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cl2

 
cl3

 
salvo palavras no écran de luz parda faço os backups do desamparo
no terreiro de pó no final do dia
na linha de ferro estrangulada de um dito inconsciente colectivo
circled by the circus sands
o Dylan em Berlim a película do Wenders
água azul numa tela de Hockney

somos brancos diz a mulher indiferente à borrasca
não seremos o ramo genético que sobreviveu na costa oriental
e subiu as margens do Eufrates
não seremos de Babel nem seremos Persas nem sequer Hindus
somos todos brancos repete quem ainda a escutará
que ninguém o faça aflijo-me grito que lhe sequem a língua e os seios
que as minhas mãos ardam em pragas que não haja abrigo
não sou desse jardim e nenhum réptil me perderá

estou sentada numa cadeira de verga coberta de areia
tenho os pés descalços
visto-me de giz o teu olhar é um quadro negro
um solavanco dizes-me é a ossatura da dor inquieta
também para ela não tenho abrigo murmuro
ainda assim mordes os meus lábios engoles as minhas palavras
como quem procura uma dose letal
sem anteparo não somos desse outro jardim
nenhum anjo nos salvará.

 
(Publicado originalmente em Blue Moleskin)
Desenho: aguarela e tinta-da-china, sobre papel, 1998
Desenho e poema de Cláudia Santos Silva

Biografia de Cláudia Santos SIlva

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