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As gerações que entraram na sua juventude depois de 1974 não imaginam, por felizmente não poderem imaginar, o que representava viver-se sob controlo policial a vigiar toda a rede de sociabilidade. E já não falo do controlo das opiniões políticas organizadas porque essas, naturalmente, tentavam escapar aos ouvidos da secreta. Refiro-me à opinião solta, ao desabafo, ao comentário, ao protesto espontâneo, ao gosto por isto ou aquilo e à aversão por aqueloutro.

O medo da polícia levava à interiorização de um mecanismo de defesa das emoções, da capacidade crítica e do impulso da opinião. Os portugueses aprenderam e refinaram a arte do cochicho, do subentendido e de se exprimirem através de meias palavras bem medidas. Perderam o prazer da alegria espontânea e substituíram-na pela sublimação da revolta e do desacordo. E do prazer. Temente dos ouvidos perigosos, o nosso povo adoptou uma espécie de misantropia social. Que se exercia sobre os incontinentes compulsivos da revolta pois aquele que manifestava abertamente esta ou aquela opinião era imediatamente suspeito de ser aventureiro, provocador ou bufo. Ainda hoje se notam traços da herança desta forma consolidada de contenção verbal e opinativa.

Como se estruturou este medo colectivo? Primeiro que tudo, através de um aparelho policial que se foi refinando ao longo dos anos. Este núcleo profissional, o corpo da PIDE, era completado por uma enorme rede de bufos (os chamados informadores) que constituíam a essência da rede de controlo da população. Um em cada quatrocentos portugueses recebia pagamento por informações prestadas à PIDE. Outra técnica conseguida pela polícia era a sua infiltração nos diversos organismos e movimentos oposicionistas e nela residiu a principal fonte de eficácia do combate do regime às movimentações antifascistas ou anticolonialistas. Assim, mesmo no seio das organizações mais consequentes e mais defendidas, sabia-se que a confiança não podia ser total porque em todos os segmentos de actividade política, sindical, cultural ou social, havia olhos e ouvidos da secreta.

Numa qualquer actividade não conforme aos desejos dos poderes vigentes, a primeira regra eram os cuidados conspirativos. Necessários mas que, por vezes, levavam a exageros. Lembro-me do Aníbal, colega dos meus tempos de estudante e companheiro das andanças do associativismo a tentar trocar as voltas ao regime. Era gago e o mais exageradamente cuidadoso de todos nós. Vivia em pânico permanente com a vigilância policial. Ele via pides por toda a parte e ao virar de cada esquina. Tinha um permanente olhar fugidio e desconfiado com tudo e com todos. Nas sessões, ficava sempre na última fila e fixava mais a porta que o orador. Nas reuniões, percorria os rostos e as palavras dos intervenientes à procura de uma frase que atraiçoasse o infiltrado. Nas concentrações ou assembleias, cirandava a filtrar rosto a rosto. Raramente emitia opinião clara porque metade das palavras eram contidas pelo receio e a outra metade era comida pela sua gaguez. Aparecia em todas as iniciativas mas era sempre tratado com enfado porque a sua própria figura só trazia falha de ânimo. A maioria evitava o convívio com o Aníbal. Eu era uma das poucas excepções porque me condoía do ostracismo do Aníbal e porque achava que quem mais sofria com a sua paranóia era ele próprio.

Um dia, entro no café habitual onde parava na Rua Buenos Aires e vejo o Aníbal numa mesa do canto a ler um livro. Sento-me à mesa dele e peço um café. O Aníbal balbuciou uma saudação e retomou a leitura. Olho-lhe para o livro e reparo que estava forrado com papel de jornal. Pergunto o que estava a ler. É um livro do Lenine, respondeu-me em voz sumida. A pergunta inevitável saltou-me: – Mas porque é que embrulhaste o livro em papel de jornal?. O Aníbal pousou o livro e esclareceu-me em voz ainda mais sumida: – É para disfarçar... Outros companheiros foram chegando e não houve um sequer que falhasse a querer saber qual o livro embrulhado num jornal que o Aníbal estava a ler. O disfarce era um foco irresistível de todas as curiosidades.

Andei por outros sítios e perdi o rasto ao Aníbal. Vim a saber, mais tarde, que tinha sido completamente marginalizado por causa do rumor que ele era um pide. Provavelmente, a suspeita não tinha fundamento. O Aníbal apenas deve ter sido vítima da sua paranóia do medo dos pides. Tanto receio tinha do fantasma que acabou por ser confundido com ele.

Biografia de João Tunes.

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