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Não tenho dúvidas acerca da data: 17 de Novembro. Além de não ser normal as pessoas esquecerem-se do dia em que saem da prisão, após quase seis meses de regime de isolamento, a verdade é que foi uma data duplamente memorizada porque o meu primeiro filho, à laia de comemoração, exactamente no mesmo dia, três anos depois, saiu de dentro de mim. 

Mas já lá vão tantos anos que não consigo lembrar-me da explicação para não ter um tostão comigo quando, nesse dia, recuperei a liberdade.
Porque terá sido? Ficava sempre depositado pela família, na secretaria da cadeia, algum dinheiro, até para se poder comprar cigarros, papel de carta e selos, por exemplo. Porque me encontrei então na rua, subitamente, sem um centavo?
O que me ocorre agora parece-me óbvio e, no contexto, lógico: eles ter-me-ão dado ordem de saída, após o interrogatório daquele dia, na Rua António Maria Cardoso. Devem-me ter perguntado se queria ir à prisão buscar as minhas coisas, e eu: «Não, não, eu vou lá amanhã de carro…». E ala, pus-me a andar que o desejo de respirar Liberdade já não podia ser sustido e adiado.
Além disso, aquele discurso final do Sachetti (inspector) – «vencidos, mas não convencidos» – deixou-me seguramente com pouca vontade de reentrar numa carrinha deles e rumar de novo a Caxias.
Lembro-me de descer aquelas medonhas escadas e, com a porta pelas costas, nem olhar para trás, acelerar o passo, em direcção ao Chiado. 

Foi assim que num fim de tarde muito fria fui parar à Brasileira, ao fundo da rua, com a intenção de telefonar à minha família para me virem buscar.
Só então me dei conta de que, não tendo dinheiro, estava impossibilitada de o fazer. Nem pelo telefone do balcão, nem na cabine telefónica.
O aspecto com que me apresentava estava longe de ser o adequado, quer para entrar na Brasileira, quer para aquela época do ano, mas isso, paciência! Tinha saído da cadeia de Caxias, pela manhã, apenas com uma preocupação no que dizia respeito à roupa e ao calçado: que fossem cómodos para mais uma «batalha campal». Pouco agasalhada e, claro, sem carteira ou um saco. Nada nas mãos. Como sempre, nas idas a interrogatório, levava apenas um maço de cigarros e fósforos.

Parei junto à entrada do café e verifiquei, pessoa a pessoa, se não haveria pelo menos um conhecido a quem pedir emprestada uma moedinha para ligar para casa. Ninguém.
Naquela época, os cafés – sobretudo os da Baixa – a qualquer hora do dia, atafulhavam de homens, e raras eram as mulheres por ali sentadas.
A Brasileira não se afastava muito desse figurino. Lá dentro, aqueles velhos do costume, uns republicanos, ou lá o que eram, e outros, escritores e artistas herdeiros dos modernistas que ali se reuniam diariamente, em tertúlias. Olhavam-me sempre do mesmo modo. Como se, nesse precisos momento, eu não devesse estar ali, mas sim num outro sítio, escolhido por eles e, porventura, com eles. Nas poucas ocasiões em que havia transposto aquela porta, sentira-me como mais uma mulher e isso irritava-me.
Dos meus amigos, havia alguns que às vezes passavam pela Brasileira àquela hora, mas, nesse dia, nem um. Fui ficando à porta, ansiando pela chegada de alguém ou por uma ideia que me resolvesse a situação. Se fosse no Café Londres, conhecia bem os empregados, mas como nunca me habituara ao ambiente da Brasileira, raramente me sentava por ali. Não era aí conhecida – pensava eu.
Depois de muito esperar – a fome e o frio já me impacientavam – enchi-me de coragem e decidi pôr em prática um plano entretanto arquitectado, de que me envergonhava um pouco, diga-se. Mas não havia alternativa, estava visto.
Dirigi-me então a uma mesa, sentei-me, chamei um empregado que me fez um vago sorriso, e pedi-lhe um bife e uma imperial.

Sensação única.
Tudo me parecia irreal. O bife era, desde Junho, a minha primeira refeição que tinha cheiro à comida das nossas casas; o prato era em loiça e o copo em vidro – estranha vivência. E, supremo luxo, um objecto que desde há meio ano eu não via: uma faca.
Só o «bru-á-á» que me envolvia perturbava a minha entrada no paraíso. Incomodava-me mesmo porque aqueles meses de isolamento, e tudo o resto, tinham-me deixado uma certa vulnerabilidade a barulhos. Ao primeiro gole de cerveja, receei não vir a ter sequer energia para levar a cabo a minha estratégia. O álcool não entrava na cadeia, obviamente, e eu fiquei logo «zonza». Poucos minutos depois, tinha dado por terminada a minha refeição. Agora, era ir em frente.
Nesse momento, com pressa de ver a família, mas receosa da reacção do empregado, ainda hesitei.
Subitamente, passando à execução do meu plano, atirei-me: fiz-lhe um sinal, de longe, para que me trouxesse a conta. Ainda ele vinha a caminho, a aproximar-se já do canto da sala em que me encontrava, quando eu me pus de pé e, encenando uma expressão de grande aflição, lhe dirigi com a devida ênfase a «fala»: «Que horror, com tanto movimento neste café e eu, enquanto falava a uns amigos que estavam de saída, deixei despreocupadamente o porta-moedas sobre a mesa. Veja lá: roubaram-mo! O senhor faz-me um favor? Importa-se de ir ali comigo ao telefone, para eu ligar para casa e pedir que me venham trazer dinheiro? Tenho a certeza de que não demoram, vêm depressinha. E depois, quando eu lhe pagar a conta, pago também a chamada, está bem?»
O coitado só dizia: «Menina, ó menina…», mas eu queria acabar depressa com o discurso que tinha preparado e não o deixava falar.
Finalmente conseguiu: «Por amor de Deus, menina, ia agora deixá-la telefonar… Fica a dever e paga para a próxima. Ia lá telefonar para casa só para não ficar a dever! O pior foi ter ficado sem o porta-moedas… Ainda por cima, logo hoje que eu fiquei tão contente de a ver… já está cá fora connosco…».
E prosseguiu em voz baixa, curvando-se para ficar mais perto do meu ouvido: «Quando a vi à porta, até cometei com o meu colega: olha a menina que costumava vir cá com o senhor doutor A. e com a esposa, aquela menina que estava presa, já saiu… É que, há tempo, perguntei por si ao senhor doutor porque nunca mais a voltei a ver por aqui, e ele contou-me».
Tinha mesmo um ar de alegria, o velhote.
A seguir, inclinando-se ainda mais sobre mim, e mais sussurrante, acrescentou: «Se calhar, quem lhe roubou o porta-moedas foi um tipo dos deles que tem estado aí, na mesa ao lado. Um bufo… Cuidado, menina, eles continuam a estar muito por aí!».

Eu estava incapaz de reagir, perplexa com o que acabara de acontecer e, agora, ainda mais longe de resolver o meu problema do que uma hora atrás. Apesar disso, perdida de riso.
Porém, nem me passava pela cabeça dizer ao pobre homem que eu inventara aquela história, mesmo admitindo que se lhe dissesse a verdade seria, muito provavelmente, compreendida e desculpada, e teria a moedinha de que precisava.

Poderá haver mil e uma explicações para só então me ter ocorrido tomar um táxi para casa e pagar na chegada. Se não estivesse ninguém em casa, teria sempre os vizinhos, caramba…Mas, como se vê, não se saía de Caxias no pleno uso das nossas faculdades mentais.

 
(In Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006)

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