cnl243
   Conceição Neuparth (Centro de Documentação 25 Abril) 

Neste novo post da série ABRIL [clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior], abordo as leituras «descontinuistas» do fenómeno revolucionário. Isto é, as que o consideram como ruptura ou corte abrupto com uma realidade conhecida e instauração de uma radicalmente nova. Na convicção de que só o cruzamento de vários olhares – da historiografia aos media – nos aproximará do que insistimos em chamar revolução.

 
Apesar das distâncias óbvias, que não é de mais assinalar, podemos dizer que à semelhança de Tocqueville, também Michelet tem entre nós os seus «discípulos», na forma como encaram o fenómeno revolucionário. 

Curiosamente não foram historiadores, pois faltou à revolução de 74 o seu Fernão Lopes, como sugere Medeiros Ferreira, quando no prefácio ao seu Portugal em Transe afirma. «Custou ainda ao autor não ter recriado, pela narração, o clima emocional de certos momentos, nomeadamente o desencadeado pelas grandes manifestações que ocuparam praças e ruas de Portugal entre 1974 e 1975. E, no entanto, Fernão Lopes esteve sempre presente como um paradigma literário soterrado pela moderna forma de escrever história como se esta fosse objecto de relatório administrativo».

Esta operação de resgate de tudo o que jaz soterrado por uma certa forma de escrever (e fazer) a história, ao mesmo tempo que traduz o inegável fascínio por uma narrativa que devolva à história a sua vocação primordial, significa a busca por uma forma que melhor sirva a natureza específica do terramoto revolucionário, entendido como invulgar sucessão de acontecimentos violentos, geradores da máxima concentração de emoções no mais curto espaço de tempo. O que significa que o historiador que queira separar o inseparável, ou seja, as emoções, as paixões (e até as próprias ilusões) dos acontecimentos, corre o risco de deixar de fora o próprio acontecimento. 

Reagindo à tendência dominante entre os seus pares, de se descartarem das emoções, sinónimo de irracionalidade que obscurece e contamina a clareza dos conceitos, Medeiros Ferreira avança, cautelosa mas decididamente: «O 25 de Abril desencadeou profundas alterações nos valores e na vida social nacional. Ele marcou uma era, tantas são as ocasiões em que é tomado como referência: Antes do 25 de Abril… só com o 25 de Abril… depois do 25 de Abril… são expressões coloquiais quotidianas que se impuseram nos últimos 20 anos. A data de 25 de Abril de 1974 marca, pois, o séc. XX e divide a sociedade em antes e depois. Será isso uma revolução? É certamente uma era». 

Falando de revolução ou era, o certo é que nos encontramos perante o apaixonante desafio de penetrar nesse vazio conceptual e histórico, nessa suspensão do tempo, nesse rasgão do tecido social, ruptura com o conhecido e origem de algo radicalmente novo que foi o 25 de Abril.

Nesse desafio, os nossos Michelets foram sobretudo os poetas e os escritores que, a quente, nos deram impressivos relatos daqueles dias de brasa, fazendo o que só a literatura sabe fazer: a aproximação do acontecimento pelo seu lado interno, mais íntimo e directo, mas também mais fragmentado e caótico. Sem leituras retrospectivas ou prospectivas, que ensombram como duas transcendências a intensa luminosidade do presente, esta é-nos restituída num grau de pureza extremo.

Esta a razão da grande popularidade das memórias, testemunhos, biografias, que a experiência revolucionária tem inspirado e que, num outro registo (diferente mas não oposto ao da ficção) possibilitam uma outra história, feita de ambientes, sociabilidades, formas de pensar, valores e sensibilidades. Enfim, uma impressão de vida extremamente sedutora e útil.

Em paralelo, os media reflectem e alimentam esse genuíno interesse, muitas vezes, é certo, com preguiçosa insistência em formatos testados e de sucesso garantido. É o caso das repetidas e redutoras leituras da revolução como momento acima de tudo lúdico, ou mesmo folclórico, consagrado pelo estafado «Onde é que tu estavas no 25 de Abril?»

A festa, que não deixa de ser uma componente essencial do fenómeno revolucionário, assume aqui uma centralidade exclusiva que empobrece e compromete a compreensão dos graus de intensidade até ao paroxismo, com que se viveram aqueles tempos de exaltação e de vertigem, mas também de perturbação e de angústia, porque neles se jogou a própria vida. Ora essa experiência-limite não se recupera através de uma vaga nostalgia, que de tão vaga, acaba na pragmática validação da máxima «Quem aos 20 anos não é marxista é porque não tem coração. Quem aos 40 ainda o é, é porque não tem juízo!».

Falemos então da idade sem juízo (se quisermos da idade da inocência) das suas aventuras e peripécias, curiosidades mais ou menos «saborosas» pelo seu ineditismo, bizarria e excentricidade. Mas não encerremos a revolução nessa espécie de álbum de família que folheamos com a terna bonomia com que olhamos os inevitáveis excessos da juventude.

Sendo certo que os excessos (de jovens e menos jovens) não são estranhos à revolução, o que mais perturba é que, regra geral, são os mais eufóricos de ontem, os mais resignados e desencantados de hoje, os mais apressados a situar a revolução numa espécie de lugar exótico, limitando-se a exclamar: «eu estive lá!».

Paradoxalmente, esta leitura de dentro, sob a capa da aproximação vivencial e afectiva, acaba por instaurar um grau de estranheza e distanciação semelhante às leituras exteriores de que falámos a propósito das versões continuistas. O que parece estar próximo, está afinal suspenso num tempo e lugar longínquos, estranhos, irrecuperáveis. O passado visto como reserva arqueológica, habitada por gestos, palavras e sons anacrónicos e definitivamente arquivados.

Perguntar «Onde é que tu estavas no 25 de Abril?» tem de ter outro sentido.

(continua)

Anúncios