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No dia 21 de Janeiro de 1965, como de costume, cheguei cedo à Faculdade, no Hospital de Santa Maria. Não sendo ainda horas de aula, dirigi-me à Secção de Propaganda da Comissão Pró-Associação, na Sala de Alunos, de um dos lados do palco onde se realizava o Natal dos Hospitais. Estranhei a ausência de algumas das pessoas que esperava ver ali, àquela hora. Continuavam a não estar lá, quando regressei da primeira aula. Se bem me lembro, foi o Osvaldo a dar a primeira pista: «O Aguinaldo foi preso. A PIDE foi a casa dele, esta manhã.» 

Preso, o Aguinaldo? 

Por essa altura, embora estando na Universidade há apenas três meses, já aprendera que a prisão de estudantes não era assim incomum. Tomara parte em manifestações pela libertação do Zé Luís Saldanha Sanches, alguns dos meus recentes amigos tinham já passado pela cadeia, nomeadamente durante a crise de 62, havia vários estudantes do Técnico na prisão. Ainda assim, a notícia da prisão do Aguinaldo apanhou-me de chofre. Como é que alguém podia pensar em prender uma pessoa tão correcta, tão cordata, tão gentil? A indignação foi crescendo, à medida que chegavam informações sobre a prisão de mais estudantes de Medicina, alguns que conhecia bem, outros nem tanto: o Filipe Rosas, o Pinho Monteiro, o Carlos Sebrosa, o Max, o Palminha, o Pedro Lemos… O irmão gémeo, o Luís, teria conseguido escapar, disse-me depois alguém – e fiquei contente porque o Luís, então, salvo erro, finalista, fora uma das primeiras pessoas a acolher-me na Pró-Associação e tinha por ele um imenso respeito. Mas não fora só Medicina a ser atingida: a todo o momento chegavam notícias de outras prisões. De Direito teriam sido presos, pelo menos, o Fernando Rosas (dizia-se que, depois de prenderem o Filipe e o Fernando, os agentes da PIDE tinham perguntado se não havia mais nenhum irmão), o Salgado Matos, o Artur Pinto, o Alfredo Caldeira; de Ciências surgiam, entre outros, os nomes do Rui Pereira e da Sara Amâncio; mais tarde chegaram nomes de estudantes dos liceus, alguns deles com 15 anos de idade. (Dois anos mais novos do que eu!?) 

Como era isto possível? Que crime podiam ter cometido esses estudantes, quando quase todos os que conhecia me pareciam pessoas exemplares? 

Ao longo de todo o dia a lista de nomes foi crescendo nos cartazes, numa agitação de informações e desmentidos, palavras em voz baixa sobre fugas, solidariedade, desafio e medo, exaltações e desânimos. Eram cerca de cinquenta estudantes, quase todos activos nas Associações de Lisboa. No dia seguinte, Dia da Universidade – que um comunicado inspirado escrito por Medeiros Fereira descrevia como «Dia de uma Universidade Cativa», gritámos a nossa indignação na cerimónia oficial,  com o ministro da Educação a fazer-se cada vez mais pequeno no grande cadeirão. Uma voz aguda de mulher gritando «Libertem o meu filho!» aumentava a emoção e tornava ainda mais jovens esses jovens presos. 

Uma nota oficiosa viria justificar a acção da polícia com a sua actividade política contra a segurança do Estado. 

A partir daí, passei a ter uma certeza: se esses jovens punham em causa a segurança do Estado, era que o Estado não merecia estar seguro e só podia haver um imperativo de consciência, ajudar a derrubá-lo.

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