Se é totalmente incorrecto fazer coincidir o início da oposição dos católicos ao salazarismo com a década de 60, não há dúvida que foi nela que se deu a verdadeira explosão de actividades daquela oposição. Dois factores contribuíram decisivamente para que isto acontecesse: dentro da Igreja, as perspectivas de abertura criadas pelo Concílio Vaticano II e o conservantismo da Igreja portuguesa; na sociedade em geral, a ausência de liberdades elementares e a manutenção da guerra colonial, com todas as insuportáveis consequências que arrastou. Ao invocarem a sua condição de católicos em iniciativas cada vez mais radicais, aqueles que o fizeram atingiram um dos pilares ideológicos mais fortes do regime e este foi acusando o toque.
É certo que se tratou de uma oposição que manteve sempre uma certa informalidade organizativa. Concretizou‑se em iniciativas e instituições, mais ou menos ligadas entre si através dos seus membros, mas, em parte propositadamente, sem uma estruturação sólida e definida. Daí derivaram fraquezas e forças e, definitivamente, características específicas.
A Pragma foi uma dessas instituições – com uma importância e projecção ainda relativamente desconhecidas. Foi fundada por um grupo de católicos, em Abril de 1964, como uma «Cooperativa de Difusão Cultural e Acção Comunitária». Porquê uma cooperativa? Porque foi a forma de tirar o partido possível de uma lacuna legislativa: as cooperativas não tinham sido abrangidas pelas limitações impostas ao direito de associação e, por essa razão, nem os seus estatutos eram sujeitos a aprovação legal, nem a eleição dos seus dirigentes a ratificação pelas entidades governamentais. Forçando uma porta entreaberta por um lapso do poder, os fundadores da Pragma puseram mais uma peça no puzzle da oposição ao regime – cuidadosa e imaginativamente.
Desde o seu núcleo inicial, a Pragma não se restringiu ao universo «intelectual» e incluiu também sócios provenientes do meio operário, nomeadamente dirigentes e militantes das organizações operárias da Acção Católica. Os horizontes abriram-se rapidamente e muitos dos seus futuros membros nem sequer seriam católicos. Aliás, a Pragma acabou por funcionar também como uma espécie de plataforma aglutinadora de elementos da esquerda não-PC que, por não estarem integrados em qualquer estrutura organizativa, nela identificaram um espaço de debate e de encontro (foi o caso, por exemplo, de muitos activistas das lutas estudantis de 1962).
Subjacente a este novo projecto estava, obviamente, um posicionamento de oposição ao regime como um todo, à falta de liberdades, à guerra de África. Pretendeu‑se explorar mais uma janela legal de oportunidades, complementar outras iniciativas, criar possibilidades para acções concretas e úteis, aumentar a consciência política e social de um número cada vez maior de pessoas.
Os três primeiros anos
Mário Murteira foi o sócio nº 1 e o primeiro Presidente da Direcção. Nuno Teotónio Pereira, sócio nº 2 e segundo Presidente, manteve-se até ao fim como o seu principal animador.
«Oficialmente», os Estatutos definiram como objecto da Cooperativa: «a) – Facultar aos seus sócios a maior defesa económica nos artigos que possam adquirir ou produzir; b) – Promover o aperfeiçoamento moral, cultural e técnico dos sócios e suas famílias […]; c) – Instalar casas de férias para sócios e famílias.»
Durante os primeiros três anos, estes objectivos, nomeadamente os dois primeiros, foram concretizados num número absolutamente notável de iniciativas.
Na área da promoção cultural e técnica, para além de um ciclo de cinema e de exposições, organizaram-se, em três anos, largas dezenas de cursos (com muitas aulas), colóquios (com várias sessões), conferências e reuniões temáticas. Nalgumas destas iniciativas, participaram centenas de pessoas. Escolhiam-se os títulos «possíveis», o que se passava na realidade ia bem mais além…
Em Abril de 1965, por ocasião de um colóquio sobre Planeamento económico e progresso social, a Pragma organizou uma exposição baseada no Parecer da Câmara Corporativa sobre o Plano Intercalar de Fomento para 1965‑1967: sessenta painéis com fotografias, gráficos e comentários, em que os textos e dados estatísticos foram extraídos dos documentos oficiais. O Parecer, que era muito crítico, tinha sido elaborado por Francisco Pereira de Moura, então Procurador à Câmara Corporativa. Depois de exibida em várias localidades, acabou por ser apreendida pela PIDE, em S. Mamede de Infesta.
A PIDE esteve atenta à Pragma desde o início. Em processo próprio arquivado na Torre do Tombo, há informações sobre actividades e pessoas ligadas à Cooperativa desde 1964, bem como relatórios de informadores da PIDE.
A realização de sessões públicas pressupunha uma autorização prévia concedida pelo Governo Civil. A Pragma submeteu por isso um pedido relativo a uma conferência sobre Emigração – situação de crise ou factor de progresso?, que deveria ter lugar em 28 de Fevereiro de 1967. Depois de consultada a PIDE, que considerou «inconveniente» a realização da sessão, o Governo Civil de Lisboa indeferiu o pedido. Compreende‑se a razão – emigração era um tema especialmente sensível, já que, em 1966, tinham sido 125.000 os portugueses que, legal ou clandestinamente, tinham deixado o país. Devido à recusa de autorização por parte do Governo Civil, o ciclo sobre emigração ficou limitado aos sócios, que assistiram às duas primeiras sessões na sede da Cooperativa. A terceira deveria ter tido lugar precisamente no dia em que a sede foi encerrada pela PIDE.
Começou então uma nova etapa na vida da Pragma. Entretanto, a Cooperativa tinha crescido rapidamente ao longo dos três primeiros anos: de 111 sócios em Dezembro de 1964, passara para 216 no fim de 1965 e para 305 no de 1966. Em Abril de 1967, tinha 340 sócios.
O encerramento da sede e as reacções
No dia 6 de Abril de 1967, quando se encontravam na sede da Cooperativa, na Rua da Glória, Natália Teotónio Pereira e António Macieira Costa, apresentou‑se uma brigada de agentes da PIDE, com ordem para realizar uma busca às instalações. Esperaram por Nuno Teotónio Pereira, então já Presidente da Direcção, entretanto avisado. Um painel com documentos sobre emigração atraiu imediatamente a atenção dos agentes. Deveria realizar‑se, nessa mesma noite, a já referida terceira sessão sobre aquele tema, intitulada Visão histórica da emigração portuguesa, sob a orientação de Joel Serrão e com a colaboração de Vitorino Magalhães Godinho.
Enquanto decorriam as buscas, chegou alguém que passou a ser objecto de comportamento reverente por parte dos agentes e que foi apresentado a Nuno Teotónio Pereira como o «Subdirector Sachetti». Agitado, apontou para o painel e terá dito:
«Ali está o que nós suspeitávamos! São estas as ideias que vocês espalham. Hão‑de ver na Polícia a criminosa acção que estão a fazer. Um desgraçado em África traiu os seus camaradas e disse que a culpa era toda vossa!»
As instalações foram seladas para que a diligência pudesse continuar no dia seguinte. Nuno Teotónio Pereira seguiu com os agentes para a sede da PIDE – de táxi – e foi mais tarde levado para a prisão de Caxias. A caminho da cela, iniciou este extraordinário diálogo com o guarda que o acompanhava:
– Tem havido muito movimento?
– Não, pouco, isto está muito parado e muitas celas estão vazias. E o que dá ainda alguma coisa é a emigração. Políticos agora são menos. O senhor é da emigração ou dos políticos?
– Sou dos políticos.
– Pois é, disso tem havido pouco. Compreende: cada um trata mas é da sua vida.
Vinte e quatro horas depois, foram presos outros elementos da Direcção: João Gomes, António Macieira Costa, Nuno Silva Miguel e Ana Marques [hoje Ana Vicente]. Em todos os casos, houve buscas domiciliárias, interrogatórios na sede da PIDE e detenção em Caxias, até 10 de Abril, dia em que foram libertados juntamente com Nuno Teotónio Pereira.
Acontece que, para o dia seguinte, estava marcado um serão de convívio comemorativo do terceiro aniversário da Cooperativa, a ser realizado na Sociedade Nacional de Belas Artes. A PIDE proibiu a realização da sessão, comunicou essa proibição aos dirigentes da Pragma antes de os pôr em liberdade e obrigou‑os a comprometerem‑se, por escrito, a fazê‑la respeitar.
Nesse 11 de Abril, precipitaram-se vários acontecimentos. Os jornais publicaram uma Nota Oficiosa da PIDE sobre as razões para o encerramento da sede da Pragma. Uma resposta, enviada imediatamente pela Direcção, foi cortada pela Censura e não foi portanto divulgada por nenhum órgão de comunicação social.
Alguns membros dos órgãos dirigentes pediram uma audiência ao Cardeal Patriarca de Lisboa para o porem ao corrente dos acontecimentos. Pouco antes da hora prevista para a dita audiência, os sócios tomaram conhecimento da proibição do serão de convívio, através de um aviso afixado na porta fechada da Sociedade Nacional de Belas Artes. Resolveram dirigir‑se também para o Patriarcado, onde os dirigentes esperavam a reunião com Cerejeira. Aglomeraram-se à entrada mais de duzentas pessoas. Tinham entretanto chegado forças da PSP, mas as portas abriram‑se e todos entraram para o átrio, o que evitou males maiores.
Com data de 13 de Abril, foram redigidos dois abaixo‑assinados, um dirigido ao Presidente da República, outro aos Bispos Portugueses. O primeiro foi assinado por 280 pessoas de vários quadrantes políticos, todos sócios ou colaboradores da Pragma, católicos ou não, o segundo por 547 católicos. Houve 124 assinaturas comuns aos dois documentos, o que significa que, em conjunto, estas iniciativas mobilizaram 827 pessoas – número absolutamente notável e excepcional para a época.
Organizaram-se verdadeiras brigadas para recolha de assinaturas e não só em Lisboa. Por exemplo no abaixo‑assinado endereçado aos bispos Portugueses, houve larga participação do Porto, e também de Coimbra, Estremoz, Évora, Leiria, Santarém e Marinha Grande. Entre os subscritores, contavam‑se vinte e cinco padres ou membros de ordens religiosas. Importa sublinhar o esforço que representou esta recolha de assinaturas. Se hoje é possível criar uma Petition Online na Internet em menos de um minuto e se podem obter milhares de adesões em pouco tempo, a vida era bem diferente em 1967: recolha porta a porta, em papel azul de vinte e cinco linhas, sem Internet, sem telemóveis, com telefones fixos vigiados pela polícia, com correio apreendido, com poucos automóveis. (Os serões que eu passei calcorreando Lisboa, «cravando» um amigo mais timorato mas com posses para ter carro, que me esperava enquanto eu subia lanços e lanços de escadas – é que também não havia assim tantos elevadores…)
Foi também grande a repercussão do encerramento da sede da Pragma na imprensa internacional, tanto de orientação católica (Informations Catholiques Internationales, Témoignage Chrétien, etc.), como de grande circulação (Le Monde, New York Times, The Times).
Tempos difíceis
Depois de ouvidos advogados, foi considerado que o facto de a sede estar inacessível, e de os seus dirigentes serem objecto de instauração de um processo pela PIDE, não impedia que a Cooperativa prosseguisse as suas actividades.
Iniciou‑se então um árduo percurso, recheado de iniciativas e assente em fortes laços de solidariedade que permitiram cedências de locais e de outros meios logísticos. Sociedade Nacional de Belas Artes, Bombeiros Voluntários Lisbonenses, Centro Nacional de Cultura, Casa da Imprensa, Capela do Rato, Igreja de S. João de Brito e outras instituições foram abrindo as suas portas para reuniões, colóquios, conferências, Assembleias-gerais. Entre Abril e Dezembro de 1967, o número de sócios aumentou de 340 para 390.
Intensificou‑se também, naturalmente, a acção da PIDE quanto a proibição de sessões. Em 9 de Setembro de 1967, agentes da PIDE impediram a discussão sobre As possibilidades económicas no acesso à Universidade – Inquérito Geral à Universidade promovido pela Juventude Universitária Católica. Nuno Teotónio Pereira foi chamado à PIDE para prestar declarações, depois de um debate que foi possível realizar em 16 de Novembro, na Igreja de S. João de Brito, com a participação de mais de 500 pessoas, sobre O III Congresso Mundial para o Apostolado dos Leigos. (Repare-se na «perigosidade» dos temas acima indicados…)
Paralelamente, deu‑se início a um longo processo de contestação do encerramento da sede, que incluiu um recurso para o Supremo Tribunal Administrativo. Este viria a tomar uma posição favorável à Pragma, em Julho de 1968, embora essa decisão não tenha tido quaisquer efeitos práticos.
* * *
Existiam, paralelamente à Pragma, outras cooperativas mais ou menos afins. A mais próxima era a CONFRONTO, fundada no Porto à imagem e semelhança da Pragma. Regressado de Angola, Mário Brochado Coelho liderou este projecto e, em 27 de Julho de 1966, foi eleito Presidente da Direcção, sendo Francisco de Sá Carneiro o Presidente da Assembleia-Geral e sócio nº 1.
A CODES, uma cooperativa de carácter cultural e socioeconómico, tinha sido criada em 1962 e alguns dos seus membros foram, desde a primeira hora, sócios ou estreitos colaboradores da Pragma. Mais tarde, foram fundadas a DEVIR, ligada ao Partido Comunista Português, e a CED – Cooperativa de Estudos e Documentação, afecta aos primórdios do Partido Socialista.
Entretanto, já durante o marcelismo, em 27 de Novembro de 1971, foi publicado um decreto (570/71) que assimilou as cooperativas que exercessem qualquer tipo de actividade cultural, independentemente do seu objecto principal, às outras associações. Estatutos e dirigentes passaram então a ficar sujeitos a aprovação governamental, o que provocou uma forte contestação no seio do movimento cooperativo. Os dirigentes da CED entregaram aos deputados da Assembleia Nacional uma longa exposição, pedindo-lhes que não ratificassem o decreto. Obviamente, não veriam este seu pedido satisfeito…
A Pragma prosseguiu. Em 20 de Janeiro de 1972, ainda realizou uma Assembleia Geral nas instalações do Centro Nacional de Cultura. Participou, no dia seguinte, numa Reunião Nacional de Cooperativas, que teve lugar em Coimbra. Em 3 de Fevereiro de 1972, a PIDE emitiu um ofício interno, assinado pelo chefe Mortágua, ordenando uma busca às instalações da antiga sede da Pragma na Rua da Glória, «a fim de apreender livros, documentos, valores ou objectos, que possam interessar à instrução de uns autos em curso na Direcção Geral de Segurança». Recebeu como resposta que, na referida morada, se encontravam, desde há quatro anos, os «Armazéns Primavera», dedicados ao comércio de roupas… Não encontrei documentos sobre actividades da Cooperativa posteriores a estas datas. Mas sei que nunca foi legalmente encerrada.
A história da Pragma é uma bela história. Ela ilustra bem alguns ambientes da última década do fascismo. Mobilizou muita gente, abriu horizontes, influenciou muitos jovens que foram chamados para combater na guerra colonial – alguns desertaram, outros tiveram um papel activo, como milicianos, na alteração de mentalidades, e na preparação do 25 de Abril.
Muitos dos sócios, dos colaboradores, e mesmo dos dirigentes, estavam longe de ser perigosos esquerdistas!… Queriam a liberdade, a paz, o desenvolvimento e o progresso social – um país decente.

Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 01:01:50
Como bem diz, foi criada no Porto, à imagem e semelhança da PRAGMA e com ela colaborando proximamente, a cooprativa CONFRONTO de cujo grupo fundador (salvo
erro de 30 pessoas) fiz parte. Suponho mesmo que a exposição apreendida em S. Mamede de Infesta foi efectada em colaboração com a CONFRONTO.
Uma diferença relativamente à PRAGMA era na constituição do grupo de pessoas, o qual, embora maioritariamente constituído por católicos, continha muitos não católicos.
Convém aqui também salientar uma curiosidade: muitos jovens estudantes católicos, que no Porto mantinham uma acção predominantemente de carácter eclesial enquadrados ou apoiados na JUC, ficaram de repente “desamparados”, desautorisados na sua acção, direi mesmo, sentiram-se traídos nesse seu activismo e militância pelo Administrador Apostólico D. Florentino de Andrade e Silva (que substituía administrativamente D. António Ferreira Gomes, exilado pelo Governo de Salazar) quando este, sem aviso, impediu de tomar posse a nova Direcção Diocesana da JUC no ano lectivo de 1964/65, com a colaboração do assistente da JUC, então Padre Armindo Coelho (mais tarde Bispo de Porto), homem tortuoso cujo carácter não vou aqui aprofundar.
Esses jovens, activos por formação e vocação, acabaram por se tornar activistas da CONFRONTO “de alma e coração”. Poder-se-ia dizer aqui que há males que vêm por bem: a Igreja, ao querer cercear o espírito criativo e crítico de alguns dos seus melhores membros, “enxotou-os” para uma plataforma de acção cívica de maior amplitude e de maiores consequências políticas.
Um outro pormenor caricato tem a ver com o tal sócio nº1, Francisco de Sá Carneiro: foi, na verdade, um dos mais activos sócios fundadores, mas só até se dar a tal queda da cadeira em 1968. Depois veio o Marcelismo e começou-se a desenhar a futura Ala Liberal e a sua participação nas eleições de 1969. E o Sócio nº 1 começou a deixar de aparecer na Cooperativa e foi saindo de mansinho. Julgo que nunca chegou a formalizar uma demissão (e, note-se, tinha lá um cargo estatutário). Mas isso não o impediu de, após o 25 de Abril, incluir no seu currículum político o cargo que desempenhou na CONFRONTO.
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 01:01:06
Obrigada, Jorge, por este seu contributo sobre a Confronto, da qual sei pouco. Quando foi criada, só conhecia o Mário B. Coelho (que reencontrei agora, depois de décadas sem o ver e que lerá certamente este post), porque ele vinha muitas vezes a Lisboa para fazer a ponte com o Porto. As comunicações não eram fáceis…
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 03:01:18
Em Ponta Delgada, na Rua do Melo, São Miguel, Açores, também havia uma cooperativa, Sextante, que tem uma história semelhante. As suas maiores actividades eram a venda de livros e debates sobre alguns filmes. Também distribuia-se o jornal “O Comércio do Funchal”, feito na Madeira e julgo ser na altura o jornal mais progressista do país. Uma vez, numa cidade vizinha, foi apresentado o filme “Aniki-Bobo”.
Por Decreto-Lei acabou por ser encerrada, depois de todas a sua direcção ser interrogada pela PIDE/DGS.
Desculpem o espaço que vou tomar, mas preciso contar essa. Houve um ano, talvez 67 ou 68, que proibiram a venda do calendário da JOC, porque trazia muitos poemas do Zeca Afonso. Então consegui-se vender todos os calendários na cooperativa.
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 06:01:47
Já em tempos tive oportunidade de colocar à Joana Lopes algumas questões que a leitura do seu livro sobre a intervenção cívica dos católicos, chamados então de progressistas, na altura me suscitou.
Retomo-as novamente a propósito deste post.
Inicia-se o texto com uma referência à “ … oposição dos católicos ao salazarismo …”.
De quais católicos?
Continuo a pensar que, a evocação desta memória, nos termos pouco demarcados da linha oficial da igreja de então, como vem sendo feita, permite a colagem daquela e risca a sua reabilitação junto das gerações mais jovens, que não testemunharam os factos, fazendo esquecer o que foi o essencial do seu papel no quadro do regime: afinal, era essa outra igreja que abençoava os navios que levavam as tropas de ocupação para as colónias.
E quantos eram esses católicos?
Penso que uma minoria confinada a alguns meios de Lisboa e Porto. Ficava de fora o Portugal rural – penso que ainda maioritário nesse tempo – e o restante Portugal urbano que, fora as duas maiores cidades do país, era também rural. E era este portugalão, beato de sacristia, que devidamente abençoado vinha defender junto dos nativos a fé cristã. Fé essa que, à semelhança da prisão de que fala Diana Andringa em post anterior, também não conferia a pretos e brancos os mesmos direitos.
Relata-me ainda hoje a minha mulher, nessa altura crinça negra de musseque, filha de lavadeira, que no dia da sua comunhão solene apenas as crianças brancas puderam tirar fotografia.
Tão importante como lembrar e enaltecer o que foi a actividade dos sectores católicos progressistas, parece-me ser a necessidade de lembrar o que foi o papel da outra igreja: a que abençoava os navios com as tropas de ocupação e, em dia de comunhão solene, tirava fotografia apenas a crianças brancas.
nelson anjos
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 10:01:06
Seria interessante, Joana, conseguir um depoimento do Mário Brochado sobre a Confronto, até porque vários dos seus membros mais activos de então já não estão entre nós.
Muito interessante seria também fazer uma recolha mais alargada de organizações criadas para a intervenção político-cultural, como as das cooperativas que referiu, a que o Carlos Rocha refere e outras mais especializadas, como as cooperativas livreiras de Lisboa, Porto e outras cidades e até editoras, como a Morais, o Afrontamento, etc..
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 11:01:26
Carlos Says,
Obrigada pelo seu contributo. Ligo o nome da cooperativa que refere a António Borges Coutinho (activíssimo na Pragma), mas posso estar enganada, já que nem me lembro neste momento de que ilha era ele.
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 11:01:16
Jorge,
O Mário BC lê este blogue. Em todo o caso, vou perguntar-lhe expressamente se tem algum texto sobre a Confronto.
Quanto ao estudo que sugere sobre cooperativas, julgo que há qualquer coisa. Vou perguntar ao Nuno Teotónio.
Sexta-feira, 23.Jan.2009 at 01:01:06
Sim, o Doutor Borges Coutinho (privo-me sempre de citar nomes) aparecia sempre por lá quando ia à ilha, São Miguel, visto ele passar mais tempo no continente. Ele e outros conhecidos traziam-nos as últimas novidades e alguns livros para vendermos.
Sei de muitos sócios que já faleceram mas outros, ainda vivos, podiam prestar algum testemunho de como a cooperativa funcionava, porque foram mesmo muitos. Ainda estou no rol dos vivos porque eu era novinho na altura……..comecei a “fazer chichi nas calças” com medo da DGS aos 15 anos.
Também ajudavamos a organizar exposições de pintura no Externato do Infante. Uma delas, dum jovem pintor (privo o seu nome),falecido no Porto em 79, aos 24 anos de idade, foi consistentemente interrompida pela DGS devido a um quadro/colagem referente ao Dia Mundial da Paz.
Sábado, 24.Jan.2009 at 04:01:10
Nelson,
Faço notar o seguinte: um «post» é apenas um «post», não um livro! Lê-me há tempo suficiente para saber que não poupo críticas à colagem da Igreja ao Estado Novo, mas não me peça que o faça sempre e a toda a hora – ou não teria ocasião para falar de outra coisa, certo?
Sábado, 24.Jan.2009 at 05:01:06
Correspondendo ao que Jorge da Conceição escreve no seu comentário, ponho aqui uma anotação sobre a Devir – SCRL. Que não será tão reduzida quanto desejaria.
Será interessante ler o que sobre a Devir (A Cooperativa Devir – Crónica) se escreve, como transcrição do Jornal do Fundão, no Ponte da Europa em 24 de Janeiro de 2008.
Eu tinha pertencido aos corpos sociais da Devir até ao fim de 1972 e, depois disso, mercê de enredos vários que não valem o trabalho de quem aqui está lendo, afastei-me (afastaram-me), mas ainda ficando como seu frequentador “habitual” um ou dois meses. Não posso pois testemunhar o que é referido, no Jornal do Fundão, na parte das assembleias e da intervenção policial. Certamente verdadeiras.
Só uma indicação que é um tributo, pequeno embora. O logotipo do cartão de sócio é de Cipriano Dourado. Aquele cartão que se pode ver no artigo do Jornal do Fundão.
A criação daquela cooperativa foi resolvida por uma comissão, uma coordenadora, um tanto aleatória à época, constituída por “representantes” das bases da CDE de Lisboa e mais alguns dos notáveis, sem ironia, da CDE. Essa comissão funcionava como uma direcção e só mais tarde se constituiu a Comissão Executiva da CDE de Lisboa que passou a cumprir esse papel. Quando se entendeu criar essa cooperativa, eu fui designado responsável político ou o elemento da CDE na cooperativa. Resumindo, a Devir foi criada pela CDE e eu era aí o seu “delegado”.
A casa foi arranjada pelo José Manuel Galvão Teles, o dinheiro, curto, apareceu pelas mãos do Lino de Carvalho. Teria sobrado da campanha eleitoral de 1969.
A livraria foi montada por mim e pelo Vítor Branco. Eu considerava-me o principal responsável. Além disso, encarregava-me das actividades culturais. Muita gente foi envolvida no trabalho da Devir. É justo dizer, apesar de ser eu o delegado da CDE, que o Lino de Carvalho teve, na criação da devir, o mais empenhado e útil papel. No entanto, estará também certo referir os nomes dos corpos sociais que reuniam abertamente com quem ali trabalhasse e quisesse participar. E, no primeiro ano de existência da Devir, os nomes dos corpos sociais e de alguns “sócios” mais activos (com a desculpa por eventuais esquecimentos) eram, o Souto Teixeira, o Lino de Carvalho, o Vítor Dias, José Eduardo de Sousa (estes três, elementos da executiva da CDE), o Tavares da Cruz, a Irene Portela, a Margarida Vicente da Silva (?), o Clemente, a Maria Amélia António (?), a Lurdes Rufino (?), talvez o Pinto Bandeira e não me lembro de mais.
Não quero (posso) estender muito este texto. Não tenho documentos à mão que consulte e estou escrevendo na dimensão dum comentário.
Sucintamente umas coisas mais.
1.Se a Devir se tornou um “órgão” indiscutivelmente controlado pelo PC, isso aconteceu mais tarde, no fim do ano de 72. Até aí era atravessada pelo mesmo tipo de influências, dos PCs e não PCs., com o normal desequilíbrio entre elas, claro. As mesmas tendências que atravessavam a oposição de esquerda ao regime. Apesar dessa incerta definição, os MLs. não deixavam de lhe chamar “Revir” em vez de Devir.
2.Foi uma espécie de sede de diversas actividades políticas, sindicais e cívicas. A começar pelas da CDE, mas na Devir, por exemplo e ao que julgo, também nasceu o movimento sindical dos professores. Havia um quadro, sempre muito apreciado nas regulares visitas da PIDE, onde se expunham “notícias”, como prisões, etc. e esse quadro ajudou uns quantos militantes do PC a aperceberem-se quando a onda de prisões, feitas a partir das confissões do Lindolfo, se aproximava das suas pessoas. A tempo de se afastarem.
3.Teve uma constante actividade cultural (e mais uma vez, para lembrar o Cipriano Dourado, refiro uma exposição de belas fotografias, exposição que ele montou), mas sublinho sobretudo um debate , focando a situação do ensino secundário em Portugal, que eu julgo ter sido uma ideia nova. Em vez de professores e de “entendidos”, teve na mesa, fazendo as suas intervenções e debatendo-as depois, 3 jovens do ensino secundário. Um deles era o Miguel Portas. Que os outros me desculpem a omissão.
4.Na livraria, havia uma grande abertura e, tanto quanto possível, em toda a actividade cultural, mas aí, na livraria, estavam representadas correntes leninistas, ortodoxas, trotskistas, maoístas, conselheiristas, comunistas holandeses, marxistas de várias correntes, etc. Tentava-se apenas ser exigente. Na actividade cultural visava-se sobretudo o que era actual e aquilo que eram os problemas sociais (e políticos) da época.
5.Julgo que os sócios ultrapassavam os 400 e lembro-me de dizer, à época, que o maior risco que a Devir corria era o de ter êxito comercial. Havia vários “colaboradores” , como se diria hoje, e todos saíram da CDE ou da sua esfera, excluindo um, o José António.
6.Quando apareceu o decreto que extinguia as cooperativas culturais e afins, a Devir, sobretudo com o Lino de Carvalho e o Vítor Dias, secundariamente acompanhados pela minha pessoa, desenvolveu uma intensa e diria que profícua actividade contra tal decreto. O Lino de Carvalho tem um livro sobre este decreto e a luta que suscitou. No esforço de mobilização dos sócios, eram enviadas circulares informativas, e não só, que, coisa espantosa, apesar de todos os subterfúgios (envelopes com falsos remetentes, sem remetentes, correio distribuído por várias caixas nos arredores, a várias horas, etc.) eram, pelo que podíamos apreciar, todas interceptadas. Um trabalho da PIDE. O nosso ganho: organizámos então uma rede de distribuição em mão para esse nosso correio. Muito útil para outros fins, se necessário.
A Devir foi encerrada, mas isso, como disse, já não é do meu tempo. Encerrada com a inevitável falência. Julgo que uma das iniciativas finais foi a da elaboração duma lista de quantos se responsabilizavam pela situação financeira. Julgo, apenas. Algum tempo depois do 25 de Abril eu, que tinha assinado as primeiras contas apresentadas às Finanças, recebo um telefonema duma sua funcionária. Havia uns impostos por saldar. Expliquei-lhe a situação e ela ia-me perguntando, mas diga-me lá este Sr que está aqui, Pereira de Moura, é o actual ministro da presidência e este outro é o ministro de não sei de quê (julgo que era o Cardia). Sim, sim respondia eu e explicava alguma coisa. E muito bem, arquivaram aquilo. Mudam-se os tempos, mudam-se as “boas” vontades.
Se tenho aqui algum erro de datas, peço muita desculpa, mas eu sou muito mau nessa coisa da localização das coisas nos tempos.
Sábado, 24.Jan.2009 at 08:01:29
Só um pequeno comentário ao Nelson: Como bem saberá, não apenas eram minoritários os chamados católicos progressistas relativamente à Igreja Católica. Eram – foram – minoritários todos os grupos e pessoas que, de algum modo, tiveram acções contra o regime durante o Estado Novo. Muitos dos que não concordavam (abertamente) com esse regime apenas diziam coisas como “não me meto em políticas” ou “a minha política é o trabalho”. Mesmo aqueles que VOLUNTARIAMENTE se inscreveram nos cadernos eleitorais para poderem votar contra o partido do regime, eram uma minoria embora muito menos minoria que os activistas de qualquer grupo.
Domingo, 25.Jan.2009 at 04:01:59
Lamento vir ocupar espaço com coisas da DEVIR num comentário dedicado a um «post» sobre a Pragma, mas o útil texto de José Eduardo de Sousa estimula-me neste sentido:
Assim:
1. Começo por chamar a atenção para que certso aspectos da chamada luta das cooperativas culturais contra o 529/71 (muitíssimo bem documentada no livto «As Cooperativas em Questão» de Lino de Carvalho e Gorjão Duarte») já foram abordados neste meu «post» – em http://tempodascerejas.blogspot.com/2008/01/combates-da-memria-16.html – e na mini-poléemica travada com Daniel de Melo na respectiva caixa de comentários.
2. Tirando coisas acessórias, o José Eduardo de Sousa tem razão nas principais observações entre as quais destacaria a seguinte que prolongo para além do prazo por ele referido: é que a DEVIR, desde o seu nascimento até ao seu encerramento, não por falência, mas por decisão do Ministério do Interior, sempre reflectiu nos seus órgãos sociais e actividade a unidade democrática que vinha das eleições de 1969, até porque o seu encerramento é anterior à cisão ocorrida nsa CDE na Primavera de 1973.Na mini-polémica que mantive com Daniel Melo até sustentei que Sottomayor Cardia devia passar mais tempo na Devir do que na CED (afecta e limitada a membros da ASP)
3. Alguns pontos de interrogação colocados por J. E. Sousa à frente de alguns nomes não são necessários. A Margarida Vicente da Silva chamava-se mesmo a assim (era então mulher do Lino de Carvalho e é filha do Coronel Vicente da Silva, a Lurdes Rufino também se chamava assim – ou Lurdes Mota (é mãe do meu filho André)- e a Maria Amélia ( advogadao que depois teve muitos anos em Macau) não me lembro do seu apelido.
4. Entre os diversos membros dos corpos gerentes da Devir evoco sempre essa personalidade luminosa e inesquecível,infelizmente já falecida, da Ana Maria Alves.
5. O livro de Gorjão Duarte e Lino de Carvalho foi quase todo escrito antes do fecho do processo e é por isso que só como adenda final é que aparece a lista das cooperativas
encerradas.
6. Como o José de Sousa bem descreve a Devir era uma autêntica -e intolerável para a PIDE – sede legal da CDE de Lisboa, chegando talvez a passar as marcas. Nunca mais me esqueço que no dia do funeral do Ribeiro Santos quem nela entrasse logo encontrava pendurado no tecto um cartaz apelando à participação no funeral.
7. Como já escrevi no «post», por razões que não vou agora cansativamente repetir, considero processo de luta das cooperativas chamadas «culturais» ( mas com uma actividade económica de indiscutivel volume)um dos mais brilhantes e criativos processos de luta no plano da «legalidade» contra a ditadura fascista. As principais cooperativas foram encerradas (menos a ligada à ASP por obra e graça dp Ministro Veiga Simão)mas, de facto, moemos o juízo às autoridades fascistas, inventámos formas de contonar a proibição de colóquios passando a fazer sessões de promoções de determinodas livros (o que ia dar ao mesmo e depois passávamos infindáveis horas de interrogatório por uma Comissário da PCP em que repetiamos candidamente que se tratava não de colóquios culyturais mas de actividades promocionais ligadas à actividade de venda de livros. Por fim, ao abrigo do Código Comercial, que nós dava essa possibilidade, ainda constituimos uma Comissão Liquidatária com perto de 200 pessoas que ainda fizeram na sede da Devir encerrada duas ou três reuniões (cuja matéria, como se calculará,já era da esfera directamente política).
Peço mais uma vez desculpa por esta lenga-lenga.
Domingo, 25.Jan.2009 at 05:01:27
Vítor Dias,
Era o que faltava pedir desculpa por dar este contributo! (Agradeço também ao J. de Sousa pelo dele.)Tudo o que seja dito sobre as Cooperativas daqueles anos é pouco, já que tão mal conhecidas são e tão importantes foram.
Aproveito aliás para perguntar se há algo de publicado sobre o assunto, o que já foi referido, um pouco mais acima, pelo Jorge Conceição. Perguntei ao Nuno Teotónio, como tinha prometido, mas não soube dar-me a informação desejada.
Domingo, 25.Jan.2009 at 06:01:58
Vítor Dias
Obrigado pelo que dizes. Além do agradecimento, pouco mais interessa o que vou acrescentar. Não interessa, não é porque a DEVIR e mais cooperativas idênticas e a luta que tiveram contra a sua extinção não mereçam muito mais conversa (e estudos), mas estamos limitados ao espaço dum comentário e o que eu vou dizer são apenas coisas miúdas.
Eu entendi só escrever sobre o que vivi e testemunhei. Nos fins de 1972 saía da direcção da Devir e afastava-me da Executiva da CDE. No que diz respeito à Executiva, por eventuais motivos de segurança, uma vez que tinha sofrido uma apreensão de livros e a PIDE mostrava interesse na minha pessoa. Da direcção da Devir, a situação foi outra que não merece aqui mais comentários.
Outros que testemunhem sobre os tempos que se seguiram, incluindo, sobre a cooperativa Esteiros.
Diga-se que, no dia em que essa apreensão ocorreu, comigo na António Maria Cardoso, Lino de Carvalho e Vítor Branco vieram a minha casa precaver a minha família e avisar de que eu tinha sido detido à porta da Devir. Encontraram, claro, os pides em minha casa, pides que aqui os retiveram até ao fim daquela apreensão. No dia seguinte, de manhã, qualquer deles tinha uma visita pidesca às suas casas, com buscas, etc. Tu sabes que, naquela altura, foi o Vítor Branco a pessoa com quem mais conflituei, mas não quero calar o exemplo de coragem e camaradagem que, com o Lino, deram com aquela deslocação de alarme a minha casa.
Tenho boas recordações desse tempo. Tu, muitas vezes a arquivar facturas e a fazeres trabalhos do mesmo género, o Manuel Guedes a trazer o numerador da Prelo para que ele ou nós o utilizássemos, o Vicente da Silva a pôr etiquetas em livros, etc. Aquilo era assim, mas se tenho boas recordações, também vou desconfiando da minha memória. Obrigado, portanto, pela confirmação dos nomes e, com a Maria Amélia, tenho quase a certeza de que tinha o apelido António.
É verdade que, como dizes, na Devir e na executiva da CDE, havia como que uma continuação da diversidade da CDE de 69 e isso até à cisão do Pinhal de Santa Cruz, mas essa diversidade existia com algumas dificuldades. Vamos calá-las. Tu ilustras isso, tal diversidade, com o Cardia e eu posso lembrar-te que, quando no fim de 1972, a executiva entendeu refrescar-se, por razões políticas que não nos interessam aqui, e fez uma cooptação de mais elementos, fomos chamar o Pereira de Moura. É verdade que também optámos pelo Saramago, pelo Areosa Feio e não sei se pelo Sérgio Ribeiro, elementos próximos da tua esfera, como era sabido.
Embora não muito bem, conheci a Ana Maria Alves que foi a presidente da direcção que se seguiu àquela outra que eu integrava e só posso dizer contigo que lamento muito a sua morte quando ainda jovem.
Um abraço do
Sousa
Segunda-feira, 26.Jan.2009 at 06:01:02
Estou totalmente de acordo consigo, Jorge. De tal modo de acordo, que permanece ainda para mim por explicar o sentido profundo da gritaria dos muitos milhares que logo a seguir ao 25 de Abril saíram para a rua. É que, estou certo, todos os “minoritários”, mesmo juntos, eram insuficientes para perfazer esses milhares.
E penso que o facto do povo ter vindo para rua nesses dias, não deveria iludir a necessidade de apurar as suas – dele povo – responsabilidades na duração do regime. Coisa que, de quanto sei, a história ainda não fez.
Quanto a no meu comentário referir apenas os “minoritários” católicos progressistas, deve-se ao facto do post da Joana se referir também apenas a esses.
nelson anjos
Segunda-feira, 26.Jan.2009 at 11:01:40
Concordo consigo, Nelson. Acho que todos nós sabemos ou julgamos saber o porquê dessa diferença numérica entre quem foi activista antes do 25 de Abril e quem se manifestou publicamente depois. Talvez não haja apenas uma razão, mas várias. Fica para os sociólogos e historiadores o encargo de o estudarem e apresentarem a debate público.
Quarta-feira, 11.Fev.2009 at 12:02:43
“Tropecei” por mero acaso nesta questão do Movimento das Cooperativas Culturais que o decreto 520/71 encerrou.Sendo sócia fundadora da DEVIR tive o previlégio de viver por dentro esses tempos tão intensos.De facto,para além do livro do Lino e do Gorjão,não conheço mais nada publicado.Era bom que se deixasse esse(s) testemunho(s) Já agora a Maria Amélia António(nome completo,grande amiga,continua em Macau.Vem a Portugal (Ericeira) passar um mês de férias,onde nos encontramos sempre.A minha memória já me deixa ficar mal,por vezes.No entanto estou à disposição…
Sábado, 14.Fev.2009 at 07:02:50
Guida
Leste os comentários meus e do Vítor Dias. Seria bom que, também, tu falasses dessa experiência da Devir. Tu foste fundadora e membro dos primeiros corpos sociais.
Desafia a Maria Amélia a fazer o mesmo. Ela terá grandes recordações se conservar a boa memória que tinha. Além de grandes qualidades que tinha também. Lembro-me da sua afectividade, da sua lealdade e da sua capacidade de ser amiga e boa camarada. Deve continua assim. E gosto de a lembrar da maneira como o estou fazendo.
Gostava de a rever. E a ti também. Tenho medo de perguntar pelos teus pais, mas espero que esse receio seja, até agora, por coisa alguma.
Beijos para ti e para a Pilar
Sousa
É feio utilizar um blogue para fins pessoais, mas que quiseres o meu contacto manda um mail à Joana Lopes a pedi-lo.
Quinta-feira, 16.Abr.2009 at 05:04:44
Lamento intervir nesta discussão tardiamente. Dá-se o caso de estar neste momento a trabalhar as cooperativas (ditas) culturais. Tenho todo o interesse em recolher testemunhos e em discutir questões relacionadas com a vida cooperativista e com as lutas políticas e culturais travadas nos anos 60 e 70. Espero poder vir a contactar directamente aqueles que têm um email público (como é o caso do Vítor Dias). No entanto, se dos intervenientes neste debate alguém estiver disponível para conversar – por email ou presencialmente – sobre as cooperativas ficarei muito contente se me contactarem. Para isso deixo o meu contacto tiagoavo@gmail.com
Cumprimentos a todos.
Sexta-feira, 17.Abr.2009 at 04:04:33
Estou a ler este comentario no estrangeiro, assim que regressar respondo com informacao. Obrigada.