plutotÉ um lugar-comum: só se vê aquilo que a teoria deixa ver. Durante os anos sessenta, os marxistas de pendor mais «clássico», agarrados às ferramentas conceptuais do materialismo dialéctico, crentes no finalismo histórico e no poder messiânico da classe operária, e preocupados, por isso, em predizer uma revolução que não acontecia, impediam-se de compreender uma outra revolução que estava a acontecer, e que abarcava as condições materiais, os estilos de vida, as relações familiares e as liberdades individuais. Numa obra monumental sobre o assunto – The Sixties. Cultural Revolution in Britain, France, Italy and United StatesArthur Marwick demonstrou precisamente como os «longos anos sessenta» – período que o historiador britânico coloca entre a segunda metade da década de cinquenta e a primeira metade da década de setenta – originaram uma «revolução cultural» que, apesar de não se ter revestido das características típicas de uma revolução política e económica, não deixou de modificar com profundidade a paisagem social. As propostas de alargamento do «político» a domínios até então insuspeitos, dificilmente encaixáveis nos esquemas teóricos do referido marxismo, acentuavam essa incapacidade de valorizar as mutações que iam ocorrendo em redor.

Na verdade, assiste-se na época a uma politização quase metafísica do mundo que conduziu a novas formas de pensar, sentir e agir, tão radicais quanto distantes dos modelos propagados de transformação social. A difusão nas ruas e nas universidades do enunciado «tudo é político» potenciara uma crítica radical dos costumes, abrira lugar ao nascimento e renovação de alguns movimentos sociais – como o feminismo, o ecologismo ou os movimentos em torno da defesa das minorias e das «identidades» – e transformara o corpo e o quotidiano em questões públicas. Lugares de expressão e de transgressão, de deleite e de visibilidade. Marcuse, Reich e Fromm caucionavam teoricamente essa revolução, os situacionistas, os provos e os Yippies levaram-na até ao extremo, Bardot e Joplin, Morrison e Dylan, a mini-saia e a pílula mostravam-na presente e difusa.

Contudo, para o puritanismo estalinista dos partidos comunistas tradicionais, estas práticas pouco tinham de «político». Eram vistas como ímpetos imaturos causados por uma objectiva posição de classe ou mesmo, em alguns casos, manifestações de desvio e dissolução moral que preconizavam a confusão entre «fazer amor» e «fazer a revolução». Porém, uma parte dos grupos da esquerda pós-68 viria também a recuperar, e por vezes potenciar, este conservadorismo moral receoso de afugentar «as massas». Neste processo teve particular importância a imagem frugal e espartana da revolução cultural chinesa, fomentando o estabelecimento de um rígido controlo de condutas, composto por críticas e auto-críticas e por censuras constantes ao «liberalismo» e à «decadência» burguesas.

O entendimento da ideia de libertação como um processo meramente colectivo legitimava a secundarização dos impulsos, dos desejos e das necessidades individuais. Estranhamente, por outro lado, em muito do empenhamento radical dos anos sessenta é detectável a presença de um outro traço essencial do universo sixtie: a colocação do corpo e da subjectividade no espaço real e imaginário da transfiguração, do risco e da aventura. Como se a prática estivesse um pouco além da teoria.

Publicado em 2006 em Passado/Presente

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