lv3Um texto de José Pedro Barreto (*)
Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001

 
Os oito mil homens comandados pelo Major-General Aitken e embarcados em Bombaim não eram lá grande tropa. Haviam sido reunidos à pressa entre as forças coloniais britânicas na Índia. Na sua maioria nunca haviam disparado um tiro e eram comandados por oficiais que nunca os tinham visto mais gordos nem tinham posto os pés em África. Mas era com isto, e com o auxílio de mapas rasgados de velhos Atlas escolares, que o Império Britânico se preparava para tomar posse da África Oriental Alemã (actual Tanzânia), naquele Outubro de 1914. Era uma operação periférica, um rodapé da I Guerra Mundial. As tropas estariam de volta a casa no Natal, até porque do lado de lá não estava mais do que «um bando de negros descalços comandados por Hunos ignorantes». 

O azar britânico foi que do lado de lá estava uma das mais brilhantes forças de combate que jamais actuaram no continente africano, conduzida pelo mais improvável génio da guerrilha na selva – o coronel Paul Emil von Lettow-Vorbeck, sólido e orgulhoso rebento da velha aristocracia prussiana. Com um punhado de oficias europeus, reunira e instruíra um milhar de askaris, soldados indígenas recrutados entre as mais aguerridas tribos da região. Por junto, esta era toda a guarnição de Ostafrika, reforçada com canhões retirados do Königsberg – um cruzador alemão cujo comandante, acossado pela marinha britânica, decidira afundar junto à costa. 

Mas com a sua diminuta Schutztruppe, von Lettow irá conduzir uma guerra tenaz e vitoriosa, durante quatro anos, ao longo de milhares de quilómetros de matas e savanas, contra as tropas de três potências coloniais, só depondo as armas, voluntariamente, depois do Armistício na Europa. Este arrogante junker peripatético será o único general alemão nunca vencido. A baronesa Karen Blixen, autora de «África Minha», que viajou com ele no barco de volta à Europa, escreve que nenhum outro alemão «lhe deu uma impressão tão forte do que era e representava a Alemanha Imperial».    

Quando em Novembro a bisonha força expedicionária britânica desembarca junto à aldeia de Tanga, a sul de Mombaça, as tropas de von Lettow, muito inferiores em número, chamam-lhe um figo. Aitken tem de reembarcar deixando no terreno dois mil mortos e toneladas de material, que vai permitir aos alemães armar novas unidades. Nos 18 meses seguintes, von Lettow conduz uma série de ataques às vizinhas colónias britânicas do Quénia e da Rodésia. 

«Bach to Africa»
Hughes de Courson

Em 1916, os britânicos atacam a partir da África do Sul, com 45 mil homens comandados pelo general Jan Smuts. Mas não conseguem vencer o indomável junker. No ano seguinte, a desproporção de forças começa a pesar. Os britânicos atacam do Quénia e da Rodésia, os belgas do Congo, e os portugueses de Moçambique. Então, von Lettow abandona as tácticas convencionais e lança-se numa pura luta de guerrilha. Os seus askaris, a cujas qualidades guerreiras e conhecimento da região ele juntara os altíssimos padrões prussianos de disciplina e instrução militar, ensinam-no a viver da terra, a fabricar as próprias roupas e medicamentos, a encontrar comida e água.

Em Novembro de 1917, invade Moçambique e vai destruindo forte sobre forte até ao Zambeze, abastecendo-se generosamente de armas, munições e salsichas, para bênção da gulodice alemã. Só encontra oposição digna desse nome num isolado posto da serra Mecula, por parte de um punhado de homens comandados pelo capitão Francisco Curado. Os mal treinados recrutas enviados de Portugal para guarnecer a colónia são comandados por oficias desmotivados, muito longe da enérgica geração dos centuriões que vinte anos antes haviam consolidado o poder português na região. À imagem da situação política na Metrópole, a participação portuguesa na caça ao «diabo teutónico» é a crónica de uma patética barafunda, que leva o aliado britânico a considerá-la mais prejudicial que útil. «Mas que guerra tão cómica», escreve um companheiro boer de von Lettow. «Nós corremos atrás do Português e o Inglês corre atrás de nós.»

Corre, mas não o apanha. Pelo contrário, é ele quem ataca onde e quando quer. A temível combinação da escola prussiana com as características dos askaris e o génio táctico de von Lettow havia pura e simplesmente dado corpo à melhor força de guerrilha de toda a história militar – um precursor atentamente estudado por Mao, Giap «Che» Guevara e outros futuros cultores do género.

Em 1918, lança novos ataques contra os fortes rodesianos, eliminando uns após outros. Em Novembro, planeia um ataque em grande escala contra o comando britânico naquela colónia, quando um prisioneiro inglês o informa que houvera um Armistício na Europa, no dia 11. Com três mil homens, armas e munições com fartura, von Lettow podia continuar a guerra por mais dois ou três anos. Mas o sentido do dever e da honra leva-o a comunicar ao comandante britânico, no dia 17, que não se rendia, mas cessava toda a actividade operacional. Regressa à Europa com os restantes alemães, a quem foi permitido que levassem as armas – deixando no cais milhares de askaris lavados em lágrimas.

Paul von Lettow-Vorbeck nunca comandou mais de 14 mil homens. Mas, em quatro anos, fez gato-sapato de 300 mil soldados e 130 generais, infligindo mais de 60 mil baixas e obrigando o Império Britânico a gastar mais de 15 milhões de dólares, a preços actuais. Nunca foi vencido. O respeito que ganhou dos adversários foi tanto que o seu maior oponente, o general Smuts, fez questão de garantir que os alemães recebessem sempre o seu correio da Europa, enquanto os combatia.

Depois da guerra, von Lettow sofreu, como todos os alemães, a penúria do seu país. Quando Jan Smuts soube da situação difícil do seu antigo adversário, instituiu com outros oficias britânicos e sul-africanos um fundo através do qual lhe foi paga uma pequena pensão até à sua morte, em 1964, aos 94 anos de idade.

 
(*) Biografia de José Pedro Barreto

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