shaka1aUm texto de José Pedro Barreto (*)
Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001
 
 
«O nosso grupo foi recebido pelo Rei Shaka de forma amável, mas com a altiva indiferença que se podia esperar do Napoleão da África Oriental, diante do qual toda a gente se prostrava. Dez mil guerreiros, cujas vitórias tinham aniquilado nações, e que tinham cometido nos campos saturados com o sangue dos seus camaradas mortos, ajoelhavam aos seus pés, e as palavras dele eram como o mandato da sua divindade.» 

Feito por um inglês naufragado, este é o relato do primeiro encontro de um europeu com Shaka, rei dos Zulus. Compará-lo com Bonaparte, ou com César ou Alexandre, não é vão: em poucos anos, este homem transformara um povo de pacíficos pastores numa formidável potência militar e conquistara um Império colossal. Fê-lo de forma implacável, com uma visão, uma tenacidade e também uma ferocidade sem limites. 

Como todos os grandes líderes político-militares, o momento histórico em que surgiu explica parte da questão; outra, cabe à psicanálise. Alguns autores menos fascinados pela epopeia acentuam-lhe a crueldade, o sadismo e os traços psicopatas nascidos de uma fixação obsessiva na mãe. É inegável que o ter nascido de um chefe zulu, Senzagakona, e de uma mãe, Nandi, posteriormente repudiada e exilada (diz-se que por excessivo mau feitio) juntamente com o filho, o marcou profundamente. Na infância e adolescência, foi o alvo das troças e remoques dos companheiros, o que lhe acentuou o azedume. 

 Os Zulus eram apenas um clã da grande família dos Angunes, habitando na costa sudoeste da África. Após a morte do pai, Shaka foi adoptado como favorito por Dingiswayo, chefe dos Mtetwa, que o fez seu induna (chefe de guerra). Shaka não descansou enquanto não se apoderou da chefia dos Zulus, a tribo onde nascera mas que o rejeitara. Dominou-a, refê-la política e militarmente e foi submetendo tribo após tribo vizinha. Em 1817, menos de um ano depois, o território dos Zulus tinha quadruplicado. Três anos depois, praticamente toda a África do sudoeste estava em seu poder. A onda zulu provocou migrações maciças de populações: tribos houve que fugiram até ao lago Tanganica, três mil quilómetros a Norte. Um quinto da população do continente foi, de uma forma ou de outra, afectada e comunidades inteiras desapareceram ou desarticularam-se por completo. A razão deste efeito devastador foi a profunda mudança trazida por Shaka ao modo e ao próprio conceito de guerra dos Angunes. Tradicionalmente, entre pastores, esta era excepcional e altamente ritualizada: começava por uma troca de insultos, era travada com armas de arremesso – lanças e setas de madeira endurecida ao fogo –  e terminava com as primeiras baixas. Quando um guerreiro matava um inimigo, era obrigado a sair do campo para se purificar, já que o espírito do morto podia vir atormentá-lo, e à família. A sorte do vencido era a emigração para outras paragens. 

Acabando com tudo isso, Shaka constituiu batalhões selvaticamente disciplinados e treinados para batalhas de aniquilação total. Consagrando o fim das velhas restrições, equipou-os com uma nova arma, a «assegai» – uma lança curta, com lâmina de ferro, destinada não a ser arremessada mas a golpear no corpo-a-corpo. A «azagaia» tornar-se-ia uma das imagens de marca do guerreiro zulu, e centenas de milhares de pessoas haveriam de tombar vítimas deste perverso picador de carne.

O combate próximo exige tácticas próprias, embora todas elas nasçam do mesmo conceito eterno e universal: iludir o adversário e apanhá-lo numa ratoeira. Para aplicar a sua variante, Shaka formou os regimentos (mangas) em duas alas com um centro reforçado: os «cornos do búfalo». Enquanto o centro carregava em massas densas para fixar o inimigo, as alas corriam velozmente para o envolver: uma manobra altamente letal que terminava invariavelmente num massacre. O ritual de purificação só acontecia no fim da batalha, com cada guerreiro esventrando quantos inimigos pudesse para que os espíritos deste não o enlouquecessem. A matança estendia-se muitas vezes às mulheres e crianças dos vencidos. O imperialismo zulu foi obra de uma sociedade militarizada e moldada à imagem das ambições e fantasmas do seu criador. Cortando com os métodos de recrutamento habituais, , Shaka formou regimentos inteiros de homens da mesma idade, a quem proibia o casamento até aos quarenta anos (também criou unidades exclusivamente femininas). Ele próprio nunca casou, e raramente consumava um acto sexual), mandando matar todas as concubinas que engravidassem. Tinha cóleras profundas e violentas aversões em relação a casais que demonstrassem o seu amor um elo outro.

Em 1827, a morte da mãe lançou-o num profundo desequilíbrio emocional atingindo paroxismos de violência. Ansiosos por comungarem do luto do soberano, os que o cercavam ampliaram uma verdadeira histeria colectiva que por todo o reino vitimou, aos milhares, todos os que não aparentassem dor semelhante. Então, o consumo de leite, o cultivo dos campos e as próprias relações sexuais foram proibidas durante um ano, sendo morto todo aquele cuja mulher engravidasse. Ao fim de três meses, acedeu ao rogo dos indunas para levantar os interditos. Mas manteve o terceiro.

Foi assassinado no ano seguinte pelos dois irmãos, que se fizeram eco da saturação popular. Cego pelo seu próprio poder, enviara o grosso das tropas numa grande campanha contra os Sochangane, ficando desprotegido.

Freud explica? Talvez. Mas a epopeia de Shaka Zulu nasce também de um ponto de desequilíbrio eco-social, quando a gradual usura dos campos levou a que amáveis pastores se transformassem de repente em guerreiros impiedosos corrigindo, pela violência tornada ilimitada, os excessos populacionais. Do contacto com os brancos da colónia do Cabo terão vido as técnicas de trabalhar o ferro para as «assegai», uma inovação tecnológica que afectou profundamente os equilíbrios militares. Tudo isto fornece um dos grande case study sobre a génese e os efeitos das guerras entre os homens. O Império zulu haveria de padecer das entropias de todos os Estados construídos em torno de um Exército, incapazes de se diversificar económica e socialmente.

Fossilizados nas suas formas de combate, os zulus falharam a mutação tecnológica seguinte, e nunca se adaptaram às armas de fogo, que chegaram a adquirir com fartura. E apesar da brava luta que deram, a friagem moral dos «assegai» sucumbiria perante o armamento moderno dos exércitos coloniais europeus. Mas esse já não foi o assunto de Shaka, a quem o facto de ser um psicopata sanguinário não impediu de ter sido, também, um dos maiores génios político-militares de sempre.

 

 
(*) Biografia de José Pedro Barreto

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