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O texto A sociabilidade vigiada e castrada, aqui colocado por João Tunes, ao falar de como é difícil às novas gerações imaginar o que era viver-se sob controlo policial recordou-me como, há alguns anos, os jovens de uma escola da periferia de Lisboa se calaram para ouvir o Vitorino falar dos tempos anteriores ao 25 de Abril. Bastou-lhe dizer: «Quando ia a entrar, estava ali um casal na marmelada… E lembrar-me  eu que fui preso por ter dado um beijo a uma namorada num  jardim…» e conquistou logo ali o interesse de todos. 

Para perceber o carácter subversivo dos afectos não é preciso citar Daniel Filipe, falar desse homem e dessa mulher que inventaram o amor com carácter de urgência, ou recuar à tempestade provocada pela publicação na Via Latina da Carta a uma Jovem Portuguesa. Em 9 de Março de 1970, o atento Coronel Saraiva, da Censura, ordenava: «Cortar gravuras: seis casais de jovens a beijar-se na boca, na Escola Politécnica de Londres, para angariar fundos não sei para quê e tanques russos em manobras na Bielorrúsia». A crer na nota, publicada por César Príncipe no seu Os segredos da Censura, os beijos seriam pelo menos tão ameaçadores quanto o Pacto de Varsóvia… 

Para os jovens da referida escola, foi essa a novidade – e a importância – da intervenção de Vitorino. É que, muitas vezes, quando se fala de repressão, polícia política e Censura, pensa-se que se tratava, para a ditadura, de vigiar o comportamento dos inimigos do regime, comunistas, socialistas, «reviralho», «complot judaico-maçónico», estudantes e  operariado – que, aliás, como prova esta outra nota do vigilante coronel Saraiva, de 13 de Maio de 1969, o regime não gostava de ver juntos: «Congresso Republicano de Aveiro. Há uma mensagem de 56 trabalhadores e estudantes de Riba d’Ave. Trabalhadores e estudantes não podem aparecer juntos. Cortar os estudantes.» 

Falsa quanto à repressão, essa ideia era igualmente falsa quanto à Censura. Talvez até que os mais importantes cortes fossem outros, os que faziam do país um modelo de virtudes, a permitir aos saudosistas dizer hoje que «no tempo de Salazar e Caetano, estas coisas não aconteciam…» 

Alguns exemplos, extraídos do livro de César Príncipe :
«Fornecimento de tecidos à Força Aérea, sem concurso. Cortar. Cor. Roma Torres.»
«Processo crime contra o presidente da Câmara de Gouveia. Cortar. Cor. Pinheiro.»
«Preso, em Celorico de Basto, o delegado do Procurador da República. Cortar. Cap. Correia de Barros.»
«Julgamento, em Lisboa, do Dr. (nome completo, que não reproduzo). Não se pode dizer que o réu era professor liceal e do ensino técnico e antigo seminarista.» (Não havia cá escândalos da Casa Pia…)
«Roubaram a carteira a um oficial francês que veio fazer conferências nos Altos Estudos Militares – Cortar

Entre muitas outra coisas – que o livro de César Príncipe documenta – não se podia titular que em Benavente não haveria trigo nesse ano, ou que em Itália fôra aprovada a lei do divórcio. Não se podia noticiar que um protesto dos comerciantes do Porto deixara as montras às escuras, sequer o aumento do preço do corte de cabelo. Ao falar-se da transferência de moradores do bairro de Xangai não se podia usar a expressão «bairro de lata», por causa dos estrangeiros. Também não se podia dizer que os roubados por dois gatunos eram turistas. Parecia mal. Não por parecer mal, mas para não despertar invejas, também sobre o primeiro turista do ano não se podia dizer que era operário… E se um rapaz se metera debaixo de um combóio, não se podia dizer que fôra repreendido na escola. Aliás, também não se podia falar de reprovações em massa nas escolas, nem de despedimentos, nem da emigração de trabalhadores. É cortar, meus senhores, é cortar!

O ano de 1967 foi o das grandes inundações que, nos arredores de Lisboa e no Baixo Ribatejo mataram centenas de pessoas. Coisas que não deviam acontecem no previdente país de Salazar… Por isso:
«Gravuras da tragédia. É conveniente ir atenuando a história. Urnas e coisas semelhantes não adianta nada e é chocante. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos. Tenente Teixeira.»
«Inundações: os títulos não podem exceder a largura de ½ página e vão à Censura. Não falar do mau cheiro dos cadáveres. Actividades beneméritas de estudantes – Cortar. Dr. Ornelas.»
«Deliberação do Senado universitário de Coimbra acerca do auxílio a prestar às vítimas das enxurradas. Cortar. A notícia só pode sair nos Jornais de Coimbra.»
«Baile de passagem de ano, no Palácio das Valenças, em Sintra. Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações.»

Outra coisa que também não havia era guerra nas colónias. O que levava as tropas portuguesas às colónias eram acções de policiamento. Guerra? Nunca! Como se encarregou de explicar, em 12 de Janeiro de 1970, o coronel Saraiva:
«Na posse do 2º comandante da PSP de Lisboa disse-se que ele já fez 3 comissões de serviço no Ultramar, a primeira “logo na eclosão da guerra”. Ora, não há guerra. Não se pode dizer isso.Deve ter sido confusão do repórter…»

Todas as informações eram medidas, quando se tratava das Forças Armadas:
«Pampilhosa. Actos de loucura de um sargento do Exército. Não dizer que é sargento do Exército. Senhora de Vila Maior, S. Pedro do Sul, morreu ao tomar conhecimento de que o filho embarcava para o Ultramar. Não falar em Ultramar. Coronel Saraiva.»
«Em Soutelo uma rapariga suicidou-se depois do namorado ter seguido para Angola, mobilizado. Não falar na ida para Angola. Tenente Teixeira.»
«Na Candeia-Bar foi preso um rapazola que ali praticou distúrbios. Não dizer que regressou há pouco do Ultramar. Capitão Correia de Barros.»
«O ministro da Defesa pede que não se noticie o aparecimento dos corpos irreconhecíveis de militares mortos na Guiné. Coronel Saraiva.»
«Tenente do Exército, agora regressado do Ultramar, suicidou-se. Lançou-se de uma janela da pensão à rua. Cortar tudo! Coronel Saraiva.»
«Assalto em Sintra. Não dizer que os autores desertaram, quando em serviço em unidades combatentes na Guiné. Coronel Roma Torres.»

A imagem dos poderosos era também cuidadosamente preservada:
«Festa dos milionários. Não mencionar a presença de membros do Governo e dos presidentes da Assembleia Nacional e da Câmara Corporativa. Pode-se falar noutras individualidades, mas sem aludir às funções que desempenham. Capitão Correia de Barros.»
«O ministro dos Negócios Estrangeiros (Franco Nogueira) presidiu à sessão da Sociedade de Geografia sobre o Dia da Comunidade. Encerrou a sessão, mas não se podem dar as palavras dele. Falou de improviso e ele não gosta que dêem os discursos quando é assim. Muita cautela. Coronel Saraiva.»
«Um jornal pretendia divulgar uma gravura de uma senhora, esthéticienne et visagiste, que acompanha a S. Tomé as senhoras da comitiva presidencial. Chama-se Maria Amélia. A gravura é ela a entrar no paquete Príncipe Perfeito. Cortar tudo. Coronel Roma Torres.»

Não fosse alguém suspeitar da existência, em S. Bento, de uma Sala Oval, há ordens claras na morte de Salazar: «Referência à D. Maria de Jesus Freire: não falar em “fiel companheira”. Coroa de flores oferecida por Amália Rodrigues – Cortar a frase “um beijinho”. Coronel Garcia da Silva.»

Ano e meio depois, em 16 de Fevereiro de 1972, o Coronel Saraiva continua zeloso: «Mais uma vez se recomenda que não se pode falar em Irene Vilar a propósito da visita ao Porto do Sr. Presidente do Conselho. A escultora está a fazer-lhe um busto.»

A Censura passara a chamar-se Exame Prévio, mas os métodos não mudaram:
«No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos – vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira.»
«Rapto e agressão a duas jovens. Parece que a polícia já deteve os cinco indivíduos suspeitos. Enquanto não estiverem pronunciados – nada de referir o nome dos criminosos. Também não escrever que se trata de “meninos bem”, pois seria tendencioso. Quanto aos nomes das raparigas violentadas, por enquanto, não os fazer publicar»

E era assim que , nos «bons velhos tempos», em Portugal não havia corruptos, ladrões, suicídios, violações, tensão social, guerra, sequer inundações. Que sonho de país, não é verdade? É, pelo menos, o que pretendem os saudosistas, que não leram os cortes de Censura.

 

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