativa historiográfica: uma narrativa simbólica e mitológica. Na verdade, o acontecimento social e politico que em períodos de normalidade surge envolto numa racionalidade funcional é, em período revolucionário, sobredeterminado por intensa elaboração imaginária que inscreve as acções e os actores sociais num quadro geral de referências e representações, afinal tão reais como a pura factualidade, e mais próximas do que os cristais da fria cronologia.

O que significa que, para que uma revolução aconteça, é necessário que mude radicalmente o antigo e esgotado quadro de referências, num momento de crise marcado por uma espécie de sobre-investimento da dimensão política que se atribui a função de reestruturar por meio do imaginário (e dos seus elementos constitutivos: crenças, símbolos, mitos e heróis) o conjunto social fragmentado.

O 25 de Abril foi o único momento da contemporaneidade portuguesa em que a sociedade fez política. Dizer isto, sendo muito, não é ainda bastante para devolver pleno sentido à frase tantas vezes repetida de que tudo era político, de que, como recorda José Gil, «o politico invadiu as zonas mais íntimas da vida individual e absorveu-as, abrindo-as, projectando-as na grande luz pública da revolução: o amor, as relações familiares, a educação dos filhos, a sexualidade, os gostos mais pessoais, tornaram-se questões politicas». [2]

A política (como a poesia!) estava na rua, em casa, no emprego, na escola, na vida, e não é possível falar de revolução sem convocar os testemunhos espontâneos de quem de repente descobriu que fazer política era decidir, combater e partilhar: «As pessoas queriam participar nas coisas e mudá-las, falava-se de tudo, a todo o momento. Nunca havia horas para deitar nem para coisa nenhuma. Até ao princípio de 75 foi tudo uma festa, um tempo intenso. Os dias passavam muito depressa e faziam-se coisas muito bonitas.»[3]

Ou ainda: «Foi uma revolução que se viveu com uma enorme alegria. Não se estava naquilo por dever, ou só pela razão. Era pelo coração, pelos sentidos de corpo inteiro.» [4]

Regressar a esse tempo de vertigem, de surpresa e de imprevisibilidade, a esse tempo activo e laborioso, sem relógios mas carregado de história, representa afinal, o confronto (para muitos doloroso) entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.

Porque a realidade do tempo de normalidade é o recuo da actividade politica para um lugar residual (eleições de quatro em quatro anos) quando não mesmo ausente do quotidiano do cidadão, desenhado de acordo com padrões individuais de realização que atomisticamente se fragmentam e se isolam em pequenas ilhas cercadas. Regressam assim as divisões entre político e social e retoma cada um o seu lugar e a sua tarefa específica: «Os estudantes estudam nas escolas, os empregados trabalham nos escritórios, os operários nas fábricas, os médicos nos hospitais (…) Uma opacidade densa envolve o sentido dos actos mais triviais, iluminados, no entanto, por uma intensa claridade funcional e local.» [5]

Sabemos que é da própria natureza excepcional da experiência revolucionária o ser tão breve quanto intensa. Mas o paradoxo da normalidade que vivemos é que ela é também excepcional. E essa excepcionalidade não são as eleições e os partidos. A excepcionalidade é que o puro jogo partidário tenha esvaziado a politica dos seus legítimos objectivos, e com base em meras aritméticas eleitorais, se acentuem injustiças e desigualdades. A excepcionalidade é uma vida cívica marcada pelo cinismo, pelo amiguismo e pela corrupção, uma ideia de politica sinónimo de clientelismo, um confrangedor défice de cidadania, que não faz cidadãos, mas homens e mulheres desinteressados e medrosos.

 
[1] Trindade, Luís: Os excessos de Abril
[2] Gil, José: Público, 20/6/1994
[3] Helena Carmo em O Futuro era Agora, 1994. Dinossauro Edições.
[4] José Manuel Rodrigues da Silva em O Futuro era Agora, 1994. Dinossauro Edições.
[5] Gil, José: Público, 20/6/1994

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