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  João Abel Manta

A partir daí, “Y” não deixará de colaborar com a polícia, não apenas dizendo aquilo que esta quer saber sobre a sua actividade e aqueles a quem se encontrava ligado, mas dando outras informações e, até, mais tarde, denunciando conversas dos presos com quem irá partilhar celas. Sobre esse facto, refere ter sofrido uma “reversão ideológica”. Mas fica a dúvida sobre se se trata de uma “reversão”, fruto desse “eu dividido” precipitado pelo stress do isolamento e da tortura, ou se é a sua frágil socialização política que, sob o efeito desses factores, se esboroa, deixando o campo livre aos valores em que – como tantos dos jovens portugueses de então – fora educado, mais próximos daqueles que os agentes lhe repetem que àqueles que o tinham seduzido nas Associações de Estudantes e no grupo político a que pertencia. E vale a pena pensar quantas vezes os presos tinham, na própria família, ou entre os amigos, quem criticasse a sua militância e dissesse, como a polícia, que ao combater o regime estavam a “estragar a sua vida”. Há que recordar que a luta antifascista esteve longe de envolver toda a população portuguesa e que nem todos os presos provinham de famílias da Oposição. 

Podemos pensar que, “Y” aceitara uma outra legitimidade, a da polícia política do regime, contra a legitimidade do grupo político a que pertencia. E porque, como diz Pierre Bourdieu, “as relações de forças objectivas tendem a reproduzir-se nas relações de força simbólicas, nas visões do mundo social que contribuem para garantir a permanência dessas relações de força“, a ideologia política apresentada pela PIDE sobrepunha-se àquela que o levara a tornar-se militante. Ainda Pierre Bourdieu: “O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder simbólico não reside nos “sistemas simbólicos”, em forma de uma “illocutionary force”, mas que se define numa relação determinada – e por meio desta – entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que reproduz a crença. O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daqueles que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.” [1] 

É que a luta entre o preso e a polícia é, afinal, uma luta pelo Poder. Desequilibrada, desigual – e comunicacional. 

Entendemos que a história de “Y” o prova em absoluto. 

Desde o início. Porque é pela palavra, pela admiração daqueles que a usam com uma facilidade que desconhece, pela magia das palavras novas que tem que aprender a conhecer – palavras até aí proibidas no meio em que se movia ou usadas com significado diferente daquele que lhe é dado pelos jovens associativos nas Universidades portuguesas, “colónias” e “comunismo”, por exemplo – que o jovem “Y” entra na vida associativa e, depois, na vida política, numa organização clandestina.

Porque nessa organização perde o seu nome, pelo uso obrigatório de um pseudónimo. E então, ainda que “Y” não a ponha expressamente, a pergunta surge: “Aquilo que diz e faz aquele que usa o meu pseudónimo é o mesmo que digo e faço eu, com este nome que uso desde que nasci?”

De alguma forma, o uso do pseudónimo, esse outro que também é “eu”, corresponde ao uso dúplice das palavras, que têm significados diversos na boca de quem os pronuncia na socialização que foi a sua de infância e adolescência e aqueles que são, nessa fase, os seus “camaradas”.

Como lembra Marina Yaguello, em “Alice no país da linguagem”:

A actividade linguística é uma actividade simbólica. A língua serve de veículo ao pensamento, que articula conceitos e não etiquetas aplicadas às coisas. Nomear é categorizar, organizar o mundo. As palavras têm um poder conceptualizador: a palavra cria o conceito da mesma maneira que o conceito convoca a palavra. Uma actividade nova, uma ideia nova, uma nova realidade requerem uma denominação, mas é esta denominação que lhes confere existência.” [2]

E quando a mesma palavra quer dizer duas coisas tão diferentes como um elogio e um insulto? Quando, na polícia “comunista” – até aí a palavra que significava aquilo que, no seu mais íntimo, julgava almejar ser – surge, não como elogio, mas como insulto, “Y” fica na posição da Alice de Lewis Carroll, perdida num país onde as palavras não significam aquilo que com elas aprendeu.

Não sei o que queres dizer com ‘glória'”, disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu com desprezo. “Claro que não, até eu to explicar. O que eu queria dizer era ‘aí está um argumento para te abater.'”
“Mas ‘glória’ não significa ‘um bom argumento para abater'”, objectou Alice.
“Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty com desdém – ela significa exactamente o que eu quero que signifique – nem mais nem menos.”
“A questão – disse Alice – é se tu podes fazer com que as palavras tenham significados tão diferentes!”
“A questão é – disse Humpty Dumpty – quem deve ser o mestre.”

Sobre este diálogo, escreve Marina Yaguello: “Ao estabelecer as suas próprias convenções, recusando-se a conformar-se ao consenso que une os locutores de uma mesma língua numa “comunidade linguística”, Humpty Dumpty mina as próprias raízes da comunicação.”

Mas é neste terreno minado que se move Alice e que, a partir da sua prisão, se move “Y”. E a questão de “quem deve ser o mestre” é, naturalmente, a de quem detém o poder de definir o que as palavras querem dizer. No mesmo sentido vai, aliás, a inteligentíssima – consciente ou inconscientemente – atitude do agente que rasga os papéis em que “Y” inicia a sua confissão. Porque é preciso, ainda, que sejam eles – os inquiridores – a estabelecer o que é, ou não, digno de ser contado. Que sejam eles os donos da palavra. Que é outra forma de dizer: do Poder.

É pois lícito pôr a dúvida de se, ao aconselhar os militantes comunistas a não prestar quaisquer declarações, Victor Serge e o “Se fores preso, camarada…” não cometem um erro, o de retirar o poder àqueles que foram presos. É certo que, sob a dura situação de interrogatório, podem esses militantes confundir-se, enredar-se nas suas próprias explicações: mas dando-as enquanto estão ainda em condições de as dar, não se comprometeriam com as suas próprias palavras?

Estamos, pois, em pleno campo da comunicação. Não apenas nas palavras, mas também nos gestos, nessa linguagem silenciosa que é a ocupação do espaço, o jogo a bel-prazer com o relógio, os gritos que se sucedem às palavras mansas, essa violência que se sofre por tirar ou por pôr uma camisola, num duplo constrangimento enlouquecedor…

E esse “bater enquanto falam”, a fazer memorizar a mensagem, como não aproximá-la do texto de Gilles Deleuze, “Da oralidade“?
Freud insistia sobre a origem acústica do superego. Para a criança, a primeira aproximação à linguagem consiste em apreender esta como o modelo do que lhe é pré-existente, como reenviando a todo o domínio do que já lá está, voz familiar que veicula a tradição, onde a criança se deve inserir antes mesmo de compreender. De certo modo, essa voz dispõe de todas as dimensões da linguagem organizada : porque ela designa o bom objecto enquanto tal, ou, ao contrário, os objectos rejeitados ; ela significa algo, a saber, todos os conceitos e classes que estruturam o domínio da pré-existência ; e ela as variações emocionais da pessoa (voz que ama e acalma, que ataca e ralha, que se queixa de estar ferida, ou que se retira e se cala. (…) Ela é bem a voz de Dieu comme superego, aquela que proíbe sem que saibamos o que é proibido, já que não o saberemos se não pela sanção.” [3]

E como não pensar, perante a forma como “Y” muda a sua fidelidade dos camaradas que tanto admirara para o chefe de brigada responsável pela sua traição, no que escreveu Erik H. Erikson em “Identidade – Juventude e Crise“, escreve:
” (…) A juventude rejeita frequentemente os pais e as autoridades, e deseja subestimá-los como inconsequentes, pois está procurando indivíduos e movimentos que afirmem – ou pareçam afirmar – que são capazes de predizer o que é irreversível, assim se adiantando ao futuro – o que significa invertê-lo. Isso, por sua vez, explica a aceitação pela juventude de mitologias e ideologias que prevêem o curso do universo ou a tendência geral da história; pois até a juventude inteligente e prática pode ficar satisfeita por contar com um quadro de referência mais amplo, de modo que possa dedicar-se aos detalhes ao alcance de seu controle, assim que conheça (ou lhe seja convincentemente dito) o que elas representam e onde ela própria se situa. Assim, as ideologias “verdadeiras” são verificadas pela história – por algum tempo; pois se elas podem inspirar a juventude, a juventude fará a história prevista tornar-se mais verdadeira. (…) A selecção de indivíduos significativos pode ocorrer no contexto das virtualidades evidentes, como a escolaridade ou a selecção profissional, assim como na filiação religiosa e ideológica, enquanto que os métodos de seleccionar heróis pode ir desde a amenidade e inimizade banais até o jogo perigoso nas fronteiras da sanidade e da legalidade. Mas as ocasiões têm em comum uma avaliação mútua e uma mútua demanda de reconhecimento como indivíduos que podem ser mais do que parecem ser e cujos potenciais são necessários à ordem existente ou a criar. Os representantes do mundo adulto assim envolvidos podem ser os advogados e praticantes da exactidão técnica, de um método de inquérito científico, de uma convincente interpretação da verdade, de um código de justiça, de um padrão de veracidade artística ou de um estilo de autenticidade pessoal. Eles se tornam representantes de uma elite aos olhos dos jovens, independentemente deles serem assim considerados ou não aos olhos da família, do público ou da polícia.” [4]

Mas esse investimento dos jovens em busca de imagens parentais alternativas exige muitíssimo daqueles que ocupam esse lugar. Girardet:
Pai procurado e redescoberto – tendo tomado o lugar, desempenhando o papel de um pai perdido ou repudiado – os sentimentos de respeito e de devotamento que se dirigem ao personagem heroificado vão em primeiro lugar, neste caso, para o Protector: a ele o encargo de apaziguar, de restaurar a confiança, de restabelecer uma segurança comprometida; a ele também a tarefa de fazer frente às ameaças de uma desgraça. (…) Mas a ele cabe também o cuidado primordial de garantir a perpetuação da comunidade, da qual carrega doravante a responsabilidade. Fiador, em outras palavras, da regularidade do jogo das continuidades, das transmissões e das sucessões, os valores que encarna são os da perenidade, os do património e os da herança. Seu papel é o de prevenir os acidentes da história, evitar suas fendas, responder pelo futuro em função da fidelidade a um passado com o qual se acha muito naturalmente identificado. Quase seria preciso dizer que a construção mítica não está aqui, no limite, fora do domínio de certa concepção cósmica da Ordem universal. Guardião da normalidade na sucessão dos tempos, no decorrer das gerações, assim aparece, nessa perspectiva, a função essencial atribuída ao herói salvador.” [5]

Mas se esse herói, posto ele próprio em risco, parte para o exílio, se não protege, com os seus bons métodos, os seus conselhos, a sua vigilância, os seus seguidores, se não lhes evita a prisão e a tortura, se a meditação causada pelo isolamento aumenta ainda o número e a importância das suas falhas, se a cada momento a sua “deserção” dos deveres de salvador é glosada por aqueles que torturam aqueles que abandonou, então, está criado o cenário para a segunda morte do pai e, na tristeza da traição que já não é do salvador mas de si próprio, o investimento em nova imagem parental, que essa, sim, salva do mal presente.

Tentar compreender o que leva uns a traírem e outros a resistirem faz-nos pensar que estão em jogo forças muito mais poderosas do que simplesmente querer ou não resistir. E, compreendendo embora, no contexto, os que condenavam sem reservas aqueles que cediam em interrogatórios – a maioria das vezes sem que essa cedência fosse mais do que momentânea e se transformasse em “colaboração” – parece-me que vale a pena pensar se não houve, do lado antifascista, alguma responsabilidade nessas cedências. Não é um mero exercício de desocupados, visto que, até hoje, há quem sinta ainda dolorosamente o ostracismo a que foi condenado, ou a que um seu familiar foi condenado.

Depois de ler não só “La question”, mas também textos policiais como o citado “Kubark Counterintelligence Interrogation”, não tenho dúvidas de que a todos os métodos até agora usados há quem seja capaz de resistir. Mas acredito que isso depende de factores muito diversos, que vão da personalidade do preso ao contexto em que se desenvolve a sua luta. E tenho a certeza de que não basta dizer “Não prestes declarações” para que não se fale, como a tenho de que os que falam não são, na maioria dos casos, verdadeiros traidores. E que cabe às organizações serem mais cuidadosas no recrutamento, na forma como preparam os seus militantes (não posso impedir-me de temer que ser preso já no temor de uma tortura quase insuportável não colaborava nessa “ameaça de dor” que a CIA considera mais eficaz do que a dor ela mesma fosse uma forma – naturalmente involuntária – de servir os desígnios dos torcionários), nas medidas que tomam na eventualidade de uma traição. Resistências houve que preferiram admitir como princípio o risco de que os seus elementos falassem sob tortura, pelo que estavam preparadas para, em 48 horas, mudar toda a parte da organização a que um preso estava ligado – e não fazer pesar sobre este toda a responsabilidade de resistir.

Trinta e cinco anos passado sobre o 25 de Abril, creio que, como referiu José Pedro Castanheira na apresentação do último livro da Irene Pimentel, vale a pena reflectir sobre tudo isto. Tendo em conta, até, o exemplo de Timor-Leste, onde a resistência não rejeitou todos aqueles que em algum caso cederam – mas nem por isso se passaram para o inimigo. Lembram-se de como, quando alguns em Portugal já o acusavam de traição, Xanana Gusmão liderou o processo da independência de Timor?

 
[1] Bourdieu, Pierre, “O poder simbólico“, Memória e Sociedade, Diffel, Lisboa, 1989, p. 145, 14/15

[2]Yaguello, Marina, “Alice no país da linguagem. Para compreender a linguística“, Imprensa Universitária, Ed. Estampa, Lisboa, 1990 (1981)

[3] Deleuze, Gilles, “Logique du sens“, Collection “Critique”, Les éditions de Minuit, Paris, 1969.

[4]Erikson, Erik H., “Identidade, Juventude e Crise“, Ciências da Educação, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1972.

[5] Girardet, Raoul, “Mitos e Mitologias Políticas“, Companhia das Letras, São Paulo, 1987.

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