img_1673a1Enquanto aluno, no final da década de 50 do século passado, fui um dos que inauguraram as instalações resultantes da grande ampliação da Escola Alfredo da Silva no Barreiro (ainda funciona no mesmo local) e que constituiu, na altura, uma das grandes concentrações escolares do ensino preparatório e secundário. No após-guerra e com a expansão e modernização tecnológica das actividades industriais da CUF, o recrutamento de operários e funcionários administrativos passou a obedecer a bitolas mais exigentes de saberes, muito diferente da do anterior recrutamento feita essencialmente pela transformação de camponeses pobres fugidos das fomes nos campos em operários industriais a quem se exigia sobretudo o dispêndio de esforço muscular. Com a evolução tecnológica da modernização e expansão da CUF, as fábricas pediam mais operários e empregados e com uma formação adquirida enquanto jovens. Daqui que a CUF e o sistema de ensino técnico público vigente se tenham apoiado mutuamente, transformando a Escola Alfredo da Silva numa fábrica de jovens operários e empregados, muitos deles filhos de operários da «velha vaga» da própria CUF, dotando a grande concentração industrial de recursos em disponibilidade de mão de obra. A CUF contribuiu com equipamentos oficinais e laboratoriais e permitiu um segundo emprego, como professores, a vários técnicos da empresa, o Estado construiu as instalações e fez o enquadramento da Escola no ensino público técnico, sendo esta denominada Escola Industrial e Comercial Alfredo da Silva, em homenagem ao patrono da escola e grande patrão da indústria portuguesa. A enorme construção escolar para a época, com uma enorme população docente e estudantil, dava corpo a uma das divisões mais profundas da marca classista da Educação adoptada por Salazar. Terra muito povoada e com três médias e grandes concentrações operárias (corticeiros, ferroviários e da CUF), o ensino liceal (mais destinado a ascender à frequência universitária) não fazia parte dos planos dos programadores do ensino salazarista para o Barreiro. Os poucos filhos de origem na pequena e média burguesa local iriam a Setúbal frequentar o liceu e ali, no Barreiro, terra de operários, os filhos de operários deviam estudar para serem operários, através de cursos curtos (2 + 3 anos) e com componentes pedagógicas essencialmente prático-oficinais.

A dimensão das instalações e a apreciável concentração de alunos e alunas (a existência do curso comercial e de análises químicas, implicavam o acesso de raparigas), num regime de ensino baseado na separação de sexos, levantou problemas complicados para tornar operacional e garantir a moral vigente baseada no rancor a qualquer aproximação entre crianças e jovens dos dois sexos, tudo agravado por haver os cursos de química em que, com o número reduzido de rapazes, implicava a «cedência» de haverem turmas mistas. Uma autêntica dor de cabeça para os vigilantes dos bons costumes terem de garantir que, numa escola com centenas de rapazes e de raparigas, não havia contactos inconvenientes ou sequer aproximações. O primeiro recurso foi a existência de um elevado número de vigilantes-contínuos cuja principal função era exactamente resolver o intrincado problema de que rapazes e raparigas, a maioria entre os dez e os dezasseis anos, tivessem a veleidade de encetarem qualquer forma de convívio, prenunciando riscos de terríveis pecados. O regulamento escolar previa a proibição de qualquer contacto entre escolares dos dois sexos no caminho para a escola e num raio de várias dezenas de metros (julgo, mas a memória não garante o rigor do número, que o raio do círculo interdito era de cem metros) e, havendo-a, ela seria considerada uma infracção disciplinar punível pela Escola. Assim, todos tínhamos de ir para a Escola com a preocupação de que o fazíamos sozinhos ou na companhia de companheiros ou companheiras do mesmo sexo. Nada de conversas nem grupinhos mistos, mesmo que se tratassem de irmãos. Como o portão de entrada era único, os vigilantes asseguravam que os rapazes seguiam de imediato para o recreio masculino (grande e no piso térreo) e as raparigas para o recreio feminino (um corredor-varandim situado num piso superior). Com os toques de entrada nas lições ou nas oficinas, os acessos aos corredores e a cada sala de aulas eram controladas por contínuos em marcação cerrada, os rapazes eram contidos nas progressões até que todas as raparigas entrassem nas salas (onde se sentariam em «zonas demarcadas») num percurso vigiado por mulheres contínuas desde o recreio feminino até às salas. Só depois de todas as raparigas estarem sentadas nas zonas que lhe estavam atribuídas, era dada ordem de avanço à rapaziada e já com os corredores libertos de meninas. A estrita separação dentro das aulas era já da competência vigilante dos professores. No fim das aulas, o ritual de controlo repetia-se nos sentidos inversos.

Encarrilado desde os meus dez anos a preparar-me para ser operário da CUF (o que consegui evitar através de vários circuitos e anos adicionais gastos para me equiparar aos estudantes do liceu no acesso ao ensino superior), Salazar acrescentou-me o impedimento de qualquer convívio com as minhas colegas, algumas delas bem lindas e simpáticas meninas, num círculo de cem metros de raio com o centro na Escola, sabendo-se que além deste círculo a lei da oferta e da procura era muito, muito, pobrezinha. Salazar decerto me queria casto e misógino. E que, como ele, morresse solteiro.

Claro que, naquela organização de vigilância sexista, havia falhas e sempre se procurava furá-lo. Era, sobretudo, uma questão de imaginação e engenho. E nessa empresa me tramei com o primeiro procedimento disciplinar que apanhei na minha vida, com treze anos de idade acabados de fazer. Num sussurro (eu frequentava uma aula mista) uma coleguinha, na aula, pediu-me que lhe emprestasse um certo caderno de apontamentos, pedido que, desastradamente, procurei satisfazer numa das regimentais saídas de fim de aula. O vigilante tinha olhos de lince e logo ali apreendeu o caderno-delito e mandou-me apresentar imediatamente ao «senhor director». Sujeito a averiguação expedita, verificado e confirmado o conteúdo inócuo do caderninho, fui severamente admoestado para não repetir a infracção, sendo-me explicado, modalidade que logo ali aprendi, que um caderno escolar era um meio frequentemente utilizado para transportar de forma encoberta bilhetinhos de namoro. Não era o caso mas podia ter sido. Afinal, a máquina de vigilância da castidade tinha a imaginação fértil, mais que nós, os segregados.

 
Biografia de João Tunes.

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