«As cidades também são isto: deixar cair as ruínas e erguer arquitecturas promíscuas sobre os restos da memória. Em Lisboa, na Rua António Maria Cardoso, entre os teatros, os cafés dos intelectuais e os esboços do Tejo, aquelas ruas de postal que se dobam repentinamente deslizando para baixo como pinceladas num quadro. Um antigo e pequeno edifício nobiliário que amanhã vai ser um condomínio de luxo dotado de parques de estacionamento e lojas. Mas até ontem, até 1974, as suas salas acolhiam a sede da PIDE.»

Assim começa o posfácio de Roberto Francavilla ao livro de Giorgio Fratini, As paredes têm ouvidos / Sonno elefante. Um livro que, em Outubro do ano passado,  foi considerado o melhor livro italiano de banda desenhada no Festival de BD de Roma, Romics 2008.

A Paula Cabeçadas já chamara a atenção para este livro em 23 de Fevereiro do ano passado, citando um artigo do JN que assinalava a sua edição em Itália. A Campo das Letras editou-o pouco depois, em Abril, em Portugal. (ISBN 978-989-625-293-9).

Encontrei-o há dias numa livraria. Chamou-me a atenção a frase da capa, sob o título: «PIDE. Um som, um acrónimo, uma palavra que ainda hoje, para muitos portugueses, provoca um grande arrepio na espinha.»

Fiquei curiosa. Abri-o e deparei com uma imagem do Chiado, em Abril de 2006, logo seguida da da Rua António Maria Cardoso, onde, num  «sábado à tarde», prosseguem os trabalhos no «complexo de edifícios históricos ao fundo da rua». Um homem e uma mulher passam, avaliam-no, é um edifício interessante, com uma boa localização. Mas o homem crê lembrar-se que fora ali a sede da PIDE. O que não impressiona a companheira: «Um dia é uma coisa, no dia a seguir é outra, é normal, não?»

Mas, apesar de italiano e de ter nascido depois da extinção da polícia política, Giorgio Fratini, que conheceu Lisboa no âmbito do programa Erasmus, não considera isso tão normal assim. Sabe que «durante longos anos, ali dentro, a anulação sistemática de qualquer direito à livre expressão das pessoas foi prática diária» e prefere não deixar esquecer esse passado. Lembra as pessoas humilhadas, presas, torturadas. O medo e o horror de não conseguir resistir à tortura. Lembrar, diz ele, é o destino dos edifícios, é o dever dos elefantes: «Nós somos as testemunhas da vida que acontece dentro de cada edifício que se ergue». E aquele que mutilou o companheiro para lhe poupar o sofrimento de testemunhar a inumanidade não ignora a sua culpa: «Aquilo que fiz é um peso que estou condenado a carregar. Agora, após anos de esquecimento, esvaziam-nos e reconstroem-nos como modernos apartamentos de luxo. Lembram-nos de quando fomos nobres (e fomo-lo), mas com o mesmo reboco apagam também a sujidade do passado recente. Devia estar aliviado, mas sinto apenas tristeza. Impedi a memória daquele passado. Fui eu que permiti o sono elefante

Fratini não é um antigo combatente antifascista. É um jovem, nascido em 1976, que simplesmente não acha que a memória dos lugares deva perder-se e diluir-se sob camadas de pintura. Que considera que tão ou mais importante de ser conhecido que o passado nobre de um edifício é a sua posterior utilização como lugar de repressão. E que as vítimas dessa repressão merecem ser recordadas nas suas paredes – como o faz, no livro, José Santos, como fizeram, no passado 5 de Outubro, numa faixa estendida ao longo do muro frente à sede da polícia política, jovens estudantes da ESBAL.

Eis um livro bom para oferecer aos defensores da amnésia, ou aos que, em programas de televisão sublinhados por risos, admitem não saber nada do que se passou antes do 25 de Abril, porque foi há muito tempo e não viveram nele. (Ver, por exemplo). E a todos aqueles que não compreendem como há gente de tão mau feitio que se recusa a achar positivo ver a PIDE transformada em condomínio de luxo, Peniche em pousada e a Boa Hora em «hotel de charme» .

Quem sabe até se poderão ser sensíveis às palavras de Roberto Francavilla: «As cidades são assim, como as paredes das casas e dos quartos. Assistem e testemunham em silêncio. E se acordam do sono do esquecimento, podem até contar a história das vozes, dos gritos e dos silêncios que foram obrigadas a acolher. E podem contar a história de quem, humanamente, derrubado pela fúria dos seus opressores, falou uma vez, cedendo ao sofrimento e à humilhação. Aquelas que pronunciou sob tortura são, porém, as suas últimas palavras.» Sempre é um estrangeiro a dizê-lo, e não um dos suspeitos do costume.

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