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Um texto de Paulo Pinto (*)

 
No dia 20 de Janeiro de 1554, exactamente há 455 anos, nascia uma criança que iria mudar os destinos de Portugal. Era um rapaz. Órfão de pai. Viria a ser chamado de D. Sebastião e sob os seus ombros carregou as esperanças, as frustrações e os anseios de toda uma nação em crise. Hoje pode parecer-nos ridículo e patético o tom messiânico que então recaía sobre o recém-nascido, mas na época as condições políticas de sobrevivência de um reino estavam amarradas à capacidade da Casa Real, melhor dizendo o Rei, gerar um filho varão que assegurasse a continuidade dinástica. A Casa de Avis, tanto por calculismo político como por inclinação irreflectida, havia caído no logro de se aproximar demasiado dos vizinhos, num misto de inveja, desejo de paz e tentação hegemónica de permitir uma união das coroas peninsulares sob o mesmo monarca. Começou com D. João II, agravou-se com D. Manuel, tornou-se irreversível com D. João III. Em meados do século XVI, Portugal estava prestes a ser engolido pelo implacável mecanismo dinástico que colocava o trono ao alcance de um príncipe estrangeiro, D. Carlos, filho do futuro Filipe II. Mas nesse dia, tudo mudou. Nesse 20 de Janeiro. Na verdade, o perigo foi apenas adiado, como sabemos hoje.

É algo que nos soa completamente estranho, bizarro e inconcebível. Hoje as nações têm opções políticas radicalmente diferentes e incomparavelmente mais amplas. Mas no século XVI, o país estava literalmente refém da  descendência da Casa Real. O pai de D. Sebastião, o príncipe D. João (filho de D. João III), morrera 18 dias antes. Foi o 9º e último filho do monarca. Um rei com 9 filhos, nenhum sobrevivente. A maldição dos Avis, que desde há décadas se cruzava com a poderosa Casa dos Áustrias, ou Habsburgos, e que na época dominava meia Europa. Carlos V,  o mais poderoso monarca europeu, que aglutinara no seu cepto os destinos de Castela e Aragão com o Sacro Império Romano-Germânico, era pai da princesa que entrara em trabalho de parto. D. Manuel casara-se, em terceiras núpcias, com uma sua irmã. O filho, D. João III, casara com uma outra sua irmã. E ele próprio desposara uma irmã deste último. Era um emaranhado de ligações consanguíneas, a roçar perigosamente o incesto. Durante 18 dias, o país viveu à beira de um ataque de nervos. Finalmente, aconteceu. Um varão.

D. Sebastião. Nenhum rei de Portugal mereceu tanta atenção, estudos, biografias, opiniões opostas. Nasceu órfão de pai e a mãe regressou a Castela pouco depois do nascimento. Foi, portanto, educado pela avó (a rainha D. Catarina) e pelo tio (o cardeal D. Henrique), que polarizavam dois partidos distintos degladiando-se na corte e tentanto, a todo o custo, obter a educação do príncipe, primeiro, e o favor do rei, mais tarde. Em torno destas duas figuras aglutinaram-se as facções e os grupos da corte, num jogo de permanente tensão. Em 1568, aos 14 anos, o príncipe tornou-se rei. Um rei frágil, que viria a padecer de uma doença de contornos e diagnóstico incerto, provavelmente uma uretrite, que lançava sombras sobre a sua capacidade de deixar descendência. Chegou a estar prometido a Margarida de Valois (a reine Margot), por manobras do tio, Filipe II, projecto que nunca se concretizou, como é sabido.

A tradição forjou a imagem de um D. Sebastião imberbe, mimado, teimoso, inconsciente e totalmente incapaz de reinar. Um moço tolo e beato, que sonhava com andanças de cavalaria e que desejava apenas a glória militar. Mais um delírio, a somar ao bisavô D. Manuel, que alegadamente esbanjara as riquezas asiáticas em luxo e ostentação e ao avô D. João III, que mergulhara Portugal nas trevas da Inquisição e do fanatismo jesuíta. Como se Portugal vivesse sob os desvarios de reis loucos e ociosos. No outro extremo, permanece ainda a imagem do Desejado, do rei-redentor, corajoso e destemido. Mas só e incompreendido. Como se Portugal, afinal, estivesse fadado para a desgraça.

D. Sebastião e Alcácer-Quibir. O rei-fado. O fado de uma decadência irreversível, de um declínio sem retorno. Só podia acabar assim. Portugal tombou no campo de batalha. Antes assim. Depois de umas trevas de 60 anos, de ocupação, de domínio filipino, durante o qual apenas brilhou a esperança de que D. Sebastião regressasse um dia no meio do nevoeiro, a fénix lusitana ressuscitou sob a forma de D. João IV. Portugal Restaurado. Foi mais ou menos isto que nos ensinaram, não foi?

É curioso constatar que, durante o seu reinado, D. Sebastião foi aclamado, glorificado e apoiado nas ideias e projectos que defendia. E que passaram por uma reforma de toda a administração, por um repensar do império ultramarino, pelo lançamento de uma série de iniciativas que se destinavam a melhorar a orgânica e o funcionamento das estruturas além-mar. Foi com D. Sebastião que, pela primeira vez, se tentou dividir em três governos separados o extenso e disperso Estado da Índia (que ia de Moçambique ao Japão), que se empreenderam reformas fiscais e financeiras destinadas a conceder ao Estado uma função majestática, meramente moderadora das actividades económicas, elevando-o a um estatuto acima dos negócios, dos tratos e da circulação de mercadorias. Finalmente, foi D. Sebastião que mpermitiu e encorajou uma série de iniciativas inéditas: a conquista do interior da costa oriental africana, a colonização e ocupação do sertão de Luanda. Mais perto do reino estava Marrocos. E o apelo irresistível à guerra contra os inimigos muçulmanos. Não os malaios, os suaílis ou os guzerates. Os magrebinos. Os otomanos. A Europa vivia a euforia de Lepanto e o exorcizar do perigo turco. Portugal tinha condições para regressar a Marrocos, após um interregno de várias décadas. O rei, educado no fervor religioso e militante de Trento que lhe era servido quotidianamente pelo seu mestre e confessor, o jesuíta Luís Gonçalves da Câmara, era completamente permeável à ideia de uma nova intervenção no Norte de África. Mas tarde se disse que foi mal aconselhado, por se ter rodeado de uma corte de bajuladores inconscientes e jovens como ele próprio. Sabe-se hoje que o rei não era facilmente manipulável e que tinha ideias e projectos próprios. Que sabia o que queria. O que não deixa de ser considerado, se visto de um certo ângulo, como obstinação temerária e insensata. A corrente fluía no sentido de Alcácer-Quibir. Se o rei remou a favor ou contra, pouco importa.

Agora é fácil apelidá-lo de louco e insconsciente. Mas na época, D. Sebastião era a vanguarda de uma esperança remissora das mazelas do reino. Já D. Manuel interiorizara uma crença inabalável de ser um rei eleito por Deus para liderar a Cristandade na libertação da Terra Santa, não só pela improbabilidade de ser rei à data do seu nascimento, mas igualmente pela educação que recebeu, imbuída de um certo teor milenarista e messiânico. D. Sebastião poderá igualmente ter desenvolvido uma forte crença semelhante, reforçada pelo ambiente que o rodeou em todos os dias da sua vida. Hoje vivemos numa apatia descrente na classe política. Naquela altura, o país estava mergulhado em todo um ambiente supersticioso, assente na crença messiânica do Desejado e rodeado de sinais e prodígios que prenunciavam um reinado glorioso.

Subitamente, após Alcácer-Quibir e o desaparecimento do rei, Portugal acordou do torpor e imediatamente foram apontados os erros, as insuficiências e a imprudência de D. Sebastião. Paralela e paradoxalmente, nascia o mito do rei que haveria de regressar, o ideal de um destino grandioso apenas adiado, a quimera do Quinto Império. A contaminação por esta ambivalência foi tal que é hoje muito difícil, para quem estuda a biografia do rei, expurgar os testemunhos e a documentação pós-1578 de considerações e elementos a posteriori, que tendem a introduzir dados apócrifos, como se o destino do rei tivesse sido previamente anunciado por uma série de augúrios e prenúncios nefastos.

D. Sebastião é o rei-fado da nossa História. Um rei indissociável da sua morte, o que é caso inédito. E se o rei não tivesse embarcado para o Norte de África? Para além da alteração do rumo dos destinos do país, qual seria a imagem que perduraria para a posteridade? Decerto uma mais próxima do homem e mais distante do mito. Morreu com 24 anos. Mais ou menos a idade do Cristiano Ronaldo.

 

 
(*) Biografia de Paulo Pinto.

(Pubicado também em Jugular.)

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