Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em no inverno, ao entardecer
passam os dias passam devagar secos como o pólen que o vento primaveril
veio depositar nos passeios nos terraços no alcatrão
passam os automóveis de janelas abertas
e raparigas de vestidos curtos sem mangas
mulheres-a-dias penduram cobertores húmidos nos estendais
arejam a sala o quarto a arrecadação
passam as mãos nos cabelos limpam o suor desfasado no tempo
passam as mãos passam o ventre no comboio apinhado ajeitam a carteira
passam a ferro travesseiros colchas e lençóis
ajeitam as crianças que a patroa não tem tempo de levar à escola
passam horas minutos palavras apagadas pela poeira que assombra o inverno
o vazio alastra logo acima do diafragma comprimindo os pulmões
as costelas o coração
passam os dias passam secos como o saibro da alameda do jardim botânico
secos como a sombra da fraga onde crescem o tomilho e a hortelã
a que cheiram as raparigas quando cheiram como botões de magnólia
têm a pele suave das camélias e os rapazes demoram o olhar nas suas bocas
ao entardecer sonham com um violino com violetas ouvem acórdeão e sanfonas
ao entardecer lagartas licranços centopeias ratos escaravelhos lesmas
térmitas e lacraus proliferam na terra temperada por uma falsa estação.
(Publicado originalmente em Blue Moleskin)
Desenho e poema de Cláudia Santos Silva
Posted by Caminhos da Memória under Testemunhos Comentários Desativados em Uma outra forma de tortura
Um texto de Alexandre Santos Castanheira (*)
Fui detido pela PIDE no quartel de Mafra no último dia do meu curso de oficial miliciano sem qualquer explicação. Metido nos «curros» do Aljube, fui sendo submetido a interrogatórios na António Maria Cardoso sem que conseguisse perceber a causa dessa detenção. De seguida fui enviado para Caxias, para a minha velha conhecida sala 1, onde já estivera em duas anteriores detenções, mas, como estava sem outros presos, continuei a não saber o motivo da minha estadia.
Dias depois da minha entrada no Forte, quando descia do parlatório do 1º andar, onde recebera a visita de minha mãe, para ir, no rés-do-chão para a «minha» sala, assisti a uma agressão dos guardas sobre José Maria do Rosário. Enquanto esta decorria e eu protestava contra o que via, fui empurrado e obrigado a entrar na sala. Aí redigi imediatamente uma carta de protesto ao director da prisão e outra ao director da PIDE. No dia seguinte, vieram buscar-me e levaram-me ao átrio de entrada no Forte, onde encontrei, debaixo de forma, outros presos a quem leram uma declaração do director a tratar-me de mentiroso e provocador, pois «inventara» uma agressão, o que mostrava a minha falta de honestidade. De regresso à sala, retiraram-me livros, papéis, canetas, etc., condenado que fora ao castigo de isolamento. Como deixei igualmente de receber visitas, continuei ignorante das «razões» da minha detenção. E durante o primeiro mês de isolamento nem sequer a interrogatórios fui levado.
Até que um dia: «prepare-se para ir a interrogatório!» Não fiquei muito tempo na «sala da paciência» à espera da minha vez (quantas vezes a ver outros companheiros a saírem para interrogatório e a regressarem depois com sinais de terem sido brutalmente agredidos). Tratado com um certo respeito, fui recebido numa sala onde apenas estava o inspector que me interrogara das vezes anteriores. «Oh, sr. dr., queria desde já dizer-lhe que não se trata de um interrogatório mas sim de um pedido que lhe quero fazer e nada tem a ver com o seu processo. E é o seguinte: o sr. dr. é amigo pessoal do sr. Braizinha?» Muito surpreendido com a atitude e com a pergunta, respondi, como sempre fizera, que não respondia. Aí foi o indivíduo a «ficar espantado». «O quê? Então eu expliquei-lhe que isto não tem a ver com política, que é apenas uma informação muito pessoal que eu lhe peço e o sr. dr. responde-me dessa maneira? Vá, dispa-se lá dessa consigna que recebem no Partido e diga-me: o Braizinha é seu amigo?» Tornei a responder que não respondia e então foi assustador. De sr. dr. passei a estúpido, a vil exemplar de hipocrisia, sem qualquer respeito pelos amigos. E lá veio finalmente a revelação: o Braizinha, que era de facto meu amigo, fundador comigo e mais alguns jovens de um clube de campismo e também da primeira comissão em Almada do MUD Juvenil, estava preso por ter sido apanhado a recolher assinaturas para a minha libertação! E vá de afirmar em altos gritos. «Assim se trai uma amizade! Ele é seu amigo, sacrificou-se por si, mas você nem sabe o que amizade quer dizer!» Abre a porta e grita: «Oh fulano! vem sentar-te à máquina porque desta vez vai ter interrogatório a sério!» Repetem-se as cenas do interrogatório anterior, pois sempre de interrogatório se tratou. «Perguntado se conhece um tal Braizinha, respondeu que não responde». De repente assiste-se a um intervalo, verdadeira cena de comédia teatral. «Não pode ser. O sr. dr. é inteligente e não vai deixar as coisas assim. Eu vou-lhe dizer do que tudo isto trata. O Braizinha está de facto preso e de repente põe-se a escarrar sangue. Está tuberculoso! E nós não queremos matar o homem! Basta que nos diga que ele é seu amigo e ele sai em liberdade imediatamente!» Volta-se para o agente dactilógrafo: «Ó fulano, sai lá outra vez.» Volta a pergunta, quase feita amigavelmente, e recebe a resposta de sempre.
Chama o outro, repete a pergunta, enfurece-se com a resposta e passeia as suas mãos pela minha cara e pelo pescoço sem no entanto me agredir fisicamente.
Acabo por ser levado para Caxias depois de ouvir os mais grosseiros palavrões. Continuo isolado mais um mês e quase não consigo dormir a pensar: «Será verdade que o meu amigo está gravemente doente?» Mas eu não podia ceder. Responder seria iniciar o começo da minha derrota diante daquele malandro. Sofri imenso psicologicamente mas tinha a certeza de que naquele embate o vencedor fora eu. Quando finalmente saí da prisão, fiquei a saber que o meu amigo fora preso ao recolher assinaturas e não tinha passado pelo sangrento ataque da doença que o inspector me descrevera dramaticamente.
Conheci-a em 1962, logo que cheguei a Paris. Fiquei a viver durante três anos na Rue Victor Cousin, ali mesmo ao lado do Hotel Cujas, um hotel de ilustres exilados políticos, de que era proprietária uma intempestiva francesa, Mme Savage, a quem ironicamente chamávamos Madame Sauvage.
Aí residia Maria Lamas. Falava-se dela como de uma aristocrata no exílio. Quem conviveu com Maria Lamas naqueles tempos, compreendia a justeza da designação, mas a verdade é que, a ela, nunca lhe agradou.
Interessava-se profundamente pela evolução da situação política em Portugal, mostrava-se sempre disponível para apoiar iniciativas de solidariedade com os combates contra o fascismo, e vivia com particular intensidade – e não raras vezes, com sofrimento – os momentos pouco pacíficos da vida política da comunidade portuguesa no exílio. Raramente tomava posição perante confrontos – sobretudo os que, mais tarde, vieram a surgir entre grupos com diferentes orientações ideológicas – mas não deixava de desabafar a sua mágoa junto de alguns amigos mais próximos. «Para não sufocar», como nos deixou escrito num bilhete – que ainda guardo – posto, um dia, por debaixo da nossa porta. Pé ante pé no pequeno patamar, em silêncio, sem bater, que «não queria incomodar». Encantadora mulher.
Ele costumava dizer que sabia bem o que queria. Em público era firme e determinado Em privado era afável e humilde. Dava o exemplo, calçando as suas botas remendadas até que os buracos não tivessem conserto. Preferia a tranquilidade do campo ao buliço da cidade. Privava com a serventia, desde a governanta ao caseiro. Cuidava das suas galinhas como se pusessem ovos de ouro. Não trocava a sua sopinha de agriões por nenhuma iguaria mundana. Era com enorme sacrifício que assumia em público aquele ar grave, solitário e de resignada clausura. Claro que teve as suas aventuras, mas bem discretas e escondidas da comunicação social, ávida de escândalos e mexericos. Ele não era homem para exibicionismos das suas conquistas. Casou com a Pátria Sua Amada. Portugal foi verdadeiramente o único amor da sua vida. Inventaram algumas histórias mais inconvenientes sobre a sua vida amorosa, mas nunca deixou que os jornais, a rádio e a televisão as revelassem, só para que a atenção do Seu Povo não se desviasse um milímetro do caminho que tão laboriosamente lhe havia traçado. O País precisava d’Ele assim: um Missionário da Pátria, sem vida própria, exclusivamente dedicada à Nação. As mulheres procuravam-no insistentemente. Ele satisfazia-lhes a libido por espírito de missão – uma vez mais e sempre! – e abandonava-as, recatadamente, à beira da estrada. Até chegavam a vir do estrangeiro, na tentativa inglória de lhes conquistarem o coração. Mas, Ele fazia tudo pela Nação. O seu incomensurável amor à Pátria não lhe deixava uma réstia de afecto para conceder aos amores que se lhe atravessaram persistentemente no caminho durante quarenta anos de dedicação exclusiva aos outros. Nunca quis ser pai. Bastava-lhe ser Pai do Seu Povo. Reconhecidamente cumpridor das suas obrigações para com o Senhor, arriscava a própria vida pela Sua Igreja, a que não faltava todo o Santo Domingo, dispensando a protecção a que tinha direito, como Estadista. Enquanto Ele dirigiu os destinos da Nação nunca ninguém pôde apontar-lhe um defeito, uma fraqueza, uma inconveniência. Ele não permitia o falatório, protegendo assim o Seu Povo. Tudo o que se publicava na comunicação social tinha que ser expurgado das maledicências dos seus inimigos, das invejas dos que o queriam apear do Poder, das mentiras dos seus opositores. Enquanto governou o País, com a mão pesada de um Pai que protege os seus Filhos dos perigos internos e externos, não autorizou as notícias desmoralizadoras, as críticas destrutivas, a propaganda de ideias erráticas. Ele soube construir um estado fundado nos inquestionáveis valores de Deus, da Pátria e da Família. Não permitiu que se discutissem esses valores, agindo com determinação contra quem os pretendesse subverter. Por vezes foi forçado a exercer alguma compreensível violência contra os seus opositores, mas só assim poderia separar o trigo do joio, arrancar as ervas daninhas, extrair os cancros sociais que ameaçavam corromper a trilogia do Regime, que com tanto sacrifício pessoal havia oferecido ao País. Do Mundo, só sabíamos o que interessava à Nação. Ele proibia o contacto com as desgraças dos outros, só para preservar o orgulho de Ser Português. As guerras dos outros países eram evidenciadas para mostrar ao Seu Povo quão diferente era este Cantinho Português, este Povo de Brandos Costumes, que vivia pacificamente por obra e graça da Sua Neutralidade. Às invectivas das organizações internacionais – obviamente manipuladas por inconfessáveis interesses destinados a destruírem o edifício cristão, paulatinamente edificado pelo Seu esforço -, contrapunha um heróico Orgulhosamente Sós. Nem sequer vacilou perante uma qualquer guerra que nos fizessem, mesmo que por interpostos protagonistas. As grandes potências mundiais que se cuidassem, pois responderíamos rapidamente e em força a qualquer agressão belicista, ou a qualquer tentativa de dividir o nosso Sagrado Território Uno e Indivisível do Minho a Timor. Ele nunca pactuou com os subversores da Ordem Estabelecida. Prontificou-se sempre a ajudar os Seus Amigos em dificuldades, contra as ideias e as acções ameaçadoras da Raça. Tal como a nossa Pátria, a pátria dos seus amigos tinha que ser defendida do Anti-Cristo. Aqueles que se opunham a este Desiderato Nacionalista, eram justa e liminarmente silenciados, manietados, aniquilados. Um abanão a tempo resolvia os casos mais renitentes, sobretudo os que estavam a soldo das Forças Ocultas do Mal. Nada nem ninguém o desviaria da sua linha. Reprimia à esquerda e à direita qualquer veleidade subversora do Pensamento Único. Sabia bem para onde ia, para onde foi e onde permaneceu quase meio século, legando ao País uma herança perene, que ainda hoje perdura no coração dos Portugueses agradecidos. Este moralizador atavismo fez de nós um Povo feliz, pobrete mas alegrete. Não éramos ricos, éramos remediados, mas orgulhosos de sermos Portugueses. Herdámos uma dívida Patriótica, que ainda hoje estamos a pagar.
Em 23 de Fevereiro de 2008, morreram dois angolanos que importa não esquecer: Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana. Sobre o primeiro, divulgamos hoje um texto de Mário Brochado Coelho, escrito por ocasião de uma homenagem que teve lugar em Angola, e referimos outros dois publicados há um ano. Incluímos também uma referência a dados biográficos de Gentil Viana.
O homem que, hoje e aqui, se homenageia é tanto um filho da sua querida Angola como um cidadão do mundo.
É um lutador infatigável em defesa da independência do seu povo mas sem nunca deixar de ser um espírito aberto, culto, tolerante e amante da paz.
Trata-se não apenas de um intelectual vindo directamente do seio do seu povo mas também de um cidadão ferreamente coerente em todos os aspectos da sua intensa vida pessoal e cívica.
Sendo nacionalista nunca aceitou remeter-se aos limites estritos do nacionalismo.
Sendo angolano nunca perdeu a noção dos enquadramentos africano e mundial.
Sendo um combatente nunca deixou de propugnar as vias do entendimento e da paz.
Sendo filho de uma terra com abundantes riquezas nunca deixou de preferir os valores morais, a história e a humanidade das suas valorosas gentes.
Que a memória dos angolanos e dos amantes da liberdade nunca se esqueça deste exemplo vivo de homem justo, porque ela é um património inestimável para toda a Angola.
Os princípios norteadores da actuação de Joaquim Pinto de Andrade integram, portanto, o “renascer africano”, agora e em boa hora, promovido pela Associação Cívica de Angola e pela Associação Chá de Caxinde.
Quando comecei o curso de História trazia ainda comigo a imagem de um Nun’Álvares paladino e devoto, campeão da independência em Aljubarrota, e, anos depois, converso a uma nova existência: a vida simples feita de oração e cilício do Beato Nuno de Santa Maria. Era essa a imagem, construída pelos finais do século XIX e que o Estado Novo reproduzira, que havia transformado o Conde de Ourém e Condestável de Portugal numa espécie de ícone simultâneo do brio indígena e da piedade cristã. Foi então que li um livro, apologista de algumas teses sobre o sentido da crise política de 1383-1385 hoje algo contestadas, contendo informações sobre a vida verdadeira de Nuno Álvares Pereira que não circulavam pelas vias até então tradicionais de acesso ao registo do nosso passado colectivo.
Fora em 1965 que o historiador António Borges Coelho publicara na Portugália esse A Revolução de 1383 que vim a conhecer na sua edição de 1977, a 3ª, consideravelmente aumentada e revista de acordo com as novas possibilidades oferecidas pela Revolução de Abril (existem ainda edições posteriores). Foi aí que vi emergir da penumbra um senhor de Cernache com um rosto menos harmonioso, como nobre feudal cioso dos seus direitos, interventor pelo fio da espada nos campos alentejanos e andaluzes, do lado de cá e de lá das marcas do reino, contra os camponeses sublevados, que não se coibiu, por vezes, de perseguir e massacrar. Porque, como contou Borges Coelho apoiado principalmente em Fernão Lopes, Nun’Álvares dizia preferir morrer combatendo «nas fraldas» do próprio rei castelhano que serem depois, ele e os seus, «apanhados de lugar em lugar como perdigotos e enforcados uns e uns pelos sobreiros». Pela acção desses miseráveis campónios que visivelmente temia e essencialmente desprezava.
Ora é esse homem, «herói» também de uma guerra suja, com acções nada abonatórias no registo individual, com sangue nas mãos que não apenas o do invasor castelhano – mas apontado como «exemplo para a sociedade actual» pelo frade carmelita «vice-postulador da causa da canonização» -, que a Igreja católica, apostólica e romana de Bento XV beatificou em 1918 e que Bento XVI vai agora transformar em santo. Tendo como fundamento mais imediato, dizem, a cura milagrosa num olho de uma sexagenária que deixara de ver por ter sido atingida «com salpicos de óleo a ferver enquanto cozinhava». Cavaco já se congratulou publicamente com o evento e pode ler-se em alguns blogues de direita que esta é uma das melhores notícias para Portugal que temos recebido nas últimas décadas. Para as pessoas comuns o facto não aquecerá nem arrefecerá as suas existências, mas será sempre de proveito e exemplo conhecer também o lado negro da História. E saber de onde chegam os esquecimentos.
Publicamos hoje o texto da intervenção que Maria João Lobo (um dos membros mais activos do movimento criado em torno da recusa da transformação do Tribunal da Boa-Hora em hotel) fez na sessão que teve lugar, naquele tribunal, no passado dia 9.
Fui amavelmente convidada para dar o meu contributo nesta conferência não só por estar hoje aqui colocada como Procuradora mas também por aqui, nesta mesma sala, ter sido julgada em 1971, por crime contra a segurança do Estado.
Aceitei tal convite com natural reserva tanto por se tratar de um passado que ainda hoje é revivido com grande emoção, como ainda por um natural pudor de me caber a mim falar, entre tantas outras que por aqui passaram e mais sofreram a iniquidade deste tribunal, ao fazerem daqui verdadeiras tribunas de denúncia de um regime político sendo por isso agredidos pela PIDE, humilhados, arrastados à força para os calabouços, perante a complacência e muda anuência dos magistrados presentes.
Contudo, e em prol de uma memória que não pode ser renegada, apagada, destruída, esquecida, acedi em recordar esse processo em que aqui fui julgada, juntamente com mais outros 6 colegas, 5 dos quais estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa.
Tal processo iniciou-se, tal como de resto era habitual, com uma matutina invasão da PIDE em minha casa, com buscas sem mandatos de qualquer autoridade judicial, com apreensão indiscriminada de documentos, livros, fotografias e de todos os objectos que a polícia entendesse indiciarem uma perigosa actividade de atentado contra a segurança do Estado, nem que fosse um mero livro de Balzac, suspeitosamente escrito em francês.
Durante a instrução do processo, fomos colocados em celas de isolamento, sem jornais, livros ou canetas, com raras visitas de familiares mais próximos, tidas em parlatórios que impedissem qualquer contacto físico com o visitante, ladeados por diligentes e atentos guardas, que nos exigiam que falássemos bem alto para que pudessem ouvir.
Não havia nessa fase acesso ou possibilidade de contacto com advogados.
Após longos interrogatórios contínuos, a já conhecida tortura do sono, ameaças constantes e extensíveis à família, longos trajectos e paragens nocturnas e intimidatórias pela mata de Monsanto, idas e regressos, a meio da noite, de e para Caxias, terminou finalmente a instrução do processo.
Nos últimos dias têm vindo a lume diversas notícias anunciando a mudança dos tribunais a funcionar na Boa-Hora para o Parque das Nações e a cedência do edifício para «hôtel de charme».
Assim, depois da passagem a espaço burocrático da antiga prisão política do Aljube, da transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo, da proposta de fazer uma pousada no forte de Peniche, chegou a vez do Tribunal Plenário de Lisboa. Apesar das boas palavras e resoluções da Assembleia da República, parece não poder haver dúvidas de que a memória da luta antifascista é algo que, para lá de não se querer preservar, se pretende destruir.
Dizem-nos que não é por fazer da PIDE um condomínio, de Peniche uma pousada, da Boa Hora um hotel que a memória da resistência antifascista desaparecerá.
Ora não é o temor de que a alteração física dos edifícios leve ao esquecimento que nos leva a protestar pela sucessiva entrega desses lugares de memória da resistência a projectos imobiliários. O que nos preocupa é o sinal que isso envia às novas gerações, que não viveram a luta antifascista. O que nos preocupa é que a facilidade com que se destroem símbolos lhes comunique uma ideia de desinteresse por uma luta que está na base da democracia em que vivemos, ou, mesmo, de complacência para com a ditadura.
O que nos preocupa é só conseguirmos compreender esse desinteresse pela memória da resistência como um sinal de vitória póstuma da ditadura. Ou seja: como um desinvestimento na democracia. O que nos confunde tanto mais quanto ao mesmo tempo se preparam, com pompa e circunstância, as comemorações do Centenário da República.
Insistimos, por isso, na necessidade de recordar, na António Maria Cardoso, que ali sofreram e morreram diversos antifascistas; de recusar a transformação de Peniche e da Boa-Hora em unidades hoteleiras; de preservar o Aljube e criar, ali, o Museu da República e Resistência.
Uma das preocupações do Estado Novo, no seu início de jornada, nos anos trinta, prendeu-se com o desejo de enquadramento e organização de estratos da população, por idade e por sexo. Em 1936, o ministro da «Educação Nacional», Carneiro Pacheco criou a primeira organização estatal de mulheres, a Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN), para «estimular a acção educativa da família», «assegurar a cooperação entre esta e a Escola» e «preparar melhor as gerações femininas para os seus futuros deveres maternais, domésticos e sociais». No discurso que proferiu, por ocasião da nomeação dos membros da Junta Central da Obra das Mães, o ministro definiu os três objectivos da OMEN: por um lado, a reeducação das mães e a assistência materno-infantil, através dos centros sociais e educativos, das «semanas da mãe» e dos «prémios às famílias numerosas» e, por outro lado, a antecipação e prolongamento da escolaridade através da educação infantil, das cantinas escolares e da criação da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) [1]
A longa mas pouco actuante vida da OMEN(1936-1974) foi depois sempre marcada por uma grande indecisãoquanto à definição das suas funções. Em certos sectores do regime, multiplicaram-se as opiniões segundo as quais a organização devia ter um carácter meramente assistencial, enquanto, pelo contrário, a condessa de Rilvas, dirigente da OMEN, nunca a deixou de considerar «um instrumento deeducação nacional». Diga-se que, nos anos trinta e quarenta, o adjectivo «social» tinha de facto o significado de «educativo», fim para o qual a «assistência» era um meio.
A própria condessa de Rilvas indicou qual era o principal alvo da OMEN, ao referir que embora também pretendesse ocupar-se da «Mocidade», era a «adulta, a Mãe, a mulher actual, com os seus erros, a sua ignorância, os seus preconceitos» que a organização queria atingir em primeiro lugar. Mas os principais alvos da reeducação da OMEN eram as «mulheres do povo» e, segundo os desejos da organização, nomeadamente as operárias, às quais seriam ministradas, em centros sociais e educativos, nos meios «urbanos, industriais e rurais», noções de higiene, puericultura e de moral, para reduzir a mortalidade infantil e levá-las a regressar ao lar.
Num balanço das suas actividades realizado em 1971, a própria OMEN dividiu a sua vida, até aquela data, em três períodos: entre 1938 e 1945, a fase de implantação e de acção educativo-assistencial, exercida através dos primeiros centros sociais e educativos; entre 1946 e 1958, a fase em que a actuação no meio rural tomou «predomínio sobre os meios operário e urbano», através dos centros de formação familiar rural, e, entre 1959 e 1971, a fase vagamente caracterizada como sendo de procura da colaboração «com uma sociedade em franca evolução e resolução, tanto no âmbito familiar como social».
«Puta de merda! Respondes ou não ao que te perguntei?» – berrou um agente da Pide.
«Deixem lá a rapariga, coitada. A menina queria mesmo era dormir, era ou não era? – Não exagerem! Ó pá, chama o inspector e mandem-na seguir para Caxias. Vocês são umas bestas quadradas… – Vá, quer despachar isto, assinar o auto e ir para a caminha? – Assim ninguém vai a lado nenhum, nem você com esta teima em não falar, nem tu, espécie de animal!» – disse um segundo agente, acabado de entrar, dirigindo-se alternadamente a mim, em tom calmo, e com modos boçais ao «pide» que me interrogava. O costume.
Veio um médico. Bordado a «ponto pé de flor» com linha azul celeste, na algibeira da bata branca: Dr. Magalhães.
Minutos depois, numa enorme e negra carrinha celular, seguimos cinco para o Forte de Caxias. Sentados à frente, o motorista e dois agentes. Nas costas deles, a toda a largura, uma rede em ferro com espaços por onde caberia um dedo. Imediatamente atrás, eu e, ao meu lado, uma agente. Conversavam todos muito alto – não me lembro de ter entendido ou sabido ao certo o que diziam. Tive uma vaga percepção de que, no regresso, iam trazer outros companheiros para interrogatório.
A Calçada Ferragial, perto da sede da PIDE na António Maria Cardoso, passava-nos por baixo a pique (para mim, inclinada a uns 45 graus), aos abanões e a grande velocidade. Do meu lado, a carrinha parecia muito descaída. Um pneu vai furado, pela certa…
«Isto vai inclinado. Levam uma roda em baixo!» – alertei eu, receosa, tocando o motorista com o dedo indicador direito que fiz passar por um dos espaços da rede. Risota geral.
«- Esteja calma, ó freguesa, vai com medo de cair? Você é que vai de rodas em baixo…» – Mais risada. Eu não devia ter falado com eles…
Com os solavancos, sentia agora a minha coluna vertebral como se tivesse uns espetos que me picavam. Incomodavam-me. Ouvi o médico falar em Hospital…
À chegada à minha cela vazia (Lar, doce lar!), meti num plástico uma pêra, um maço de cigarros e umas cuecas, e sentei-me na bordinha da cama à espera que me fossem buscar para ir ao Hospital prisional São João de Deus, ali ao lado. Era engano, não ia nada – disse a guarda Rosa, olhando embasbacada o meu saquito. Voltou, daí a instantes, com um comprimido e uma caneca de água. Que o tomasse, que eram ordens, e que me deitasse, que estava dispensada de me levantar para jantar. A estranha combinação daquelas três coisas como bagagem, e o ar «esparvoado», para não dizer alucinado, com que insisti na certeza de que estariam à minha espera no Hospital, talvez os tivessem deixado inquietos: o dia seguinte era quinta feira e, à quinta feira, havia a visita semanal da família. Tinha de estar minimamente apresentável.
Mal ela fechou a porta, fui às grades – a um metro da barreira de terra, nas traseiras do Forte – e cantarolei a canção do Adriano: «Quem canta por conta sua / canta sempre com razão / Mais vale ser pardal da rua / que rouxinol na prisão…»
Era a senha para o início de uma conversa que, diariamente, se estendia por cerca de um minuto, à hora em que na outra ponta do corredor começavam a entregar o jantar.
«- Um forte abraço, companheira! Como estás?» – sussurravam-me a Rita e a Fernanda, pelas grades da cela ao lado.
Uma força gigantesca vinha naquele abraço.
«- Olá amigas! Estou bem, tudo bem.
– Agora deita-te, procura dormir. Hoje não te vai ser fácil, mas tenta descansar…»
Acordei na manhã seguinte num banho de sangue. Nada de especial. Era normal naquela situação: a Natureza reagira.
Graças à mini-série da SIC, A Vida Privada de Salazar, ficámos a saber que ele era, afinal, um verdadeiro macho latino: na juventude engatava as miúdas todas, beijocava-as à sorrelfa, recebia as pretendentes à porta do seu quarto no seminário, chegou mesmo a acariciar o peito de uma delas, por cima da blusa evidentemente, mas não as deixava entrar porque era proíbido. E até se pirava à noite para ir ao encontro duma namorada que, por sua vez, tinha uma irmã que também se atirava a ele. Isto em 1905, entre o Vimieiro e Vizeu (assim se escrevia na época), em plena Beira Alta, região que, como todos sabemos, sempre foi muito vanguardista no que se refere a comportamentos sociais. Já Presidente do Conselho, não deixou os seus créditos por mãos alheias e atirava-se a elas em cima dos sofás, apalpava as marquesas e quando se fartava de alguma largava-a em pleno Monsanto. Comportamento que, desde já, verberamos. E era tão bacano, tão querido do povo, que nem precisava de segurança: fosse a caminho do Vimieiro, fosse nas passeatas de carro com as amásias, fosse quando lhe batiam à porta da casa de S. Bento, sempre aberta a todos e só com a fiel Dona Maria como guardiã, não se via um único agente de segurança, nem mesmo um simples polícia de giro. E toda a gente lhe podia telefonar lá para casa. Mas este retrato não seria completo se não falássemos do seu amor pelas crianças, como na ternurenta cena de aconhegar o cobertor da cama da sua afilhada. Enfim, era um ternurento engatatão.
Ora, esta imagem nada tem a ver com a que nos andaram a impingir durante anos a fio, uma imagem seguramente empoeirada, e é graças à SIC e ao senhor Jorge Queiroga que podemos ter hoje esta visão «desempoeirada», como o próprio afirmou, de António de Oliveira Salazar. Uma obra a todos os títulos notável e que vem preencher uma lacuna há muito sentida no tratamento desse período da nossa história. A tal ponto que me atrevo, como simples cidadão, a propor ao Ministério da Educação que solicite ao senhor Queiroga (pagando, naturalmente) uma versão mais curta, mas sem perda de qualidade, para passar obrigatoriamente em todos as escolas. Desta forma, o próprio ministério preencheria uma outra lacuna, esta do nosso ensino, e daria uma contribuição decisiva para que as nossas crianças minorassem, finalmente e de forma segura, a sua ignorância no que respeita ao século vinte português.
Numa tarde destas, enquanto me esforçava uma vez mais por dar algum sentido à livralhada acumulada sem grande nexo aqui em casa, reencontrei um conjunto de postais reproduzindo algumas das fotografias de Gérard Castello Lopes tiradas ao Portugal dos anos 50. Foram editadas em 1999 na companhia de dois pequenos textos de dois Antónios. «Outros tempos, outros lugares», sublinha um deles, o Tabucchi, na contracapa. O outro, o Barreto, fala de um país passado que Castello Lopes revirou e nos ofereceu contrariando uma quase crónica escassez de imagens. Mas será realmente assim? Estaremos nós a olhar aqui para um país inteiramente outro, mergulhado num sono colectivo e prolongado do qual só na década de 1960 terá sido possível despertar? Revejo as imagens e encontro em quase todas elas vestígios de um Portugal que me parece o de sempre, diverso daquele que hoje habitamos mas nem por isso imóvel, nem por isso falho do movimento que é parte da memória comum na qual continua a apoiar-se aquilo que nos aproxima, ajudando a desenhar a comunidade que imaginamos.
Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em por razões obscuras
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
e se a vida continua a piorar dir-te-ão o contrário
fazem jogging cardio-fitness depilação
têm a barba aparentemente displicentemente aparada
o palavreado seco a voz tecnocrata bem colocada sem pigarro
são deus e o homem fazem projectos emitem opiniões
decisões sobre os mais convenientes pareceres técnicos
pensam na casa na rapariga top model no tablóide
no carro desportivo na nação tão humanos tão banais vestem fato-de-treino
fato-armani-rosa-e-teixeira blusão-de-camurça sapato-de-vela
workaholics e puritanos não fumam viverão para sempre
jantam com banqueiros magnatas especialistas e socialites
compram acções e se a vida continua a piorar
enquanto não sabes o que fazer com o salário mínimo com o seguro
com o crédito para o fogão para a televisão para os livros escolares
enfurecer-se-ão por não estares humildemente agradecido
pelas estradas leis planos de ordenamento investimentos gestão transparente
pela avaliação do vizinho do colega do chefe da mulher-a-dias do cão
pela internet e os estádios a culpa será dos ministros dos autarcas dos jornalistas
do povo infecto improdutivo dos corruptos será também tua
que não saberás ser boy subserviente diligente bem-falante
e disputas os leitos de cheia para a tua mísera vida
olha os móveis os bibelots as colchas almofadadas
os frigoríficos os televisores que a lama emporcalhou
para os quais é necessário disponibilizar share mediático
encontrar palavras de piedade e comiseração
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras
sabem que ninguém se lembra das cheias nos anos oitenta
nos anos sessenta em 2008 já nem se lembram das de 2001
evidenciarão a diminuição do número de mortos um progresso
que no tempo da outra senhora era tudo tão mais fácil
não havia o culto da miséria nos talkshow da televisão
ainda assim cansar-se-ão depressa esquecerão
que escorrem 35 litros de água por metro quadrado
na direcção da ribeira do prior velho, da ribeira de alcântara, do rio trancão
há muito que deixaram de gostar de ti por razões obscuras.
Uma guerra faz-se com armas. Quando das guerras coloniais, Portugal usou de várias estratégias para contornar a proibição formal da NATO em utilizar-se material seu num teatro de guerra fora dos objectivos militares da Aliança e teve nessas artimanhas a arte suficiente para obter armamento fornecido por várias das potências militares ocidentais (EUA, Alemanha, Itália, França, Israel). Entretanto, as guerrilhas anticoloniais abasteceram-se na URSS e restantes países do Pacto de Varsóvia. Esta diferença de aprovisionamento (e treino militar), acompanhando a divisão da «guerra fria», foi uma das marcas mais expostas dos alinhamentos políticos e ideológicos dos dois campos em conflito. Por um lado, a ditadura portuguesa procurava integrar a defesa do seu império na disputa global entre o Ocidente e o Comunismo. As guerrilhas independentistas recorriam aos únicos que estavam disponíveis a alimentar belicamente os destacamentos africanos que lutavam contra o Colonialismo e o Imperialismo. Se no caso português o uso de material militar de países capitalistas constituía um reforço da estratégia integradora de defesa nacional, portanto um avivar de convergência em que o desconforto da natureza ditatorial e colonialista do regime era atenuado pelo empenho na luta contra o Comunismo, no caso da guerrilha africana tratou-se, mais que uma questão de proximidade política (que também existia), do resultado de uma fatalidade. Ilustrando este contexto, ficou famoso o encontro de Amílcar Cabral com congressistas norte-americanos, numa das suas visitas aos EUA, em que estes acusaram o PAIGC de ser um instrumento da URSS e usando como prova disso o facto de a origem de todo o armamento dos guerrilheiros ser de países comunistas. Cabral reagiu de imediato entregando aos congressistas uma lista do armamento que necessitava e apelando a uma satisfação da «encomenda» pelas fábricas de armas norte-americanas, acrescentando que, na luta, o PAIGC não olhava para o «made in». Claro que a reunião terminou ali e Cabral voou a seguir para Moscovo com a mesma lista a ser entregue a um adjunto de Brejnev, merecendo rápido despacho favorável. E obviamente não havia armas grátis.
Muito se tem discutido sobre a quantidade, a qualidade e a eficácia, na guerra colonial enquanto confronto de guerra de guerrilha versus guerra de contra-guerrilha, dos armamentos dos dois lados. Se parece indiscutível que o armamento dos guerrilheiros se adaptava melhor às condições dos combates que lhe eram próprios (anulação de percursos, emboscadas, flagelações de quartéis, fogo anti-aéreo), excelente e eficaz que muitas vezes excedia o nível de competência dos utilizadores, os militares portugueses nunca se puderam queixar de que fosse o défice no seu armamento (em quantidade e em qualidade) que desequilibrava os conflitos em seu desfavor. Para mais, os portugueses eram senhores exclusivos do domínio dos céus e dos cursos de água (aqui, com algumas importantes excepções na Guiné). Até à chegada à Guiné dos mísseis soviéticos terra-ar SAM-7 [conhecidos como Strela (стрела, flecha, em russo)].
Faria hoje 80 anos. Todos citarão o escritor, muitos recordarão o excelente filme U Omãi Qe Dava Pulus, de João Pinto Nogueira.
Registo aqui o católico resistente, boémio e espartano, fundador de O Tempo e o Modo, membro do MAR (Movimento de Acção Revolucionária), colaborador das Brigadas Revolucionárias, o conspirador por feitio e por excelência – neste caso não tanto A Noite e o Riso, antes Directa e Square Tolstoi.
Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril)
Quinto post da série ABRIL [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior], em que proponho uma leitura da revolução como concentrado excepcional e único de acontecimentos de forte carga simbólica que a faz, no dizer de F. Furet «o imaginário de uma sociedade transformado no tecido da sua história».
Regresso a Luís Trindade e à sua tese tão lúcida quanto perturbante: «Trinta anos depois é praticamente impossível pensar o 25 de Abril. A realidade da revolução está de tal forma coberta de sentidos históricos que a antecedem e ultrapassam, que podemos apenas lê-la como símbolo do sec. XX português. Só a partir do passado ditatorial e projectando-o no futuro democrático, é que parece ser possível falar do momento historicamente mais denso da nossa contemporaneidade. A revolução fica assim, condenada por excesso ou por defeito, a uma confrontação com realidades que não são exactamente a sua, ora como conjunto de conquistas à luz da privação salazarista, ora como momento de excessos perante uma democracia assente em instituições representativas estabilizadas.» [1]
Assim sendo, entre a privação e o excesso, ou entre o antes e o depois do tempo revolucionário, o autor propõe um regresso ao momento histórico e à sua imanência. Um regresso que retire o 25 de Abril de uma falsa e aparente normalidade: quer retrospectiva, ligando-o ao passado da ditadura, quer projectiva, ligando-o ao presente da democracia. Isto porque nada é normal em período revolucionário, antes ele é a todos os títulos excepcional.
Só nos aproximaremos dessa excepcionalidade desde que nela se incluam não só elementos provenientes da memória histórica propriamente dita, mas também de uma outra memória que a transcende e a funda: a memória simbólica. A revolução, como conjunto de coisas que aconteceram e foram ditas, ou seja, de acontecimentos políticos e discursos sobre esses mesmos acontecimentos, pressupõe muito mais do que uma narrativa historiográfica: uma narrativa simbólica e mitológica. Na verdade, o acontecimento social e politico que em períodos de normalidade surge envolto numa racionalidade funcional é, em período revolucionário, sobredeterminado por intensa elaboração imaginária que inscreve as acções e os actores sociais num quadro geral de referências e representações, afinal tão reais como a pura factualidade, e mais próximas do que os cristais da fria cronologia.
Há memórias recentes que convém assinalar – neste caso, o segundo aniversário da vitória do SIM no referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez.
Aquela sala de interrogatório onde me encontrava, na Sede da PIDE, era pequena.
Só tinha a secretária, num canto, com duas cadeiras. Numa, sentei-me eu. Na outra, sentavam-se eles, para interrogar. E, nos intervalos, de horas, ou de dias e noites, sentavam-se elas, para vigiar. Isto é, assegurar que não fechávamos os olhos – com pancadas dos nós dos dedos ou das palmas das mãos no tampo da secretária; com o tamborilar das pontas dos dedos; com o bater forte e ritmado dos saltos dos sapatos, no soalho. Nem pestanejar se podia.
Logo na terceira noite sem dormir, tiraram-me a cadeira. Para eu ficar de pé. Disseram que eu estava a cabecear de sono. (E estava.)
Agora, era-me impossível permanecer assim imobilizada, encostada à parede. Já sentia os pés um bocado inchados.
Comecei então a andar, a contar passos na diagonal: eram quatro.
Pouco tempo depois, eu tinha descoberto um esquema divino. Andava lentamente na diagonal da sala, entre a secretária e o canto oposto. De olhos bem abertos, quando ia em direcção à «pide» – que garantia zelosamente o cumprimento da tortura – mas adormecendo logo que lhe virava as costas, enquanto caminhava cinco segundos no sentido contrário. Juro que dormia de facto, e que acordava no momento certo de dar a volta.
Lembro-me de sentir, de pensar que daria um ano de vida por cada cinco segundos daqueles. Assim mesmo: troca por troca. Nesse estado de delírio, nem nos ocorria se haveria um interlocutor para fechar um tal negócio. Cinco segundos.
Ela deu por isso, chegou-se à porta, fez um aceno e aí foi outra história: entraram na sala aos montes, em catadupas, as bestas. Com os estalos e murros na cabeça e nos braços, despertei. E voltaram a dar-me a cadeira.
Depois, quando disse que queria ir à casa de banho, olhei para o espelho e não me reconheci. Não que estivesse ferida, sangrando. Não estava. Mas parecia uma velha, cara ossuda, cheia de rugas e, nunca soube porquê (dos olhos raiados de sangue?), estranhamente vermelha.
Ainda não tinha mergulhado nas alucinações. Só na noite seguinte.
(In Saudações, Flausinas, Moedas e Simones, Campo das Letras, 2006)
Realizou-se ontem na Sala do Plenário do Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, uma conferência promovida pela associação «Juízes pela Cidadania», com o objectivo de mobilizar a opinião pública contra a hipotética transformação do edifício em hotel de luxo.
No vídeo do jornal da noite de ontem da 2 (com início mais ou menos ao 13º minuto), declarações de várias personalidades, entre as quais Mário Soares, e uma entrevista a Rui Rangel, presidente da associação.
Online neste blogue, o texto da intervenção de Diana Andringa na referida sessão.
Começo, se mo permites, pela matéria dos autos, com comentários pontuais.
Talvez nem te esteja a corrigir, mas o que admito é que, à partida para o Congresso fundacional do MES, eu queria que os meus amigos (pessoais e políticos) saíssem. Isto era do pleno conhecimento de alguns, o que não significa que merecesse a sua concordância. Porque a quase totalidade foram para lá na melhor fé, embora sabendo que havia o risco de não terem margem para ficar. Aquilo em que eu diferia deles nem é, pelo menos no comum das situações, muito bonito: e, por isso, lhe chamei «reserva mental». Para corresponder à honestidade intelectual com que vens tratando do assunto – um assunto em que estás completamente envolvido – senti-me na obrigação compulsiva de te fazer saber que havia quem, do outro lado (o meu), tivesse por aliados os «zulus» que queriam correr com os «doutores».
Ora isso não faz de mim «tenor». Mesmo que eu tivesse qualidades pessoais para isso, ou a ambição disso – o que não era manifestamente o caso – não conseguiria sê-lo: cheguei a essa novela muito tarde e, ainda por cima, tinha de lidar em simultâneo com velhos amigos, que conhecia de ginjeira, mas também com outros, que eles bem conheciam e eu não (por se tratar de amizades que eles fizeram desde 69/70, ou seja, quando começou a minha ausência «militar»).
O que eu fiz reflecte, aliás, o que te digo: ao datar a minha carta de saída do primeiro dia dos trabalhos, eu coloquei-me na posição, de pressionar os outros, é certo, mas também na de eu próprio já não ter recuo. Afundei as caravelas, como o Cortez. Mas até nisso há distinções. Porque outro signatário, que foi o J. M. Galvão Telles, foi sendo empurrado para essa atitude. Mas não havia nele senão abertura: e a prova, que tu mesmo já invocaste, é que levou a «militância» ao ponto de arranjar uma sede de que era ele, obviamente, o verdadeiro penhor.
O que eu queria não fica retratado com aquilo a que chamas «federação inorgânica de grupos convergentes», porque era mais simples (ainda que pouco maduro, admito hoje). O que eu queria era que entrássemos para o PS, mas ganhando o tempo de um compasso de espera com dois fins: a) O primeiro e mais importante, era deixar passar a fase do PS como cabeça da frente nacional de resistência ao esquerdismo (o que arrastaria também o desbloqueamento de algumas tensões que subsistiam entre o Melo Antunes e «os 9», de um lado, e a direcção do PS, do outro); o segundo era permitir a «digestão» e o «luto», de que a maior parte dos meus amigos políticos carecia após o malogro da aposta no MES. Era, pois, necessário um interinato. E, para esse, eu queria um «grilo do Pinóquio», um «clube» de reflexão ao qual, numa carta que ainda enviei de Moçambique, eu chamava, assumindo o paradoxo, um «PSU sem carácter partidário». De facto, a «coisa» tinha de ser compatível com filiações partidárias. Por exótica que tal liberdade hoje pareça. Basta citar o caso do César Oliveira, que não aceitaria acompanhar uma saída conjunta, se ficasse tão dela prisioneiro quanto se sentia no MES. Ora, com pequenas adaptações, foi o que veio a suceder com a saída do MES em grupo e a criação do grupo de Intervenção Socialista (que durou até à nossa entrada para o PS, em 1978) não andou longe disso.
Julgo não cometer nenhuma inconfidência grave se revelar que, um dia destes, almocei com o Nuno Brederode Santos. Os anos passaram e as minhas incursões pelas memórias do MES fizeram despertar nele, no meu entendimento, a necessidade de uma reflexão acerca de algumas reservas mentais que apimentaram a batalha do I Congresso do MES nos finais do ano da graça de 1974.
Curiosamente ficámos a saber, no decurso do repasto, que o nosso regresso às lides políticas, ocorreu em Outubro desse ano pelas mesmíssimas razões. Ele «guerreava» em Moçambique, no curso de uma longa comissão na guerra que combatíamos, eu «guerreava» na magna tarefa de instruir levas de milicianos – alguns deles ilustres intelectuais da nossa praça – habilitando-os para a deserção ou para o combate numa das frentes dessa guerra, para nós, desditosa.
Além de agradável, no plano pessoal, como haveria sempre de ser, a conversa revelou-me algumas facetas do primeiro conclave do MES que se me haviam varrido da memória e que, como consequência, levaram a omissões involuntárias nas anteriores deambulações que empreendi acerca do tema. Não é que a coisa tenha uma importância por aí além mas, na verdade, nunca me tinha apercebido de que o Nuno, ele próprio, fora um dos principais, senão o principal, tenor da tese da ruptura.
Se tivesse sido alcançada uma conciliação de posições permitindo manter a unidade, que acabou por se quebrar com estrondo no I Congresso do MES, seria uma derrota para a sua tese que, pelo que entendi, preconizava a criação de uma espécie de federação, inorgânica, de grupos convergentes que, sem um compromisso demasiado vincado com as forças partidárias emergentes, permitiria ganhar tempo, congregando vontades, para a formulação de um programa político à margem da inevitável opção entre um «compromisso histórico entre famílias socialistas» ou uma deriva esquerdista.
O Nuno revelou-me ainda algo que se me tinha varrido da memória e que, na sua opinião, foi um factor decisivo, pelo seu efeito psicológico, na consumação da ruptura com o MES daquele que seria conhecido como o grupo de Jorge Sampaio: uma intervenção radical, em pleno Congresso, de Afonso de Barros, filho de Henrique de Barros que, por razões geracionais era tido como elemento próximo do grupo com o qual, naquele momento, romperia de forma brutal.
Posted by Caminhos da Memória under Criação Comentários Desativados em sem retorno
regresso na hora das empregadas da limpeza
dos serventes de trabalhos distantes
das enfermeiras, das balconistas
e, coberta por uma maquilhagem já poída, não distingo suores
humores fétidos, as roupas engelhadas das mulheres
as mãos sujas dos homens
enquanto o comboio atravessa, uma após outra sem paragem,
estações vazias para as quais não tem passageiros.
regresso na hora das horas exangues
mas tagarelam raparigas
calados os rostos deles contra a janela, eu escrevo
numa actividade lânguida mãos bordam panos de cozinha
toalhas de mesa de renda crescente
casaquinhos minúsculos para crianças ausentes
e o revisor contempla a linha que o devolverá a casa
e que avista pela porta entreaberta em cada estação vencida.
sabendo que me aguardas
no cais mal iluminado onde nos encontrámos, pergunto-me
se a carcassa desta máquina roufenha perder
o registo dos lugares que estruturam o seu percurso
e, por uma outra escuridão fora,
continuar infame liberta desvairada?
(Publicado originalmente em Blue Moleskin)
Desenho e poema de Cláudia Santos Silva
Um texto de José Pedro Barreto (*) Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001
Os oito mil homens comandados pelo Major-General Aitken e embarcados em Bombaim não eram lá grande tropa. Haviam sido reunidos à pressa entre as forças coloniais britânicas na Índia. Na sua maioria nunca haviam disparado um tiro e eram comandados por oficiais que nunca os tinham visto mais gordos nem tinham posto os pés em África. Mas era com isto, e com o auxílio de mapas rasgados de velhos Atlas escolares, que o Império Britânico se preparava para tomar posse da África Oriental Alemã (actual Tanzânia), naquele Outubro de 1914. Era uma operação periférica, um rodapé da I Guerra Mundial. As tropas estariam de volta a casa no Natal, até porque do lado de lá não estava mais do que «um bando de negros descalços comandados por Hunos ignorantes».
O azar britânico foi que do lado de lá estava uma das mais brilhantes forças de combate que jamais actuaram no continente africano, conduzida pelo mais improvável génio da guerrilha na selva – o coronel Paul Emil von Lettow-Vorbeck, sólido e orgulhoso rebento da velha aristocracia prussiana. Com um punhado de oficias europeus, reunira e instruíra um milhar de askaris, soldados indígenas recrutados entre as mais aguerridas tribos da região. Por junto, esta era toda a guarnição de Ostafrika, reforçada com canhões retirados do Königsberg – um cruzador alemão cujo comandante, acossado pela marinha britânica, decidira afundar junto à costa.
Mas com a sua diminuta Schutztruppe, von Lettow irá conduzir uma guerra tenaz e vitoriosa, durante quatro anos, ao longo de milhares de quilómetros de matas e savanas, contra as tropas de três potências coloniais, só depondo as armas, voluntariamente, depois do Armistício na Europa. Este arrogante junker peripatético será o único general alemão nunca vencido. A baronesa Karen Blixen, autora de «África Minha», que viajou com ele no barco de volta à Europa, escreve que nenhum outro alemão «lhe deu uma impressão tão forte do que era e representava a Alemanha Imperial».
Quando em Novembro a bisonha força expedicionária britânica desembarca junto à aldeia de Tanga, a sul de Mombaça, as tropas de von Lettow, muito inferiores em número, chamam-lhe um figo. Aitken tem de reembarcar deixando no terreno dois mil mortos e toneladas de material, que vai permitir aos alemães armar novas unidades. Nos 18 meses seguintes, von Lettow conduz uma série de ataques às vizinhas colónias britânicas do Quénia e da Rodésia.
Posted by Miguel Cardina under Ensaio Comentários Desativados em Panpoliticismo, outrora
É um lugar-comum: só se vê aquilo que a teoria deixa ver. Durante os anos sessenta, os marxistas de pendor mais «clássico», agarrados às ferramentas conceptuais do materialismo dialéctico, crentes no finalismo histórico e no poder messiânico da classe operária, e preocupados, por isso, em predizer uma revolução que não acontecia, impediam-se de compreender uma outra revolução que estava a acontecer, e que abarcava as condições materiais, os estilos de vida, as relações familiares e as liberdades individuais. Numa obra monumental sobre o assunto – The Sixties. Cultural Revolution in Britain, France, Italy and United States – Arthur Marwick demonstrou precisamente como os «longos anos sessenta» – período que o historiador britânico coloca entre a segunda metade da década de cinquenta e a primeira metade da década de setenta – originaram uma «revolução cultural» que, apesar de não se ter revestido das características típicas de uma revolução política e económica, não deixou de modificar com profundidade a paisagem social. As propostas de alargamento do «político» a domínios até então insuspeitos, dificilmente encaixáveis nos esquemas teóricos do referido marxismo, acentuavam essa incapacidade de valorizar as mutações que iam ocorrendo em redor.
Na verdade, assiste-se na época a uma politização quase metafísica do mundo que conduziu a novas formas de pensar, sentir e agir, tão radicais quanto distantes dos modelos propagados de transformação social. A difusão nas ruas e nas universidades do enunciado «tudo é político» potenciara uma crítica radical dos costumes, abrira lugar ao nascimento e renovação de alguns movimentos sociais – como o feminismo, o ecologismo ou os movimentos em torno da defesa das minorias e das «identidades» – e transformara o corpo e o quotidiano em questões públicas. Lugares de expressão e de transgressão, de deleite e de visibilidade. Marcuse, Reich e Fromm caucionavam teoricamente essa revolução, os situacionistas, os provos e os Yippies levaram-na até ao extremo, Bardot e Joplin, Morrison e Dylan, a mini-saia e a pílula mostravam-na presente e difusa.
«Cerca de mil assinaturas foram recolhidas no abaixo-assinado que circula há dois meses em vários tribunais de Lisboa contra a saída da alçada da Justiça do edifício do Tribunal da Boa-Hora, que será transformado em hotel.» – Notícia no Expresso online.
Ontem, 3 de Fevereiro, passaram 56 anos sobre os acontecimentos que ficaram conhecidos como Massacre de Batepá. Agitando o perigo de uma conspiração comunista visando criar um governo dos nativos de S. Tomé, o governador Carlos Gorgulho fomentou uma onda de repressão que resultou num número ainda hoje indeterminado de mortos.
Muitos foram abatidos a tiro, em verdadeiras caçadas levadas a cabo por milícias de voluntários. Diversos foram queimados. Alguns morreram asfixiados em celas demasiado pequenas para o número de presos que continham. Muitos foram sujeitos a trabalhos forçados na praia de Fernão Dias. Um dos castigos consistia em «vazar o mar»: presos com correntes, eram obrigados a entrar no mar para encher grandes selhas de água salgada, apenas para as despejar em terra, pouco depois.
Interrogados sob tortura, chicoteados, submetidos à utilização de uma cadeira eléctrica, os presos eram obrigados a confessar o seu envovimento numa revolta que pretenderia matar o governador e os colonos e distribuir entre si as mulheres brancas. Mais tarde, a própria PIDE havia de negar a existência da conspiração referida pelo governador.
Crónica de uma guerra inventada, de Sum Marky, retrata esses acontecimentos, a que poetisa Alda Espírito Santo dedicou, entre outros, o poema Onde estão os homens caçados neste vento de loucura:
O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Ai o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Ai, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
- Nós estamos de pé -
nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando pela vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
... Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
- Que fizeste do meu povo?...
- Que respondeis?
- Onde está o meu povo?
...E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...
(É nosso o solo sagrado da terra)
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.)
O desmantelamento de redes alemãs e a criminalização da espionagem estrangeira
Em Abril de 1942, Alexander Cadogan, da embaixada inglesa, denunciou, ao governo de Salazar, alguns portugueses e alemães, acusados de espionagem a favor da Alemanha, entre os quais se contavam Cecil Adolf Nassenstein e Vollbrecht, ambos da Gestapo-SD, bem como o português Mário da Conceição Silva, proprietário de uma transportadora marítima. Haveria, por outro lado, uma denominada «organização de Bremen», com agentes em Lisboa, na Madeira, nos Açores (Horta) e em Angola (Luanda e Lobito), alguns dos quais foram presos e outros expulsos do país, da qual faziam parte os alemães Hans Friderick Grimm e Hans Scholz, elementos da Abwehr.
Depois, os britânicos continuaram a informar Salazar, sobre novos casos de espionagem alemã, em Moçambique, Angola, no Estoril, no Porto e em Lisboa. Até no Algarve, o guarda do farol do Cabo de S. Vicente, sargento Francisco Regêncio, foi acusado de transmitir informações sobre os navios aliados. No início de Março de 1943, Salazar recebeu, do embaixador britânico, um organigrama sobre as redes de espionagem do Eixo, em Lisboa, elaborado pelo comandante Austin Walsh, delegado oficial do serviço de Inteligência britânico, com uma lista dos portugueses que trabalhavam para a Alemanha.
Além da estrutura organizativa «Uxis», dirigida por Kurt Mezza Silva Foerster, representante em Portugal dos caminhos-de-ferro alemães, e pelo italiano Arturo Omerti, que contava com a colaboração de Richard Schubert e Kuno Weltzien (representante em Portugal da Krupp), havia ainda a rede de Hans Bendixen, da qual faziam parte Ernst Schmidt, representante da firma AEG no Porto, bem como empregados da Radio Marconi e jornalistas portugueses, entre os quais se contava Carlos da Mota Marques. Em 8 de Outubro de 1943, uma brigada da PVDE fez uma rusga às moradias «Bel Ver», «Gira-Sol» e «Bem-me-Quer», no Estoril, as últimas das quais pertencentes, respectivamente, a Wilhelm Lorenz e a Hans Bendixen. Embora ali tivessem encontrado um receptor e outro «aparelho de marca hallicrafter, tipo Super Defiant», a PVDE afirmou nada ter encontrado de «suspeito».
Nesse período em que estavam a ser detectadas e desmanteladas redes alemãs em Portugal, Salazar resolveu entretanto criminalizar a espionagem de estrangeiros contra «terceiros» em Portugal, em 7 de Junho de 1943. Essa alteração ao Código Penal, que beneficiava então aos britânicos, esteve certamente ligada às sucessivas vitórias aliadas, mas coincidiu também com a condenação à morte, em Londres, em 2 de Abril de 1943, do português Rogério Magalhães Peixoto de Menezes, acusado de espionagem a favor dos alemães. Portugal tinha assim todo o interesse em revelar boa vontade com a Grã-Bretanha, para obter a comutação da pena capital, que efectivamente acabou por ser substituída pela prisão perpétua, em 26 de Maio. Após ter estado seis anos preso, Menezes acabou por ser libertado e deportado para Portugal, em final de 1949.
Posted by Irene Pimentel under História Comentários Desativados em Lisboa, capital europeia da espionagem (1)
Portugal, em cuja capital se ouvia então falar todas as línguas europeias, tornou-se, no período da II Guerra Mundial, uma importante placa giratória de informações, mercadorias e pessoas. Sob os olhares atentos dos portugueses e da imprensa, passaram, por Lisboa, embaixadores dos países beligerantes, a caminho da Europa ocupada ou de Londres e dos Estados Unidos da América. Através de uma política sinuosa de exploração das contradições entre os dois campos beligerantes, Salazar conseguiu manter uma neutralidade, declarada em 1 de Setembro de 1939. Neutralidade, aliás possibilitada tanto pelo Eixo como pelos Aliados, que começou por ser «equidistante».
A partir de 1943, após o desembarque no Norte de África e a derrota alemã em Estalinegrade, quando o desejo salazarista de uma «paz sem vencedores nem vencidos» se tornou inexequível, instalou-se no seio do regime o medo de que a vitória aliada acarretasse o fim do Estado Novo. Foi nesse período, num contexto interno de agitação social, que a neutralidade portuguesa passou de a «colaborante» com os aliados anglo-americanos.
Do lado dos britânicos
Um dos campos em que Portugal foi «equidistante» até ao fim da guerra foi o da espionagem dos dois campos beligerantes. Até 1939, a espionagem britânica actuava desligada do Foreign Office, mas, com o início da guerra, a estação secreta inglesa, fechada nos anos vinte, foi reaberta no Consulado da Grã-Bretanha, em Lisboa, sob a direcção de Phillip Johns. Este trabalhava simultaneamente para o Special Operation Executive Committee (SOE) e para o Secret Intelligence Service (SIS) – ou secção V (de contra-espionagem) do MI6. Além destas duas agências secretas, também operavam em Lisboa, a Naval Intelligence Division, a Military Intelligence Service e o MI9.
O MI9 e o SOE em Portugal
Dirigido por Donald Darling, funcionário do mesmo Consulado, o MI9organizou fugas de prisioneiros e militares aliados, dos países ocupados pelo Eixo, mantendo linhas de entrada e de saída clandestina, através de Gibraltar e de Lisboa, a caminho de Londres. Entre Junho e Agosto de 1941, a PVDEdetectou uma rede que introduzia clandestinamente, em Portugal, franceses e polacos em idade militar, ex-combatentes dos exércitos dos países ocupados, foragidos de campos de internamento franceses e opositores políticos alemães, detendo cerca de cinquenta clandestinos. Pertenciam a essa rede o inglês Victor Reynolds, proprietário da Quinta do Carmo, no Alentejo, e diversos portugueses, entre os quais se contava Mário Pinto Levy.
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Caminhos da Memória é um blogue que pretende dar voz a diferentes formas de lembrar, de evocar e de interpretar o passado, recorrendo a leituras contemporâneas da história e da memória.
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Colóquio Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização 15 e 16 de Abril de 2010
Auditório B 203 | Edifício II do ISCTE-IUL | Lisboa
Organização: * Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa
* Centro em Rede de Investigação em Antropologia
* Instituto de História Contemporânea
* Associação 25 de Abril
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